Arquivo da Categoria ‘arte’

Projecto Teares, início da residência artística no Fundão

Segunda-feira, 15 de Março, 2010

A primeira manifestação pública do trabalho que recomecei hoje foi em Junho do ano passado, num evento na LX Factory, intitulado Tecer Devagar. E desde esse primeiro encontro entre o meu Contratear e os teares artesanais das Aldeias do Xisto, promovido pela Granular e A Moagem, que o projecto assumia a intenção de criar um novo instrumento, de maiores dimensões e colectivo, construído sobre um desses teares (ou à sua imagem e semelhança).

Hoje, iniciou-se essa fase de construção do novo instrumento, na qual colaborarei com o Gustavo Costa e com o Henrique Fernandes e temos à nossa disposição este tear artesanal, de construção recente:

O tear sobre o qual se construirá o novo instrumento

Além da concepção e construção deste novo instrumento, o desafio do projecto é a construção duma linguagem musical específica, construída sobre as práticas das tecedeiras artesanais, sobre a arquitectura das Aldeias do Xisto e outras referências.

Inquieta-me, sobretudo, o justo equilíbrio entre a natureza específica da máquina-tear, símbolo curioso da industrialização, as suas extensas implicações musicais, que fui descobrindo desde que criei o contratear, e a necessária criação e articulação dum vocabulário musical pertinente e cativante. Felizmente, não estou sozinho. ;)

Neve em Alpirsbach

Domingo, 7 de Março, 2010

Neve em Alpirsbach

Para quem, como eu, não está habituado, a neve tem um efeito espectacular na paisagem. Estamos em Alpirsbach, na fronteira da Floresta Negra e temos à nossa volta neve como nunca tivemos.

Orgel-Skulptur, AlpirsbachE, neste frio, encontrámos, numa alternativa ao plano original, um belíssima igreja românica, um extraordinário orgão-escultura— no qual tive o imenso privilégio de tocar (mas para ouvirem o órgão no seu máximo, procurem este disco de Jürgen Essl)— e uma comunidade tão calorosa que nos convidou para a inauguração do seu novo Jardim de Infância. ;)

Para quem, como eu, não se sente muito confortável na Alemanha, esta visita a Alpirsbach está a ser uma extraordinária surpresa.

Que raio de tourada é esta?

Domingo, 28 de Fevereiro, 2010

Como diz a Catarina, podia ser uma piada, mas não é: O Conselho Nacional de Cultura, na mesma altura em que é reactivado e passa finalmente a ter uma secção dedicada às Artes, passa também a ter uma secção dedicada à Tauromaquia (ver notícia no Público). O cumprimento dum desígnio relativamente elementar— a reactivação dum importante órgão consultivo e de articulação da relação dos agentes culturais com o Estado— fica assim associado a um momento de surrealismo a vários títulos ofensivos para sectores culturais (ligados a tradições ou não) que nunca mereceram tal atenção. Pense-se por exemplo na representatividade das ciências e/ou da cultura científica no Conselho Nacional de Cultura. Pense-se nas religiões, reduzidas a um representante da Conferência Episcopal Portuguesa.

O plenário do CNC é composto pelos membros do Governo com competências na área da Cultura, pelos presidentes das secções especializadas, por um representante do Centro Português de Fundações, da Associação Nacional de Municípios Portugueses, da Associação Nacional de Freguesias, do Conselho Nacional de Reitores das Universidades Portuguesas, do Conselho Nacional de Consumo, da Conferência Episcopal Portuguesa e, ainda, pelas 10 individualidades de reconhecido mérito representativas das várias áreas da Cultura agora designadas pela Ministra da Cultura.

As 10 individualidades são:

  1. o ensaísta Eduardo Lourenço
  2. o arquitecto Siza Vieira
  3. o musicólogo Rui Vieira Nery
  4. o programador e ex-bailarino Jorge Salavisa
  5. o encenador Ricardo Pais
  6. a escritora Inês Pedrosa
  7. a jornalista Paula Moura Pinheiro
  8. o ensaísta e programador António Pinto Ribeiro
  9. o crítico de cinema João Lopes
  10. o economista Augusto Mateus

As secções existentes, com as 2 novas criações são (de acordo com o Decreto Regulamentar nº 35/2007 de 29 de Março):

  • a) Secção do Livro e das Bibliotecas
  • b) Secção dos Arquivos
  • c) Secção dos Museus e da Conservação e Restauro
  • d) Secção do Património Arquitectónico e Arqueológico
  • e) Secção do Cinema e Audiovisual
  • f) Secção dos Direitos de Autor e Direitos Conexos
  • g) Secção das Artes
  • h) Secção de Tauromaquia

Tudo isto junto, com uma leitura da constituição da Secção das Artes, para ajudar, faz-me rir às gargalhadas, para não chorar. O Conselho Nacional de Cultura ainda não tinha uma Secção das Artes, mas tinha uma para o Cinema e Audiovisual, que não integra, pelos vistos as “Artes”.
A secção das Artes, tem, de resto, uma constituição sui generis (verificar aqui):

Quanto mais informação se recolhe, menos se percebe. Não há artistas/criadores ou seus representantes na secção de Artes, com a honrosa excepção dos arquitectos e designers que têm lugar assegurado. Na dança, é menos claro, já que a REDE, é uma “associação de estruturas empregadoras”. De resto, há dúvidas que, para um tipo como eu, são absolutamente esmagadoras: qual é o lugar da Música no CNC? Não há representantes de Orquestras, a Fundação Casa da Música fica de fora… o facto da actual Ministra vir desta área invalida a sua legítima representação nos órgãos consultivos? Porquê?

Fora isso, a importância dada à Tauromaquia através da criação da sua secção é completamente descabida e contrária ao natural rumo da história (concordo com a Catarina e com o Bloco de Esquerda) e um tipo não pode deixar de pensar o que é que acontece a um país em que, num órgão consultivo do Ministério da Cultura, um representante do Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses ou da Associação Nacional de Grupos de Forcados, está no mesmo patamar dos representantes dos Teatros Nacionais e mais próximo do plenário do CNC do que um representante duma Orquestra ou duma Associação Científica (sem nenhum lugar assegurado em nenhuma secção).

E posto isto em termos que até os aficionados da tourada serão capazes de perceber: o Ministério da Cultura deve consultar um toureiro ou um forcado numa estrutura que não consulta nenhum chefe de cozinha (ou alguém ligado à gastronomia), nenhum futebolista (ou alguém ligado ao desporto) nem ninguém ligado ao artesanato?

Que raio de tourada é esta?

Entretanto, já existe uma petição contra a criação da secção de Tauromaquia no CNC. Eu faria mais umas:

  • pela inclusão de representantes de criadores/artistas, na secção de Artes
  • pela inclusão da Música na Secção de Artes ou em secção autónoma, se não nos quiserem misturar com os “artistas” a sério
  • pela criação duma Secção de Ciência
  • pela criação duma Secção de Desporto
  • pela criação duma Secção de Tradições, incluindo artesanato, folclore, gastronomia e, quem sabe, tauromaquia

Ou então uma só: pela utilização de vulgar bom senso e cultura na reestruturação e reactivação do Conselho Nacional de Cultura, consultando, previamente, pessoas com um bocadinho das duas coisas (cultura e bom senso) na criação de novas secções especializadas e/ou na reestruturação das existentes. É pedir demais?

Um mapa

Quinta-feira, 25 de Fevereiro, 2010

Por vezes, um mapa é uma boa forma de compreender a verdadeira escala do fenómenos que estudamos.
Cluny, sobre o qual desenvolvemos neste momento um projecto, tem estas marcas espalhadas pelo território europeu:

Ver Sites Clunisiens num mapa

De olhos postos no céu

Domingo, 21 de Fevereiro, 2010

DSC02456

Nos últimos dias tenho andado de olhos postos no céu. Infantilmente atraído pelas formas das nuvens e pela cor da luz que as atravessa. Hoje consegui tirar umas fotografias, mas não à hora do crepúsculo, quando a maior magia acontece. Prometi-me a mim mesmo que o faria em breve.

As ruínas dum centro do mundo

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

Saint-Hyppolite, Bonnay

O projecto A Língua das Pedras, que estamos a preparar no Visões Úteis para Cluny 2010, arrancou com uma viagem por sítios de Cluny. Pelo caminho perguntámos a algumas pessoas se se sentiam mais perto ou mais longe daquilo a que poderíamos chamar o «centro do mundo». O sentido da pergunta liga-se directamente ao significado para a construção da Europa Moderna da rede que a Ordem de Cluny começou a tecer no século X: Cluny, que agora é uma pequena cidade de província, na Borgonha, já foi, de alguma forma, o centro do mundo e as suas ramificações, como Saint Hyppolite, ilustrado nesta fotografia, estavam todas bastante próximas, do ponto de vista geopolítico, desse centro. Agora, atravessámos o campo francês, muitas vezes para visitar ruínas, como estas.

Muitas respostas foram surpreendentes.

Boom & Bang, a realidade

Terça-feira, 16 de Fevereiro, 2010

Quando ontem ouvimos na TSF as notícias sobre o envolvimento da Goldman Sachs no ilusionismo da dívida pública na Grécia e sobre a investigação da Secreta Espanhola a alguns especuladores e meios de comunicação especializados, começámos a cantar a banda sonora do Boom & Bang. De forma completamente espontânea. ;)

Para quem não percebe a relação ou para quem ainda anda a tentar compreender esta coisa da crise internacional, aconselho uma ida ao Labirintho ou agora em Fevereiro (23, 24 e 25), ou em Março (23, 24 e 25). Sempre às 22h00. Quando a realidade se torna demasiado “surreal”, o contributo do teatro torna-se fundamental para compreender ou, pelo menos, questionar o que nos rodeia.

E se estiverem atentos, saem de lá com uma bela melodia para trautear da próxima vez que se sentirem “atropelados” pela alta finança. Imaginem que o nosso mais alto responsável pela regulação dos mercados, que não se apercebeu do regabofe, era promovido a responsável pela regulação no espaço europeu… trauteiem comigo:

Boom, Bang!
Boom Bang Boom Boom Bang Boom
Boom, Bang!

Começa hoje

Quarta-feira, 3 de Fevereiro, 2010

Partimos do Porto daqui a umas horas. Aterramos em Lyon e seguimos um percurso por lugares de Cluny como Nevers, Souvigny, Carennac e Moissac; em Marselha apanhamos o avião de regresso ao Porto.

É o princípio dum projecto audacioso de Arte na Paisagem, do Visões Úteis, que é muito mais que isso. Ou pode ser.

Uma semana de viagem pelos “lugares de Cluny”. Vamos.

Mais informações no último número da newsletter do Visões.

Mudar de vida

Sábado, 30 de Janeiro, 2010

É frequente pensar na necessidade de mudar de vida. Nas pequenas rotinas e nas direcções globais. Mas é raro sentir que estou de facto a mudar de vida e hoje senti isso em coisas verdadeiramente elementares e simbólicas. Tive duas boas conversa sobre uma (aparentemente) “nova” forma de promover a criação e o contacto entre criadores, assente na transposição de alguns princípios do movimento Open Source para os processos de criação e debate crítico e participei na instalação de dois sistemas operativos Linux (um Debian e um Xubuntu) em dois iMac G3 (PowerPC) que fazem parte dum parque de máquinas obsoletas que poderão vir, desta forma, a integrar um laboratório de formação e criação. Ao fim do dia, assinei o The Public Domain Manifesto e o dia pareceu alinhar-se perfeitamente.

Mais notícias em breve.

Workshop: O Som no Drama

Domingo, 17 de Janeiro, 2010

A convite da SOOPA / OOPSA - Associação Cultural, vou orientar um workshop no Maus Hábitos (Porto) sobre sonoplastia e dramaturgia.

O Som no Drama, exercícios de sonoplastia e dramaturgia

por João Martins
13, 14, 21 e 28 Fevereiro

O workshop pretende ser uma forma introdutória, elementar e bastante prática de abordar questões recorrentes em qualquer exercício de sonorização. Dirige-se a todos os interessados na problemática do som e do seu significado e impacto em contextos narrativos e/ou dramático, sejam músicos, técnicos de som, performers (teatro, dança, etc), criadores (encenadores, escritores, etc), estudantes em qualquer uma destas áreas ou simples curiosos.
O workshop abordará questões como “Significado do Som e da Música”, “Convenções e Clichés”, “Gestão do Silêncio” e “Som como Espaço”. Através da análise e discussão de exemplos práticos, procurar-se-á fomentar reflexões pessoais e exemplificar várias técnicas, de acordo com o perfil dos participantes. A vertente prática do workshop assume particular importância, definindo a sua própria estrutura temporal: após as primeiras sessões de exposição, análise, reflexão e pequenos exercícios técnicos, sera proposto um exercício prático para ser realizada de forma autónoma, por cada participante num período de 2 ou 3 semanas. A meio desse exercício, será organizada uma sessão para que cada participante possa fazer um ponto de situação do seu exercício e esclarecer quaisquer questões (teóricas ou práticas, conceptuais ou técnicas). A apresentação final dos exercícios será o mote para uma reflexão conjunta global.

Nota: as questões abordadas no workshop têm aplicação prática não só em objectos artísticos (peças de teatro, dança performance, vídeo, cinema, sound art, etc), mas também em objectos de consumo (publicidade, aplicações multimédia, video-jogos, etc).
Os formandos deverão trazer o seu próprio equipamento (computador portátil e equipamento de gravação, se tiverem).

Datas e horário:

  • 13 e 14 de Fevereiro | 10:00- 13:00 15:00-18:00
  • 21 de Fevereiro | 15:00-18:00
  • 28 de Fevereiro | 10:00-13:00 15:00- 18:00

Duração: 15 horas, em 5 sessões de 3 horas

Nº de formandos mínimo: 4
Nº de formandos máximo: 10
Custo: 70€ por aluno

Biografia
João Martins nasceu em 1977. Estudou Música, Arquitectura e Design. Colabora com o Visões Úteis (companhia profissional de teatro do Porto) desde 1998, como músico e sonoplasta, sendo responsável por diversas bandas sonoras, assim como pela sonoplastia e pela criação de paisagens sonoras para peças de teatro e audiowalks. Criou também música para cinema e para instalações multimédia e desenvolve inúmeros projectos como músico quer em colectivos, quer a solo.
Desenvolve paralelamente a actividade de designer e tem experiência como formador e consultor na área das ferramentas informáticas e da comunicação.

Informações: producao [@] soopa.org