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O Mel

A Assírio & Alvim pôs cá fora (este mês, ao que parece e tive a sorte de tropeçar nele ontem) uma edição bilingue (português/romagnolo) daquele que presumo ser um dos livros “fundamentais” do Tonino Guerra: O Mel / E’ Mel.

Da nota do tradutor:

O Rumor das Folhas que Caem

Deste livro de Tonino Guerra, que o leitor tem entre mãos, Italo Calvino escreveu: “O Mel é um livro que se tornará mais belo cada ano que passar e daqui a cem anos muitos aprenderão romagnolo para ler no original a jornada dos dois velhos irmãos”. O Mel foi publicado em 1981, pela Maggioli, uma editora quase clandestina de Rimini, em dialecto romagnolo acompanhado de uma versão em italiano.
A rudeza de carácter dos dois irmãos é, certamente, mais nítida nas formas dialectais do que na compostura de uma língua corrente, distanciada do mundo arcaico e seus segredos, que a todo o momento fogem. Já os gregos diziam “o ser ama esconder-se”.
O próprio Tonino Guerra propôs que se elaborasse a tradução portuguesa a partir do romagnolo, emprestando para isso memórias, propostas, esclarecimentos, correcções, tudo o que foi determinante para este projecto. Recordo que o Canto Vinte e Quatro, por exemplo, “encomendado” por Fellini para o filme Casanova, valeu muitos telefonemas para Portugal na obstinada procura de uma palavra, “quase dialectal“, que adensasse o carácter misterioso do poema. Dos quatro ou cinco termos apresentados, quis ser Tonino a escolher. Ou como a sua emoção inesquecível ao retomar o Canto Dezasseis, soletrado no filme de Tarkovskij, Nostalghia, me pareceram um desses tantos sinais que testemunham a generosidade e o entusiasmo que empregou nesta colaboração.
O livro não é autobiográfico, mas é difícil não encontrar nele o fantasma de um tal Tonino Guerra, que abandonou Roma (depois de trinta anos naquele andar do Piazzale Clodio) e partiu para os confins da campesina Emilia Romagna, onde Dino, seu irmão mais velho, habitou até à sua morte, occorida já em 2003.
Creio que lendo O Mel se percebe que Tonino Guerra nos faz ouvir o rumor da folhas que caem.

Mário Rui de Oliveira

O livro é dedicado à família (mãe, pai, avô, avó, bisavôs) e a todos os que falavam apenas em dialecto.
E é uma, como quase tudo o que o Tonino escreve, assustadoramente bonito:

Tinha setenta anos completos e mais quatro dias quando me segurei
a um comboio em movimento. Já não suportava a cidade
com todas aquelas unhas diante da boca.

Agora estou aqui, pela minha terra, com o meu irmão.

Aumentaram as casas desocupadas. Os mil e duzentos que éramos,
reduzidos a nove: eu, recentemente chegado,
Biba, Pinela, o camponês, meu irmão, enclausurado na casa velha,
Filomena, com o filho tolo
e três sapateiros reformados
sempre sentados na praça.

Entretanto encontrei um site sobre o Tonino que tem, além de referências biográficas e bibliográficas, referências às obras “esculturais”. É o site de Pennabilli.

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