jazz.pt | Steve Swell: Planet Dream

Planet Dream, capa do disco
Planet Dream, de Steve Swell

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

5 improvisações, 4 temas compostos por Steve Swell. 3 músicos que se conhecem profundamente e partilham um universo sonoro que surge naturalmente da abundante e peculiar cena free jazz nova-iorquina. Um universo que está plasmado nas composições de Swell, mas que se constrói através das longas cumplicidades entre estes 3 músicos (Rob Brown e Daniel Levin tocam na big band de Steve Swell, The Nation of We, Steve Swell e Rob Brown integram a Little Huey Creative Music Orchestra, de William Parker e Rob Brown e Daniel Levin tocam em duo e trio com Satoshi Takeishi). Trombone, saxofone e violoncelo podem constituir uma combinação invulgar, mas o talento e versatilidade destes músicos permite-lhes explorar com intensidade e pertinência as diversas possibilidades e combinações, quer pelas similaridades, quer pelo constrastes, pintando este “Planet Dream” com uma vasta e luminosa paleta de cores. Se nos 4 momentos de improvisação total, temos oportunidade de ouvir de forma mais evidente momentos de encontro e partilha sonora mais abstracta, como na faixa que dá nome ao disco, em explorações técnicas e tímbricas que procuram desafiar as fronteiras dos instrumentos de formas enriquecedoras para o conjunto, e podemos acompanhar jogos de interacção riquíssimos, nos temas compostos por Steve Swell, ao fornecer-se um mote melódico-rítmico, como no multi-swing de “Juxtsuppose”, o trio consegue apresentar e desenvolver os temas com grande expressividade e liberdade, prosseguindo então para a sua desconstrução e exploração, alimentando o processo de improvisação com as ideias sugeridas nos próprios temas ou por cada um dos músicos.
E a riqueza deste universo engloba mesmo muitas realidades: por exemplo, em “Airtight”, o pizzicato de Daniel Levin mostra como um violoncelo pode segurar um groove, para quem, depois de Tom Cora e Erik Friedlander, ainda precisava de explicações sobre o papel dum violoncelo num ensemble de jazz, enquanto as intervenções de Rob Brown e Steve Swell, lembram desenhos de John Zorn com George Lewis— o genial trio de John Zorn, George Lewis e Bill Frisell em “News For Lulu” é, de facto, uma das formações mais próximas da sonoridade de “Planet Dream”. Já em “City Life”, a introdução virtuosa e vertiginosa de Levin, primeiro com o arco, depois em pizzicato, coloca-nos de imediato no plano agitado e anguloso, sobre o qual o tema se desenvolve, com as intervenções de Brown e Swell, mais marcadas e quase soluçantes, a polviharem um quadro sugestivo duma paisagem urbana quotidiana, sem caírem na tentação da ilustração. E, em “Texture #2″, padrões numéricos são tocados em uníssono, e desconstruídos até se atingirem interesantes clusters, que Daniel Levin explora em cordas dobradas, enquanto Swell e Brown retomam o carácter pontuado dos padrões.
Mas, acima de tudo, “Planet Dream” é o resultado singular da colaboração específica destes 3 músicos de excepção e do encontro destes 3 instrumentos tão carismáticos.
Como Steve Sweel, desejava, um universo completo, complexo e múltiplo onde há, aparentemente, espaço para tudo e, ainda assim, o que se ouve parece estar no sítio certo, na altura certa. Naturalmente.

Planet Dream, de Steve Swell

Edição Clean Feed, 2009
Gravação: Nova Iorque, 2008

  • Steve Swell, trombone
  • Rob Brown, saxofone alto
  • Daniel Levin, violoncelo
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

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