Uma proposta modesta (e revolucionária)

Sigo com atenção e frequência o blog do Jeffrey Zeldman. O que me levou ao blog são questões eminentemente técnicas e especializadas— o Zeldman é uma sumidade no campo do web design e dos standards—, mas o que me faz voltar e mais me impressiona é a qualidade da escrita e, acto contínuo, do pensamento.
Ontem, numa “proposta modesta“, o Jeffrey Zeldman escreveu algumas coisas fundamentais acerca da natureza do actual sistema político-mediático norte-americano. Proponho esta tradução (não oficial nem autorizada) porque vale a pena aceder ao pensamento dum norte-americano lúcido e porque esta proposta modesta podia e devia ser levada a sério um pouco por todo o lado.

Uma proposta modesta

por Jeffrey Zeldman (trad. João Martins)

É ilegal difundir falsidades em anúncios de televisão ou rádio, a não ser que se esteja a concorrer a um cargo político.

Se estiver a vender pasta de dentes, as suas alegações têm que ser validadas por profissionais médicos e juristas. Mas não se estiver a vender um cadidato.

Se estiver a vender um candidato, não só pode mentir acerca do seu passado, mas, de forma mais clara, pode mentir acerca do seu adversário.

Estas mentiras são vistas e ouvidas por milhões de pessoas, não só quando são difundidas como anúncios pagos, mas também quando circulam de forma gratuita nas redes noticiosas em funcionamento permanente, ávidas de controvérsia. E, depois de circularem gratuitamente, tornam-se assuntos para conversas “independentes” e “sem preconceitos”, onde se defende que existem sempre dois lados em qualquer história, mesmo quando um deles mente. Duas palavras: Swift Boat [referência a campanhas contra John Kery em 2004].

As mentiras, e os esforços humilhantes dos candidatos para se livrarem delas, preenchem o ciclo noticioso e formam o discurso nacional. E esta ruptura com a realidade, terrível e moralmente indefensável, persiste, mesmo quando o país está de rastos.

Se as redes emissoras recusam anúncios de cigarros, como é que podem aceitar, sem hesitações, anúncios políticos desonestos? Os cigarros matam pessoas, mas os anúncios políticos mentirosos ferem todo o país. Nenhuma democracia pode permitir isto, menos ainda quando o pais está em guerra, sob a ameaça existencial de terroristas e com a economia em queda livre.

Por isso, esta é a minha ideia. Uma que poderia funcionar, se as redes emissoras norte-americanas se lembrassem que são Americanas, em primeiro lugar, e prospectoras de lucro, em segundo.

Assim como se uniram para acabar com os anúncios a cigarros, as estações de televisão e as rádios, e os publicitários, têm que se juntar e chegar a acordo relativamente à necessidade de deixar de tolerar falsas declarações em anúncios políticos. Se emitissem um anúncio político que se viesse a provar ser uma mentira, as redes emissoras passariam a pagar uma elevada multa e o anunciante, uma ainda maior.

Para evitar multas esmagadoras, as emissoras, insistiriam em provas das declarações feitas em anúncios políticos, da mesma forma que exigem provas das declarações feitas nos anúncios a pastilhas elásticas sem açúcar.

Os anunciantes políticos não poderiam mentir acerca dos seus adversários. Teriam que os atacar de forma honesta, ou falar acerca dos problemas reais do país e sobre as soluções propostas pelo seu candidato.

Imaginem. Poderíamos ouvir anúncios sobre a crise bancária e sobre as propostas de cada candidato para a enfrentarem.

Os candidatos poderiam apresentar de forma resumida as suas posições acerca do Iraque e do Afeganistão e acabar com ligações para posições mais aprofundadas nos seus websites.

O público poderia discutir os assuntos reais que nos afectam, em vez das “controvérsias” fabricadas ao estilo “Entretenimento da Noite”. As pessoas poderiam votar nos candidatos com base nos seus percursos e nas posições que têm sobre os diferentes assuntos.

Seria mesmo como uma democracia.

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