Das Märchen: quase perfeito

Tinha avisado e, como rapaz cumpridor que sou, fui ontem assistir à projecção de Das Märchen, a primeira ópera de Emmanuel Nunes.

Não éramos muitos e menos ainda estavam preparados para a sessão de 5 horas, com um intervalo de 1 hora, mas no fim da projecção aplaudimos, de pé alguns de nós, face à tela de projecção.
Uma reacção estranha, mas apropriada para a singularidade do evento.

Emmanuel Nunes é um génio. Não vale a pena tentar complexas formulações para dizer isto com mais detalhe ou mais pudor. E Das Märchen ficará certamente para a história como mais uma obra-prima por muito boas razões. Apesar de achar que a estrutura da peça poderia ser “emagrecida” em favor do “conforto do público”, sacrificando material sonoro que, sendo muitíssimo bom, não resulta da melhor forma dramaturgicamente, por questões de redundância. Mas é difícil encontrar falhas na estrutura musical ou no libreto, assim como na justiça que lhe foi feita pela esmagadora maioria dos intérpretes: cantores, actores, coro e orquestra.

Ainda assim, espero que esta produção de Das Märchen não fique para a história como a única ou sequer a melhor desta obra. Porquê? Porque (e não pretendo ofender ninguém) a equipa responsável pela encenação e realização plástica fez um trabalho que classificaria de medíocre. A reacção de parte do público, aliás, no final da récita, parecia reflectir um sentimento generalizado de mal-estar relativamente a essa componente do espectáculo: figurantes, dançarinos, coro, actores e cantores receberam as legítimas palmas, transformadas em ovação no caso de Peter Rundel, o director musical, e em clara homenagem, no caso de Emmanuel Nunes, mas a equipa dirigida por Karoline Gruber terá certamente sentido a não tão subtil tentativa de vaia de parte do público presente no São Carlos. E eu senti-me solidário.

Eu não faço ideia sobre qual a melhor abordagem plástica à complexa proposta de Das Märchen, mas tenho quase a certeza que esta não resulta. Os aspectos mais evidentes, para mim, são o desajuste praticamente absoluto dos figurinos, a mediocridade da cenografia, a banalidade da coreografia e a falta de pertinência de grandes partes do vídeo. Tudo junto, sobressai o desfasamento entre a realização musical e a realização plástica e a experiência total sai prejudicada: áreas extraordinariamente detalhadas e ricas do libreto e da partitura são atrapalhadas por esforços inglórios e quase patetas de sobre-ilustrar ou criar novas camadas de entendimento… mas não é preciso e transforma-se em ruído. E depois, não se concretizam visualmente ou em termos de movimento, acontecimentos e relações que, na partitura, se apresentam de forma muito subtil.

Genericamente, parece haver algum desentendimento no desenvolvimento das relações interdisciplinares que transformariam uma brilhante partitura e libreto num espectáculo de Arte Total e os “encaixes defeitusosos” notam-se demais. Mas não demais para ofuscar o génio de Emmanuel Nunes que, face à adversidade, brilha ainda mais.

2 pensamentos em “Das Märchen: quase perfeito

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