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A Casa da Música (desde 2003)

No blog Realidade Interdita, o Sérgio Catita publicou em Setembro de 2003 o seguinte:

CASA DA MÚSICA

Grande polémica em torno da Casa da Música no Porto.
Pois é, parece que afinal as autoridades competentes não se acautelaram quanto ao projecto proposto para as traseiras deste e à não criação de uma zona de protecção e legislação adequada.
Agora que todos acordaram para esta triste realidade, confrontam-se com o dilema entre os interesses culturais e o interesse económico.Todos sabemos quando existe este confronto qual é o desfecho habitual.
Nestas coisas das questões arquitectónicas ainda muita coisa está por fazer quer em termos legais e também ao nivel da formação da consciência dos arquitectos.

Os arquitectos João Luís Carilho da Graça, Manuel Graça Dias e Helena Roseta são unânimes em considerar que a Casa da Música deveria ter tido uma zona envolvente de protecção, à semelhança do património classificado.

“O município devia ter garantido um espaço de dignidade. Num edifício de referência tem que se acautelar a zona circundante. A arquitectura é também o que está à volta”, diz Helena Roseta, bastonária da Ordem dos Arquitectos.

Roseta sublinha que esta situação é o resultado de um erro de gestão urbanística da Câmara do Porto: “Na gestão urbanística à volta de um projecto tão importante aconteceram várias desgraças, todas pagas em autorização de metros quadrados para construção. O mais relevante é o terreno ter sido negociado três vezes pela câmara com alterações urbanísticas. As câmaras não têm dinheiro e pagam em autorização de metros quadrados para construção em vez de euros. É a nova moeda. É perverso porque densifica sítios que não deveriam ser densificados.”

Segundo Roseta, a situação é agora difícil de alterar por causa dos direitos adquiridos – “seria caro” -, uma vez que um alvará de loteamento feito por um privado e aprovado pela câmara funciona na prática como um plano de pormenor. “É uma história com mais de 40 anos. Não se fazem planos de pormenor, os particulares aprovam alvarás de loteamento.”

O arquitecto Graça Dias, outro defensor do projecto de Rem Koolhaas, diz que “construir um edifício-tampão para esconder umas traseiras muito desorganizadas e medíocres nunca lhe pareceu uma solução bem pensada”. Na opinião deste professor universitário, e director do “Jornal dos Arquitectos”, o edifício agora proposto cria “um primeiro plano muito próximo” da Casa da Música, uma obra que quis ser “um meteorito na rotunda da Boavista”. “Se eu for um peão na Boavista tenho uma relação com o ‘sky line’ interessante, porque o céu está limpo. Um pano de fundo para aquele objecto não é uma boa solução. A Casa da Música marca um ponto, as pessoas vão deixar de se perder na rotunda, onde não há edifícios excepcionais. A Casa da Música precisa de uma certa área para se continuar a afirmar. O que é chato é a proximidade.”

Para Carrilho da Graça, que tal como os outros arquitectos ainda só conhece os contornos do novo edifício de Ginestal Machado, “a crueza do confronto é quase arrepiante”, acrescentando que há certos limites que não se podem transpor. Carrilho da Graça lembra que há um grande consenso em relação à qualidade do projecto de Koolhaas: “Já visitei a obra e faz-me pena que este resultado bastante interessante e consensual seja deitado fora. O conceito de património é isso. Vamos hipotecar um valor antes de nascer? Pode-se discutir e construir depois, mas em simultâneo e sem o acordo do arquitecto não faz sentido e é um bocado disparatado.”

Helena Roseta, “entusiasticamente a favor do equipamento, do autor do projecto, da qualidade do projecto, da inovação em termos arquitectónicos”, pergunta como é que se pode defender a Casa da Música quando isso parece não ter sido acautelado pela câmara: “Qual é a relação entre uma arquitectura de grande qualidade e o tecido urbano que está à volta? Como proteger uma coisa da outra?”

Publicado por Sérgio Catita em 29 de Setembro 2003 [link]


É pena que não se cite a fonte destes depoimentos de Carrilho da Graça, Graça Dias e Helena Roseta e era interessante saber o que têm eles agora para dizer, já que o início da construção da sede do BPN está iminente.

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