Novelas no blog #2: a liberalização do domínio .pt (questões de valor e especulação)

Outra “novela” recente, em termos de participação de leitores aqui do blog, é a discussão acerca dos vícios e virtudes da liberalização do domínio .pt, sobre a qual escrevi em Maio de 2008, e que, recentemente, originou uma troca intensa e extensa de comentários entre dois leitores com visões bastante especializadas e particulares desta questão, por serem ambos, pelo que percebi, profissionais do ramo. A discussão centra-se precisamente no problema de determinar o eventual valor da terminação .pt num mercado liberalizado, ou seja, discute-se o real potencial de negócio especulativo presente no registo de novos domínios e sua posterior transacção. O conteúdo da discussão entre estes dois leitores, ainda que pareça representar pontos de vista opostos, vem apenas reforçar a minha ideia inicial: a liberalização do domínio não apresenta vantagens óbvias para os utilizadores da internet, nem para as organizações ou produtores de conteúdos que pretendam ter uma presença online com esta terminação. Os verdadeiros interessados na liberalização deste mercado são os intermediários (especuladores selvagens ou não) que olham para o registo de domínios livres como uma oportunidade de negócio. Chega-se mesmo a comparar o registo dum domínio com a aquisição dum terreno no qual não se pretende fazer nada, apenas com a perspectiva de que ele venha a ter valor no futuro… pois, para mim, a especulação imobiliária com casas, terrenos ou domínios online faz-me o mesmo tipo de confusão e provoca-me o mesmo tipo de repulsa. É verdade: não sou nem capitalista nem liberal e não acredito no mercado ou nas suas virtudes sem fim. Custa-me sequer pensar na criação de valor a partir do nada, não gosto de oportunistas e acho que os mercados (todos) têm que ser regulados. O dos domínios não devia ser excepção.

No meio dos comentários, escreveram-se algumas coisas graves acerca do estado actual da regulação do domínio .pt e, a confirmarem-se, ficamos apenas a saber que esta é mais uma das áreas em que o país é uma espécie de república das bananas. Continuo, por isso, pouco convencido das virtudes da liberalização e cada vez mais preocupado com o processo de regulação existente.

E registo com estranheza que alguém diga, como que a justificar a profundidade das intervenções aqui no blog, que há poucos sítios onde se fale sobre isto. É verdade? Esta não é uma questão pertinente na blogosfera “especializada”?

4 pensamentos em “Novelas no blog #2: a liberalização do domínio .pt (questões de valor e especulação)

  1. Sou completamente a favor da liberalização, mesmo que isso atraia a especulação. Detesto o squating, mas também detesto a regulamentação excessiva.

    Estou farto de ver sites qualquercoisaPT.com, PTqualquercoisa.com, na sua maioria de amadores (mas nem por isso de menor valor), sem os recursos para ter um .pt. E o .com.pt é caro.

    O EuroDNS.com (um registrar) tem uma tabela com os preços dos domínios de vários países. Regra geral, os países que consideramos mais desenvolvidos têm preços muito mais razoáveis, menos burocracias e menos restrições (só lá está o .com.pt, por exemplo).

  2. Concordo com a liberalização – não que goste de domínios .pt, mas pelo contrário, detesto a forma como a DNS tem a estrutura de gestão de um domínio organizada (demasiada burocracia).

    Detesto também ver domínios .pt registados sem que exista empresa ou marca registada no INPI, a justificação que me dão ao telefone é que são marcas registadas internacionalmente (interessante).

    Mas vamos apostas: nem daqui a dois anos temos os domínios liberalizados.

  3. Caro João,


    Chega-se mesmo a comparar o registo dum domínio com a aquisição dum terreno no qual não se pretende fazer nada, apenas com a perspectiva de que ele venha a ter valor no futuro… pois, para mim, a especulação imobiliária com casas, terrenos ou domínios online faz-me o mesmo tipo de confusão e provoca-me o mesmo tipo de repulsa. É verdade: não sou nem capitalista nem liberal e não acredito no mercado ou nas suas virtudes sem fim. Custa-me sequer pensar na criação de valor a partir do nada, não gosto de oportunistas e acho que os mercados (todos) têm que ser regulados. O dos domínios não devia ser excepção.

    A questão central que faz a divergência de opiniões é precisamente essa e não é “resoluvel” com posts ou pequenas trocas de ideias, mais ou menos aguerridas, embora seja importante que a discussão se faça onde for possível, em que no caso do “mundo pt” não há muitos sítios para tal.

    Uma coisa importante a notar é que um mercado especulativo não tem de ser desregulado. Antes pelo contrário! O que não pode haver é este conflito claro entre uma ideia que era defendida “até à morte” e que tem sido desgastada pela força do tempo e da mudança, culminando naquele slogan (quanto a mim) ridiculo do “.PT para os portugueses” para agora já não ser bem assim…

    Outra coisa importante é que um especulador é um agente de transferência de risco algo importante para o funcionamento de qualquer mercado. Mais. Muitos especuladores constroem sites não se limitando apenas ao “ganho fácil” ou o “ganho sem produção”.

    Eu falo daquilo que é a minha experiência e conhecimentos do mercado. Estou na internet desde 1993, fiz o meu primeiro site em 1996 e ao longo dos anos comprei várias centenas de dominios e vendi algumas dezenas, ao mesmo tempo que fiz tambem umas poucas dezenas de sites em termos profissionais e pessoais. Ou seja, sou um especulador mas também um produtor.

    Compreendo e até estou de acordo com a ideia de que a liberalização irá beneficiar em primeira mão os especuladores. Acontece que um produtor também pode ser um especulador e deve ter TODO o direito a o ser. Se eu fiz um site que ganhou seguidores ao longo dos anos e chega a um ponto em que não posso continuar com o projecto quero ter TODO o direito a poder vedê-lo a quem o quizer comprar seja qual for o motivo do comprador. Ora, este direito não me é dado pelas regras actuais e pior ainda, estes avanços e recuos sem uma ideia estratégica só pioram a situação pois pelo caminho centenas de dominios estão a ser registados para clara especulação até ao momento em que o mercado acabar por ser liberalizado.

    Cumprimentos,
    Antonio

    PS: a “profundidade das intervenções” da minha parte foi em reação á insistência de comentários de uma mesma pessoa a querer impingir à força a sua ideia. A blogosfera “especializada” é praticamente nula e um local com tantos comentários (e longos) será indexada pelos motores de busca mais facilmente. Logo é importante que sejam apresentados argumentos consistentes e não meros “achos ques” ou argumentos por teimosia.

  4. Ao fim e ao cabo como é que podemos interpretar o termo “especulação” aplicado ao mercado dos domínios?!
    Para mim “especular” é comprar ao preço mais baixo possível e esperar que o bem se valorize pela conjuntura do mercado e tentar vender ao melhor preço possível.
    Ora se quem compra (aluga, se quiserem…) um domínio que à partida não tem valor – não passando de um nome – para além do cobrado pelo registrar – como um batatas.com, por exemplo – espera ganhar dinheiro com ele, é por que espera que alguém possa querer utilizar e dar valor ao dominio, como seria o caso de uma nova empresa a querer impor-se no mercado – que serão a maioria dos casos – e que terá que ficar à sua mercê para ter acesso a esse nome. Eu penso que uma nova empresa já tem grandes dificuldades a ultrapassar e não precisa de mais uma.

    Eu acho que a liberalização tem as suas virtudes, mas que poderá ser um entrave a quem quer realmente produzir alguma coisa e não só aproveitar-se de quem quer produzir.

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