jazz.pt | Samuel Blaser, Pieces of Old Sky

Pieces of Old Sky, capa do disco
PIECES OF OLD SKY, de Samuel Blaser Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 4.5/5

Nostálgico e meditativo, como o nome do álbum sugere, este “Pieces of Old Sky”, é um álbum envolvente e resulta duma extraordinária combinação de instrumentistas e abordagens que servem os temas com detalhe e generosidade. Não existe, em nenhum momento no disco, como é habitual quando se conta com a  participação dum baterista como Tyshawn Sorey, uma secção rítmica tradicional: todos os instrumentos, bateria incluída, são vozes melódicas e, mesmo nos momentos mais singelos, existe uma liberdade total da ideia duma pulsação, fluindo as ideias musicais, exploradas amplamente por cada um dos instrumentistas.
A escrita de Samuel Blaser e o seu desenvolvimento pelo quarteto permite compreender o potencial de elementos melódicos simples na afirmação de estados de espírito complexos e a energia emocional e musical flutua de acordo com uma gestão muito criteriosa de cada participação e contando com elevado nível de atenção e capacidade de resposta constante do quarteto, que reage, repete e reinterpreta as intervenções mais significativas, definindo um enquadramento eficaz e encontrando caminhos de desenvolvimento musical aprofundado. O acerto e a coesão tímbrica é notável, especialmente na relação entre o trombone de Blaser e a guitarra de Neufeld que criam diálogos riquissímos. Thomas Morgan funciona frequentemente como ponto de apoio das inflexões estruturais, mas sem nunca ceder a um papel tradicional procurando fraseados relevantes e explorando os harmónicos, por exemplo.
Em temas ritmicamente mais definidos, como “Red Hook” ou “Speed Game”, o papel não convencional de Tyshawn Sorey, torna-se ainda mais evidente: o quarteto toca o riff em uníssono e a sua interpretação faz uso da totalidade da bateria, para tocar não só a componente rítmica do riff, mas também o seu envelope melódico e dinâmico, desenvolvendo posteriormente formas de apoiar e pontuar o desenvolvimento do tema e as intervenções solistas, sem nunca perder a noção da pulsação implícita, mas escapando a qualquer tentação de vulgaridade. A liberdade que esta forma de tocar de Tyshawn Sorey traz ao grupo é fundamental para permitir a escolha de novos caminhos e inflexões eventualmente inesperadas, assim como o seu rigor é surpreendentemente eficaz na afirmação dos riffs.
Assumidamente nostálgico, “Pieces of Old Sky” é também, fortemente evocativo, com um certo carácter cinemático, como acontece com os corais, em duo de Blaser com Neufeld.
Não se deixa, no entanto, encurralar num registo frágil, encontrando os caminhos, quando necessário, para momento mais intensos, como acontece no final de “Mystical Circle”, enriquecendo a experiência global.
A elevada cumplicidade e a extraordinária flexibilidade de todos os músicos presentes garante uma experiência de audição completa, onde o registo límpido e o lirismo inteligente do trombone de Samuel Blaser aponta uma direcção, sem limitar demasiado os caminhos.

PIECES OF OLD SKY, de Samuel Blaser Quartet

Clean Feed (2009)
gravado em Nova Iorque (2008)

  • Samuel Blaser trombone
  • Todd Neufeld guitarra
  • Thomas Morgan contrabaixo
  • Tyshawn Sorey bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

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