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Javardos

O meu pai chamou-me a atenção para este excerto da crónica de João Cândido Silva no Jornal Público:

Javardos

“Diogo está esquecido no WC, junto aos lavatórios. As palavras saíam-lhe dos lábios, sem cor, em sussurros. Quando os olhos dele se enevoaram, como os de um afogado, alguém decidiu chamar a ambulância. No trajecto para o hospital, “Arrepio” ouve as versões dos outros sobre o que se teria passado: “Disseram-me que ele tinha sido praxado, que fizera umas 70 flexões. Pensei: ‘Ele se calhar fez alguma e foi castigado.’ Mas não liguei as coisas. Os mais velhos falavam de indigestão.” Certo e seguro, porque há registos indesmentíveis, é a hora a que Diogo deu entrada no Hospital de Famalicão, a uns metros da universidade, em coma profundo. Eram exactamente 22h51.”

Este é um dos detalhes da história trágica e repugnante de um homicídio impune levado a cabo na Universidade Lusíada de Famalicão e relatado pela revista “Grande Reportagem” numa das suas edições mais recentes. A história merece ser lida, sobretudo pelo retrato que dá de um mundo sinistro e mafioso que se esconde por detrás das tradições académicas e da instituição das tunas. Em poucas palavras, os factos indiciam que um jovem aluno de Arquitectura foi espancado até à morte, por razões tão ferozmente frívolas como a circunstância de aparentemente pretender abandonar a sua ligação à tuna daquele estabelecimento de ensino, vontade mal aceite, como se verificou, pelos sicários que integravam a hierarquia da organização.

A violência gratuita provocou uma morte absurda para a qual as autoridades policiais não conseguiram encontrar responsáveis que fossem levados perante os tribunais. E o principal obstáculo para o apuramento da verdade foi precisamente o facto de ninguém, entre os que presenciaram a arrepiante cena, se ter disposto a revelar aquilo que sabe, numa teia de cumplicidades destinada a encobrir um crime grave. Uma universidade é suposta ser um local em que os alunos completam a sua formação literária e humana e de onde sairão preparados para assumir plenamente os deveres, obrigações e direitos decorrentes da sua integração numa sociedade necessitada de quem ajude a zelar pelos valores essenciais que a enquadram. Mas há algo que parece falhar redondamente neste campo.

As tunas, com os seus rituais de praxe, são escolas adequadas para o desenvolvimento de um autoritarismo cobarde, onde vence a mentalidade sórdida dos medíocres, perante a passividade generalizada de quem tem sobre os ombros a tarefa de assegurar a boa qualidade do ambiente em que os estudantes vivem o seu quotidiano. O caso de Diogo será o mais trágico mas não é o único que testemunha os mais diversos géneros de humilhações impostos aos seus pares por tribos que, embora floresçam um pouco por tudo o que são instituições do ensino superior, parecem viver ainda orgulhosamente nos tempos dos homens das cavernas. Pergunta-se: será que ninguém, das reitorias ao Governo, será capaz de colocar um ponto final na livre actuação desta gente que pouco mais merece do que o epíteto de javardos.

Vale a pena abrir os olhos e vale a pena discutir.
Com seriedade, sem falsos argumentos e sem medo do conflito, porque nesta “luta”— a luta pela civilização nos espaços universitários e contra a barbárie das tradições bacocas, violentas e fascizantes— não há lugares para a “assistência”.
Cada um de nós deve assumir o seu papel e “espalhar a notícia”: a Praxe não é uma inevitabilidade, nem é algo com que tenhamos que conviver.
A Praxe não tem os seus momentos bons e menos bons: é uma estrutura de poder bolorenta, assente em princípios contrários à liberdade e à democracia, que tem como objectivo perpetuar um sistema de castas inerente à ideia do ensino superior como espaço fechado e ritualizado na violência.
A Praxe é um instrumento passadista, símbolo violento dum sistema de ensino que condicionava o acesso das populações à cultura e ao saber. Um sistema que, em vez de premiar o mérito e a progressão intelectual e académica, valoriza a antiguidade e a boçalidade.

Num tempo em que lutamos pela dignificação do Ensino Superior Público, não podemos separar esse objectivo da luta pela eliminação dos instrumentos e símbolos desse sistema e regime que perpetuou o obscurantismo e contribuiu decididamente para o atraso cultural académico e científico deste país.

A luta por um Ensino Superior Público de qualidade é também a luta pela democratização das estruturas estudantis e pela eliminação dos fantasmas bolorentos do fascismo, escondidos debaixo dos seus negros trajes.

Tomem uma posição!

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