“A Frente do Progresso” – opiniões

Apesar de tudo– a experiência, a disponibilidade para correr riscos, uma certa atitude displicente (uma parte de coragem para duas de arrogância)– continuo (felizmente) vulnerável à crítica. Vulnerável e ansioso, à procura duma qualquer validação exterior que é tão rara naquilo que faço mas que, quando aparece, sabe tão bem. Mesmo quando a crítica é negativa, essa satisfação é real, porque nos é devolvido, através do exercício da crítica, parte do investimento que fazemos em cada objecto criado.

Coisa bem diferente aconteceu ontem, quando H., grande amigo, me disse, a propósito de “A Frente do Progressso” que não só não tinha gostado (“lá muito”), como a sua namorada tinha “odiado” e achado “mal feito” e/ou “amador”. Equívocos à parte, não se trata exactamente de um exercício de crítica, mas mesmo assim, enquanto expunha o meu melhor sorriso de circunstância e sacudia a água do capote com um “é um espectáculo arriscado, de facto…”, dei por mim a não conseguir encaixar no meu delicado queixo o “uppercut” surpreendente.
Sou sensível aos argumentos de que a peça pode ter um problema de ritmo, como diz o Casimiro, a quem a Catarina já foi respondendo, mas a ideia de que um espectador que nunca assistiu a um espectáculo do Visões pudesse ler, no elaborado registo caricatural escolhido, uma deficiência técnica, assustou-me de morte. Essas são hipóteses difíceis de colocar quando se está tão envolvido no processo, por isso não é com leveza que se elimina essa “sombra” do panorama do possível.

Para me livrar da comoção do dito “uppercut” tive que deixar passar a noite e parte da tarde, tive que confirmar que temos tido público e reacções positivas, tive que voltar a olhar para as razões de fazermos o que fizemos e respirar fundo. Tive mesmo que pôr a hipótese de termos corrido um risco demasiado grande e perdido.

Depois lembrei-me do que um humorista brejeiro dizia acerca das opiniões, lembrei-me que “everybody’s a critic” e do capítulo dedicado ao aparecimento da Arte n’A História do Mundo do Mel Brooks e ri-me…

Claro que quem, inadvertidamente, me desferiu o “uppercut” não é, nem pretende ser, Crítico, não merecendo por isso nenhuma das respostas cínicas que as imagens humorísticas me lembraram. Merece isso sim um agradecimento especial, porque o processo interno que desencadeou é todo ele necessário e positivo: precisamos de nos pôr em causa com mais frequência.

Depois de respirar fundo e de espairecer, posso dizer, sem grandes dúvidas: “A Frente do Progresso” é um muito bom espectáculo. E é bem feito. Felizmente, não é para todos os gostos.

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