jazz.pt | Ambrose Akinmusire: Prelude

3 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
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Prelude, Ambrose Akinmusire

Prelude, de Ambrose Akinmusire

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

Os “sons frescos” a que esta editora se dedica são já reconhecíveis. E este “Prelude”, de Ambrose Akinmusire, encaixa no catálogo sem grande surpresa.
A escrita de Ambrose Akinmusire é a dum jazz contemporâneo, inteligente e articulado: consciente das raízes, da necessidade de expôr formas mais elaboradas, da inevitável miscigenação da linguagem estritamente jazzística com outras expressões, umas mais eruditas, outras mais populares, mas sem a urgência de confrontar ou incomodar o ouvinte com experiências fracturantes: “apiration to evolution and beauty” (aspiração à evolução e beleza) é o mote deste jovem, mas já notável músico, que, recém-licenciado, ganhou em 2007 o Concurso Internacional Carmine Caruso para Solo de Trompete Jazz e o Concurso Internacional de Jazz Thelonious Monk.
“Prelude” é, assim, mais um disco dum jazz inteligente, urbano e contemporâneo, quase tão bem escrito como executado, por um ensemble vasto e diverso, que oferece ao disco uma rica paleta tímbrica. A riqueza dos temas não sobrecarrega os intérpretes com a responsabilidade individual de elevarem a experiência a um outro nível, solísticamente. Trata-se, nesse sentido, pela forma e pelos arranjos, de mais um exemplo de como o jazz pode ser um verdadeiro trabalho de equipa, sem hierarquias artificiais ou dependente de fortes personalidades.
Não quer isso dizer que o trabalho individual dos intérpretes não seja relevante. Pelo contrário: a capacidade técnica e expressiva de cada um dos envolvidos é o que garante a coesão do trabalho, o som distinto do ensemble e a realização completa do potencial da música escrita por Ambrose Akinmusire.

Evolução e Beleza são, de facto, boas palavras-chave para a catalogação deste “Prelude”.

Prelude, de Ambrose Akinmusire
Ed. Fresh Sound Records
Nova Iorque, EUA, 2008

Intérpretes: Ambrose Akinmusire (Trompete), Aaron Parks (Piano), Joe Sanders (Contrabaixo), Justin Brown (Bateria), Chris Dingman (Vibrafone), Walter Smith III (Sax Tenor)
Convidados: Junko Watanabe (Voz), Logan Richardson (Sax Alto)

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jazz.pt | David S. Ware: Shakti

2 de Julho, 2009
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SHAKTI, David S. Ware

SHAKTI, de David S. Ware

CLASSIFICAÇÃO: 3/5

Em SHAKTI, o quarteto dirigido pelo saxofonista David S. Ware explora o rico filão dos cruzamentos e ligações entre o Jazz e as suas raízes negras, com as ricas tradições indianas. Há uma aproximação mais evidente ao carácter repetitivo e hipnótico dos mantras e drones do que ao microtonalismo ou à complexidade rítmica das estruturas tradicionais indianas, mas parece estar também mais em causa um certo tipo de ligação à transcendência do que uma abordagem especificamente musical. Os temas são elementares e extremamente abertos, proporcionando amplos espaços discursivos para os solos, sobre uma textura rítmica normalmente bastante activa, com Warren Smith a pontuar extensivamente todos os solos e William Parker a manter rápidas linhas no contrabaixo, sem que se afirme nem um contorno harmónico, nem uma pulsação regular. A partir destes temas simples, mas com um forte pendor lírico-espiritual, os solos de David S. Ware desenvolvem-se com níveis de energia notáveis e uma força genuína no que é dito e como é dito, resultando esses momentos em fortes experiências, também pela relação estabelecida com a secção rítmica e parece evidente e, quiçá, intencional a forte dicotomia entre o discurso de Ware no saxofone tenor e o de Joe Morris, na guitarra. Especialmente ao nível da qualidade do som, a limpeza quase cristalina de Morris, parece querer salientar a “crueza” orgânica do som de Ware. Intencionais ou não, estas variações na “intensidade” do discurso apresentam-se como cortes ineficazes na fruição do disco, talvez por não serem acompanhadas por mudanças estratégicas pela secção rítmica que quando é chamada a solar se parece aproximar da abordagem mais visceral de Ware. Paralelamente, em alguns dos momentos de uníssono com Ware e Morris, as frases mais angulares parecem mais ajustadas ao rigor do guitarrista do que à interpretação mais livre e apaixonada de Ware e, também nesses momentos o dualismo é sentido com estranheza.
Globalmente, destacam-se variadíssimos momentos de grande intensidade musical e expressiva, mas periodicamente somos confrontados com estes outros momentos estranhos, cuja presença pode perfeitamente ser intencional, ainda que misteriosa e discutível na concretização.

SHAKTI, de David S. Ware
Edição AUM Fidelity
Nova Iorque, EUA, 2008

Intérpretes: David S. Ware (Sax Tenor e Kalimba), Joe Morris (Guitarra e Percussões), William Parker (Contrabaixo), Warren Smith (Bateria)

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jazz.pt | Denman Maroney Quintet: Udentity

1 de Julho, 2009
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Udentity, do Denman Maroney Quintet

Udentity, Denman Maroney Quintet

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

O conceito de hiperpiano que Denman Maroney desenvolve e usa é uma forma de extensão do piano tradicional, com recurso a algumas das técnicas de piano preparado desenvolvidas por Jonh Cage, por exemplo, mas também a técnicas de expansão da prática instrumental por manipulação directa das cordas ou da caixa de ressonância, que resultam numa expansão real do timbre do instrumento, com a flexibilidade acrescida das alterações serem provisórias e móveis e da sua manipulação obedecer a critérios musicais explícitos e controlados em tempo real, como parte da interpretação. O potencial deste “instrumento” que é, no fundo, uma “forma de tocar” um dos mais emblemáticos instrumentos da música ocidental é, em si mesmo, aliciante suficiente para muitos ouvintes. Mas, felizmente, “Udentity” não é apenas uma demonstração das potencialidades do “hiperpiano” do seu autor. Pelo contrário: a utilização da diversidade tímbrica do hiperpiano, associada aos restantes instrumentistas, cada um deles capaz de tocar o(s) seu(s) instrumento(s) pelo menos nas fronteiras do possível, é estritamente marcada por intenções musicais consequentes, numa articulação colaborada e reactiva de todos os membros do ensemble. A sonoridade global e individual é, por isso mesmo, universal e identitária, como o título do álbum sugere e as composições sucedem-se, numa exploração bem articulada de ideias musicais onde o timbre e a sua manipulação assumem um papel que, sem se sobrepôr ou substituir outros parâmetros musicais, enriquece o discurso.
O trabalho de Denman Maroney como compositor, intérprete e líder do quinteto é notável: não só se faz rodear de alguns dos mais criativos instrumentistas, capazes, cada um deles, de encontrar os seus “hiper-instrumentos”, como cria as estruturas e contextos para que a obra não seja sobre esse tipo de virtuosismo, mas o use com fins musicais estritos, realizando esse compromisso aparentemente impossível entre exploração sónica/organológica e criação de música para o comum dos mortais.

Udentity, pelo Denman Maroney Quintet
Edição Clean Feed
Nova Iorque, EUA, 2008 (lançado em 2009)

Intérpretes: Ned Rothenberg (Sax Alto, Clarinete e Clarinete Baixo), Dave Ballou (Trompete), Denman Maroney (Hiperpiano), Reuben Radding (Contrabaixo) e Michael Sarin (Bateria)

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Carlos Zíngaro + Mental Liberation Ensemble

1 de Julho, 2009

Na inauguração de A Mula Ruge no Espaço Campanhã, que acontece no dia 4 de Julho, próximo sábado, vamos ter um concerto do Mental Liberation Ensemble com Carlos Zíngaro. É às 18h00 e promete!

Cartaz de A Mula RugeA MULA RUGE
no Espaço Campanhã
de 4 a 25 de Julho de 2009

A Mula Ruge é uma espécie de infantário, onde podem vislumbrar essa maldita e mutante prole de tantos anos de rambóia. É também uma espécie de orgia, pois poderemos ver in actu as trampolinices da Mula com seus novos namorados (alguns deles com idade para ter juízo, mas que ainda revelam ter pêlo na venta). E ainda uma espécie de casamento de aldeia, já que convidaram todos os compadres e comadres para um pé de dança, comezaina e outras vilanias.
Pedro Moura

Exposição colectiva com Miguel Carneiro, Marco Mendes, Arlindo Silva, Filipe Abranches, João Maio Pinto, André Lemos, Berto Fojo, Likenico, Pelucas, Von Calhau, José Feitor, Júcifer, Lígia Paz, Raygal, Mauro Cerqueira, Mike Goes West, Nuno de Sousa, Carlos Pinheiro e Carlos Zíngaro.

(cartaz de Miguel Carneiro & João Marrucho)

Dia 4 de Julho:

  • 15h
    Inauguração da Exposição Colectiva e Feira Laica
    Lançamento da Qu’Inferno
  • 18h
    Concerto Mental Liberation Ensemble & Carlos Zíngaro

O Mental Liberation Ensemble é uma formação cujos membros provêm de áreas musicais que vão do death-metal ao free jazz, colaborando regularmente em vários projectos (F.R.I.C.S., Mécanosphère, Srosh, Lost Gorbachevs, entre outros), e que se juntam como Mental Liberation Ensemble quando surge a oportunidade de acolher um músico convidado.

Para o concerto a formação será constituída por:

João Martins - saxofones
Henrique Fernandes - contrabaixo eléctrico
Gustavo Costa - bateria e percussões várias
João Filipe - percussões
Filipe Silva - electrónica, guitarra
Jonathan Saldanha - electrónica e outros instrumentos

A estes músicos irá juntar-se o convidado Carlos Zíngaro (violino).

  • 20h
    Mega Churrasco Dançante com DJ GoldenShower

Dia 25 de Julho:

  • 18h
    Concerto João Peludo

Cartaz Feira laica

(Cartaz Von Calhau)

Mais informação:

  • Miguel Pinho (responsável pelo espaço) Tel: 912897580 / linha1@plataformacampanha.com
  • José Maia (responsável pelo programa de exposições) Tel: 933288141

Contactos:
Espaço Campanhã
Rua Pinto Bessa 122 - Armazém 4 e Armazém 21 (atrás do BANIF)
4300-472 Porto
Tel. 912897580 | linha1@plataformacampanha.com | www.plataformacampanha.com

jazz.pt | Wayne Shorter Quartet

1 de Julho, 2009
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Wayne Shorter Quartet

Sala Suggia, Casa da Música, Porto | 11 de Março de 2009

Wayne Shorter (Sax Tenor e Soprano), Danilo Perez (Piano), John Patitucci (Contrabaixo), Brian Blade (Bateria)

A actual fase da carreira de Wayne Shorter, com o regresso à forma do quarteto acústico e com os cúmplices de elevadíssimo nível que escolheu para o acompanharem, é marcada, claramente pela afirmação do próprio Shorter que diz “com a idade que tenho, não tenho nada a perder“. Não é claramente por uma questão de idade, mas sim pela vastíssima experiência e pela quantidade de distinções e reconhecimento generalizado da sua importância na história do jazz que Shorter se encontra num patamar em que, não tendo nada a provar, pode assumir um caminho de risco que, nem sempre trilhou com o mesmo à vontade. Tendo ao seu lado músicos com tanta qualidade e mérito reconhecido nas várias áreas musicais em que se movem, o quarteto cumpre essa condição de se poder apresentar sem medos, sem sentimentos de cumprimento obrigatório destas ou daquelas expectativas. Apresentam-se com e pela música, conscientes de que o caminho que percorrerem, seja ele qual for, está de tal forma bem alicerçado na extraordinária capacidade técnica individual e na vastidão do repertório que se dedicam a desconstruir, que a viagem os levará sempre a bom porto, ainda que desconhecido.
De facto, a estratégia empregue pelo quarteto para o set contínuo de quase 1 hora com que brindou a vasta audiência que se dirigiu à Sala Suggia, consitiu na exploração sucessiva de frases e/ou temas, uns mais reconhecíveis do que outros, das várias fases da ecléctica carreira de Shorter. Num fluxo constante de ideias musicais partilhadas, apontamentos pontuais, ora de Shorter, ora de Danilo Perez, ora de Patitucci, realimentavam os ouvidos do público com material familiar e, quase sempre rapidamente, iniciava-se um processo de desmembramento ou escalpelização, passando pelas várias estratégias instrumentais disponíveis. A formação clássica erudita de Danilo Perez e John Patitucci, revelaram “cadenzas” escondidas, encaixadas nas formas mais ou menos jazzísticas ou mais pop(ulares); o virtuosismo técnico de Brian Blade, oferece ao quarteto, a bateria como instrumento solista, livre das hierarquias tradicionais e a veia de Wayne Shorter, que “aqueceu” com o decorrer do concerto, navegava sobre todo o material.
Mas mais do que a capacidade interpretativa ou técnica, o quarteto demonstrou uma imensa capacidade auditiva e colaborativa, trabalhando de forma notável as trocas de material, os processos de pergunta-resposta e mantendo, apesar da inexistência duma base rítmica ou harmónica convencional, uma coesão estrutural assinalável ao longo do (longo) set.
A execução do exercício proposto só aparece prejudicado pela fraca qualidade da amplificação utilizada neste formato acústico, onde a excessiva amplificação do piano de Danilo Perez, cria uma base dinâmica muito comprimida e retira ao quarteto algum do seu potencial expressivo.

O público menos adepto da estratégia inicial terá sido amplamente recompensado pelos 3 encores, onde o quarteto (a)cedeu à apresentação mais convencional de cada tema, com Brian Blade e John Patitucci a assumirem de forma mais clara a posição de secção rítmica e Wayne Shorter a ter mais espaço para “solar”, quer no soprano, quer no tenor.

Para um quarteto que subia ao palco sem nada a perder e se lançou convictamente numa exploração partilhada, podemos dizer que, com os encores, o concerto é uma aposta completamente ganha.

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Tecer Devagar

16 de Junho, 2009

No próximo dia 20 de Junho, sábado, vou participar no Tecer Devagar, uma mostra organizada pelas Aldeias do Xisto na LX Factory, mais concretamente, no espaço da Ler Devagar. A minha participação relaciona-se directamente com a exposição Tapetes Mágicos, que resulta da parceria entre o designer Bruno Carvalho e as tecedeiras da Flor do Linho, em Boga do Meio: vou fazer um concerto de Contratear, que será o primeiro passo visível dum processo que levará à construção dum novo instrumento híbrido, resultante da colaboração com as tecedeiras de Boga do Meio e de Janeiro de Cima, com quem estou a aprender muito sobre teares e que me estão a ajudar a ter ideias interessantes, nestes dois dias em que estou em residência, aqui, por terras do Fundão.

Quem não conhece o Contratear achará isto tudo muito estranho, por isso, republica-se aqui uma amostra deste instrumento que concebi em 2005:

Com esta residência, que serve também para a recolha de sons e imagens que usarei neste concerto na LX Factory, inicia-se um processo de colaboração com A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes, através do qual será criado um novo instrumento/dispositivo de maiores dimensões e complexidade e que explorará de forma mais aprofundada as potencialidades destes engenhos têxteis como dispositivos sonoros.

O concerto, às 22h00, no dia 20 de Junho, sábado, na Ler Devagar (LX Factory) é uma co-produção Miguel Rainha / Granular.

Apareçam!

jazz.pt | Jazz Ao Norte, uma pedrada no charco

10 de Junho, 2009
Texto escrito por João Martins.
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Jazz ao Norte: Pedrada no Charco

Não é apenas mais uma escola de Jazz. O modelo de exigência e rigor que todos os dias esta instituição do Porto aplica tem como sério objectivo a profissionalização dos músicos de Jazz que dela saírem e apresenta-se como um claro convite à replicação por todo o país.

Lançada em 2006, a Jazz ao Norte assume-se como uma “pedrada no charco” no panorama do ensino do Jazz em Portugal, e pode mesmo dizer-se, no ensino privado da música. Ao contrário de muitos outros projectos, construídos à volta de uma personalidade- músico, pedagogo ou divulgador- ou resultado da evolução orgânica e intuitiva de estruturas pré-existentes (academias de música, escolas de bandas, órfeãos ou outro tipo de associações), esta instituição logo desde o início com objectivos muito claros, usando metodologias claramente relacionadas com a prática profissional como engenheiro do seu fundador e director, Pedro Ferreira. Ao pensar neste projecto, e ao definir objectivos, se foi também a sua costela musical a impeli-lo nesta mudança de percurso (Pedro Ferreira toca saxofone tenor e sempre esteve ligado ao mundo do jazz), foi claramente a sua experiência de planificação e gestão na área da engenharia que conduziu o processo sistemático e rigoroso de definir um modelo de escola profissional que pudesse implementar no nosso panorama experiências de formação certificada e certificável, à semelhança do que se verifica em outros países.
Não há, por isso, espaço para grandes devaneios líricos quando se fala da história da Jazz ao Norte: em 2006, a visão, missão e objectivos definidos no projecto, incluíam a certificação do Curso Profissional que a escola ministra (processo concluído recentemente), a definição clara de estruturas programáticas que permitissem a construção de um percurso estruturado e organizado, rejeitando-se, por sistema, processos pedagógicos individualizados e subjectivos e exigindo-se planificações muito claras aos docentes. A Jazz ao Norte assumia-se já como uma escola dedicada à formação profissional de instrumentistas de jazz, organizando a sua oferta formativa em função da construção de um perfil profissional, comum a outras experiências internacionais (os exemplos norte-americanos, holandeses, franceses ou belgas são recorrentes na conversa que tivemos com Pedro Ferreira), mas que em Portugal se tem evitado, devido à pouca dignificação das profissões ligadas à arte e à criação.
O grau fornecido pela Jazz ao Norte, no fim do seu exigente Curso Profissional de 3 anos, pretende ser, tal como formalizado pelo próprio processo de reconhecimento e acreditação pela Direcção Geral de Emprego e Relações de Trabalho (antigo IQF), um grau profissional, correspondente à formação teórico-prática necessária para um instrumentista de jazz. E, com a conclusão do 4º ano (Curso Propedêutico), considera-se que o aluno está preparado para a prossecução de estudos superiores.
A conversa mantida com Pedro Ferreira tornou evidente que este tipo de aposta estruturada na formação de tipo básico e profissional era o que se esperava dos poderes públicos, num esforço articulado e prévio visando a criação de cursos superiores nesta área. «Em Portugal, gostamos de estar sempre “à frente”, mas esquecemo-nos muitas vezes de fazer os investimentos mais básicos. E isto é verdade no ensino do jazz, mas também na programação dos festivais, por exemplo», disse aquele responsável à jazz.pt. A aposta da Jazz ao Norte é, por isso, uma aposta também na formação básica de públicos e promotores/programadores, dirigindo-se, de forma generalizada à enorme lacuna de formação existente: disciplinas opcionais, das quais se destacam a História do Jazz (dada por José Duarte), os Cursos Livres, frequentáveis exclusivamente na vertente instrumento, mas que podem incluir cadeiras teóricas e/ou Classe de Conjunto, complementam a oferta estruturada dos cursos Profissional e Propedêutico, oferecendo aos mais interessados, a possibilidade de aumentarem os seus conhecimentos musicais.
O Curso Infantil (dos 3 aos 10 anos) assume-se como uma oferta de formação musical e cívica e o resto das actividades promovidas pela empresa (dos “workshops” às lojas, passando pelo agenciamento ou programação de concertos no Auditório José Duarte - Clube Jazz ao Norte) constitui um todo que pretende fortalecer o significado e importância da música em geral e do jazz em particular na saúde cultural da comunidade e propagar uma visão profissionalizada do fenómeno da produção musical jazzística.
Para implementar um projecto tão audacioso e distinto, a Jazz ao Norte apostou em não “reinventar a roda”: recrutou docentes com extensos currículos e formação no estrangeiro que partilham desta visão estruturada e profissional, pedindo a cada um deles a elaboração de planos pedagógicos completos para o Curso Profissional e Propedêutico. As diferentes propostas, resultado das experiências de docentes que passaram por instituições como o Conservatório de Música de Amesterdão ou de Paris ou o Berklee College of Music, foram depois analisadas e reorganizadas por forma a assegurar coesão horizontal (entre disciplinas) e vertical (ao longo dos anos) num trabalho que cabe ao director pedagógico, Hélder Martins, prestigiado académico e autor de “O Jazz em Portugal (1920-1956)”.
O modelo não é pacífico, como o próprio Pedro Ferreira admite, repetindo várias vezes «a malta do Jazz mata-me por dizer isto», mas a lógica é praticamente inabalável e a honestidade da proposta inquestionável: a quantidade de informação colocada à disposição dos potenciais alunos e a clareza das regras para todos (modelos e momentos de avaliação dos alunos e processo de recrutamento dos docentes) são filtros suficientes para garantir a construção saudável de uma comunidade coesa. A apresentação pública, estruturada e regular dos resultados, por outro lado, permite a verificação do cumprimento dos objectivos da escola. E, como pudemos comprovar na Audição da Páscoa, é um momento de consolidação da comunidade educativa mais alargada (professores, alunos, pais e amigos). Esses resultados são, em alguns casos, bastante significativos e animadores.
Mas o projecto não se deixa iludir: «não existem sucessos imediatos», considera Pedro Ferreira. E não perde a perspectiva da sua real dimensão, apesar do significativo investimento nas excelentes instalações e no quadro docente, poder “autorizar” algum entusiasmo. Ferreira assume não só que em menos de 10 anos será difícil avaliar a real eficácia das opções tomadas, como duvida do impacto isolado da Jazz ao Norte, desejando, pelo contrário, que o modelo se possa replicar e distribuir um pouco por todo o país. Também nesse asecto, a mentalidade de rigor e exigência se faz sentir.

+ info: www.jazzaonorte.com

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Apelo ao voto

5 de Junho, 2009

O voto é uma coisa importante. A participação nas eleições democráticas, em todas e de todos os tipos é uma coisa importante. Não é nem o princípio nem o fim da democracia e não podemos admitir que a intervenção democrática se esgote na cruz que desenhamos (ou não) num boletim de voto e colocamos numa urna. Não podemos admitir que a democracia seja uma realidade discreta e temos que nos empenhar na generalização, na sustentabilidade e continuidade dos esforços de intervenção cívica e política, mas não podemos ignorar a importância do acto eleitoral como momento singular de avaliação da saúde dum estado democrático.

Por isso, é importante votar. E é particularmente importante votar em consciência, sempre que possível, garantindo que o voto expresso é um mecanismo de legitimação real dos eleitos. Por isso é que, salvo situações excepcionais, como algumas eleições presidenciais e/ou processos eleitorais desesperantes, determinantes e fracturantes, não sou adepto da ideia do “voto de protesto”, já que esse voto, que eventualmente desvia eleitores das ideias e propostas que considera importantes, por falta de confiança nos seus protagonistas, não atribui legitimidade real aos outros candidatos em que confiará mais (pelo menos o seu protesto), ainda que não concorde com as suas ideias e projectos. Acho que em democracia, e em situações normais, a expressão do apoio popular em votos nos partidos deve corresponder a uma adesão significativa desses eleitores aos programas e à confiança depositada nos seus protagonistas. Alternativamente, há o voto branco e o voto nulo, que são também formas legítimas de relacionamento com o processo democrático.

É, também, por demais evidente que a adesão completa às propostas deste ou daquele partido, ou uma confiança cega neste ou naquele candidato é um perigoso exercício de ingenuidade, que não aconselho a ninguém. A democracia é um processo que, ao envolver pessoas maduras e conscientes, pressupõe compromissos, cedências, relativizações e avaliações subjectivas das prioridades de cada um.

Votar é importante também porque é suposto que não seja fácil. Não deveria ser fácil para quem promove as suas ideias, apelando ao voto, nem deveria ser fácil para quem toma a decisão de legitimar este ou aquele candidato. O funcionamento actual das campanhas eleitorais e a forma como a comunicação social gere estes processos (de facto), contribui de forma mais ou menos contínua para esta ideia de que há as pessoas que votam e as pessoas que não votam: quem vota já sabe em quem votar, seja por ser eleitor fiel, seja por fazer parte dos pendulares costumeiros e vê-se reduzido a uma estatística qualquer; quem não vota é tratado como indiferente ou alienado, com culpas repartidas entre o sistema partidário e a apatia generalizada e também passa a ser apenas valor estatístico.

Ficamo-nos, por estas alturas, quase sempre a chapinhar na espuma dos acontecimentos e isso parece interessar à maior parte dos intervenientes destes processos, desde políticos a jornalistas e comentadores.

Amanhã, é dia de reflexão. Não se saberá bem sobre o que é que as pessoas irão reflectr, já que, em boa verdade, não se lhes ofereceu nada de significativo ou profundo sobre o qual valesse a pena esse exercício.

Eu, pessoalmente, vou votar no Bloco de Esquerda. Digo-o por razões óbvias de honestidade e porque o meu voto será, ao contrário de muitos votos que o Bloco terá, um voto de adesão às ideias propostas e de confiança nos protagonistas. Adesão crítica e confiança não ilimitada, obviamente. Um voto adulto, validamente expresso e que legitima, simultaneamente, os eleitos e a minha posição como eleitor responsável.

Espero, sinceramente, que um conjunto vasto de eleitores, dos vários quadrantes politicos, tenha atitude semelhante, no domingo.

Dia Mundial da Criança

1 de Junho, 2009

A Maria a navegar pelo alfabeto

As crianças, entre muitas coisas notáveis, ensinam-nos tudo outra vez, desde que nós queiramos aprender.

jazz.pt | Quad Quartet: Now Boarding

1 de Junho, 2009
Texto escrito por João Martins, a 01/04/2009.
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Quad Quartet: Afirmação de Identidade

É um quarteto de saxofones e tem matriz na música erudita, mas a sua estreia em disco (com edição de autor, o que denuncia a urgência de mostrar o seu trabalho) utiliza temas de Jazz de Carlos Azevedo e Mário Laginha. Uma óptima surpresa!

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

Capa do CD Now Boarding do Quad Quartet

Como edição de estreia, “Now Boarding” é um projecto surpreendente. E, se pensarmos que se trata duma edição de autor, mais surpreendente se torna: o rigor e exigência que se sente em cada aspecto desta edição é, francamente, acima da média: desde a escolha do repertório, à sua apresentação no suporte final, passando pela qualidade da gravação e produção, “Now Boarding” é o reflexo duma estrutura profissional e empenhada na concretização dum projecto musical completo.
Se o saxofone é um instrumento peculiar no lugar que ocupa como ponte entre as músicas eruditas e populares (por ser um instrumento recente, a sua adopção no universo da música erudita deve-se, em grande parte, ao seu sucesso como instrumento no jazz ou nas bandas filarmónicas), um quarteto de saxofones é um agrupamento paradoxal, já que se trata da configuração paradigmática da música de câmara erudita, construído à semelhança do quarteto de cordas. Por isso mesmo, é no espaço do quarteto que a maioria dos saxofonistas de formação clássica se formam enquanto músicos, onde a diversidade e profundidade do repertório original e adaptado permite uma formação abrangente a a maturação musical. Mas, também por isso, apesar da quantidade de quartetos existentes, a afirmação de identidades de tipo “autoral”, duma “voz”, se quisermos, torna-se particularmente difícil. No caso do Quad Quartet, essa identidade constrói-se de duas formas: através da escolha criteriosa do repertório e do seu encadeamento consequente e através dum processo de descodificação técnica da obra que assenta acima de tudo em soluções musicais.
“Now Boarding” é um momento claro de afirmação dessa identidade: o repertório escolhido une compositores portugueses e holandeses, numa ponte entre o país de origem destes saxofonistas e o país onde construíram parte da sua formação. Mas o que une os membros deste quarteto a Luís Tinoco, Carlos Guedes e Mário Laginha, os compositores portugueses, ou a Chiel Meijering, o compositor holandês, não são só coincidências geográficas: a este quarteto de saxofonistas de formação clássica interessa uma música que seja contemporânea e “familiar”, uma música feita agora e que, ao reflectir de diferentes formas a realidade quotidiana, se aproxime das pessoas. Para lá de géneros musicais ou convenções e sem preconceitos. Ao intercalar as peças histriónicas de Chiel Meijering, onde o caos das paisagens urbanas contemporâneas se traduz em rápidas colagens e transições de clichés musicais, ou texturas e ambientes fílmicos e efeitos mais ou menos caricaturais, com as peças jazzísticas de Carlos Guedes e Mário Laginha e a escrita mais ambiental de Luís Tinoco, não só o quarteto demonstra uma grande parte do imenso espectro sonoro à disposição da formação, como cria um todo coeso, não monótono, que justifica esta edição em disco.
A viagem que o disco nos propõe, atravessa ambientes familiares, em diversas representações, sempre musicais e sempre actuais. Um testemunho do potencial contido na união de quatro saxofonistas talentosos e da pertinência das práticas musicais escritas que não se deixam espartilhar por fronteiras estilísticas artificiais.

Quad Quartet, Now Boarding
Ed. de Autor, Portugal 2009

João Figueiredo (Sax Soprano), Fernando Ramos (Sax Alto), Henrique Portovedo (Sax Tenor) e Romeu Costa (Sax Barítono)

+ info: http://www.quadquartet.com

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