jazz.pt | Insólito na Casa da Música

Texto escrito por João Martins, a 17/07/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 20 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Saxophone Summit

  • Dave Liebman sax tenor, soprano e flauta
  • Ravi Coltrane sax tenor
  • Joe Lovano sax tenor e clarinete alto
  • Phil Markowitz piano
  • Cecil McBee contrabaixo
  • Billy Hart bateria

Casa da Música, 10 de Julho 2008, 23h00, Sala Suggia

INSÓLITO

Pouco mais de um mês depois do lançamento de “Seraphic Light” (Telarc, 2008), o regresso de Saxophone Summit a Portugal, renascido após a morte trágica de Michael Brecker com a colaboração de Ravi Coltrane— não no lugar de Brecker, mas na manutenção da estrutura do sexteto com 3 saxofones—, alimentava consideráveis (e compreensíveis) expectativas. E a grande afluência de público entusiasta à Casa da Música foi reflexo disso mesmo.
O projecto liderado por Dave Liebman, assumidamente comprometido com a exploração da herança menos visível do mestre do sax tenor John Coltrane, procurando, mais do que tocar o repertório “tardio” de Coltrane, encontrar formas de o (re)aproximar do público, iluminando os diferentes aspectos que tornam esta música “transcendente” e, por isso mesmo, menos imediata, conquista de facto a crítica e o público especializado e, aparentemente, a particularidade de juntar em palco tantos nomes consagrados (3 dos mais importantes saxofonistas do Jazz de hoje, seja com Brecker, até 2007, seja com Ravi Coltrane, agora, unidos a uma secção rítmica de luxo) confere ao projecto um factor atractivo extra que, felizmente, mobiliza também um público menos especializado. A designação usada por vezes de “os 3 tenores do jazz” explora precisamente esse aspecto grandioso e mediático que é justificado não só pelo imenso currículo de cada um dos músicos, como pelo considerável esforço empregue na procura do equilíbrio entre as diversas personalidades musicais e a herança que pretendem partilhar.
Não era por isso de estranhar o entusiasmo e a invulgar afluência de público e, também por isso, a sucessão de acontecimentos neste dia 10, na Casa da Música, pode ser descrita como “insólita”, com um olhar benevolente, mas configura-se como uma das situações mais caricatas, graves e deprimentes a que tive oportunidade de assistir numa estrutura e evento desta natureza. O concerto, incluído no ciclo “Verão na Praça” estava previsto para ocorrer na Praça, com a possibilidade de acontecer na Sala Suggia, caso as condições meteorológicas a isso obrigassem (que foi o que aconteceu com “Blood On The Floor“, pelo Remix Ensemble, 5 dias antes). Esta variabilidade é normal e pressupõe apenas alguma capacidade de previsão e planeamento, pelo que, quando ao princípio da noite e de acordo com as previsões meteorológicas desse dia, começou a choviscar, o público já presente presumia que o concerto seria então mudado para a Sala Suggia, apesar do equipamento já montado na Praça. Com espanto crescente, proporcional ao número de pessoas que continuava a chegar e a engrossar a multidão, fomos sendo informados que o concerto decorreria na Praça, uma vez que o material já estava montado. O espanto foi temperado com humor, aqui e ali, quando, à hora marcada para o início do espectáculo (22h00) e com uma chuva persistente a varrer a Praça, se ouviam assistentes da Casa da Música dizer que a decisão acerca da realização do concerto na Praça ainda estava a ser tomada, que existia esperança de que o tempo melhorasse e que seria feito um anúncio em breve. Entre os típicos comentários desiludidos ora com o Estado da Nação (que se debateu na AR nesse mesmo dia) ora com o mais que provável cancelamento do concerto (estes em mais do que uma língua, já que o concerto de Saxophone Summit teve dimensão suficiente para atrair outros públicos, nomeadamente espanhóis), o anúncio prometido causou acima de tudo perplexidade: o concerto começaria 45 minutos depois da hora marcada, na Praça (onde chovia tanto na plateia como no palco, ainda), a não ser que as condições meteorológicas o não permitissem. Prometia-se a troca dos bilhetes ou a devolução no dia seguinte, mas reforçava-se a vontade de fazer o concerto com o referido atraso. Da multidão mobilizada não é claro quantos se retiraram, mas não terão sido muitos. Fosse pela perplexidade, fosse pela expectativa de seguir a novela até ao fim, o público foi-se espalhando pelos corredores, pelas escadas, pelo foyer e pelo café e às 22h40, a perplexidade é alimentada com um novo anúncio, verdadeiramente espantoso: dada a inexistência de condições meteorológicas (que o público podia comprovar há mais de 3 horas), mas face à “enorme vontade” de realizar o concerto, ele iria ter lugar às 23h00 (uma hora depois da hora marcada), na Sala Suggia, mas “ACÚSTICO”. A reacção generalizada misturava o alívio e satisfação pela realização do concerto, com a indignação face à desorganização e ao atraso, temperada, aqui e ali, pela incredulidade de quem (não) compreendia o verdadeiro significado da referência ACÚSTICO.
Propunha-se a Casa da Música a apresentar na Sala Suggia (com mais de mil lugares e deficiências acústicas bem conhecidas) um sexteto de Jazz sem qualquer amplificação? Com que objectivo? Porquê? Quem teria tomado a decisão, tendo preferido a apresentação nessas condições ao já previsível cancelamento? Saberiam os músicos a verdadeira dimensão do problema? Estaria o público preparado para uma experiência desta natureza?

Estas e outras perguntas acompanharam-me e mantiveram-me relativamente baralhado até ocupar o meu lugar na 3ª fila, procurando garantir alguma proximidade do palco, e a quantidade de gente que acedeu a assistir ao concerto nestas condições, enchendo a sala a perto de 2/3 da lotação (ou seja, com muito público a uma distância muito considerável do palco) deixou-me inquieto. Tendo assistido a vários concertos naquela sala, diversificados nas suas necessidades de amplificação, e tendo mesmo tido a oportunidade de tocar naquele palco, toda a situação me parecia surreal: os 3 saxofones sem amplificação teriam problemas de definição e amplitude, assim como a bateria, mas um piano acústico seria impossível de ouvir, a não ser que estivesse a solo e um contrabaixo com um simples combo no palco garantia condições catastróficas para a relação entre os diversos elementos da secção rítmica e tornaria absurda a exploração dos “solos simultâneos”— uma das características da herança de Coltrane que o Saxophone Summit procura realçar— já que, sem o apoio da amplificação, a Sala Suggia, quer no palco, quer para a plateia, pelas suas características acústicas, deixa tudo “empastelado”.
As perplexidades que sentia ao entrar na sala pareciam reflectir-se também no ar confuso de alguns membros da banda, com destaque para Phil Markowitz que compreendeu de imediato as dificuldades que teria em fazer chegar ao público, ou mesmo aos seus cúmplices em palco, o som do piano. E durante todo o concerto, o desconforto (e mesmo o desencontro) em palco entre os vários músicos reforçava apenas o enorme espírito de sacrifício ali investido. Um sacrifício inglório e desnecessário, já que ninguém tinha nada a provar. Ainda assim, de forma esforçada e manipulando a estrutura do concerto e até de cada tema, cada um dos 6 músicos teve o seu espaço de afirmação, necessariamente a solo, no caso do piano, contrabaixo e bateria, com um suporte mínimo no caso dos saxofones. O sexteto, como tal, nunca se ouviu, mas os ouvidos mais treinados terão imaginado e usufruído dessa ficção. E mesmo nas intervenções solistas, partes significativas das ideias musicais expressas só se consolidavam no complemento entre o que se ouvia na realidade e o que se esperava ouvir.
Uma experiência desgastante para os músicos e, certamente, para parte do público, resultado dum comportamento incompreensível e, esperamos, irrepetível, da Casa da Música.
Sem ter a certeza de ter sido o que realmente se ouviu (ou quanto disto é fruto da minha imaginação), é interessante notar que a lógica do disco, em que os temas mais densos e transcendentes do Coltrane dos anos 60 são reservados para o fim, não é seguida no concerto. A abertura, com “Seraphic Light“, o tema que dá nome ao álbum, e com os 3 saxofones a explorarem solos simultâneos, liberdade rítmica e harmónica, apoiados numa base densa e ondulante da secção rítmica, esclarece em palco a verdadeira natureza do projecto, mas, no caso concreto, demonstrou também imediatamente as situações impraticáveis. O tema mais “claro” terá sido “The 13th Floor“, de Ravi Coltrane, com introdução solo de Cecil McBee e a diversificação dos sopros (Dave Liebman no sax soprano e Joe Lovano no clarinete alto) que “abriu” ligeiramente o campo sonoro. Phil Markowitz teve oportunidade de desenhar também ele uma introdução a solo, assim como Billy Hart que pode, ainda assim, explorar algumas situações de partilha com os saxofones (um de cada vez) aproveitando a supremacia do volume.
Mas qualquer consideração pormenorizada sobre o concerto terá tanto de conjectura como de facto, pelo que será sempre duma enorme injustiça para com os músicos. Sempre menor do que a injustiça praticada pela Casa da Música, ainda assim.

Um último apontamento de perplexidade: apesar do cenário descrito, a reacção do público que permaneceu foi entusiástica, com palmas de toda a sala, inclusivamente a solos que duvido se ouvissem depois da 5ª fila.
Solidariedade para com o esforço dos músicos? Satisfação pela capacidade que demonstraram de se adaptarem e “desenrascarem”, à boa moda portuguesa? Alucinação auditiva colectiva, alimentada por um profundo conhecimento dos vocabulários em uso ao ponto de permitir uma reconstrução cerebral, mas inconsciente, do concerto ideal? Provincianismo extremo, ao ponto de ser irrelevante a situação musical, face ao significado simbólico de estar perante consagrados? Reacção instintiva e incontrolável?…

O insólito evento certamente deixou marcas em todos os presentes. Esperamos que tenha deixado também uma lição à Casa da Música.

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Texto escrito por João Martins, a 17/07/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 20 da revista jazz.pt.
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1 pensamento em “jazz.pt | Insólito na Casa da Música

  1. João, raramente tenho passado por aqui nos últimos tempos. …Mas gosto mesmo muito dos teus textos.
    Obrigada por seres tão responsável e honesto também naquilo que escreves.
    Beijo

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