Acessibilidade alta nos sites portugueses? Importa-se de repetir?

Internet: cego conclui que acessibilidade a sites portugueses é alta
15.06.2007 – 23h34 Lusa, PUBLICO.PT

Um relatório sobre a acessibilidade na Internet em Portugal, elaborado por um cego, conclui que os 200 sites nacionais consultados no estudo têm um índice de acessibilidade considerado alto.

Dentro da categoria relativa à Administração Pública (e-gov), o relatório, inserido na iniciativa “Integra 21″, destaca que os sites das universidades ou politécnicos e dos actuais candidatos à Câmara Municipal de Lisboa “são os mais acessíveis” dentro desta área, tendo registado um índice de acessibilidade “muito alto”.

As restantes categorias e-gov analisadas (juntas de freguesia e serviços financeiros/outros serviços) têm um índice de acessibilidade considerado alto.

A iniciativa “Integra 21″ partiu de uma empresa de tecnologias de informação nacional e pretendeu testar o grau de info-inclusão que existe para pessoas com necessidades especiais na sociedade portuguesa, através da avaliação dos níveis de acessibilidade de 200 sítios públicos e privados na Internet.

Fernando Santos foi quem realizou a experiência, tentando fazer a vida diária através da Internet, ao aceder aos sites portugueses a testar.

Fernando Santos falou online com Cavaco Silva

A iniciativa contou com o apoio do Presidente da República, tendo Aníbal Cavaco Silva mantido, ontem, uma conversa online com Fernando Santos, destinada a chamar a atenção para a importância das novas tecnologias da informação para os invisuais e a necessidade de combater a exclusão.

Durante o tempo que durou a iniciativa, foram analisados 200 sites, dos quais 129 da Administração Pública, 55 lojas electrónicas e 16 empresas, tendo o estudo concluído que “o nível de acessibilidde geral de todos os sítios analisados é alto”.

Na análise efectuada às lojas electrónicas, houve várias tentativas para efectuar transacções em 38 sites e destes em apenas quatro o objectivo não foi conseguido – a taxa de sucesso foi de 64 por cento.

Quanto aos sites das 16 empresas portuguesas, o mesmo relatório conclui que a sua acessibilidade também é considerada alta.

Fernando Santos aponta os quatro grandes problemas na consulta online

Aquando da participação nesta iniciativa, Fernando Santos disse esperar que a “experiência pudesse influenciar a forma como os sites são construídos” em Portugal.

Este invisual português, que trabalha na área da informática e está habituado a lidar com a Internet, lembrou, na altura, que a acessibilidade de um site não pode ser medida através da sua elaboração gráfica.

Fernando Santos explicou ainda que as pessoas cegas ou com baixa visão enfrentam, sobretudo, quatro grandes inimigos na consulta online: as imagens não legendadas, os menus que não permitem a utilização de teclado, alguns tipos de apresentações e a inexistência de informação estruturada.

Eu acho importantes todas as iniciativas que alertem para a necessidade de se pensar a questão da acessibilidade on-line como uma questão básica de cidadania e inclusão, mas será que a propaganda, para ter visibilidade e impacto, tem sempre que ser positiva e gentil?

É que se aceitarmos estes resultados obtidos neste estudo (muito sui generis), poderemos ter que concluir que a acessibilidade da net para invisuais em Portugal é maior do que a acessibilidade para utilizadores de browsers e/ou sistemas operativos não dominantes…

Sejamos claros: os níveis de acessibilidade dependem, obviamente, da capacidade real dos utilizadores interagirem com a informação e acederem aos serviços, mas isso está ligado à forma como os standards são implementados nos sites e à qualidade da programação e estruturação. Coisas que, em Portugal, a julgar pelo número de sites “optimizados para IE 5+” ou com “resolução recomendada: 1024×768″, ainda estão muito longe do topo da pilha de prioridades de web designers e programadores activos.

A forma de pensar e testar questões de acessibilidade on-line está bem explicada aqui, mas parece-me que nada disto esteve em causa na elaboração do estudo noticiado pelo Público: parece mesmo que o que foi testado foi a experiência e engenho do informático invisual que, tendo passado no teste a que se submeteu, deixou que os louros fossem cair a mãos alheias.

Só espero que isto seja o início de novas iniciativas, umas viradas para a comunidade de programadores e designers sobre a necessidade de utilizar standards e testar intensivamente e de forma diversificada todos os sites realizados, outras para os invisuais sem experiência na utilização de Tecnologias de Informação e Comunicação, para que possam usufruir de algumas das técnicas usadas por este informático para poder aceder de forma tão completa a tantos sites.

Só não deixem espalhar demasiado esta ideia de que a net portuguesa se pauta por níveis altos de acessibilidade… parece uma brincadeira de mau gosto.

2 pensamentos em “Acessibilidade alta nos sites portugueses? Importa-se de repetir?

  1. Parece que não fui o único a achar que o estudo estava inquinado.
    O que foi realmente testado foi a habilidade de um informático experiente e cego navegar em sites escolhidos a dedo (alguns dos quais tiveram mais de 15 dias para serem corrigidos, caso fosse necessário).

    Se quiser, como tem o meu e-mail poderemos trocar ideias sobre o assunto.

  2. De facto esta coisa foi muito show. Muita televisão e espectáculo e algum branding para a empresa que desenvolveu o estudo. Mas de fundo trouxe mais confusão na sensibilização da causa no que diz respeito a desenvolver soluções tecnológicas, nomeadamente as da internet, orientadas às pessoas com necessidades especiais. Este é um pilar base par a acessibilidade da Internet.

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