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Fusível
Quarta-feira, 13 de Janeiro, 2010Hoje passei 2 horas à espera, às escuras, que um piquete da EDP viesse trazer de volta ao presente a nossa casa. Fiquei a saber que a instalação eléctrica da casa, quadro incluído, que foi renovada recentemente e sofreu uma alteração na potência contratada para 30 amperes, está muito bem e que o fusível principal até tem uma margem que permite chegar aos 40 amperes antes do corte.
Em eletrônica e em engenharia elétrica fusível é um dispositivo de proteção contra sobrecorrente em circuitos. Consiste de um filamento ou lâmina de um metal ou liga metálica de baixo ponto de fusão que se intercala em um ponto determinado de uma instalação elétrica para que se funda, por efeito Joule, quando a intensidade de corrente elétrica superar, devido a um curto-circuito ou sobrecarga, um determinado valor que poderia danificar a integridade dos condutores com o risco de incêndio ou destruição de outros elementos do circuito.
Fusíveis e outros dispositivos de proteção contra sobrecorrente são uma parte essencial de um sistema de distribuição de energia para prevenir incêndios ou danos a outros elementos do circuito.
No “nosso” quadro, com contador bi-horário, maravilha da técnica, com led a piscar e um mostrador em ciclo constante com mais informação do que consigo compreender, está tudo em grande forma e a tal margem sobre a potência contratada é normal, mas, de facto, não é sempre a mesma. “Varia, que eles não podem andar a verificar um a um“, que é uma coisa que não se gosta muito de ouvir dizer a um técnico da EDP. Menos mal: em casa, tudo em ordem.
À porta, no átrio do prédio, uma caixinha misteriosa, esconde a razão do nosso “blackout” particular: uma caixa de ligações e fusíveis, que regula a ligação de cada apartamento. “É uma instalação antiga” e os fusíveis são umas tranças de filamentos a ligar dois pinos duma espécie de grande ficha eléctrica. Os 5 filamentos que constituíam o fusível da nossa ligação não aguentavam a margem acima dos 30 amperes que o “nosso” fusível aguenta e, assim, puf!
O técnico, diligente, fez novo fusível. Sim, fez, com as mãozinhas, uma trancinha de 5 filamentos a partir dum cabo que descarnou— numa cena que me fez recordar antigas montagens de peças de teatro em que se faziam os cabos que faltavam, à medida— e passou a trancinha à volta dos pinos, recolocou a tal ficha e fez-se luz. Pediu-me para ligar tudo e, a frágil trança voltou a desfazer-se. “Vamos ter que medir, então“. Nova trança, desta feita com 6 filamentos, fiquei a saber depois, e “ligue tudo menos as duas últimas coisas“, enquanto um aparelho avançado se ligava às entranhas do nosso quadro. “25 amperes, está a ver? Ligue o resto“. Mais dois aparelhos e “30, 35, 40…“, mas antes da trança, desta vez, ouvimos o clique do quadro. “Está a ver? A sua instalação está óptima. Lá fora, não podemos fazer melhor. É uma instalação antiga“. Do pouco que percebo de física, percebi que a nova trança de 6 filamentos tem mais resistência que a anterior e, assim, aguenta a margem de manobra que o nosso quadro nos dá a nós, face à potência contratada. Mas sei também que não é nada de tecnicamente rigoroso ou garantido que essa resistência da trancinha feita à mão se mantenha acima da do fusível industrial que temos no quadro e, por isso, “têm que gerir as coisas que ligam“. Pois… mas era mais confortável saber que, em caso de distração ou acidente, o nosso quadro nos protegesse, antes de se comprometer a “trancinha” a que não temos acesso. Mas as instalações antigas é assim.
Portugal parece que é isto, também.
Cumprimento breve
Segunda-feira, 11 de Janeiro, 2010Estive hoje na 1ª sessão do Roteiro sobre Política Cultural promovido pelo Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda, que contou com a participação de agentes culturais do distrito do Porto e do distrito de Aveiro. Tomei algumas notas para mim e para mais tarde poder fazer um eventual resumo ou balanço. Para já, e por ser de elementar justiça, fica um cumprimento público à primeira responsável pela iniciativa. Obrigado, Catarina.
Porque não é comum conseguir reunir, em tão pouco tempo, um tão grande número de pessoas para debaterem de forma séria, aprofundada e não oportunista (roubo esta expressão ao Francisco Beja) questões de política cultural, apresentadas nos seus diversos níveis, desde o papel dos criadores ao papel do Estado, passando pela participação da sociedade civil e dos privados, pelo perigoso conceito das “indústrias criativas”, pelas responsabilidades dos poderes locais, pela importância da educação e dos media… duas horas e meia de trabalho sério.
E para que fiquem com uma noção da dimensão da tarefa, cá ficam os nomes dos intervenientes (entre cerca de 65 presentes): Catarina Martins (actriz/deputada), Salvador Santos (TNSJ), João Fernandes (Serralves), Pedro Jordão (Teatro Aveirense), Mário Moutinho (Plateia/FITEI), Paula Sequeiros (bibliotecária), João Martins (músico), Francisco Beja (ESMAE - Teatro), Jorge Campos (ESMAE - Audiovisual/Cinema), Pedro Fernandes (CineTeatro de Estarreja), Luísa Moreira (THSC), Carlos Costa (Visões Úteis/Plateia), Eduardo Rocha (produtor CCCAveiro), Jorge Louraço (crítico de teatro), João Luís (Pé de Vento), Ferreira dos Santos (AM Matosinhos, BE).
São os nomes como os apontei e o papel e funções tal como as percebi. Peço desculpa por qualquer gralha.
Curiosamente, ao contrário do que é “moda”, só eu é que estava de computador em punho (vícios antigos) e não havia cá modernices de cobertura no Twitter ou transmissão online. Nem tudo se pode resumir a bojardas de 140 caracteres, está visto. Mas não se pense que isto vai ficar “offline”: em breve vai ser lançado um fórum online para companhar as restantes sessões do Roteiro.
Mantenham-se atentos.
fim de tarde / fim de semana
Domingo, 10 de Janeiro, 2010Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
Sábado, 9 de Janeiro, 2010Estou confuso. Acabei de ler a entrevista declarações do Pedro Jordão ao no Diário de Aveiro e fiquei a saber que, ao contrário do que estava escrito no comunicado original que republiquei aqui no blog, ele assume as funções de Director Artístico e também Director Geral. E percebo, face ao anúncio duma nova imagem e dum novo site a ser lançado já na próxima semana, que o trabalho da equipa de Pedro Jordão começou bastante tempo antes da nomeação referida. Ou fazem milagres, coisa que um ateu, como eu, tem dificuldade em compreender e aceitar.
Continuo a desejar que tudo corra bem, porque a cidade de Aveiro precisa dum Teatro Municipal capaz. Mas se há coisa que falta a este processo é transparência e esse, para mim, é um valor fundamental na gestão da coisa pública. Que é pública, a coisa, caso alguém se esteja a esquecer.
E como não sou adepto da velha máxima de que os fins justificam os meios, começo a ficar sinceramente preocupado.
Além disso, não posso deixar de repetir uma coisa que o próprio Pedro Jordão me disse pouco tempo depois da sua nomeação: “é perigoso embarcar no discurso de que é possível fazer mais com menos recursos, principalmente quando estamos a falar com políticos“. Concordamos nisso, como concordamos que isso não impede que se possa fazer uma melhor gestão dos recursos existentes. Por isso é que o anúncio de que o Teatro funcionará com metade do orçamento do ano passado, deveria ser alvo duma reacção mais cuidada por parte do seu novo Director Geral e Artístico: nada o impedia (espero eu) de afirmar a vontade de fazer um bom trabalho ao mesmo tempo que avisa relativamente aos perigos do desinvestimento num equipamento desta natureza. Deixar passar esta oportunidade é (também) legitimar uma decisão política (a definição e gestão do orçamento municipal é uma decisão política) que deve ser alvo duma reflexão aprofundada e crítica por parte de todos os agentes culturais.
Dia 10, no Porto, no Teatro Carlos Alberto, talvez surja a oportunidade de voltar a estes assuntos, no contexto desta iniciativa.
[Divulgação] Roteiro sobre Cultura promovido pelo Bloco (actualizado)
Quarta-feira, 6 de Janeiro, 2010[ACTUALIZADO] Recebi o convite e o apelo à divulgação. Mais uma iniciativa que me parece importante para a real definição de políticas culturais para o país.
Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda promove Roteiro sobre Cultura com sessões públicas em todo país. A primeira é no Porto e é dedicada ao Porto e Aveiro, no Teatro Carlos Alberto, no próximo dia 10 de Janeiro, às 18h. O Roteiro também passará por Aveiro.
Uma nova política cultural precisa-se!
Convite
Nos últimos 10 anos Portugal assistiu a alterações profundas na dinâmica cultural do país, que não foram, no entanto, acompanhadas do necessário investimento financeiro, nem de corpo legislativo que assegurasse o serviço público que se exige nesta área.
O Bloco de Esquerda assumiu como eixos prioritários na política cultural o acesso das populações à fruição de bens culturais e a meios de produção artística e cultural, a salvaguarda do património cultural material e imaterial, e os direitos laborais dos profissionais do sector cultural.
Estes eixos exigem a tomada de posições, e a elaboração de iniciativas legislativas, relativas a modelos de financiamento da cultura, cartas de missão de equipamentos culturais e estatuto e certificação profissionais.
Para que este percurso ambicioso se faça com conhecimento do terreno e com os contributos dos agentes culturais locais e nacionais, a deputada Catarina Martins, responsável pela área da Cultura na Assembleia da República, irá promover um conjunto de sessões públicas descentralizadas sobre política cultural, percorrendo os vários distritos do país, entre os meses de Janeiro a Março.
O Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda gostaria, deste modo, de o convidar a estar presente, na primeira sessão pública que tem lugar no dia 10 de Janeiro, no Porto, no Teatro Carlos Alberto, às 18h.
Nesta sessão, e nas que se seguem, debateremos questões relacionadas com a criação de cartas de missão para os equipamentos culturais, incluindo definição de objectivos de programação, serviços pedagógicos, requisitos técnicos e humanos, contratos-programa de financiamento e concursos para direcção, assim como questões relativas ao equilíbrio entre regulamentação nacional e autonomia local, regulamentação de redes e financiamentos directos e indirectos à criação e difusão artística.
Será ainda criado um fórum online (num endereço Web a divulgar em breve) sobre trabalho e qualificação no sector cultural, que estará aberto aos contributos de todos os profissionais e interessados nesta área, e será dinamizado pelo Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda.
Calendário dos encontros [actualizado]:
(sujeito a confirmação)Janeiro
10 - Porto e Aveiro; às 18h no Teatro Carlos Alberto/Porto
23 - Braga e Viana do Castelo
30 - Coimbra e ViseuFevereiro
6 - Vila Real e Bragança
13 - Guarda e Castelo Branco
20 - Santarém e Leiria
29 - Évora, Beja e PortalegreMarço
6 - Faro
16 - Lisboa e Setúbal
Pedro Jordão, novo director artístico do Teatro Aveirense
Segunda-feira, 21 de Dezembro, 2009Acabei de receber a notícia, via comunicado do Teatro Aveirense. Conheci o Pedro Jordão quando regressei a Aveiro e colaborei com ele no Mercado Negro, pelo que (re)conheço o trabalho importante que fez ali, como no Cineclube de Aveiro. Tenho dele uma óptima impressão, pessoal e profissionalmente e desejo-lhe o máximo sucesso na difícil missão de dirigir artisticamente uma instituição como o Teatro Aveirense.
Mas, bem para lá dos nomes, interessam-me, sempre e em todos os casos, os projectos e os processos. Quanto ao projecto, aguardo com expectativa a visão e a estratégia que o Pedro Jordão terá para o TA. Quanto ao processo, lamento que se tenha perdido mais uma oportunidade para publicamente discutir os vários projectos possíveis para o Teatro.
Estou certo que a redefinição da estratégia de comunicação, que é referida no comunicado como uma das áreas sensíveis, tentará resolver também uma parte deste problema, dando ao público uma visão mais transparente dos processos de programação e uma voz mais clara e importante na avaliação do que se faz e no(s) projecto(s) do futuro.
Transcrevo o comunicado:
O Conselho de Administração do Teatro Aveirense vem por este meio anunciar (…) a nomeação de Pedro Jordão para a Direcção Artística do Teatro Aveirense. Licenciado em Arquitectura, detentor de um percurso verdadeiramente multidisciplinar, a sua nomeação teve em consideração a experiência na programação cultural de vários projectos e em diversas áreas artísticas, nomeadamente na cidade de Aveiro, onde nos últimos anos foi responsável pelo “Cineclube de Aveiro” e pela programação da “Associação Cultural Mercado Negro” - duas das mais marcantes instituições culturais locais onde logrou conceber programações ambiciosas, de qualidade publicamente reconhecida e muitas vezes com projecção nacional.
Conforme comunicado anexo, o Conselho de Administração entende que Pedro Jordão se enquadra no perfil desejado para o cargo de Director Artístico do Teatro Aveirense e que constitui uma clara mais-valia para este projecto cultural, correspondendo às necessidades decorrentes das funções a exercer que extravasam as funções de mera programação e abarcam toda a gestão do projecto. A escolha reflecte igualmente o objectivo de, após a consolidação do projecto nos últimos anos, levar o Teatro Aveirense a um novo patamar no que toca à programação e à visibilidade, afirmando-o definitivamente como um espaço de influência regional e com ambição nacional e internacional.
O Conselho de Administração do Teatro sublinha a experiência de gestão de Pedro Jordão que ao longo do seu percurso, abraçou projectos culturais complexos em condições difíceis, conseguindo implementar estratégias inovadoras e assegurando resultados positivos mesmo partindo de uma assumida insuficiência de meios, exibindo sempre uma necessária percepção global. O novo Director Artístico toma posse do cargo, numa altura particularmente delicada do Teatro Aveirense, financeiramente muito exigente, que implica uma visão rigorosa e inovadora para a gestão e programação do espaço e da sua ligação ao tecido cultural da cidade.
A nomeação de Pedro Jordão teve igualmente em consideração o conhecimento profundo do tecido cultural da cidade e da região, dos seus públicos, das suas instituições e dos seus agentes culturais, com quem frequentemente colaborou e com quem sempre manteve um contacto fácil, nos quais se inclui o próprio Teatro Aveirense; a sua experiência de produção de espectáculos e de comunicação cultural, cuja reformulação e eficácia será decisiva para o futuro do Teatro Aveirense; e a rede privilegiada de contactos profissionais que foi construindo a vários níveis e nas mais diferenciadas áreas, desde agentes culturais e artistas nacionais a artistas e agentes estrangeiros, imprensa e responsáveis institucionais.
Em anexo, uma nota biográfica de Pedro Jordão:
Pedro Jordão, 32 anos, natural de Aveiro, é arquitecto formado na Universidade de Coimbra e tem dividido a sua actividade pela prática da arquitectura, da investigação e da programação cultural. Tem desenvolvido um trabalho sistemático na área da cultura, com natural destaque para o seu papel como Dirigente e Programador no Cineclube de Aveiro e na Associação Cultural Mercado Negro, de que foi Fundador e onde exerceu funções até Setembro de 2009. Em ambos os casos trabalhou espaços por explorar no tecido cultural da cidade, procurando conceber programações marcadas pela qualidade, pela diversidade e pela inovação, nomeadamente no trabalho de comunicação, o que foi sendo reconhecido inclusivamente fora de Aveiro - atente-se ao trabalho desenvolvido no Mercado Negro que inclui no seu percurso inúmeros projectos de prestígio nacional e internacional numa linha de programação ousada. Tem colaborado pontualmente em diversos projectos artísticos multidisciplinares. O seu percurso como arquitecto iniciou-se no atelier de Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos, tendo entretanto iniciado actividade própria. Foi Fundador e primeiro Director da revista de arquitectura NU, há muito uma referência nacional dentro das publicações académicas, prosseguindo desde então com uma produção crítica regular, assinando artigos para diversas publicações nacionais e estrangeiras de arquitectura e cultura contemporânea. É o actual Comissário para a região Centro da “Habitar Portugal 06/08″, iniciativa principal da Ordem dos Arquitectos. O seu percurso conta ainda com a presença como Orador convidado em diversas iniciativas.
F.R.I.C.S. no aniversário da AMCSB
Sexta-feira, 4 de Dezembro, 2009A Fanfarra Recreativa e Improvisada Colher de Sopa (F.R.I.C.S.) terá a grande honra e privilégio de se associar às comemorações do 23º 33º aniversário da Associação Musical e Cultural São Bernardo, com quem tivemos já o prazer de colaborar, no Porto em 3 eventos memoráveis: espectáculo da Trisha Brown Dance Company em Serralves, abertura do FIMP em 2008 e em 2009.
O programa detalhado das festas poderá ser consultado brevemente, presumo, no blog ou no Facebook da AMCSB, mas a participação da F.R.I.C.S. acontecerá já no próximo dia 6 de Dezembro, domingo.
Apareçam para desejar muitas felicidades e muitos anos de vida à Fanfarra de São Bernardo e à miríade de projectos da AMCSB. Merece um brinde!
Aveiro Jovem Criador 2009
Domingo, 22 de Novembro, 2009Foi hoje a sessão de entrega de prémios e a inauguração da mostra relativa ao concurso Aveiro Jovem Criador 2009. No ano passado, fui convidado a integrar o júri da área de Artes Digitais e a experiência teve os seus altos e baixos (o workshop de Pure Data proposto na altura não se chegou a realizar por falta de interessados, que acabaram por se reunir em Águeda, na d’Orfeu). Este ano, apesar de manter as minhas reservas quanto a concursos deste tipo que exigem anonimato, decidi experimentar o processo do lado dos concorrentes, por razões várias, que vão da oportunidade ao risco. Submeti ao júri uma instalação interactiva, a que dei o nome de Public Piano #0909, e que resultou da junção dum par de ideias que me interessava testar no contexto da criação das “Criaturas“: trata-se dum patch relativamente simples, em Pure Data + GEM que
- recolhe e analisa o som ambiente, convertendo-o em sinal MIDI, usado para tocar um piano sintetizado
- capta a imagem do público e espelha-a no monitor, alterando o espaço de cor e a opacidade de acordo com a frequência e amplitude do som ambiente
A instalação apresenta-se de forma simples, como uma mistura de jogo e setup performativo, com uma estante de música virada para o monitor-espelho, montado num plinto, à altura do olhar. O microfone está colocado de forma visível junto à estante e virado para o público e, sobre a estante e o plinto, vários objectos (um metrónomo, uma caixa de música de manivela, um martelo de São João, entre outros) complementam o desafio do jogo, impresso na superfície da estante:
Imagina que isto é um jogo. Ou imagina que é um instrumento musical: um piano para todos, tocado de qualquer maneira. Usa o teu corpo e a tua voz ou os objectos disponíveis. Experimenta novos objectos e, se quiseres e puderes, oferece novos objectos à instalação, depositando-os na estante ou no chão. Aqui não há intérpretes e audiência: todos somos tudo. Limita-te a participar.
O patch está programado de tal forma que a sensibilidade (a amplitude mínima para gerar reacção) e a espontaneidade (o tempo entre a acção no ambiente e a reacção do sistema) variam de forma pendular, algo aleatória entre valores pré-determinados, por forma a que, ao longo do tempo, as condições do jogo se vão alterando. Contribui também para essa ideia de imprevisibilidade o facto do som produzido pelo sistema integrar o próprio som ambiente e, assim, realimentar a cadeia de processamento— problema técnico que resolvi, aplicando uma operação de divisão da frequência e amplitude em cada ciclo, que dá origem a uma espécie de delay com pitch shifter ou arpeggiator e impede loops infinitos. A ideia é que, a cada momento, o som produzido possa ser imediatamente identificado como reacção a estímulos acústicos exteriores ou seja completamente imperceptível essa relação, dada a quantidade de material residual ainda em processo e que, na alternância entre esses dois estados, resulte um objecto orgânico e vivo. A imagem pretende apenas funcionar como espelho-simbólico, reagindo às condições acústicas, mas, acima de tudo, projectando a imagem do público-performer, confrontando-nos com a nossa actual condição de criadores obsessivos.
Ao criar esta peça não conhecia ainda o conceito do RjDj, mas, de certa forma, foi sobre ideias semelhantes e com as mesmas ferramentas que trabalhei.
No processo de submissão da obra, juntamente com um registo vídeo pouco eficaz, em parte devido à limitação do anonimato que me obrigou a um registo muito parcial e limitado da instalação em uso, entreguei a seguinte Explicação de Processos e Argumentação:
Explicação de Processos
Public Piano #0909 é uma instalação intermédia que capta o som e a imagem produzidas no espaço expositivo e devolvem-nos, em forma híbrida de “piano de imitação” e “vídeo-espelho manipulado”. Usando o Pure Data e GEM, os parâmetros do som são analisados em tempo real e convertidos em sinal MIDI para accionar um piano sintético e, simultaneamente, para definir as alterações cromáticas no “vídeo-espelho”.
O público é, simultaneamente, performer.Argumentação
Numa era de democratização dos meios de criação e produção artísticas e em que todos pretendemos ser mais do que meros espectadores-receptores, Public Piano #0909 apresenta-se como um resultado natural do encontro entre o video-jogo, o instrumento musical virtual e um espelho, símbolo do nosso crescente egoísmo. Se o aparato tecnológico remete para o universo das consolas, os objectos disponíveis convidam à experimentação e fruição acústicas.
O vídeo em causa, era este:
O júri pediu para ser montada uma demonstração da instalação na Casa da Juventude, de acordo com sugestão da minha parte no momento da candidatura e em total respeito pelo regulamento e pelas normas relativas ao anonimato e teve, assim, acesso à montagem possível, dadas as limitações de espaço, tempo e recursos durante uma das suas reuniões.
A peça foi seleccionada para integrar a mostra, mas o júri decidiu não atribuir quaisquer prémios ou menções honrosas na área de Artes Digitais, na edição deste ano. A experiência de integrar o júri do ano passado ajuda-me a compreender a dificuldade destas decisões e a respeitá-las. Estivesse eu no lugar do júri e, provavelmente, não consideraria a minha peça digna de prémio ou menção honrosa, pela forma como foi apresentada e até por alguns aspectos da sua realização. Mas a experiência de preparar esta candidatura, este ano, mostrou-me de forma bem mais evidente, as fragilidades deste concurso, na área específica de Artes Digitais. Tenho pena que algumas das questões levantadas no ano passado não tenham ainda sido objecto de reflexão para o regulamento deste ano. Entristece-me saber que algumas obras interessantes foram desclassificadas, de novo, pelo problema da sua identificação e compreendi bem algumas dificuldades que se colocam aos concorrentes para apresentar as obras no seu melhor estado, sem as identificar. Espero que a regra do anonimato, que já não existe na área da Pintura, por exemplo, possa cair em todas as áreas. E, acima de tudo, espero que as limitações técnicas das obras a concurso na área de Artes Digitais sejam explicitadas com a clareza que se vê na Escultura, por exemplo (extraordinário o trabalho vencedor nesta categoria, já agora). Com uma descrição dos recursos técnicos disponíveis e das limitações existentes na mostra (projecção, computadores, monitores, sistemas de som, espaço expositivo, isolamento, iluminação) e a possibilidade de montagem prévia das obras, nos casos em que se justifique, para apreciação pelo júri, em local adequado e/ou com imposições claras relacionadas com a natureza da mostra, o trabalho dos concorrentes é facilitado. Eu, pessoalmente, arrependo-me de ter produzido sistematicamente versões e apresentações da proposta a pensar em eventuais limitações técnicas finais e usando apenas material que poderia ceder para a mostra (condição que acabou por se verificar), quando algumas experiências de montagem com mais meios me mostraram um objecto artístico muito mais bem conseguido, completo, compreensível, envolvente e impactante. Reduzi nos meios usados em função do que me parecia ser possível para a mostra e, com isso prejudiquei a “obra”. Mas a verdade é que a montagem final, na mostra, depende de facto do meu material e é uma versão “modesta”, na qual, entre outras coisas, os responsáveis pela organização não podem garantir som contínuo e/ou a alternativa de auscultadores que sugeri: na inauguração de hoje, por exemplo, várias pessoas pararam em frente à instalação, usando os objectos e esperando reacção que não existia, já que o som estava cortado, por causa duma intervenção musical a ocorrer no mesmo espaço.
Há muito caminho a fazer.
Pessoalmente, espero pegar neste objecto e apostar na versão mais ambiciosa, com meios mais capazes, quer em termos de captação de vídeo e áudio, quer em termos de difusão e ocupação de espaço. Espero encontrar o local e os parceiros necessários para, pelo menos, uma montagem e demonstração pública para efeitos de registo.
Entretanto, aconselho a visita à exposição, na Casa Municipal da Cultura Fernando Távora, aqui em Aveiro (em frente aos Paços do Concelho). Se o meu Public Piano #0909 estiver mudo, peçam a alguém para o ligar e avisem-me.


Nome: João Martins












