Lamento sobre o PCP

A minha relação com o PCP é antiga e complexa: familiares e amigos próximos são ou foram militantes, uns mais destacados que outros, e, como em muitas famílias portuguesas, há uma longa tradição de militância em parte da família e uma consequente forte ligação histórica ao partido. Por outro lado, a ligação à extrema-esquerda e ao “reviralho”, para usar vocabulário da cartilha do PC, é uma das rupturas históricas e familiares que, felizmente para mim, coube, a seu tempo, aos meus pais e eu fui educado num contexto de pluralidade, em contacto com variadíssimos tipos de “esquerdas”, “centros” e “direitas”, compreendendo as vantagens do debate político em torno de diferenças reais e tentando perceber o papel da História na evolução do pensamento e das práticas. Aprendi, muito à minha custa e fazendo o meu próprio caminho, as vantagens e desvantagens das doutrinas, a utilidade e os perigos dos partidos e das organizações políticas e fui procurando lugares de liberdade. Nunca me senti, por isso, ideologicamente próximo do PCP, mas reconheço, sem pestanejar a sua importância histórica para o país e os seus profundos alicerces “sociológicos”.
E confesso que sempre ansiei por uma evolução do discurso político do partido, por uma actualização coerente, que não o destruísse, mas o aproximasse da realidade contemporânea.

O episódio da demissão de Domingos Lopes e a reacção de Jerónimo de Sousa são, por isso, momento dolorosos e desesperantes, porque demonstram que, havendo dentro do próprio partido uma vontade de evolução e mudança, o seu funcionamento impede que tal possa acontecer sem o seu estilhaçar completo.
Porque são precisamente afirmações como as que faz Domingos Lopes, acerca do desfasamento do partido face à realidade contemporânea, que me fazem pensar no que significa, actualmente, o PCP.
Afirma Domingos Lopes:

“o PCP continua a ser o único partido no mundo que mantém o apoio à invasão da Checoslováquia, em 1969, pelas tropas do Pacto de Varsóvia, ao golpe militar da Polónia que levou Jaruzelsky ao poder, à invasão do Afeganistão pelas tropas da URSS”.

“a direcção do PCP considera, de acordo com o seu último congresso, que países como Coreia do Norte e China se orientam para o socialismo, quando o primeiro não passa de uma ditadura familiar brutal que abusivamente se apoderou do simbolismo do socialismo para o ridicularizar” e a China “emerge como uma ditadura do aparelho do partido e do aparelho militar com vista à implantação do capitalismo com o mínimo de sobressaltos sociais”.

“No plano europeu, quais são as propostas que vão no sentido de contribuir para a unidade de todas as forças europeias que se opõem a esta orientação neoliberal e belicista da União Europeia?” Para dar a resposta: “Apenas a recitação de que os destinos de Portugal se decidem em Portugal… Este solipsismo não é criador de nada. Apenas de vazio”, afirma, acusando: “A direcção do partido escudou-se numa espécie de cartilha verbalista pseudo-revolucionária, cujo objectivo principal é manter o seu poder no partido mesmo à conta do afastamento de milhares de militantes e dirigentes.”

Estas posições do partido fazem-me pensar frequentemente no real significado destas particularidades que distinguem o Partido Comunista Português de forças similares um pouco por toda a Europa. Há, inclusivamente, quem fale com uma espécie de “carinho nostálgico” acerca da resistência da veia estalinista do PC Português, mas para sermos sérios, deveríamos tentar identificar o que distingue os trabalhadores  portugueses, de quem um partido comunista se afirmará sempre legítimo representante e defensor, dos seus camaradas por essa Europa fora. Serão os trabalhadores portugueses mais fortes nas suas convicções ideológicas e por isso resistem à tentação das “derivas”? Terão os trabalhadores portugueses razões acrescidas para se solidarizarem historicamente com os dirigentes do PCUS, ou com o povo chinês ou norte-coreano? Resultam estas posições do partido comunista português duma discussão real e séria do seu significado histórico e político nos vários níveis de militância?
Eu tenho sérias dúvidas sobre as melhores respostas a dar a cada uma destas questões. E, por isso, evito pensar demasiado nisso. Mas em alturas como esta, não podemos fazer de conta que estas questões não existem.

Eu sinto, ao tentar responder a estas questões, com uma convicção crescente associada a uma angústia muito particular, que o PCP é, nos dias que correm e acima de tudo, um reflexo do atraso do país. E dum atraso muito particular, que é o atraso na educação e formação. Estruturas monolíticas como o PCP luta por manter, dependem, em grande medida de massas pouco esclarecidas, doutrináveis. E depende de quadros e elites que alternam entre o cinismo e a ingénua desinformação na qual foram criadas. O atraso na educação e formação distingue, de facto, Portugal de muitos outros países europeus e onde a educação e formação foram prioridades, a pressão das massas esclarecidas e das elites informadas deu força a movimentos de renovação a que os congéneres do PCP não poderiam resistir. Em Portugal, a afirmação de Jerónimo de Sousa, em resposta às duras críticas de Domingos Lopes, de que “sai um, entram mil”, além duma certa ilusão optimista, demonstra a confiança que os sectores mais reaccionários do PCP continuam a ter na mobilização das massas pouco esclarecidas. E isso assusta.

Para quem, como eu, acredita ser fundamental a afirmação maioritária de diferentes visões à esquerda para a construção duma melhor democracia e dum Portugal mais justo, estes sinais do PCP são muito negativos. E fico genuinamente triste, porque me estou a borrifar para os cálculos eleitoralistas que se farão à volta deste episódio e do seu timing.

3 pensamentos em “Lamento sobre o PCP

  1. Obrigado pela sua reflexão sobre o assunto. Penso que até agora foi um dos poucos que de forma honesta o fizeram.
    Sou militante comunista, nascido após o 25 de Abril em Portugal, e por isso, para mim o PCP é O partido incontornável na Liberdade e Democracia em que vivo. Talvez por isso também, as diversas experiências socialistas que decorreram na Europa não pertencem tanto ao campo das minhas vivências mas mais ao campo da história mundial, de que fazem parte demasiadas experiências políticas negativas.
    Quando ouvi pela manhã o que se estava a passar, pensei que era notícia antiga, quando estamos numa das maiores crises mundiais e nacionais de que há memória, alguém me vinha falar de invasões soviéticas no tempo da adolescência dos meus pais…
    Mas no seu post, levanta uma questão que me fez escrever este comentário, se o permitir: “Resultam estas posições do partido comunista português duma discussão real e séria do seu significado histórico e político nos vários níveis de militância?”
    Ora eu entrei para o PCP quando caía o Muro de Berlim. Porque via trabalhadores a ser espancados na Marinha Grande. Porque os estudantes sofriam cargas da Polícia de choque quando protestavam contra exames injustos e propinas inconstitucionais. Porque fechavam as grandes indústrias nacionais. Isso foi o que me levou a lutar com o PCP. As questões internacionais pertencem às conversas comunistas, se privou com comunistas sabe-o, quando se juntam militantes do PCP, fala-se sobre o PCP, há plenários, documentos programáticos de distribuição gratuita e debates regulares em muitos Centros de Trabalho do Partido. E nunca fui censurado por dizer o que penso sobre qualquer assunto, mesmo quando tenho opinião minoritária ou até única.
    Quero com isto dizer que a saída de Domingos Lopes do PCP tem mais a ver com o que ele já não é do que propriamente com falta de debate franco nas fileiras do Partido. E nunca, mas nunca esquecer que o PCP se mantém como grande força política portuguesa devido à sua característica única de força política intrinsecamente portuguesa, enraízada e constituída pelo próprio povo.
    Desculpe o tamanho do comentário e saudações.

  2. Nao deixa de parecer uma alfinetadinha de neo-bloquista convicto …

    Assim, nós os de esquerda, nao vamos lá…

  3. Parabéns pela lucidez, pouco habitual, do seu texto. Sem querer inaugurar um debate cujas premissas não cabem neste breve comentário, peço a sua atenção para as palavras que escreveu:
    “Estruturas monolíticas como o PCP luta por manter, dependem, em grande medida de massas pouco esclarecidas, doutrináveis. E depende de quadros e elites que alternam entre o cinismo e a ingénua desinformação na qual foram criadas.”
    É claro que esta realidade existe. Só que dela depende a essência de todas as organizações partidárias e não se constitui como uma exclusividade do PCP (bem pelo contrário. Inquinado, ou não, o espaço de debate interno no PCP supera largamente o que se verifica noutros partidos).
    Aquilo que, a meu ver, constitui o betão aglutinador do Partido, e o torna (quase) imune às derivas internas, mesmo quando evidentemente bem intencionas e esclarecidas, tem a ver com 2 questões extremamente simples e de carácter profundamente diverso:
    a) A permanência na sociedade portuguesa de profundas distorsões na distribuição do rendimento nacional;
    b) Os laços reais de afectividade, companheirismo e solidariedade criados no desenvolver das actividades inerentes ao funcionamento da estrutura partidária.

    Vai longo o comentário…

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