jazz.pt | 2 dias de História do Jazz

A 28 e 29 de Abril de 2008 a Casa da Música ofereceu ao seu público 2 eventos históricos em vários sentidos. O mais óbvio trata-se da referência explícita, nos 2 concertos apresentados, a duas figuras seminais da História do Jazz: Charlie Parker e Thelonious Monk. E interessa, não só por isso, mas também por se afirmarem, em duas noites autónomas, projectos com uma forte componente historiográfica e, até, pedagógica. Os dois pianistas e compositores responsáveis por cada uma das noites, Bernardo Sassetti e Jason Moran, não só partilharam de forma genuína as suas referências mais “profundas”, como apresentaram, com diferentes perspectivas, percursos através da(s) história(s) do Jazz que permitem compreender a sua evolução natural e a inevitabilidade dum futuro sempre transformador.

O texto que se segue foi escrito a propósito desde duplo evento, para o número 19 da Jazz.pt.

Texto escrito por João Martins, a 30/05/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 19 da revista jazz.pt, com fotografias de Luís Pedro Carvalho.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

2 dias de História do Jazz

A 28 e 29 de Abril, a Casa da Música ofereceu ao seu público 2 eventos históricos em vários sentidos. O mais óbvio trata-se da referência explícita, nos 2 concertos apresentados, a duas figuras seminais da História do Jazz: Charlie Parker e Thelonious Monk. E interessa, não só por isso, mas também por se afirmarem, em duas noites autónomas, projectos com uma forte componente historiográfica e, até, pedagógica. Os dois pianistas e compositores responsáveis por cada uma das noites, Bernardo Sassetti e Jason Moran, não só partilharam de forma genuína as suas referências mais “profundas”, como apresentaram, com diferentes perspectivas, percursos através da(s) história(s) do Jazz que permitem compreender a sua evolução natural e a inevitabilidade dum futuro sempre transformador. Nenhum dos projectos cai na tentação absurda de homenagear estas grandes figuras criativas com a simples repetição do seu repertório ou linguagem, mas cada um deles, à sua maneira, procura construir pontes entre momentos fulcrais da História do Jazz, do percurso pessoal e musical destes novos compositores e a percepção que o público pode ter das ligações e percursos e da vitalidade da forma jazzística.
Apesar de tudo, e, felizmente, as duas performances são incomparáveis, já que os processos, as estratégias e os meios em uso separam a proposta dos dois pianistas, em aspectos fundamentais. Assim, a sequência assumiu um carácter complementar, quer nas visões apresentadas, quer nos universos explorados. Quem teve a sorte de assistir aos dois concertos pôde, por isso, aprender e reflectir sobre o (papel d)a História do Jazz na sua renovação.

A proposta de Sassetti

Muito mais eficaz do que manuais, compêndios, conferências e exercícios de escuta, o concerto proposto por Bernardo Sassetti (visivelmente entusiasmado com a proposta, com o facto de estar a tocar de novo no Porto e por partilhar o palco com músicos cúmplices de longa data), não ficou preso ao ícone de Charlie Parker, ao seu repertório ou aos vícios e clichés estilísticos do seu tempo (geniais no seu tempo), e procurou, num esforço que é já conhecido do pianista, compositor e arranjador português, estabelecer pontes com o público, explicando de forma simples estratégias comuns no desenvolvimento do Jazz, ilustradas com exemplos muitíssimo eficazes que variaram entre versões de standards como “Yesterdays” (brilhantemente desenvolvido num duo entre os “irmão musicais” Sassetti e Sambeat), e composições baseadas em temas de Charlie Parker, Charles Mingus, Thelonious Monk… De sublinhar a extrema honestidade de Sassetti nas suas intervenções, declarando, sem pudor, as suas referências e explorando-as, quer através da composição, quer através do arranjo, na construção dum concerto que ofereceu, simultaneamente, um panorama do desenvolvimento da linguagem jazzística e um olhar privilegiado sobre os processos que mantêm a música de Sassetti viva.
Sem preocupações académicas e sem preconceitos, Sassetti iniciou o concerto com “Bird and Beyond” e marcou imediatamente um certo sentido do seu discurso: ao afirmar a importância avassaladora de Bird (Charlie Parker) na construção dos fundamentos do discurso jazzístico, sem abdicar da necessidade imperiosa de aspirar ir mais além, no sentido da liberdade, representada, no discurso de Sassetti, pela figura de Ornette Coleman, Sassetti, e os músicos que com ele partilham este projecto, assumem a condição primária do Jazz: o eterno compromisso entre regras e vocabulários sedimentados (tantas vezes artificialmente) e uma elevada aspiração à liberdade.
Também por isso, Sassetti, prefere falar e mostrar estratégias “clássicas”, como a constante reinvenção dos padrões harmónicos do Blues, de Rythm Changes e de versões de standards (muitas vezes a música da Broadway), ao mesmo tempo que eleva Charles Mingus à condição de um dos maiores “band leaders” de sempre, pela capacidade de criar material onde cada músico era convidado a encontrar o lugar para se exprimir. E constata-se que a escrita de Sassetti, em muitos momentos, parece encontrar esse equilíbrio, oferecendo ao público as vozes singulares de cada um dos músicos convidados. A cumplicidade antiga com Perico Sambeat poderá, eventualmente, colocá-lo em destaque, mas as performances de Alexandre Frazão, André Fernandes e Paco Charín são igualmente de grande nível.
O concerto, genericamente, funciona muitíssimo bem, sem ceder a facilidades artificiais, mas mantendo-se fiel à integração do público na experiência, que resulta com grande sucesso.
Charlie Parker acaba por ser, assumidamente, um pretexto para uma viagem por figuras marcantes da História do Jazz e no percurso pessoal de Sassetti e a abordagem contextualizada, mas actual e virada para o futuro na escrita e na interpretação permitem compreender a vitalidade do Jazz.

Casa da Música, Sala Suggia
28 de Abril 2008
Homenagem a Charlie Parker, por Bernardo Sassetti

Bernardo Sassetti piano
Perico Sambeat saxofone alto e flauta trasnversal
André Fernandes guitarra
Paco Charín contrabaixo
Alexandre Frazão bateria

Jason Moran e Thelonious Monk

A proposta de Jason Moran, resultado duma encomenda norte-americana e com estreia europeia na Casa da Música, é mais focada directamente na figura incontornável de Monk e nas complexas relações que o pianista e compositor norte-americano estabelece com ele. Além da componente multimédia, todo o conceito do concerto/performance assume um carácter relativamente biográfico, apresentado excertos de entrevistas de Monk, gravações de ensaios, imagens dos lugares que habitou, etc. Ainda assim, o concerto não se tratou da simples exploração do vasto repertório de Monk e assumiu um carácter reflexivo e reactivo perante essa imensa herança, permitindo, mais uma vez, perspectivar um personagem singular da História do Jazz como motor de renovação. Mais do que as frases ou as estruturas de Monk, Jason Moran, centrou-se nas ideias musicais, nos processos criativos e nas relações estabelecidas entre os diversos músicos que integraram o mítico concerto “Monk at Town Hall”. A performance, que corria o risco de se tornar pesada e dispersiva, pela componente multidisciplinar, mantém o nível de coesão necessário para que os pontos fundamentais da experiência possam ser reforçados, sem redundâncias ou banalizações. Pareceu-me que alguns glitches técnicos e falhas de revisão da tradução do vídeo poderiam ter sido evitados, mas, regra geral, quer o vídeo, quer o som gravado, permitiu a criação dum cenário psico-acústico e visual que clarifica a natureza da relação da música de Jason Moran com a figura de Thelonious Monk.
A gestão criteriosa do vasto ensemble permitiu igualmente a criação de momentos diferenciados, num leque de expressões, que foi desde o solo introspectivo de Moran (sobre gravação de Monk) até à sonoridade cheia de big band, passando pelas várias dimensões (volumes, timbres e níveis de interacção) que as diversas combinações permitiram.
Os espaços criados para solos ou momentos de pergunta-resposta talvez tenham destacado os dois saxofones do grupo, mas genericamente, todo o grupo serviu com grande qualidade e entrega a escrita nem sempre simples de Moran e os momentos de interacção com gravações, em que cada um era deixado sozinho com o som dentro da cabeça (in my mind), reagindo instintivamente, sem possibilidade de ouvir nada mais que não a gravação, num dos momentos mais intensos do concerto.
A componente biográfica da proposta de Jason Moran concretiza-se não só na utilização de excertos de entrevistas e ensaios de preparação para o célebre concerto de 1959, mas também nas memórias do próprio Moran quanto ao primeiro contacto que teve com a música de Monk, que o terá feito decidir a carreira futura e a pesquisa que empreendeu para encontrar as raízes de Thelonious nos campos de algodão onde o seu pai tinha sido escravo.
A carga emocional da proposta é, por isso, significativa e o resultado intenso.
Uma nota final apenas para referir que não foi claro o objectivo da incursão final dos músicos pela plateia e posterior ocupação dum átrio da Casa da Música. O carácter livre e festivo convidaria a uma maior participação de todos e a uma interacção diferenciada, que o formalismo da Casa da Música (ou do seu público?) não permitiu.

Casa da Música, Sala Suggia
29 de Abril 2008
In My Mind: Monk at Town Hall, 1959, por Jason Moran
(estreia europeia)

Jason Moran piano
Jason Yarde saxofone alto
Byron Wallen trompete
Andy Grappy tuba
Fayez Virjii trombone
Denys Baptiste saxofone tenor
Tarus Mateen contrabaixo
Nasheet Waits bateria

Conclusão

Com a apresentação sucessiva deste dois projectos a Casa da Música contribui para o aprofundamento da compreensão das relações entre a História do Jazz, o seu presente e o seu futuro.
A eficácia das intervenções, parece-me óbvio, excede de forma clara o efeito que outras iniciativas possam ter, já que nos dois casos, o material histórico é compreendido e digerido imediatamente no contexto de propostas de futuro, liberto de constrangimentos museológicos ou atitudes conservacionistas. A importância destas e doutras figuras basilares da História do jazz torna-se, de facto, tão mais evidente quanto a sua influência permite traçar novos percursos e criar novas ligações.

Texto escrito por João Martins, a 30/05/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 19 da revista jazz.pt, com fotografias de Luís Pedro Carvalho.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

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