O Acordo Ortográfico e a paternidade

A discussão acerca do Acordo Ortográfico está relativamente quente. Isso é bom, porque é sinal de alguma energia cívica.

Eu não estou contra o Acordo, nem a favor. Ao contrário do que é frequente, no meu caso, não tenho convicções demasiado marcadas a esse respeito. Pelo que vou vendo à minha volta pode muito bem ser uma questão geracional.

Sou sensível aos argumentos que se levantam contra o Acordo, mas parece-me que a indignação aglutinada neste movimento de opinião é diversificada e disfarça muitas indignidades. Demasiadas, na minha modestíssima opinião.
Mas eu uso esta língua há pouco tempo e a que falo, não é exactamente igual à que escrevo. E não escrevo nem falo a língua de Camões, Eça ou Pessoa. Falo esta mistura da língua que se fala aqui em Aveiro com umas coisas que aprendi no Porto e outras mariquices que fui buscar à literatura, ao entretenimento e a círculos académicos, profissionais e sociais que tive o infortúnio de frequentar. No pouco tempo que levo disto, tenho a certeza que fui falando línguas diferentes e que guardo, para ocasiões especiais, variantes mais ou menos eficazes.
Quanto à língua que escrevo, parece-me que será ainda parecida com a que me ensinaram na escola primária, no ciclo e nos primeiros anos da secundária, com ajustes subtis feitos pelos meus pais (terrível vício dos intelectuais esquerdistas de incentivar a leitura e a escrita) e uns quantos, muito menos subtis, feitos por mim próprio, ora teimoso no erro, ora embasbacado com as línguas que fui lendo.
Não tenho idade para dizer que, com mais ou menos acordo, a minha forma de escrever se manterá inalterável. Se nem sem acordo tenho a certeza de ter mantido alguma ortografia cristalizada nestes poucos anos que levo do uso da língua, que garantias posso dar para o futuro?
Quer isso dizer que me estou borrifando e que, com isso, contribuo para um “desastre” de proporções históricas? Duvido…

A Maria nasce um dia destes e vou gostar de a acompanhar na construção da língua que ela for usar. E, se tudo correr bem, vou tentar aprender umas partes e ensinar-lhe umas partes da minha, para não sermos “estranhos”. Como ferramenta, vou querer que ela estude e trate com cuidado a(s) ortografia(s) que lhe forem ensinando. E que mas ensine a mim, se eu ficar demasiado velho, ortograficamente falando.
Vou-lhe ler histórias, faladas na linha língua e, se me apetecer, noutras que já existam, ou noutras ainda que queiramos inventar. Quando ela já souber ler, vou-lhe dar livros dos avós, escritos por eles, por gente do tempo deles, ou ainda mais velhos. E vou-lhe dar as histórias que tivermos escrito, escritas na língua que estiver a escrever na altura.
Não lhe vou dar o Acordo Ortográfico, mas vou dar-lhe um dicionário pequenino, como o meu pai me deu quando eu fui para a escola. Um dicionário novo, só para ela, que há-de ter palavras que eu nem conheço.
Eu quero acreditar que a Maria vai crescer em graça e sabedoria. Tanta, que não lhe farão a ela mais confusão as consoantes mudas do tempo dos avós dela, do que me faziam a mim os “ph” e os “y” do tempo dos meus avós. Tanta, que a pátria dela continuará a ser uma língua filha da minha. Porque isso das línguas-pátria parecem-me territórios unipessoais e de responsabilidade limitada.

A ter que apostar em alguma coisa, aposto nisso: no compromisso gigantesco de nunca me afastar demais da língua da minha filha que ainda não nasceu. Mas atenção que não sou (completamente) parvo: confio suficientemente nas leis da física para saber que atracção gravitacional me dá uma vantagem “desleal”. Só tenho que me manter por perto e não abdicar da minha “densidade” própria. ;)

Nota: texto adaptado duma contribuição que fiz para uma discussão entre amigos.

8 pensamentos em “O Acordo Ortográfico e a paternidade

  1. Bom post!
    Como autor de Palavras Cruzadas, vejo o acordo como uma “oportunidade”, como português, não concordo com algumas alterações.
    Espero que a Maria venha a gostar de fazer Palavras Cruzadas…

    Felicidades,
    Paulo Freixinho

  2. Documento enviado à AR e PR:

    http://fs1.nuno.net/DiscordiaOrtografica.pdf

    Quanto à “oportunidade” das Palavras Cruzadas… resta saber de quem será essa “oportunidade”, se dos Portugueses se dos Brasileiros. E com o menor custo de mão-de-obra, e com a facilidade de desvalorização da moeda para facilitar as exportações, estou em querer que as Palavras Cruzadas em Portugal passarão a ser “Made in Brazil”.

    Cumprimentos,
    Nuno Ferreira

  3. Completamente de acordo, por isso é que coloquei a oportunidade entre aspas. Infelizmente, não auguro um futuro muito risonho para as editoras portuguesas. Aliás, no programa Prós e Contras sobre o assunto, uma certa jornalista brasileira deixou uma espécie de “aviso”…
    No entanto, existem outros factores que podem deixar ainda espaço para a tal “oportunidade”, tal como, diferença no léxico e qualidade, esta última terá de ser a minha “arma”… mas não vai ser nada fácil, não senhor!

    Cumprimentos,
    Paulo Freixinho

  4. na minha maneira de ver, o principal objectivo do acordo é incorporar na língua portuguesa algumas variantes que se falam noutros continentes. Ou seja permite que essas variantes não sejam vistas legalmente como línguas distintas da língua portuguesa. É como uma abertura de fronteiras (como o espaço de Schengen) em termos linguísticos. As reacções contra o acordo na minha opinião parecem ser essencialmente fomentadas pelas pessoas e entidades que perdem os privilégios que advêm de ter as fronteiras linguísticas fechadas (servindo-se de alguns testas de ferro). A estratégia parece ser apelar ao nacionalismo arcaico contra as influencias que vêm de fora. Isso não é uma atitude de um Portugal aberto, europeu e moderno, é mesmo na minha opinião uma atitude primitiva…Petição entendida como em prol do Acordo Ortográfico: http://www.gopetition.com/online/17740.html

  5. Caro João Santos, é necessário ser muito ingénuo para acreditar que este Acordo Ortográfico trará quaisquer tipos de benefícios para Portugal ou para a Língua Portuguesa. Trata-se de um acordo ORTOGRÁFICO (sublinho o ORTOGRÁFICO). Os dialectos do Brasil e do Português são distintos em muito mais que mera grafia. Ainda que TODA A GRAFIA de TODAS AS PALAVRAS fosse alterada por este Acordo Ortográfico para ficarem exactamente iguais, os dialectos seriam totalmente diferentes. No Brasil diz-se “salvar”, “concreto”, “tela” e “planilha”, enquanto em Portugal é “gravar”, “betão”, “ecrã” e “folha de cálculo”. Como tal, o Português do Brasil será SEMPRE diferente do de Portugal, por mais acordos ortográficos que de façam. A unificação dos dialectos NUNCA ocorrerá, por mais decretos que se façam. A língua que se escreve é a língua que se fala, e é impossível mudar com decretos o modo como se fala. Continuaremos a dizer “telemóvel”, ainda que se passe a escrever “telemovel”, “tele-móvel” ou “tele-movel”, e no Brasil continuará a ser “celular”. Pelo que, a escrita Portuguesa será SEMPRE diferente da escrita Brasileira. Este Acordo Ortográfico é uma palhaçada, não pelas alterações efectuadas à grafia das palavras, mas pelos motivos que lhe dão origem serem baseados em premissas totalmente incorrectas.
    Isto é óbvio. Só se explica existirem apoiantes deste Acordo Ortográfico pela via da credulidade cega aos políticos (tótós) que temos.
    Cumprimentos,
    Nuno Ferreira.
    http://fs1.nuno.net/DiscordiaOrtografica.pdf
    e já agora:
    http://www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa/

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