Desambiguação: Software Livre / Open Source

Presumo que para muitas pessoas que tentaram acompanhar os comentários a este artigo recente sobre Open Source terão ficado baralhadas pela utilização dos termos Software Livre e Open Source. Eu próprio sou parte dessa confusão porque tenho ainda alguma dificuldade em compreender os contextos em que uma e outra designação se aplicam.

Para ajudar à definição de Software Livre / Free Software e a sua relação com o Movimento Open Source, este artigo do Georg C. F. Greve, traduzido pelo Rui Miguel Seabra no site da ANSOL pode ser útil.

Mas para se perceber que a confusão não é só minha e como forma de perguntar ao “vasto auditório” se estão de acordo com esta visão da FSF e da ANSOL de que

O movimento “Open Source” tem por objectivo ser um programa de marketing do Software Livre. Esse objectivo deliberadamente ignora todos os aspectos filosóficos ou políticos; estes aspectos são considerados prejudiciais à comercialização.

Por outro lado, o movimento Software Livre considera o ambiente filosófico/ético e político como uma parte essencial do movimento e um dos seus pilares fundamentais.

pergunto se as possibilidade de extrapolação do conceito e do termo Open Source, para outras áreas disciplinares, não terão algum interesse.

Não podemos falar da aplicação dos princípios defendidos pelo movimento Open Source em várias áreas vitais? Não será possível agrupar vários esforços “libertários” no que à informação e tecnologia diz respeito debaixo destes princípios, depois duma qualquer generalização? Isso fere os princípios do Software Livre? Ou expande-os?

Estou, muito sinceramente, a pensar alto e a tentar esclarecer-me com a vossa ajuda (possivelmente), sobre as implicações de se confundir processos e procedimentos de desenvolvimento e distribuição de código informático, com princípios éticos e filosóficos. Os últimos são a base dos primeiros e são generalizáveis. Mas esses, como os vou encontrando por aí, ora me iludem, ora simplemsente me confundem e baralham.

A desambiguação da responsabilidade da ANSOL vale como esclarecimento para a futura utilização dos termos neste blog, no contexto do software.

Mas, sinceramente, não estou completamente esclarecido.

5 pensamentos em “Desambiguação: Software Livre / Open Source

  1. Vou tentar explicar isto à minha maneira, mas sei que provavelmente sairá daqui algo confuso…

    O Open Source da Open Source Definition, aquela que citas, tem a sua lista de princípios, que, mais que princípios (tal como no software livre, entenda-se), servem como definição. Assim, para algo ser considerado Open Source tem de cumprir com aqueles requisitos.

    O Free Software também tem uma lista de princípios (à qual se chama tipicamente lista de liberdades), que também servem para o definir. Assim, para algo ser considerado Free Software tem também de ser considerado Open Source, mas não só.

    Ambos os conceitos são apenas aplicados a software. Claro que é possível estabelecer paralelos entre “Free Sofware” e “Free something-else”, ou “Open Source” e “Open something-else” (um exemplo deste tipo de paralelos que nos vêm à cabeça pode ser visto aqui). A coisa complica é quando se lhe acrescenta a palavra “movimento”. O que é o “movimento do software livre”? O que é o “movimento do open source”? Bem, acima de tudo há que notar, como análise da história de ambos os tipos de software, que não há muito o que se possa chamar de “movimento” em volta do Open Source, não como há em volta do Free Software. Há milhares de razões para se usar um modelo Open Source numa determinada situação, e algumas razões entram mesmo em conflito entre si. Uma lista de algumas dessas razões, que não têm nada de “filosofia aberta” por detrás, mas apenas “é a melhor opção”, podem ser lidas aqui. Já o “movimento Free Software” tipicamente vaza para muito mais de que software, suspeito eu que derivado do facto de que os adeptos do Free Software sejam adeptos de “liberdades” – e que se o são no caso do software o serão para muitos outros, mas há que ter sempre presente que liberdade é uma coisa, software livre é outra. O que vai na cabeça do movimento do software livre? Quem define esse movimento: a FSF? os adeptos de software livre? Se for a FSF, então verás que está sempre – sempre – relacionado com software: o exemplo que dás do DRM também, nem que seja porque muitas leis relacionadas com DRM têm como consequência a impossibilidade legal de fazer certas coisas com software livre, mas todos os outros exemplos terão algo a haver. Se forem os adeptos de software livre… Bem, esses “tipicamente” – pensa-se – que defendem a liberdade em todos os casos…

    Não podemos falar da aplicação dos princípios defendidos pelo movimento Open Source em várias áreas vitais? Não será possível agrupar vários esforços “libertários” no que à informação e tecnologia diz respeito debaixo destes princípios, depois duma qualquer generalização? Isso fere os princípios do Software Livre? Ou expande-os?

    Não sei se entendi bem estas questões. Penso que isto te pode ajudar: se tentares encontrar um mínimo múltiplo comum entre o free software e o open source, ele é encontrado: o mínimo múltiplo comum é o open source. A pergunta é: que “esforços libertários no que à informação e tecnologia diz respeito” debaixo dos princípios do open source existem? Estás a falar exactamente de quê? Penso que estarás a falar de algumas coisas que não estão relacionadas com o Open Source, e que mais facilmente estarão com o Free Software… Não estarás a ignorar as diferenças entre Open Source e Open Content, ou Share-Alike? Não estarás, no fundo, a falar da “cultura hacker” do “bolo” de “adeptos” de FLOSS?

    Recomendo também mais alguma leitura sobre isto: http://en.wikipedia.org/wiki/Free_software_movement

  2. Olá,

    Antes de mais, sim sou VP da ANSOL, por isso quem quiser tomar a minha opinião como tendenciosa, força esteja à vontade. Não sou eu quem se vai importar com isso.

    Os registos históricos são o que atesta a remoção intencional dos conceitos de liberdade introduzida pela Open Source Definition, uma vez que nos EUA seria muito fácil conotar ideais de liberdade com “comunismo” assustando a adopção das empresas.

    A questão de remover o conceito de liberdade não é derivada de uma paranóia contra a liberdade mas por causa de determinados fins, que os seus criadores entenderam como sendo mais “pragmáticos”. Esta foi a sua intenção, daí que se diga “intencionalmente afastaram os conceitos de liberdade”. Não foi malícia.

    Contudo quanto mais complexa for uma definição, mais sujeita a abusos ela está. No meu entender, é muito mais difícil argumentar contra uma base (matemática) de um corpo do que contra um conjunto de vectores descritos como variantes sobre a base.

    (1,2,3,4) = (1,0,0,0) + 2*(0,1,0,0) + 3*(0,0,1,0) + 4*(0,0,0,1)

    Aqui tens de justificar porque é que é 4 e não (2+2), entre outras coisas.

    Quando tomas uma base [(1,0,0,0);(0,1,0,0);(0,0,1,0);(0,0,0,1)] alguém vai ter de provar que não é possível definir o “universo” do corpo com essa base se quiser tentar refutar as provas matemáticas de que o universo é definível.

    Ora no meu entender a definição do Software Livre nem sequer chega a uma base completa para o corpo, uma vez que a sua definição tão básica permite a escrita de software proprietário, e aqui é que entra a licença GNU GPL, como sendo uma cartilha de direitos universais que garante o fecho do corpo, impedindo elementos que não sejam Software Livre.

    Já agora, na primeira discussão na Assembleia da República sobre Software Livre, durante o projecto apresentado pelo Bloco de Esquerda, creio que o único elemento da “direita” portuguesa que percebeu o que era Software Livre ainda foi o Nuno Melo do CDS, que apresentou o Software Livre com a sua definição, e apresentou a lista da Open Source Initiative como descrição de propriedades que se encontram no Software Livre.

    Eis uma das principais diferenças entre a definição da FSF e da OSI: a segunda exprime características da primeira. Tudo o que satisfaça a primeira satisfaz a segunda.

    Exercícios para o leitor:
    1. Olhar para a definição de “Open Source” e verificar se são, ou não, todas as suas condições consequências naturais da definição de Software Livre
    2. Olhar para a definição de “Open Source”, olhar para a licença Apple Public Software License 1.0, e perceber porque não era Software Livre, mas sim Open Source.
    3. Tendo em contra os 2 pontos anteriores, identificar os motivos pelos quais uma definição mais simples é mais difícil de “contornar”/”dar a volta”

  3. Olá,

    Antes de mais, sim sou VP da ANSOL, por isso quem quiser tomar a minha opinião como tendenciosa, força esteja à vontade. Não sou eu quem se vai importar com isso.

    Os registos históricos são o que atesta a remoção intencional dos conceitos de liberdade introduzida pela Open Source Definition, uma vez que nos EUA seria muito fácil conotar ideais de liberdade com “comunismo” assustando a adopção das empresas.

    A questão de remover o conceito de liberdade não é derivada de uma paranóia contra a liberdade mas por causa de determinados fins, que os seus criadores entenderam como sendo mais “pragmáticos”. Esta foi a sua intenção, daí que se diga “intencionalmente afastaram os conceitos de liberdade”. Não foi malícia.

    Contudo quanto mais complexa for uma definição, mais sujeita a abusos ela está. No meu entender, é muito mais difícil argumentar contra uma base (matemática) de um corpo do que contra um conjunto de vectores descritos como variantes sobre a base.

    (1,2,3,4) = (1,0,0,0) 2*(0,1,0,0) 3*(0,0,1,0) 4*(0,0,0,1)

    Aqui tens de justificar porque é que é 4 e não (2 2), entre outras coisas.

    Quando tomas uma base [(1,0,0,0);(0,1,0,0);(0,0,1,0);(0,0,0,1)] alguém vai ter de provar que não é possível definir o “universo” do corpo com essa base se quiser tentar refutar as provas matemáticas de que o universo é definível.

    Ora no meu entender a definição do Software Livre nem sequer chega a uma base completa para o corpo, uma vez que a sua definição tão básica permite a escrita de software proprietário, e aqui é que entra a licença GNU GPL, como sendo uma cartilha de direitos universais que garante o fecho do corpo, impedindo elementos que não sejam Software Livre.

    Já agora, na primeira discussão na Assembleia da República sobre Software Livre, durante o projecto apresentado pelo Bloco de Esquerda, creio que o único elemento da “direita” portuguesa que percebeu o que era Software Livre ainda foi o Nuno Melo do CDS, que apresentou o Software Livre com a sua definição, e apresentou a lista da Open Source Initiative como descrição de propriedades que se encontram no Software Livre.

    Eis uma das principais diferenças entre a definição da FSF e da OSI: a segunda exprime características da primeira. Tudo o que satisfaça a primeira satisfaz a segunda.

    Exercícios para o leitor:
    1. Olhar para a definição de “Open Source” e verificar se são, ou não, todas as suas condições consequências naturais da definição de Software Livre
    2. Olhar para a definição de “Open Source”, olhar para a licença Apple Public Software License 1.0, e perceber porque não era Software Livre, mas sim Open Source.
    3. Tendo em contra os 2 pontos anteriores, identificar os motivos pelos quais uma definição mais simples é mais difícil de “contornar”/”dar a volta”

  4. Já agora para completar:
    1. eu não concordo com a visão de que os ideais de liberdade sejam associados a comunismo
    2. eu acho que os ideais de liberdade são intrínsecos a todas as facções políticas democráticas
    3. pragmatismo é uma coisa diferente de algo que só conduz resultados a curto prazo, isso é uma confusão demasiado frequente, e é frequentemente assim apresentado como forma de parecer que se pretende atingir resultados práticos.
    4. pragmatismo consiste em definir algo não pelas suas características mas pelas suas consequências
    5. definir algo pelas suas consequências é mais difícil uma vez que tem de ser mais exaustivo sob pena de ser mais facilmente contornado

  5. Antes de mais, as minhas desculpas ao Rui Miguel Seabra pelo atraso na publicação dos comentários que, mais uma vez, foram apanhados nas malhas do Akismet (alguém tem boas sugestões sobre como abrir a malha para comentários longos relevantes sem abrir as comportas do SPAM?).

    E quero agradecer pelos esclarecimentos dados e deixar bem claro que, por muito afirmativos que pareçam alguns dos meus artigos, neste blog dedico-me quase sempre apenas a “pensar alto”. E para esse processo, todas as vossas contribuições são úteis.

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