Insegurança: a guerra de audiências e a guerra de aparências

A visibilidade das questões da segurança e dos crimes violentos, como todos sabemos, é alimentada pela guerra de audiências que destrói toda a necessidade ética de verdade na comunicação social. Não quero com isto dizer que a sensação que os crimes são embustes (tenho imenso respeito pelas vítimas), mas apenas salientar que o real aumento da sensação de insegurança é alimentado pela ganância de quem não olha a meios para fazer manchetes ou aberturas de telejornais verdadeiramente “espectaculares”.

O Estado reagiu a esta anomalia sazonal com uma estratégia assombrosa: à guerra de audiências sobrepõe uma gerra de aparências, colocando, aparentemente, todos os efectivos de todas as forças de segurança na rua, em acções igualmente “espectaculares”: cercos a bairros sociais, rusgas e operações stop de dimensão épica, num esforço inusitado de, pela manipulação mediática, inverter a tal sensação de insegurança que cresce. O Governo Socialista concretiza assim o discurso demagógico das direitas populistas, sobre a necessidade de exercitar o músculo do aparelho repressivo e, duma só vez, aparenta querer tirar margem de manobra ao discurso da direita e ocupar, com a ilusão de segurança que as operações policiais “espectaculares” encenam, o espaço da ilusão de insegurança que a excessiva mediatização de alguns crimes instalou.

Quando o “barulho das luzes” diminuir, vamos continuar a viver no mesmo país, com as mesmas desigualdades e assimetrias sociais e económicas, com as mesmas razões para a marginalidade, os mesmos níveis de exclusão e os mesmos níveis de insegurança. Ou então, a “espectacularização” de que são vítimas os suspeitos do costume fará com que fiquemos um bocadinho piores, com fossos um bocadinho mais difíceis de transpôr à volta de cada um de nós.

2 pensamentos em “Insegurança: a guerra de audiências e a guerra de aparências

  1. Não sei que idade tem quem escreveu este artigo, mas eu pessoalmente tenho saudades do tempo em que, se havia necessidade de ir a uma farmácia a meio da noite, não havia qualquer problema, inclusivé ia-se a pé e se encontrássemos alguém pelo caminho, era outro como nós. Talvez a pessoa que escreveu este artigo, não ande a pé, não use transportes públicos, e nunca foi roubado em plena via nem ameaçado de morte com arma branca. Por vezes tem de se pertencer à classe baixa ou média baixa para se perceber muitas e muitas coisas, que a classe média alta e alta não entende. Caso a pessoa que escreveu este artigo seja da minha geração e da classe média-baixa ou baixa dou-lhe os parabéns pois deve ser um extra-terrestre.

  2. Eu, que escrevi este artigo, tenho 31 anos, um rendimento de classe média-baixa e fui assaltado mais do que uma vez em mais do que uma cidade. Com agressões em dois casos.
    Isso responde à sua questão? De certeza que não me qualifica como extra-terrestre…
    Simplesmente, também conheço alguns dos bairros tratados como “suspeitos do costume”.

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