Puritanos

Tenho seguido com um misto de incredulidade, espanto e nojo uma conversa colectiva via mail, que começou com uma simples questão que envolvia o uso de Linux em portáteis e descambou numa discussão interminável à volta de tudo e mais alguma coisa que se relacione (ou não) com a utilização e o apoio ao Software Livre. A incredulidade, o espanto e o nojo não têm nada a ver com o tema da conversa, que me é caro, mas com o estranho rumo a que este tipo de conversas parece condenado. Mas, desta vez, alguns argumentos e opiniões são rocambolescos na forma e ofensivos no conteúdo.

Nada de novo, para quem tem experiência nestas lides, mas, ainda assim é preocupante ficar com a sensação de que não é possível ter conversas racionais sobre estes assuntos em determinados círculos. Desta vez, chegou-se ao cúmulo de pretender determinar se apoiar o Software Livre implicaria ou não usá-lo exclusivamente e/ou recusar a utilização de software proprietário. Para mim, que me considerava apoiante— não-incondicional, mas, ainda assim, apoiante— do Software Livre, pela simpatia filosófica e pela experiência positiva que tenho com várias ferramentas e processos fortemente melhorados pela implementação dessas soluções, uma postura de “tudo ou nada” parece-me completamente ridícula. E, mais do que isso, diz muito acerca da (falta de) mundividência e da ignorante arrogância de quem produz afirmações deste tipo. Basicamente, medir a realidade por um padrão que guardamos no umbigo, não será muito mais do que uma forma idiota de Puritanismo, completamente contrária à promoção duma ideia justa, como a do Software Livre.

Claro que esta é apenas a minha opinião, que acredito que, se do lado de quem desenvolve software, opções exclusivistas por Software Livre poderão ser possíveis (acredito no que me dizem) e, se no meu trabalho modesto de programação para a web e implementação de soluções de apoio em sistemas de informação, normalmente consigo implementar soluções desse tipo, não posso ignorar que há áreas importantes da minha própria actividade e de outros utilizadores (não programadores) em que não há soluções fiáveis, equiparáveis a software proprietário ou sequer produtivas. Não reconhecer essa realidade é “enfiar” a cabeça na areia e confundir utilizadores com programadores no contexto destas conversas é prestar um péssimo serviço ao movimento do Software Livre, na minha humilde opinião.

Claro que como eu uso software proprietário para criar e editar áudio, vídeo e animações e como eu reconheço que na área gráfica, por exemplo, não é fácil usar só Software Livre porque uma parte do “aparelho produtivo” não está preparada para isso e como eu reconheço ainda que a implementação de novas soluções deve ser adaptada também ao nível de familiaridade dos utilizadores… e, ofensa das ofensas, as minhas opções sucessivas e as áreas de especialização fizeram-me escolher um Sistema Operativo “maléfico”… tudo isso junto deve fazer com que a minha opinião seja completamente irrelevante para alguns “puritanos”.

Azar…

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