Categorias
blog

A Folha em Branco

 a=

“Goethe dizia sempre que tinha tido sorte por, no seu tempo, a literatura não passar, digamos, duma folha em branco.”
in “O Contrabaixo”, de Patrick Süskind

A afirmação que Süskind coloca na boca de Goethe, sinalizando ou a sua falsa modéstia, ou a sua arrogante e abençoada ignorância contradiz um dos princípios fundamentais de toda a mística folclórica que envolve nos dias de hoje o acto de criação: a lenda do terror da folha em branco, bloqueio máximo de artistas e escritores da Idade Pós-Psicanalítica.
Desmascarada esta, reforça-se de imediato a outra força de bloqueio tão cómoda e “natural” que é a “pressão das referências”: “ah! tudo isto já foi dito! quem é que tem a audácia de escrever depois de Duras? de pintar depois de Pollock? de compôr depois de Stravinsky? de…”

De facto, entre os que, face à liberdade total se sentem perdidos, e os que, esmagados pelo peso da história se sentem diminuídos, a era que atravessamos é pródiga em desculpas para não criar.
Desculpas para não ferir a pureza virgem da folha em branco ou para não ofender os Mestres com a nossa incapacidade de acrescentarmos algo ao Panteão…

Claro que há diferenças entre a folha em branco e a tela em branco, seja ela a tela de linho, onde não se pinta ou a tela do computador (force-se o brasileirismo) onde só nos embasbacamos. E mesmo, no universo das folhas há diferenças: pautadas ou lisas, quadriculadas… folhas soltas ou em cadernos… em cadernos moleskine… nesses é mais fácil criar a ilusão de que tudo o que se escreve— seja uma lista de compras de supermercado, o número de telemóvel dum engate, um poema pueril ou uma letra para uma canção sanguinária daquela banda de garagem— tem um substracto “artístico”.
As referências a Hemingway, Van Gogh, Matisse, Céline e Chatwin na contracapa (mesmo se os não conhecemos de facto) dão-nos o conforto necessário para evacuarmos ali a alma, e guardarmos selos, bilhetinhos e merdinhas de todo o género na bolsinha tão jeitosa, e sentirmos que, preso por aquele elástico está um testemunho da nossa grandeza, guardado para a posteridade.

No computador e no telemóvel é ao contrário: a ilusão de que “teclar” nos afasta do objecto, parece autorizar-nos a estarmo-nos nas tintas: perdemos o vocabulário, trocamos as voltas à gramática, ignoramos ortografia e sintaxe… talvez por estarmos convencidos de que, se não sai das nossas mãos, não é “nosso”. Ou então achamos que podemos escolher o que é: “gostaste? fui eu que escrevi. ah, estava mal escrito? sabes como é… no computador…”

Temos por isso suportes óptimos para deificar e para reificar.
Será que ignoramos suportes que não tenham em si mesmos mecanismos de (des)valorização?

Assim, impôe-se um teste: o teste da FOLHA EM BRANCO.
Ela está aqui e tu aí. Agora que foram apresentados, entendam-se.

[trabalho para a disciplina de Projecto em Design Básico, licenciatura de Design da Universidade de Aveiro]

2 comentários a “A Folha em Branco”

Continuo com a profunda convicção de que, qualquer que seja a área em que trabalhes, fazes e farás sempre um trabalho exemplar, digno de respeito e admiração.

Ando por este blog há um tempo e raramente comento… pq não é preciso. Quando uma nova ideia surgia, apanhava-a à frente, escrita por ti 🙂

apenas algo ainda mais simples, óbvio para um designer: o branco-vazio da folha condiciona o conteúdo e forma da escrita. o mesmo homem escreve de forma distinta aí ou numa folha pautada, ou quadriculada ou tabelada. como seria diferente o meu comentário se esta janela de “comments” fosse mais ampla ou mais pequena.

a maior parte dos escritores cria os seus hábitos, o seu ritual – que respeita, para ficar com a impressão de que se reencontra.

Um escritor decidiu intencionalmente alterar uma condição: Gonçalo Tavares mudou o hábito da “tela” em branco: criou tabelas (insert table, n linhas/colunas) e escreveu numa folha delimitada por estas. daí resultou o seu primeiro ensaio de semiótica. 🙂

fê-lo como uma pequena provocação para “desconstruir os mitos da escrita”. como dizes, há muitos.

(mentiras que nos afastam do essencial)

(e eu tb já divago….

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.