jazz.pt | Jazz no Parque 2010

JAZZ NO PARQUE 2010, 19ª edição
Ténis do Parque de Serralves

A edição deste ano do Jazz no Parque desenrolou-se em 3 tardes de sábado solarengas que fizeram do Parque de Serralves um óptimo sítio para se estar e todos os concertos atraíram um público considerável, com os 2 últimos concertos lotados com alguma antecedência e uma atmosfera de festa que se reflecte em todos os aspectos do festival e contribui para a justa afirmação do evento. O ambiente familiar, com muitas crianças no recinto e grandes grupos de várias gerações de apreciantes de música e jazz, mantém-se como uma das marcas identitárias do ambiente do Jazz no Parque mas este ano, viveu-se também a atmosfera mais intensa que um maior número de pessoas e um eventual maior entusiasmo em alguns momentos, produz.
Quanto à programação, este ano a presença portuguesa foi assegurada pelo Bernardo Sassetti Trio (com o convidado Perico Sambeat), com grande sucesso e entusiasmo por parte do pianista que, desde a primeira edição do Jazz no Parque que esperava voltar a tocar no festival, e, ao contrário do que sucedeu em anos anteriores, os outros 2 concertos vieram do outro lado do Atlântico— o Vijay Iyer Trio e Contact—, mas a diversidade de propostas estéticas que António Curvelo tenta muitas vezes assegurar incluindo uma proposta de jazz “europeu”, estava claramente patente neste tríptico que permitiu ao público que se deslocou a Serralves ouvir propostas claramente alternativas e de grande qualidade, através das quais se podem projectar os futuros do jazz, enquanto se compreende parte da sua história, missão a que o Jazz no Parque se propõe todos os anos, 3 concertos de cada vez.

Vijay Iyer Trio
10 Julho

  • Vijay Iyer, piano
  • Marcus Gilmore, contrabaixo
  • Stephan Crump, bateria

O concerto do trio de Vijay Iyer fica, infelizmente, marcado por dificuldades técnicas na amplificação do som do piano, um aspecto que normalmente não é assunto na cobertura do festival de Serralves, pelas melhores razões. Não impediram o concerto, mas prejudicaram a sua total fruição e parecem ter tido algum impacto (natural) na própria performance do pianista e compositor nova-iorquino.
Este trio com Stephan Crump, na bateria, e Marcus Gilmore, no contrabaixo, é nitidamente um projecto de autor e a forte e complexa personalidade musical de Iyer define os parâmetros musicais, quer na composição de grande parte dos temas apresentados, quer nos arranjos de temas de origens tão diversas como Julius Hemphill, Stevie Wonder e Michael Jackson. Crump e Gilmore são intérpretes rigorosos dos exigentes exercícios de escrita de Iyer e afirmam-se como improvisadores criativos e completos, mas ao contrário do que acontece em projectos como Fieldwork, em que o resultado musical resulta do encontro de 3 compositores e improvisadores de forte personalidade (Vijay Iyer, Steve Lehman e Tyshawn Sorey), o trio que se apresentou em Serralves é menos multi-facetado, o que facilitará certamente a introdução a este complexo mundo musical, em que todos os aspectos da música parecem ser submetidos a um exaustivo processo de análise, racionalização e sistematização que produz uma música que parece existir num universo próprio, angulosa, imprevisível, por vezes quase incompreensível, mas sempre rigorosa e coerente. Com este trio, Vijay Iyer, apesar de tudo, preocupa-se com uma apresentação e desenvolvimento dos temas, que cativa e conduz o ouvinte, começando em territórios familiares, ainda que híbridos dum vasto universo de referências musicais, cujo vocabulário e técnica os 3 instrumentistas parecem dominar com virtuosismo, procedendo depois a uma filtragem e desconstrução dos diferentes aspectos rítmicos, melódicos e harmónicos que se articula sistematicamente numa estrutura aparentemente impossível de acompanhar mas que permite conduzir todo o trio, de forma musical, aos pontos fulcrais de inflexão e articulação entre temas, em momentos de desenlace quase mágicos, demonstrando simultaneamente a força das estruturas composicionais de Iyer e a grande cumplicidade entre todos os músicos do trio.
E a riqueza desta experiência advém também do facto de não estar reservado ao contrabaixo ou à bateria o papel de suportes mais ou menos estáticos do desenvolvimento das ideias do pianista e líder do grupo. A sua intervenção é riquíssima e todos os temas dependem duma participação intensa e criativa dos 3 músicos, desenvolvendo-se em camadas que se sobrepõem e alimentam mutuamente, trocando materiais e motivos musicais e assegurando uma paleta expressiva muito vasta, suportada pelos notáveis atributos técnicos destes jovens músicos.
Foi o mais “cerebral” dos 3 concertos propostos e, poder-se-ia dizer, o mais “exigente”, mas o público pareceu genuinamente conquistado e particularmente impressionado pelo virtuosismo técnico que, muitas vezes, propostas mais arriscadas não tornam tão visível.

Bernardo Sassetti Trio, com Perico Sambeat
17 de Julho

  • Bernardo Sassetti, piano
  • Carlos Barretto, contrabaixo
  • Alexandre Frazão, bateria
  • Perico Sambeat, saxofone alto e soprano

O regresso de Bernardo Sassetti ao Jazz no Parque foi uma grande celebração. As expectativas eram elevadas, o público correspondeu, o pianista e compositor recebeu todos com o entusiasmo que lhe é característico e celebrou, de facto, o reencontro com o Jazz no Parque, com uma peça especificamente escrita para a ocasião, assim como os 20 anos de colaboração com Perico Sambeat, o saxofonista catalão tão familiar nos palcos portugueses, num concerto que percorreu vários momentos da carreira do pianista e compositor, incorporando não só os seus temas, mas algumas das suas referências musicais e afectivas, tão diversas como Tom Jobim e Portishead.
Em palco, com Sassetti, muitíssimo inspirado e versátil na ligação entre vocabulários (jazzístico, erudito, popular…), a segurança, timing e lirismo de Carlos Barretto e a precisão, sensibilidade e criatividade de Alexandre Frazão justificavam todos os elogios que o trio tem recebido e o lugar de destaque que estes músicos ocupam.
Perico Sambeat, na cumplicidade com Sassetti (mas também com Barretto com quem já gravou, obviamente), completa um quarteto de luxo que, neste concerto, não cedeu à facilidade das formas mais convencionais e desenvolveu todos os temas com um grande cuidado, privilegiando as relações musicais e a a multiplicidade de estímulos, face à fórmula batida da sucessão de solos, equilibrando com muita eficácia a afirmação das identidades individuais dos músicos e uma dinâmica constante de grupo, sem hierarquias artificiais.
Introduções a solo protagonizadas por Sassetti em mais do que um tema, por Carlos Barretto em “Vagabundo” e por Alexandre Frazão em “Um Dia Através do Vidro“, permitiram um contacto adicional e intenso com algumas dessas expressões individuais, mas na generalidade, os momentos de maior destaque aconteciam no contexto do grupo, demonstrando a forte cumplicidade existente e a coesão estrutural dos temas.
O concerto conquistou os adeptos do vocabulário de Sassetti, obviamente, e excedeu as expectativas desses e do restante público, com incursões mais arriscadas, mas pertinentes, cuidadas e consequentes a territórios mais livres e imprevisíveis, com um efeito refrescante e que enquadra e valoriza algumas das paisagens mais melancólicas e temas mais líricos.
O último tema antes do encore foi “Algumas coisas não mudam” e o concerto mostrou-nos isso mesmo, nos seus aspectos mais positivos: o talento, criatividade e cumplicidade destes músicos permitem-lhes sempre fazer música ao mais alto nível e evoluir, envolvendo o público numa experiência musical e afectiva.

Contact
24 de Julho

  • Dave Liebman, saxofones tenor e soprano
  • John Abercrombie, guitarra
  • Marc Copland, piano
  • Drew Gress, contrabaixo
  • Billy Hart, bateria

Não é muito frequente surgir uma formação com um alinhamento tão impressivo como “Contact“. O agrupamento que não se apresenta liderado por nenhuma das “estrelas” que o compõem, é uma verdadeira galeria de notáveis e o seu mais recente disco “Five on One“, em apresentação neste concerto em Serralves, mostra-nos claramente que este quinteto é, de facto, uma reunião criativa, um contacto, entre os seus ilustres membros. E se as proximidades geracionais e de estatuto, isoladas, fariam imaginar uma coincidência de experiências e pontos de vista musicais, os percursos e a identidade destes músicos justificam que se observe a delicada mistura que “Contact” pressupõe com cuidado. Se existe um grande património partilhado entre estes músicos “históricos”, existem também diferenças assinaláveis em algumas das suas opções estéticas, pelo que a própria estrutura do concerto nos conduz através dos seus modos de colaboração.
Retractable Cell“, o tema de John Abercrombie com que o concerto se iniciou (com um atraso considerável, um público algo impaciente e verificações técnicas de última da hora) trazia a assinatura duma estrutura convencional de tema seguido de solos, numa hierarquia bastante convencional, com plena demonstração das capacidades técnicas e expressivas de todos, mas pouco jogo de equipa e pouca partilha. Do outro lado do espectro, no fim do concerto, estruturas muito livres e estratégias de pergunta-resposta ou mesmo “desafio” em duos, com Liebman a “dirigir” as provocações, apresentavam-nos já uma quinteto com uma dinâmica completamente diferente, em sintonia e inter-dependência, sem funções pré-estabelecidas, a partilhar uma energia criativa elevadíssima. E entre os dois momentos, assistimos às mais diversas possibilidades expressivas, desde os temas mais líricos de Liebman e Copland, ou ao arranjo dum standard, às composições mais livres de Drew Gress, sobre as quais se destacava a energia dos solos do saxofonista, a identidade do som e do vocabulário de Abercrombie ou a segurança e flexibilidade das texturas de Copland. Os diferentes momentos do concerto geriram também a afirmação das individualidades, com Billy Hart, por exemplo, a fazer um solo explosivo, que mereceu uma forte reacção do público, mas todos os músicos a encontrarem o seu espaço e a justificarem plenamente o estatuto que já alcançaram.
O concerto procurou apresentar o mais recente disco do quinteto “Five on One” (Pirouet Records) e a reacção do público foi de grande entusiasmo. Merecido, aliás.

Um grande concerto a fechar numa nota bem positiva, mais uma edição do Jazz no Parque em que a multiplicidade de visões do fenómeno jazzístico teve o seu lugar e em que pudemos, mais uma vez, verificar o elevado nível que as melhores propostas portuguesas têm, seja em que contexto for.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 32 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

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