jazz.pt | Pirouet Records: Transatlânticos (3 discos em análise)

Estes 3 recentes títulos da editora baseada em Munique, Pirouet, têm vários elementos em comum: o papel relevante dos saxofonistas (frontmen de 2 dos discos), a relativa juventude dos seus autores, a afirmação de algumas nuances dum certo jazz transatlântico, com os 3 discos liderados por músicos europeus, mas com a inequívoca presença do jazz norte-americano, não só na escolha de alguns intérpretes norte-americanos genuínos, mas no percurso e formação de todos os músicos envolvidos.

Virgo, Nicholas Thys
Virgo, de Nicolas Thys

CLASSIFICAÇÃO: 2.5/5

“Virgo”, do contrabaixista belga Nicolas Thys, apresenta-nos uma escrita escorreita, sem grandes sobressaltos, mas com assinalável eficácia lírica nos 6 temas (todos da autoria do contrabaixista), apresentados por uma formação coesa e tecnicamente irrepreensível, ainda que em relações algo convencionais, com Chris Cheek e Ryan Scott a explorarem habilmente a combinação do saxofone com a guitarra na apresentação dos temas e no desenvolvimento dos solos, sem momentos de afirmação individual de génio, mas servindo a estrutura dos temas com rigor. Dos 3 álbuns, este é o que se apresenta mais uniforme e que parece arriscar menos, quer na escrita, quer na interpretação, parecendo apostar em criar momentos de grande conforto- que consegue, sem dúvida-, mas correndo o sério risco de não afirmar nenhum traço identitário assinalável. A energia de “Disco Monkey”, tema de abertura, esgota-se rapidamente, e a sucessão de temas relativamente longos, sem particularidades estruturais ou singularidades assinaláveis, e sem significativas variações de humor ou tensão, afirmam uma música quase utilitária, muitíssimo bem executada, mas cuidadosamente planeada para não provocar grandes emoções.

Virgo, de Nicolas Thys

Gravação: Maio 2008, Nova Jérsia (EUA)
Edição: 2009, Pirouet Records, Munique

  • Chris Cheek, saxofone tenor
  • Jon Cowherd, piano
  • Ryan Scott, guitarra
  • Nicholas Thys, contrabaixo
  • Dan Rieser, bateria

Winter Fruits, Loren Stillman
Winter Fruits, de Loren Stillman

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

A escrita do britânico Loren Stillman tem características significativamente diferentes, apesar do resultado final adquirir, globalmente, também, uma certa contenção dinâmica. Stillman não faz uso frequente dos moldes harmónicos e melódicos mais vulgares, nem procura estabelecer “prisões” rítmicas e as suas linhas mais sinuosas, distribuídas pelo quarteto e cuidadosamente integradas de acordo com proximidades tímbricas servem, simultaneamente, a estrutura dos temas e a partilha interpretativa, permitindo que a formação opere sem demasiadas restrições “hierárquicas”. As inflexões de registo do órgão de Gary Versace expandem o universo tímbrico expectável dum quarteto desta natureza e a variabilidade rítmica presente, que Ted Poor serve com rigor e criatividade, permite a progressão dos temas com relativa frescura e explorando as diferentes combinações presentes. É realmente notável a capacidade de partilha duma escrita exigente e a forma como os 4 músicos envolvidos encontram e trocam motivos melódicos, harmónicos e rítmicos, com extraordinária subtileza e um apurado sentido de timing, respeitando os necessários espaços individuais, mas mantendo um elevado sentido de compromisso para com a música, a todo o tempo. E, simultaneamente, a forma individual como cada um dos músicos se relaciona com o material base, enriquece-o, dando novas perspectivas e lançando pistas de compreensão e fruição para vários públicos. A inclusão de 2 temas escritos por Ted Poor (“Muted Dreams” e “Winter Fruit”, este último com espaços para os momento de maior intensidade do disco), permite comprovar que este compromisso resulta, de facto, duma forte cumplicidade entre os músicos e as performances individuais são irrepreensíveis, com destaque, eventual, para as capacidades expressivas do saxofone de Stillman.
O contorno global da dinâmica do disco é, ainda assim, relativamente contido, numa opção que lhe confere unidade, mas lhe retira, eventualmente, alguma energia.

Winter Fruits, de Loren Stillman

Gravação: Junho 2008, Nova Jérsia (EUA)
Edição: 2009, Pirouet Records, Munique

  • Loren Stillman, saxofone alto
  • Nate Radley, guitarra
  • Gary Versace, órgão
  • Ted Poor, bateria

Starbound, Robin Verheyen
Starbound, de Robin Verheyen

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

Por último, o disco do jovem belga Robin Verheyen, agora radicado em Nova Iorque, é aquele onde o contorno dinâmico se expande e a paleta de estímulos se diversifica mais, num esforço de demonstração de possibilidades que poderá custar ao disco alguma coesão ou lógica interna, mas torna a experiência de audição mais rica. Verheyen afirma-se, de forma mais evidente, como “frontmen” e assume a responsabilidade de conduzir a esmagadora maioria dos temas e o seu desenvolvimento obedece frequentemente a alguns dos canônes dum jazz mais clássico, ainda que se note que o vocabulário de Verheyen está marcado por uma cultura musical mais vasta. A escrita parece, de resto, asumir um lugar secundário, com os temas, relativamente simples, a serem entregues à exploração pelo quarteto, onde Bill Carrothers ganha algum destaque, assim como Dré Pallemaerts, muito rigoroso e seguro nas estruturas mais convencionais, mas com um óptimo sentido de oportunidade na resposta pontual às intervenções e flexões solísticas, criando uma base rítmica bastante orgânica e reactiva. As mudanças profundas de tempo e contexto harmónico entre temas, permite que o disco assuma alguns cortes evidentes e desenhe um arco narrativo mais complexo, com “Lamenting”, em que Verheyen opta pelo saxofone tenor a funcionar como ponto de apoio significativo na viagem. O espaço atribuído a cada um dos músicos permite ouvir as configurações habituais dum quarteto desta natureza, com espaço para avaliar a elevada qualidade interpretativa dos músicos que integram este agrupamento com quem Verheyen assegura o seu estatuto de artista residente no CC de Warande (Turnhout, Bélgica). Ainda assim, alguns momentos do disco, como o tema que dá nome ao álbum, “Starbound”, carecem de melhor enquadramento, deixando a impressão de que pouco mais serão do que exercícios de grupo sobre temas ainda incipientes. Verheyen, com 27 anos, apresenta sinais extraordinários de maturidade (na escrita, na interpretação, na técnica e na expressividade) em momentos como “Lamenting”, mas parece revelar ainda alguma insegurança no que diz respeito à construção dum álbum completo.

Starbound, de Robin Verheyen

Gravação: Abril 2009, Munique
Editação: 2009, Pirouet Records, Munique

  • Robin Verheyen, saxofone soprano e tenor
  • Bill Carrothers, piano
  • Nicolas Thys, contrabaixo
  • Dré Pallemaerts, bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 28 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

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