jazz.pt | Christian Lillinger’s Grund: First Reason

First Reason, capa do disco
First Reason, de Christian Lillinger’s Grund

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

A definição e justificação do nome do grupo, “Grund”, que Christian Lillinger oferece nas notas do disco corresponde de forma clara ao que o estreante grupo apresenta neste disco. “Grund”, como chão ou o tipo de base que 2 contrabaixos são capazes de fornecer, para uma improvisação mais livre e espaçosa e “Grund”, como razão para fazer as coisas duma maneira e não doutra, razão pela qual certa combinação de instrumentos funciona de determinada maneira… os dois sentidos implícitos no nome do grupo ouvem-se ao longo do disco e percebem-se como forças orientadoras na escolha dos instrumentos e instrumentistas, no trabalho de composição e no desenvolvimento da interpretação do grupo e de cada músico.
A formação com 2 contrabaixos e o tipo de liberdade pretendida que justifica esta escolha é claramente evocativa de Ornette Coleman, e os momentos de contacto entre “First Reason” e o trabalho em duplo quarteto acústico de Ornette Coleman são bem conseguidos, como se vê imediatamente em “Pfranz”, o tema de abertura. E as semelhanças entre “Grund” e os duplos quartetos de Ornette Coleman, estendem-se positivamente a diversos aspectos do desenvolvimento do disco. “Grund” é uma formação muito horizontal constituída por músicos versáteis, criativos e produtivos em todos os instrumentos e onde se garante abundante espaço para que todos se exprimam, em duos e solos, ora em padrões, ora em linhas livres mas, genericamente, os diversos intervenientes podem afirmar-se, sem demasiada necessidade de competirem num frenesim permanente. O legado de Ornette Coleman é, de resto, usado com sensibilidade e mestria na própria anatomia melódico-rítmica de alguns temas, como “Pfranz” e “Shape”, na sua apresentação em uníssono pela banda com posteriores explorações melódico-rítmicas lideradas pelos solistas, na utilização consciente de uma pulsação nervosa, quase polirrítmica, no “swing” e mesmo em alguns dos aspectos do desenvolvimento dos solos, reminiscentes de Ornette, mas também de Don Cherry e outros dos grandes improvisadores que com eles colaboraram, nestes contextos.
Mas “First Reason” é estruturalmente comedido, evitando explorações demasiado prolongados do mesmo material, oferecendo aos ouvintes 11 temas de elevada qualidade e ancorados, apesar das referências, em universos diferenciados e vastos: as 3 faixas de nome Grund, estrategicamente espalhadas pelo disco, são aliás exercícios ricos de exploração sonora, recorrendo a efeitos, clusters, técnicas e vocabulários mais próximos da vanguarda erudita do que do Jazz mais tradicional, evocativos da complexidade e riqueza tímbrica de Anthony Braxton, por exemplo.
Racionalizando, podemos dizer que, em “First Reason”, Grund combina um conjunto vasto de referências e, dessa forma, não é capaz de afirmar uma identidade singular, esmagado pelo peso das brilhantes evocações que faz. Mas a audição dum disco é bem mais do que um exercício estritamente racional e qualquer músico de jazz poderá facilmente ser esmagado pelo peso dos fantasmas que evoca, se os evocar “travestidos”. Christian Lillinger com esta estreia “Grund” parece, pelo contrário, ter os pés bem assentes num terreno que conhece bem, que sabe ser fértil e onde há ainda muita música para crescer e florescer. Esta primeira colheita, “First Reason”, poderá ter ainda demasiado cheiro da terra em que cresceu, mas é de grande qualidade.

First Reason, de Christian Lillinger’s Grund

Edição: Clean Feed, 2009
Gravação: Ibiza, 2008

  • Tobias Delius: saxofone e clarinete
  • Wanja Slavin: saxofone, clarinete e melódica
  • Jonas Westergaard: contrabaixo
  • Robert Landfermann: contrabaixo
  • Christian Lillinger: bateria e percussão
  • convidado: Joachim Kühn: piano
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

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