jazz.pt | David S. Ware: Shakti

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

SHAKTI, David S. Ware

SHAKTI, de David S. Ware

CLASSIFICAÇÃO: 3/5

Em SHAKTI, o quarteto dirigido pelo saxofonista David S. Ware explora o rico filão dos cruzamentos e ligações entre o Jazz e as suas raízes negras, com as ricas tradições indianas. Há uma aproximação mais evidente ao carácter repetitivo e hipnótico dos mantras e drones do que ao microtonalismo ou à complexidade rítmica das estruturas tradicionais indianas, mas parece estar também mais em causa um certo tipo de ligação à transcendência do que uma abordagem especificamente musical. Os temas são elementares e extremamente abertos, proporcionando amplos espaços discursivos para os solos, sobre uma textura rítmica normalmente bastante activa, com Warren Smith a pontuar extensivamente todos os solos e William Parker a manter rápidas linhas no contrabaixo, sem que se afirme nem um contorno harmónico, nem uma pulsação regular. A partir destes temas simples, mas com um forte pendor lírico-espiritual, os solos de David S. Ware desenvolvem-se com níveis de energia notáveis e uma força genuína no que é dito e como é dito, resultando esses momentos em fortes experiências, também pela relação estabelecida com a secção rítmica e parece evidente e, quiçá, intencional a forte dicotomia entre o discurso de Ware no saxofone tenor e o de Joe Morris, na guitarra. Especialmente ao nível da qualidade do som, a limpeza quase cristalina de Morris, parece querer salientar a “crueza” orgânica do som de Ware. Intencionais ou não, estas variações na “intensidade” do discurso apresentam-se como cortes ineficazes na fruição do disco, talvez por não serem acompanhadas por mudanças estratégicas pela secção rítmica que quando é chamada a solar se parece aproximar da abordagem mais visceral de Ware. Paralelamente, em alguns dos momentos de uníssono com Ware e Morris, as frases mais angulares parecem mais ajustadas ao rigor do guitarrista do que à interpretação mais livre e apaixonada de Ware e, também nesses momentos o dualismo é sentido com estranheza.
Globalmente, destacam-se variadíssimos momentos de grande intensidade musical e expressiva, mas periodicamente somos confrontados com estes outros momentos estranhos, cuja presença pode perfeitamente ser intencional, ainda que misteriosa e discutível na concretização.

SHAKTI, de David S. Ware
Edição AUM Fidelity
Nova Iorque, EUA, 2008

Intérpretes: David S. Ware (Sax Tenor e Kalimba), Joe Morris (Guitarra e Percussões), William Parker (Contrabaixo), Warren Smith (Bateria)

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
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