PageRank: é tão simples!

Li, com interesse, um post recente no AirDiogo acerca do PageRank, o sistema através do qual o Google organiza os resultados das pesquisas em função da relevância atribuída ao conteúdo da página ou site. A reflexão sobre a popularidade deste assunto e sobre as diferentes posturas de SEO – Search Engine Optimization que vão desde a explicação séria e simples dos parâmetros envolvidos até às lógicas obscurantistas e promessas milagoras, típicas de vendedores de banha da cobra é, parece-me, uma outra forma de atrair visitantes ao blog, aproveitando a onda gigantesca de pesquisas. No caso dele, como no meu, agora, ao escrever este post ou quando escrevi este outro, mais obsceno, ou na experiência recente do Nuno Saraiva, usando a orientação sexual da Brandie Carlile como chamariz de visitas, percebe-se que há um critério simples, superficial e fácil de manipular no sistema: se usarmos frases, palavras ou expressões muito populares e, especialmente, se lhes dermos valor semântico (num título é melhor que no corpo do artigo) e as repetirmos em vários contextos (as tags e índices são óptimas estratégias), podemos trepar a escala da relevância com facilidade. Mas é fácil de perceber que esta estratégia se usada de forma “maliciosa” gera visitas “enganadas”, o que não contribui nem para a reputação nem para a relevância global do site em causa. O artigo mais popular desde blog, por exemplo, chama-se “Pornografia, ou a arte de ser explícito“, mas duvido seriamente que as intenções duma parte significativa dos visitantes fosse ler a minha reflexão acerca das práticas de distribuição de publicidade no site do Correio da Manhã.

Mas, se percebermos este primeiro princípio, percebemos, de facto, que o segredo da relevância— por isso, o segredo do PageRank ou o segredo do SEO – Search Engine Optimization— é escrever de forma organizada e sistemática, com cuidados ao nível da marcação semântica dos conteúdos. Ou seja, é preciso cuidar dos conteúdos e pensar, pesquisar e analisar quais os termos e expressões de pesquisa mais usados pelos internautas que fazem parte do nosso público-alvo. E isso é simples, certo?

Um blog, um portal generalista ou outras experiências cujo único objectivo seja gerar visitas, sem preocupações de fidelizar públicos-leitores, pode dar-se ao luxo de seguir a onda dos acontecimentos, alternando entre referências aos últimos gadgets (o iPhone e o iPod são boas opções), escândalos sexuais, económicos ou políticos, fait-divers de vários tipos, ou alimentar as eternas flamewars de sistemas operativos (Windows vs. Mac vs. Linux) ou consolas de jogos (Playstation vs. Xbox vs. Wii), por exemplo. Esse comportamento gera visitas e aumenta a relevância / PageRank artigo-a-artigo, mas a inconsistência dum site que segue simplesmente hypes sucessivos, sofre com isso. Porquê? Porque se fosse apenas um problema de quantidade de keywords, não se justificava a investigação, o segredo ou até o registo de patentes à volta do “coração” do Google. Por um lado, referências avulsas a termos “populares” não chegam para enganar o sistema, já que todo o conteúdo é visado e são cruzadas referências para perceber se o artigo é ou não “genuíno”. É também aí que entra a importância da construção de links para o conteúdo. O número de sites que refere o nosso conteúdo, através dum link, é mais um sistema de validação da relevância dos conteúdos. E isso também é fácil de perceber: se eu for uma “autoridade” numa determinada área é natural que muitos sites dedicados ao mesmo assunto, ou artigos avulsos, se refiram e liguem a mim. E essa é uma medida socialmente aceitável, mesmo no mundo real do ensino, por exemplo. (Uso o termo “autoridade”, numa piscadela de olho ao sistema de Authority que o Technorati usa). Cá está outro parâmetro base de relevância: links dirigidos aos nosso conteúdo “provam” que ele é relevante. (Claro que as “roletas” de troca de links sugeridas por alguns “especialistas” e que ligam ad nauseam sites igualmente irrelevantes são identificados pelo sistema e pelos utilizadores, também. Isso e outras práticas semelhantes a vudu.) ;)

Mas, além disso, se o PageRank de cada página dum mesmo site for alto, mas responder a termos de pesquisa demasiado diversificados, não é possível determinar a relevância global do site, porque não existe um contexto temático em que ele se encaixe. Os links podem ajudar, mas não resolvem o problema de base. Por isso é que se fala muito da necessidade de “especialização”. Há até quem sugira que a melhor forma de garantir uma grande visibilidade é encontrar um “nicho” e explorá-lo até ao tutano garantindo que, à medida que o interesse cresce (e o interesse sobre qualquer coisa na Internet cresce sempre, é um problema básico de entropia), nos mantemos no topo da vaga.

Este é o tipo de coisas que os especialistas de SEO – Search Engine Optimization vão dizendo e vendendo, mas se um projecto estiver limitado tematicamente (que é o caso de quase todos os sites de empresas e organizações), não faz sentido falar de determinado tipo de manipulação de conteúdos ou da auscultação constante dos hypes gerais. Para um site “normal”, com objectivos pré-determinados e um posicionamento marginal às modas e tendências da web, o trabalho é, paradoxalmente, muito mais simples. Como é óbvio que a relevância absoluta do site será sempre condicionada pela popularidade do tema— uma sex-shop on-line não tem que trabalhar quase nada para garantir valores altos de relevância, enquanto um clube de leitura ou uma carpintaria terão que se contentar com um tecto baixo definido pelos hábitos de utilização e pela baixa densidade do “meio” específico onde estão—, o trabalho deve concentrar-se apenas na apresentação fluída e bem estruturada dos conteúdos e na adequação da escrita ao meio e aos hábitos (percebidos) dos internautas. Não é pouco trabalho, mas é simples:

  • escrever bem, sem ser nem prolixo nem telegráfico
  • identificar as palavras, expressões e frases em uso no “meio” e usá-las em quantidade, mas com critério, um pouco por todo o site (uma boa forma de fazer isto é usar os simuladores do Google AdWords que, a partir de uma expressão, nos dão as alternativas mais procuradas)
  • perceber que ninguém lê tudo, pelo que o que nos pode parecer redundante quando estamos a criar e/ou a rever conteúdos, pode ser perfeitamente aceitável para leituras na diagonal
  • usar as palavras e frases chave em títulos e sub-títulos, correctamente marcados semanticamente (<h1>, <h2>, etc)
  • não substituir por imagens conteúdo fundamental, a não ser que se usem criteriosamente as possibilidades de legendagem (tags alt e title) e/ou se adoptem técnicas de Image Replacement inteligentes
  • procurar os melhores locais on-line para se ser referenciado e tentar perceber como é que isso é possível (publicidade, troca de links, simples contacto?)

Não é magia, nem milagre ou prática mística, mas funciona. Sendo assim, porque é que se continua a falar destas coisas e há uma tão grande procura por estes assuntos? Porque as pessoas, empresas e organizações são preguiçosas e querem, no fundo, no fundo, descobrir a cura milagrosa que ponha o seu site no top dos tops, sem terem o trabalho de criarem, sistematizarem e organizarem conteúdos. Para os “preguiçosos” que podem, existe o Google AdWords, que, para quem puder pagar, permite colocar links patrocinados nas primeiras páginas de todas as pesquisas. Para os outros, é trabalho simples. Mais ou menos trabalho, mas simples e relativamente transparente. E o resultado final não é o mesmo: com o trabalho feito, o site aparecerá por mérito próprio e sem custos. Pela via imediata, o site só vai aparecer enquanto pagarmos e a eficácia provavelmente decresce com o tempo (um link patrocinado que não chega pelo próprio mérito às páginas principais causa desconfiança nos utilizadores).

E, com este artigo escrito, revejo e posso prever que, com tantas referências a hypes, ao Google e ao PageRank, a estratégias de SEO, a gadgets e a outros termos de pesquisa populares, vou ter outro pico de visitas. Justifica-se?

3 pensamentos em “PageRank: é tão simples!

  1. Claro que é uma forma de atrair visitantes.
    Aliás todos os posts (verdade seja dita) são feitos para atrair visitantes seja pelo título, conteúdo ou palavras chave (sou suficientemente egocêntrico para o admitir).
    Umas vezes resulta melhor outras pior.
    No entanto neste caso o meu objectivo não é posicionar melhor ou pior para o Google até porque neste tópico muito dificilmente conseguiria obter resultados satisfatórios.
    O objectivo era muito mais satirizar a importância do PageRank (cá está a palavra outra vez) para alguns. Talvez não tenha sido bem conseguido da minha parte, mas pelo menos diverti-me.

  2. Por esta ordem lógica poderias publicar aqui uma entrada “Web Design: é tão simples e continuando explicarias 3 simples passos para uma empresa criar o seu próprio web design:

    1 – Instalar o wordpress com alguns hacks, eg, uma página como “home”.
    2- Escolher um tema elegante ou na dúvida um tema do Chris Pearson ou uma variante do K2.
    3- Contratar um designer gráfico por 50 usd, num desses sites onde se pode contratar profissionais web baratuchos, para fazer o logo e 1 ou 2 imagens”

    Na prática ambos sabemos que web design é bastante mais do que isto (digo que que não percebo nada da arte) e que um bom design poderá ajudar uma empresa na sua presença online. Idem para o SEO, há muita informação que dás por adquirida que para a maior parte das pessoas que lida com isto nas empresas é chinês e posso-te dizer que muitas das tuas simplificações são no mínimo grosseiras.

    Estará o Pagerank sobrevalorizado? Absolutamente; mas como é algo ainda desconhecido e misterioso é apenas humano que os bloggers se apresentem como conhecedores do segredo: esse conhecimento é fonte de poder e de status social. Tal e qual como nas conversas informais nos nossos grupos de amigos.

    É também uma fonte de rendimentos para muitos e aí talvez devas começar por olhar às empresas que cobram e pagam por serviços que não vão rentabilizar: a maior parte das empresas não tem as criadas as condições para tirar partido do manancial que o SEO lhe poderá oferecer nem para expandir a sua presença do nicho temático para onde as remetes. Mas SEO é bastante mais do que a apresentação redutora que tu e o AirDiogo fazem e está, na minha óptica, cada vez mais integrado com o web marketing e a presença de uma organização/pessoa na web.

  3. @AirDiogo: eu acho que o teu post cumpre os teus objectivos, mas a verdade é que, para clientes de web designers ou web deveopers este é uma questão cada vez mais importante e a sua “mistificação” deve ser combatida, com mais ou menos seriedade.

    @António Dias: tinha a secreta esperança de ter algum comentário dum profissional da área. Tive sorte. E claro que faço generalizações grosseiras e chamo “simples” ao que não é assim tão simples. O que me interessa, e acho que perceberás isso, é deixar claro que as questões fundamentais são transparentes e podem e devem ser explicadas a toda a gente. Isso, para mim, é válido quer para o SEO, quer para o Design. Não me chocaria uma simplificação como a que apresentas, como forma de alertar as pessoas para algumas práticas obscurantistas da parte de ateliers e profissionais de Design que tentam mascarar as suas competências dum certo misticismo inatingível. Não aceito isso, o que não significa que não compreenda que a especialização permite fazer mais e melhor e compreender doutra forma fenómenos que são acessíveis e compreensíveis por todos. No Design, como no Marketing (online e offline) acho que se pode ganhar muito com uma desmistificação progressiva, por um lado, e com a afirmação inequívoca de que, sem trabalho (sobre conteúdos, especialmente) de todos (clientes e profissionais das várias áreas) não há resultados. Não concorda? Não tem exemplos de clientes que querem resultados sem quererem fazer a parte deles do trabalho. Eu tenho.

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