Downgrade do Natal

Há, de certeza, melhorias que podem ser introduzidas nisto do Natal. Aliás, acho mesmo que basta fazermos uns quantos downgrades para voltarmos a uma versão mais “básica” sobre a qual talvez se possa construir uma época com
algum sentido.
Eu, que sou ateu desde pequenino (de formação, se quiserem), lembro-me de haver uma altura em que o Natal não me incomodava como agora. Ser criança e receber prendas talvez tivesse alguma coisa que ver com isso, mas acho que havia mais alguma coisa.

E isto não pretende ser um “rant” acerca da fúria consumista… só.

O que me incomoda, acima de qualquer outra coisa, é a sensação, que se me afigura cada vez mais como real, de que os verdadeiros detentores desta celebração e seus supostos guardiões, os cristãos, estão a deixar que ela seja “manipulada”, “ocupada”, “parasitada” pela lógica de consumo, que se assume, desta forma, como uma outra espécie de religião que nos tenta converter a todos. Uma religião que tem os seus próprios símbolos, templos, rituais e celebrações que se sobrepõem e aproveitam das tradições existentes. Na história das religiões isto não é novo: o próprio Cristianismo foi absorvendo várias manifestações pagãs ao longo da sua expansão.

Mas não deixa de ser estranho assistir ao esboroar duma certa identidade, com o eventual argumento admirável de que esta será uma forma de “abrir” a celebração a todos.

É que nem todas as celebrações deveriam ser para todos. Ou, pelo menos, não deveriam abdicar do que lhes é central por uma qualquer ideia de “acessibilidade”.

E, assim, me apanham numa demanda reaccionária: quero um Natal com fronteiras, que seja uma festa que não é minha, mas da qual posso participar por generosidade dos outros. Era esse o sentimento que tinha quando era criança: o Natal era uma coisa estranha, à qual eu não pertencia, mas no qual me era dado o “presente” de partilhar, pela generosidade dos outros.

Parece demasiado esquisito?

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