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Silêncio Suspeito

podcast: 667 #005

O quinto e último (para já) excerto deste ciclo é o único pequeno-almoço da peça de teatro que se mantém no filme. Curiosamente, no filme, a música é usada num momento completamente diferente. E, de forma igualmente curiosa, parece desempenhar a sua função com igual eficácia.

Escolho este excerto para o fim porque é um bom exemplo do que senti ao longo deste processo de “reconstrução” da banda sonora. Um processo que, além de ser essa “reconstrução”, foi uma sucessão de ilusões e desilusões, no qual aprendi imenso, que mais não seja sobre mim, como pessoa e como músico.
Inicialmente, a ideia de transformar a peça de teatro “667, O Vizinho da Besta”, um dos objectos mais “televisivos” do Visões Úteis e um dos meus trabalhos mais “musicais”, pareceu-me genial e entusiasmante: estava mesmo a imaginar, ingenuamente, uma versão da peça em jeito de reprodução ou tradução para outra linguagem ou suporte.
Quando percebi que a proposta do Eduardo Condorcet era a realização dum objecto independente, que partia do mesmo guião, mas que seria da responsabilidade artística desse (para mim) desconhecido, fiquei reticente. Entre outras coisas, porque até à data, todo o meu trabalho como compositor de bandas sonoras tinha sido feito com o Visões, num processo que, apesar de complexo, me é familiar e confortável. E, apesar de todos os meus ameaços, a verdade é que trabalhar para um “estranho”
me deixava profundamente inseguro.
Depois conheci o Eduardo Condorcet e ele explicou-me o que pretendia do filme e de mim. Explicou-me que a sonorização não seria minha responsabilidade e que, apesar da banda sonora da peça lhe agradar, não lhe parecia possível a sua reutilização porque a linguagem seria outra. E percebi que a montagem e os tempos do filme, certamente rebentariam com a lógica interna da banda sonora existente…
A primeira ilusão tinha sido desfeita.

Refiz as minhas expectativas em função de tudo isto e, ao longo do processo, reconstruí uma ilusão do que seria o filme. Não assisti às filmagens, mas acompanhei o processo a uma distância prudente, esperando pela minha vez de entrar em cena.
Essa entrada deu-se com uma nova conversa com o Condorcet em que ele me apresentava de forma bastante mais assertiva do que aquilo a que estou (mal) habituado, as suas ideias relativamente à música do filme: momentos, ambientes, referências… chegar-me-ia às mãos uma cópia duma primeira montagem do filme com apontamentos musicais que eu interpretaria como pudesse.
Uma segunda ilusão foi desfeita. Uma que eu não sabia sequer que tinha… e percebi porque é que tinha dúvidas em trabalhar fora do meu ambiente habitual. Mas mais importante do que isso, porque é que era imperativo que o fizesse. E de acordo com estas “novas regras”.

Então chegou a tal cópia do filme e, para usar uma expressão muito eficaz, “caiu-me tudo!”: fiquei bastante tempo em “choque” porque o “estupor do gajo tinha rebentado com a peça toda!
É certo que as ilusões já tinham sido desfeitas, mas não estava mesmo preparado para aquilo: as quebras do fluxo da peça, as omissões e cortes, a diferença abissal de ritmo, as opções plásticas… tudo me parecia disforme, sem nexo, desfeito… Nunca o disse desta maneira ao Condorcet, como é óbvio, mas houve alguns dias em que não me sentia minimamente capaz de contribuir para “aquilo“.

É claro para mim, agora, que esse choque e essa visão extraordinariamente crítica do filme estavam intimamente ligadas a duas coisas:

  1. a péssima qualidade do som, que ainda não tinha sofrido nenhum tratamento;
  2. o facto de estar a usar constantemente, como referência, a peça de teatro.

A segunda razão era obviamente muito mais forte que a primeira… ou talvez fosse apenas muito mais óbvia, como se verá a seguir.

Foi a partir desta desilusão maior que iniciei o meu trabalho, pensando sempre que, se não conhecesse o “original” (aquilo a que eu chamava “original”) não teria a mesma opinião. A verdade é que o Condorcet não partia da peça de teatro, mas do texto da peça, que eu não reconhecia como coisa autónoma. E uma peça, com todas as suas dimensões para lá do texto (actores, cenário, som, luz…) dá-nos um filtro muito mais apertado, através do qual se torna difícil imaginar outras leituras…
As conversas com o Condorcet levavam-me a acreditar que ele sabia o que estava a fazer e, mais do que isso, que eu não sabia: estava envolvido num processo completamente diferente da criação duma banda sonora para teatro e completamente diferente do que eu imaginava que seria a criação duma banda sonora para cinema. Estava completamente perdido e tinha que confiar na sorte.
Fiz isso e, mesmo assim, não se tratou dum processo simples: trocávamos ideias e sons através da net (eu em Aveiro, ele em Londres e o Panos em Atenas). E eu estava numa demanda quase obsessiva para musicar cada segundo de filme, muito por incapacidade de imaginar que a péssima qualidade do som captado podia ser corrigida. Essa minha obsessão deparava com uma resistência natural da parte do Condorcet, mas concordámos que o melhor seria eu produzir “a mais”, para ele seleccionar o que precisasse. Não sei se pus ou não o pobre do Condorcet numa posição desconfortável (ainda lhe hei-de perguntar isso, um dia), mas a verdade é que não houve segundo de filme que ficasse em silêncio, da minha parte. 😉

E assim nos despedimos, na altura. Ele ficou com música a mais. Eu com um misto de “dever cumprido” e receio do que seria o resultado final.

A montagem final, como é costume, demorou uns tempos. Tempos que me ajudaram a afastar-me do processo e, mais importante do que isso, da peça.

Até chegar o dia de ver a montagem final. Um dia de nervos.
A primeira vez que vi o choque foi semelhante ao da primeira montagem, mas no sentido contrário: não podia acreditar que o som dos actores e do ambiente tivesse ficado com tanta qualidade. Fiquei com uma admiração quase infantil pelo Panos Tzelekis, esse semi-deus da produção áudio, e acho que não reparei em mais nada. Foi preciso uma segunda visualização para reparar como a minha música tinha sido usada: com muito mais espaços livres, com permutações inteligentes entre segmentos, com algumas escolhas que eu gostava de ter feito, com outras que não faria, mas compreendo.
No fim, o filme surpreendeu-me pela positiva e o meu trabalho, apesar de tudo, também. Não poderei nunca olhar para ele com justiça, não só porque estou envolvido, mas principalmente, porque a peça que lhe deu origem é um trabalho do qual me sinto mais autor.

Mas aprendi muito. E espero vir a aprender mais, mantendo a disponibilidade para trabalhar em meios e processos que não me são familiares e aumentando a capacidade de trabalhar com “Outros”.

Que grande testamento para uma entrada dum podcast…

Um comentário a “podcast: 667 #005”

Fico com vontade de ver o filme. Nao vi a peça, ouvi a mùsica. Mete medo?
Bom trabalho para começar e para continuar.

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