Quando os programas de formação e apoio se transformam num fim em si mesmos…

O Banco de Portugal estudou os programas de apoio aos desempregados dos últimos anos da década passada e concluiu que os milhões gastos foram pouco eficazes (notícia no Público).
Percebo que seja notícia, mas não creio que seja surpresa para quem quer que conheça uma parte desses programas, especialmente os programas de formação.

Os economistas referem, e bem, que um dos problemas foi não se ter apostado também em subsídios aos salários. É engraçado como o subsídio estatal é apontado ora como um mal terrível, criador de parasitas, ora é apontado como um instrumento importante para regular as áreas em que o mercado falha.  Mas, para lá dessa questão, a minha experiência diz-me que o problema maior deestes programas foi terem-se transformado num fim em si mesmos, em vez de se assumirem como meios de qualificação, transformação e progressão no mercado de trabalho para os diversos envolvidos. O negócio da formação financiada em Portugal— que deu até vários escândalos giros— tem uma dimensão tal e está de tal forma empenhado na sua auto-preservação que são raras as propostas formativas sérias e verdadeiramente voltadas para um processo de integração do indivíduo no mercado de trabalho real.

Isso vê-se, por exemplo, na distribuição da oferta formativa por áreas disciplinares, que obedece muito mais a lógicas estranhas que servem as próprias estruturas de formação e a maximização do seu lucro estão muito pouco viradas para o mercado “real”.

Há uma “anedota” real que ilustra muito bem esta lógica retorcida:
Um empresário de determinado sector da indústria necessitava de operários qualificados e contactou o Centro de  Emprego e Formação Profissional da sua área para que fosse criado um curso, para o qual ele dava condições de formação específica e garantia estágios (e empregos com futuro), cabendo ao Centro a integração desse curso num dos percursos formativos existentes e a garantia das outras áreas disciplinares necessárias à formação completa. Acordo feito e estabelecido, iniciam-se as entrevistas para recrutamento. A empresa participa na fase inicial do recrutamento e envia os jovens seleccionados para o Centro de Emprego para a finalização do processo. Chegados ao Centro de Emprego uma técnica de recursos humanos convence os jovens recrutados (que tinham ido à procura daquela oportunidade) que é muito melhor fazerem um Curso de Informática, porque “tem muito mais futuro”. Moral da história: o empresário ficou sem os operários qualificados de que precisava e que queria formar, os jovens foram fazer um curso que não tinha estágios garantidos, muito menos integração no mercado de trabalho assegurada, mas o Centro de Emprego deve ter cumprido uma quota qualquer de formação tecnológica e não teve que lidar com profissões “sujas”.

É só uma “anedota”, mas ilustra bem a realidade dos programas de formação e de outros apoios a desempregados.

E, enquanto não se quebrar esta lógica viciada, nada há a fazer.

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