É provável

… que este blog fique mais ou menos fechado para obras durante uns tempos.

Preciso de fazer umas actualizações de fundo e, como este ano de 2013 tem muitas novidades importantes, terei que encontrar uma nova estrutura capaz de dar o conveniente destaque aos projectos em curso, separando-os, de alguma forma, das entradas mais genéricas, pessoais e/ou familiares.

Não faço ideia quando é que voltarei, nem que aspecto terá a coisa, mas hei-de voltar.

Até.

Ainda nos podemos defender?

Muitos acontecimentos recentes deixam-me com uma terrível sensação de impotência. Hoje gostei de encontrar, a propósito da extinção da secção de cultura na Agência Lusa, dois bocados de prosa cristalinos, que tão bem reflectem o que penso:

O Ministério da Cultura reduzido a Secretaria de Estado; um corte de quase um terço no orçamento da Cultura; os organismos de produção artística do sector público amalgamados num monstro ingerível; os concursos para apoio à produção de Cinema suspensos; cortes unilaterais de 30% nos subsídios já contratualizados com os produtores artísticos; extinção dos cargos de Portugal junto da UNESCO e de presidente da Comissão Nacional da UNESCO; e agora a agência noticiosa do Estado a suprimir a secção de Cultura. O que esta gente tem pela Cultura já não é só desprezo, é uma espécie de alergia militante que ora inspira alguma repulsa ou, noutra óptica, pode até despertar uma certa comiseração, porque revela sobretudo um primarismo e uma grosseria essencial confrangedores. Mais do que uma visão cultural de Direita, que em si mesma teria uma legitimidade própria, esta gente faz gala de ostentar uma rejeição liminar da dignidade da Cultura, a lembrar a frase célebre do general franquista Millán Astray: “Morra a Inteligência! Viva a Morte!”

Rui Vieira Nery, no seu mural no Facebook

A ideia da cultura ou, ainda mais, a ideia da arte transporta consigo o estereótipo de que é “espontaneamente” de esquerda. Não é verdade no que respeita às posições individuais dos artistas. Agustina não é de esquerda como Joaquim Paço d’ Arcos e muitos outros escritores não eram de esquerda. Mas as artes possuem sempre o potencial de dirigir o imaginário para “um outro mundo”. É isso que os tecnocratas incultos e fascinados pela sua própria crença absurda nas propriedades dos seus números imaginários – esquecendo que, pelo contrário, a economia é uma ciência cindida ideologicamente e não una – temem na ideia da arte.
Disse-me um compositor holandês meu amigo que o lider do novo partido de extrema direita holandês (que subiu muito nas últimas eleições) diz qualquer coisa como “o estado não tem nada que financiar os gostos e requintes dos snobs esquerdistas”. Este lema – quasi-fascista, de facto – está latente na visão dominante da ignorante direita portuguesa actualmente no poder. As esquerdas, parece-me, não têm conseguido fazer frente de forma eficaz à longamente preparada hegemonia da visão vigente. Abraço ao Rui, à Piedade, etc, companheiros de desdita.

António Pinho Vargas, no mural do Facebook de Rui Vieira Nery

A propósito, convém lembrar que António Pinho Vargas tem colaborado com reflexões importantes para o Esquerda.net, como esta sobre se “não será necessário que uma nova política de esquerda seja capaz de reinventar o papel do estado na cultura para além do que ele tem sido até hoje”.

Hoje estou particularmente sensível porque, associado ao quase desaparecimento do Jazz na programação da Casa da Música, soube, via mail, que o actual Conselho de Administração de Serralves decidiu anular a programação de música anual da Fundação.

Quem é que ainda pode fazer de conta que acredita que o Estado se pode e/ou deve retirar no que aos apoios à criação e difusão cultural diz respeito, porque os privado asseguram alguma coisa?

Já que é já Natal…

“Os Pais Natais”

Sérgio Godinho canta com Os Amigos do Gaspar

canção de Sérgio Godinho (letra) e Jorge Constante Pereira (música)
para o programa Os Amigos de Gaspar

Já que é já Natal
se um Pai Natal houver
mais que dois ou três
então à vez
podemos ser, sei lá
o Pai Natal sempre de alguém
de quem não tem direito
ao seu presente
resplandescente

Já que é já Natal
se um Pai Natal houver
mais que dois ou três
então à vez
podemos ser, sei lá
o Pai Natal sempre de alguém
de quem não tem direito
ao seu presente
resplandescente

Olha o Pai Natal
mais um Pai Natal
outro Pai Natal

Olha o Pai Natal
mais um Pai Natal
outro Pai Natal

Eu vou ser Pai Natal
Eu sou Pai Natal
Já fui Pai Natal
Natal, Natal, Natal, Natal

Com votos de boas festas, abraços, beijos e saudades especiais.

Obras profundas

Este blog, neste momento, não serve quase nenhum dos propósitos para os quais foi criado. Necessita urgentemente de uma restruturação profunda para que cada um dos visitantes encontre rapidamente o que lhe interessa e para que, assim, possa cumprir com o papel mínimo de minha “casa virtual”.

Até ter tempo de fazer essa restruturação, as coisas ficarão assim mesmo, mas não poderá haver muita actividade de escrita, porque só baralha ainda mais. Ainda assim, se tropeçarem neste artigo e forem utilizadores assíduos ou ocasionais do blog, agradecia que me dissessem que tipo de coisas gostariam de ver “autonomizado”. Que é como quem diz: a que tipo de artigos gostariam de chegar rapidamente e que tipo de artigos preferiam não ter que ver? Podem usar como referência categorias ou tags existentes ou dar as vossas próprias descrições de conjuntos de artigos que vos podem eventualmente interessar e/ou vos incomodam. Além de refazer a minha apresentação e actualizar informação básica sobre projectos presentes, passados e futuros, quero criar umas “gavetinhas” mais arrumadas e, nesta altura, toda a ajuda é bem vinda.

Actualizações e reorganizações

AVISO À NAVEGAÇÃO: Este blog será objecto duma operação mais ou menos profunda de actualização do seu suporte (WordPress) e duma tentativa de reorganização para facilitar o seu uso por públicos que são, efectivamente, relativamente diferenciados. Não há nenhum plano realista sobre quando é que essas operações serão feitas, mas até que o sejam, o blog continuará pouco activo porque não é nem eficaz nem atractivo nem para os eventuais leitores, nem para mim.

Se tiverem sugestões acerca de formas de reorganizar que sirvam os vossos (eventuais) interesses, aproveitem a caixa de comentários.

Uma das alterações mais significativas será o fim da publicação automática das entradas do blog no Facebook, que baralha as questões da (eventual) interacção. No Facebook, passarão a aparecer notas sobre novas publicações no blog, mas será aqui que se concentram operações de comentários, etc. e tal.

Va bene?

jazz.pt | Voladores, Tony Malaby’s Apparitions

Voladores, Tony Malaby's Apparitions
Voladores, Tony Malaby’s Apparitions

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

Este quarteto Apparitions, de Tony Malaby, na sua própria constituição de saxofone, contrabaixo e 2 baterias contém uma agenda, que se entende tão melhor, quanto mais se observa o perfil e história dos 4 instrumentistas: Tony Malaby, o líder da formação, nascido no Arizona, afirma-se cada vez mais como um dos grandes saxofonistas criativos do nosso tempo, aliando técnica, musicalidade e versatilidade para colaborar com nomes incontornáveis no jazz americano e europeu, como Charlie Haden, Michel Portal, Paul Motian ou Daniel Humair. Drew Gress, contrabaixista, improvisador e compositor, actualmente dedicado à improvisação contemporânea e de vanguarda, colabora habitualmente com John Abercrombie, Tim Berne, Don Byron, Uri Caine, Bill Carrothers, Ravi Coltrane, Marc Copland e Mark Feldman, entre outros. Tom Rainey é um dos mais requisitados e flexíveis bateristas da actualidade, com colaborações regulares com Tim Berne e um historial interminável de gravações e concertos, onde se destaca a sua versatilidade na exploração da bateria como instrumento completo. E John Hollenbeck é, além dum baterista e percussionista completíssimo, um compositor e maestro requisitado, com uma expressão e universo musical muito próprio.
Para quem a singularidade da formação ou o perfil dos músicos é relativamente indiferente, a abertura do álbum com um tema inédito de Ornette Coleman, “Homogeneous Emotions”, é, de facto, um bom ponto de partida. Há, neste quarteto peculiar, e em parte da abordagem expressiva de Tony Malaby e na sua escrita, referências a Ornette, numa certa ambiguidade ou abertura harmónica e uma certa disponibilidade polirrítmica, que é, por isso, mais sensível à (con)sequência de frases e motivos melódicos expostos sobre bases rítmica e harmonicamente livres, onde o espaço dos músicos, independentemente do seu instrumento, é em grande parte definido pela capacidade de reacção/criação e pela interpretação subjectiva do significado do momento musical e do seu espaço.
Com 1 tema de Ornette Coleman, 3 improvisações em grupo e 7 temas de Tony Malaby, a sensação geral é a duma música que resulta coerente e que tem significado(s), multidireccional, que se eleva à condição de muitíssimo mais do que a soma das partes, sendo as partes, as contribuições de cada músico.
De facto, em cada momento de cada tema, o universo de possibilidades face à criatividade, flexibilidade e destreza técnica de cada um dos músicos parece inesgotável, mantendo-se, em cada configuração e independentemente da instrumentação disponível, uma enorme coesão, resultado da intencionalidade da escrita e liderança de Malaby, mas, sem dúvida, da atenção e da grande experiência musical dos seus parceiros, cada um deles, igualmente responsável pela construção de momentos verdadeiramente surpreendentes. Com as improvisações de grupo a pontuarem o disco com momentos de procura “pura”, a versatilidade e expressividade que aí ouvimos é generosamente utilizada nos momentos mais direccionados do disco.
O encontro entre John Hollenbeck e Tom Rainey é verdadeiramente extraordinário, sem redundâncias, nem sobreposições, com Hollenbeck a povoar todo o disco com timbres e sonoridades complementares à já diversificada paleta de Tom Rainey e, com a melódica, a dobrar a voz de Malaby com sucesso, por exemplo em “Lilas”. Com bases rítmicas e texturas excepcionalmente ricas, Drew Gress, consegue encontrar o seu justo papel, sem ficar preso a funções convencionais e usando todo o potencial do contrabaixo, de acordo com as exigências dos temas, entre um baixo mais convencional de “Homogeneous Emotions”, por exemplo, e os harmónicos e arcadas nervosas em “East Bay”. Tony Malaby, com um som profundo e cru, quer no tenor, quer no soprano, afirma uma voz urgente, mas determinada, capaz de grande beleza e fragilidade, mas também de vigor, excitação e mesmo violência.
Emoções geridas e equilibradas de forma consequente, num disco que corre seriamente o risco de se tornar imprescindível.

Voladores, Tony Malaby’s Apparitions

Clean Feed (2009)
Gravado em Nova Iorque (2009)

  • Tony Malaby saxofone tenor e soprano
  • Drew Gress contrabaixo
  • Tom Rainey bateria
  • John Hollenbeck bateria, percussão, marimba, vibrafone, glockenspiel, melódica, pequenos utensílios de cozinha
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Requisitos para trabalhar com ferramentas Open Source

Quando se apresentam as vantagens teóricas e práticas das ferramentas informáticas Open Source é raro falar-se em profundidade dos requisitos que estas apresentam, ao contrário do que acontece na maior parte das vezes que se discutem ferramentas proprietárias. É natural que assim seja: como estas ferramentas são abertas e livres, não existe, de facto, uma lista de “exigências” e (in)compatibilidades, como acontece muitas vezes com as ferramentas proprietárias, que as apresentam, muitas vezes, apenas por interesses comerciais e sem nenhum fundamento técnico. A diversidade de distribuições de algumas destas ferramentas, disponíveis para variadíssimos “sabores” de Linux, mas também para Windows e Mac OS X, com bastante frequência, tornam ainda mais complicado falar de “requisitos” e promovem a ideia de que todas elas funcionam igualmente bem em qualquer ambiente. Numa primeira abordagem e para uma utilização pacata, suspeito que isso corresponda à verdade e essa é mais uma das razões para que não se levante frequentemente este problema dos “requisitos”, mas se nos debruçarmos mais a sério sobre estas ferramentas e se fizermos uma utilização intensiva, comparando-as com as concorrentes comerciais, começamo-nos a deparar com dificuldades estranhas e muitas vezes pouco documentadas. Especialmente se, como eu, adoptarmos várias ferramentas open source, mas não formos rigorosos militantes do modelo FLOSS— ou seja, não só mantenho como sistema operativo o Mac OS X, como preciso de ver a vantagem técnica das soluções open source, já que as morais, que não menosprezo, em momentos de crise podem não ser suficientes para não me impedir de fazer o meu trabalho.

O dia de hoje— como todos os momentos cruciais de finalização e entrega de trabalhos de design de alguma dimensão desde que comecei a usar intensivamente o GIMP, o Inkscape e o Scribus— voltou a fazer-me pensar, dolorosamente, nesta questão. Sendo, teoricamente, ferramentas muitíssimo potentes e perfeitamente capazes de realizar as mesmas tarefas que as mais avançadas soluções comerciais e tendo eu a experiência de assistir à demonstração disso mesmo ou fazer essas demonstrações eu próprio, a verdade é que, em velocidade de cruzeiro, na configuração que eu tenho neste momento, a performance é dolorosa.

Os problemas maiores que me afligem dividem-se em 3 grandes áreas:

  • Gestão de memória: quando trabalho com ficheiros grandes (imagens raster de grandes dimensões no GIMP, ficheiros com muitos objectos ou geometrias complexas no Inkscape, documentos de grande dimensão no Scribus…) operações relativamente simples demoram imenso tempo, recordando os processos de edição digital de há 10 anos atrás. Em determinados períodos isso não é mau; dá-nos tempo para pensar, ajuda a gerir as pausa, etc. Mas numa fase final de produção de elementos para impressão, em contra-relógio, é exasperante. E se fosse para ter a performance de há 10 anos atrás, não se justificava ter máquinas recentes, com processadores recentes e memória adequada.
  • Instabilidade: na altura da verdade, tenho sido presenteado com freezes e crashes como nunca tinha visto (eu nunca usei Windows para trabalho). E, se no GIMP a instabilidade parece estar directamente relacionada com o problema da gestão de memória, já que só se nota com ficheiros de grandes dimensões (apesar de haver um ou outro filtro ou extensão pouco recomendável, também pelos imensos ficheiros que gera, mesmo que temporariamente), quer no Inkscape, quer no Scribus, chego a pensar que a condição necessária e suficiente para ter um freeze ou um crash é estar a trabalhar em algo de que precise durante algum tempo. Bem sei que tem que haver um padrão e já identifiquei algumas operações “sensíveis” nas duas aplicações, como agrupar e desagrupar grandes quantidades de objectos, aplicar máscaras e clipping paths no Inkscape, tentar abrir a janela de impressão no Inkscape, manipular elementos vectoriais importados no Scribus, obrigar o Scribus a muitos redraws, através de zooms e pans… Mas a instabilidade das aplicações, para quem vem dum universo Macintosh, é um pesadelo kafkiano e em momentos críticos, crashes a cada 5 minutos, como tenho tido quando estou a finalizar a composição de MUPIs, por exemplo, faz perder qualquer esperança no benefício kármico de usar software livre.
  • Compatibilidade: este problema não é tão grave como os outros do ponto de vista de performance, uma vez que é algo a que já estamos habituados nas soluções comerciais, mas é estranho que os SVGs do Inkscape, por exemplo, tenham alguma dificuldade de importação no Scribus se usarem algumas funcionalidades, como máscaras, clipping paths ou transparências e que, mesmo que não tenham essas características, percam referências de dimensão e cheguem fora de formato ao Scribus. Via EPS ou PDF damos a volta a esta questão, mas é estranho. Como é estranho que o Scribus importe ficheiros .PSD, formato proprietário do Photoshop, mas não .XCF, formato nativo do GIMP. Ou que seja preciso recorrer ao Scribus para ter uma imagem em quadricromia feita no GIMP. Ou…

O facto destas questões (algumas delas, pelo menos) não serem abordadas como assuntos sérios nas comunidades de utilizadores e dada a diversidade e exigências de uso a que elas têm sido submetidas, levam-me a depreender que, apesar de “funcionarem” em muitos ambientes, não “correm” em todos. Diz-me um colega de profissão que no seu MacBook, nota uma considerável diferença de performance nestas aplicações entre as versões em Mac OS X e versões a correr em Linux (Ubuntu):

É que não há comparação. Eu agora instalei o Ubuntu no meu MacBook Pro e, comparando com o OSX, as apps gráficas livres correm que é um doce. Compensa o incómodo de ter um dual-boot.

Além de que estás sempre com as versões mais actuais — as ports para OSX demoram sempre um pouco a sair. E têm sempre bugs específicos, que é o que te deve estar a afligir (e que eu também testemunhei).

Diz quem sabe.

Eu vou fazer o teste possível, mas fico a pensar até que ponto este é um problema real da comunidade open source:

  • Será que a difusão da ideia de que as ferramentas livres e abertas funcionam em todos os ambientes e o voluntarismo com que alguns programadores “martelam” o código necessário para que tudo funcione em todo o lado não criam experiências negativas (ou menos positivas) em quem está a ponderar a mudança?
  • Não seria útil gerir melhor as expectativas dos utilizadores (especialmente dos utilizadores mais exigentes, que estejam num percurso de migração, vindo de ambientes proprietários / comerciais), clarificando os requisitos técnicos de cada aplicação e dando exemplos de setups testados para performance e estabilidade?
  • Será assim tão perigoso para a difusão do software livre a declaração de exigências mínimas para aplicações específicas e a constatação de que existem diferenças entre “funcionar” e ser útil e produtivo num ambiente real?
  • Que impacto teria no ecossistema fragmentado dos sabores Linux a declaração, por parte dos principais programadores de cada aplicação, das combinações de hardware e sistema operativo ideais e/ou realmente testados?
  • Como se poderia implementar um sistema de testes das diversas distribuições de cada aplicação em cada ambiente que fosse verdadeiramente fiável? A sensação que se tem é que, em muitos casos, as distribuições Mac OS X foram testadas com uma instalação e um par de cliques por parte de quem 1) não usaria a aplicação profissionalmente e/ou 2) não tem grande experiência de utilização de computadores Macintosh.

Vamos lá a alguns testes, então…

Infinite Loop?

Os últimos dias têm sido dias de viagem. Estamos a percorrer parte da “rede” Clunisiana, procurando parte do seu património imaterial entre monumentos, ruínas e conversas com quem ajuda a manter este património ou, pura e simplesmente, o habita. Andamos por sítios que, outrora, foram o centro do mundo, mas que estão agora “perdidos” no meio das províncias rurais francesas. Visitamos o “berço” dos primeiros cidadãos europeus, como Odilon de Mercœur, mas atravessamos zonas da França rural que não têm cobertura de telefones móveis ou acesso fácil à internet, por falta de habitantes que rentabilizem o negócio.
Por isso, o blog se apresenta, assim, num loop infinito de auto-referências automáticas ao artigo anterior. Como que a dizer “hoje, não se passou nada de virtual na minha vida”. ;)

Em breve regresso, com palavras, imagens e sons. Quem sabe se desse lado ainda estará alguém?

* Infinite Loop é a morada da sede da Apple, em Cupertino.

Ser solitário no blog ou a andar entre a gente, no Twitter?

Não existem relações reais online. Por isso, obviamente, lhes chamamos virtuais. Estamos por isso todos muito sozinho, por aqui, cada um atrás do seu teclado e monitor, vertendo banalidades ou profundas reflexões, comentando o quotidiano ou relatando ficções— que podem ou não ser absolutamente verdade, dependendo da relação que mantemos com o Boris Vian—, mas acima de tudo, numa batalha quixotesca contra a ideia de estar sozinho, sem nunca quebrar de facto a barreira (virtual) que nos separa uns dos outros. Por isso— estou eu agora a pensar— escrevemos mais do que lemos, republicamo-nos uns aos outros, comentamos sem contracenar, conversamos, desconversando. Sempre isolados, modelando a imagem dessa solidão de acordo com expectativas do que gostávamos que a nossa vida real fosse, uns com imensos amigos e em todos os “lugares”, outros protegidos em “clubes privados” ou fechados nas suas “casas”.

Acima de tudo, pelo menos uma parte de nós faz de conta que esta coisa de escrever e publicar coisas que outras pessoas podem ler é qualquer coisa de parecido com participar na vida pública das nossas sociedades e uma parte de nós acredita que o que escreve é relevante e deve ser lido, enquanto outros, que se levam ainda mais a sério, quiçá, fazem de conta que não dão importância nenhuma ao facto de serem ou não lidos, acompanhados ou comentados.

Entretanto, a vida lá fora, a real, prossegue a uma velocidade que nos parece crescer sempre mais e mais, mas que provavelmente é constante, crescendo apenas a nossa voracidade do relato e comentário em “tempo real”, para acompanhar as “ferramentas” que são inventadas com as necessidades que se propõem suprir, um mecanismo antigo da sociedade de consumo.

Depois desta breve pausa, dedicada à Ágata, seguiremos dentro de momentos, por aqui, com esta vida plastificada e acelerada, felizmente, apenas virtual.