jazz.pt | Alípio C. Neto Quartet + Ivo Perelman Trio

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

16 de Abril 2009, 22h00, Casa da Música, Sala 2
Integrado no Ciclo Jazz e no País Tema 2009 (Brasil)

Duplo Concerto: Ivo Perelman Trio + Alípio C. Neto Quartet

Este duplo concerto, proposto pela Casa da Música e integrado simultaneamente no Ciclo de Jazz e na programação do país tema para 2009, o Brasil, ao juntar 2 formações lideradas por saxofonistas brasileiros “emigrados” (Alípio C. Neto em Portugal, Ivo Perelman nos EUA), constituiu um interessante desafio para o público a quem se apresentou, numa sessão única e num contexto onde parecia haver tantas semelhanças, 2 experiências claramente diferentes.
A música que se fez ouvir, e, com ela, os processos, as estratégias e a atitude dos dois grupos, foram um óptimo exemplo da extraordinária diversidade que se pode encontrar no jazz contemporâneo, independentemente das restrições taxonómicas que se queiram construir.

Ivo Perelman Trio

  • Ivo Perelman, saxofone tenor
  • Torbjörn Zetterberg, contrabaixo
  • Daniel Levin, violoncelo

A proposta do trio liderado por Ivo Perelman, com a qual se iniciou a noite, realiza-se de forma relativamente definitiva na própria instrumentação e nos músicos presentes. Um trio de saxofone tenor, violoncelo e contrabaixo apresenta, logo à partida, a potencial libertação de 2 constrangimentos “clássicos” da linguagem jazzística: ritmo/pulsação e harmonia. Não se tratam de parâmetros imposíveis de explorar com esta formação, mas não são os mais evidentes. E com a associação de Perelman a David Levin, no violoncelo, e a Torbjörn Zetterberg, no contrabaixo (2 instrumentistas muitíssimo competentes, criativos e reconhecidos na improvisação livre) o fulcro da exploração do trio evita de forma evidente qualquer estrutura rítmica ou harmónica e investe, isso sim, na partilha de elementos melódicos livres, mas, mais do que isso, numa certa simbiose tímbrica, quer entre os dois instrumentos de cordas, quer entre estes e o saxofone tenor (particularmente próximo do violoncelo), permitindo o desenvolvimento de ambientes fluídos, sem grandes sobressaltos ou inflexões, mas com elevada profundidade discursiva. Individualmente, cada um dos elementos do trio mostrou, de forma cabal, o seu virtuosismo instrumental e a sua destreza e inteligência no desenvolvimento de ideias musicais complexas, mas mais relevante foi a capacidade de, como trio, e em estruturas livres, terem mantido elevadíssimos níveis de atenção e demonstrado bons reflexos e acuidade auditiva, quer pontuando os diversos discursos solistas, quer capturando para posterior exploração as ideias mais interessantes do grupo. À intensidade e velocidade do discurso do contrabaixista sueco, Perelman respondeu inteligentemente, ora com alongados planos melódicos, ora com curtas e intensas explosões de som, enquanto mantinha com David Levin uma interessante cumplicidade na troca de material melódico, que se desenvolvia quase como num processo de composição colaborativa em jeito de “cadáver esquisito”, juntando ou justapondo ideias melódicas de Perelman, Levin e Zetterberg. E a gestão de técnicas, intensidade se dinâmicas entre Zetterberg e Levin, garantiu não só a intelegibilidade do discurso geral, mas também a relativa frescura do ambiente sobre o qual as novas ideias eram expostas. Nos momentos em que “trocaram” de papéis, Zetterberg, no contrabaixo, mostrou-se hábil e fluente com o arco, enquanto Levin, no violoncelo, se mostrou em excelente forma no pizzicato, tocando “linhas de baixo” ou arpejando “clusters”.
As trocas de material dentro do trio, muitas vezes articuladas por Daniel Levin, melódica e timbricamente mais próximo de Perelman e, tecnicamente, de Zetterberg, marcaram um concerto contido e rigoroso na atitude, mas com um elevado nível de profundidade musical e entrega performativa, numa interessante afirmação duma estética de vanguarda dento do jazz, a que habitualmente se associa o adjectivo “europeu”.

Alípio C. Neto Quartet

  • Alípio C. Neto, saxofone tenor e soprano
  • Herb Robertson, trompete
  • Ken Filliano, contrabaixo
  • Michael TA Thompson, bateria

Da mesma forma que a composição do trio de Perelman deixava adivinhar, em parte, o universo estético proposto, também a formação mais convencional do quarteto dirigido por Alípio C. Neto, com a presença de nomes maiores da cena jazzística nova-iorquina, permitia fazer uma previsão mais ou menos rigorosa do desenvolvimento desta segunda parte do concerto. As estruturas melódica e ritmicamente complexas, mas inscritas numa tradição jazzística alargada, a que Alípio C. Neto já nos habituou em registos anteriores, interpretados por um ensemble tao notável e em tão boa forma, permitiram usufruir destes “híbridos” onde se afirmam padrões irregulares sobre os quais é, ainda assim, possível desenvolver estruturas formalmente convencionais, com materiais melódicos e harmónicos a servirem de base a rotações solistas, com apoio da secção rítmica e “riffs” cirúrgicos. O vasto arsenal de trompetes, surdinas e técnicas de Herb Robertson, assim como os 2 saxofones de Alípio, garantiram frescura e vigor ao longo de todo o concerto, com Ken Filliano e Michael TA Thompson em grande forma e destaque, na afirmação confiante e “natural” de padrões que, apesar de complexos, se apresentaram intuitivos.
Assim, apesar de, formalmente, cada tema ter um desenvolvimento relativamente convencional, a diversidade dos temas e as diferentes abordagens por parte dos solistas, com momentos de grande entusiasmo e eficácia, associados ao carácter “particular” da escrita de Alípio C. Neto, garantiu um concerto vibrante de energia e imprevisível, com uma grande entrega por parte de todos os músicos.
Essa entrega, generosa e genuína, fez com que o grupo soasse de forma coesa e implicada no desenvolvimento das ideias musicas, cúmplice na interpretação e exploração das propostas de Alípio C. Neto, que pôde por isso participar no concerto duma forma equilibrada, sem protagonismo excessivo, como instrumentista.
Uma oferta enérgica, dum jazz contemporâneo com um som bastante nova-iorquino.

Para o fim do concerto, estava ainda reservada uma surpresa e um desafio: os compatriotas Alípio C. Neto e Ivo Perelman, que se tinham conhecido naquele momento, quiseram partilhar o palco e oferecer, em conjunto, e no septeto que a união dos dois conjuntos significava, um momento extra de partilha musical. Com as diferenças de propostas estéticas (além das questões técnicas de juntar o trio quase acústico de Perelman com o quarteto vigoroso de Alípio), o resultado era verdadeiramente imprevisível, mas revelou-se um momento alto da noite: a prova de que músicos capazes e criativos, quando postos em conjunto, podem sempre encontrar um ponto de união e partilha e desenvolver, aparentemente do nada, uma experiência musica interessante. Com o respeito que os músicos mostraram uns pelos outros e os espaços que criaram para que todos se pudessem ouvir, o resultado final foi verdadeiramente notável, juntando alguns dos melhores aspectos das 2 propostas.
Um extra pelo qual o público terá ficado especialmente grato.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
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