Arquivo da Categoria ‘comunicação’

Gabriela Canavilhas entala deputada do Bloco de Esquerda… ou não?

Sexta-feira, 16 de Julho, 2010

Nota prévia: confesso-me espectador atento e adepto do formato do Daily Show, de Jon Stewart, que me parece parte integrante dos bocados mais saudáveis da democracia norte-americana. A mediatização da sociedade e da política, muito mais (doentia e) profunda por lá, mas já um fenómeno global a que não escapamos, precisam não só duma comunicação social ágil e capaz de trabalhar bem nas várias velocidades— do “soundbyte” directo e instantâneo, à longa reportagem e investigação profunda, passando pela notícia minimamente documentada—, mas também de sistemas de “desmontagem rápida” dos episódios mais ou menos caricatos que poluem o próprio espaço público da comunicação, muitas vezes, simplesmente por falta de gente atenta, com tempo e visibilidade. Essa desmontagem rápida é, muitas vezes, mais eficaz com recurso ao humor e à sátira, como faz Stewart, num formato que já foi imitado em Portugal pelo Gato Fedorento, mas que tem dificuldade em se afirmar, já que não temos os necessários alicerces: a nossa comunicação social tem imensa dificuldade em garantir níveis mínimos de cobertura noticiosa, a investigação jornalística anda pelas ruas da amargura, não temos uma cultura mínima de escrutínio contínuo e consequente da actividade de ninguém, nem dos mais altos responsáveis políticos, por exemplo, pelo que esforços de sátira e desmontagem cómica do quotidiano se tornam tarefas virtualmente impossíveis.

Ainda assim, a propósito da última audição da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República (pode ser vista na íntegra aqui), recheada de momentos saborosos para o amante da sátira, não resisti a imaginar a estrutura dum sketch intitulado “Gabriela Canavilhas entala deputada do Bloco de Esquerda… ou não?“. Para quem tem acompanhado a agenda política e cultural das últimas semanas, não é novidade nenhuma que há uma deputada do Bloco de Esquerda, de seu nome Catarina Martins, que tem irritado frequentemente a Ministra, merecendo mesmo o Bloco a acusação de “liderar o protesto dos agentes culturais“— que foi mais uma forma de insultar os artistas na sua autonomia cívica e legitimidade de protesto. A intervenção que muito irritou a Ministra foi esta:

Era por isso com alguma expectativa que se aguardava o encontro directo entre a Ministra e a deputada, nesta recente audição, já posterior ao anúncio de que, afinal, o Ministério da Cultura ia cumprir os contratos assinados (a “grande vitória” do Ministério da Cultura que, para muitas pessoas é apenas a correcção dum erro escandaloso). Para espanto de quem acha que isto da política é uma coisa de jogos florais e quejandos, a deputada do Bloco de Esquerda não se deu por satisfeita e pressionou a Ministra, com alguma veemência:

Esta foi, aliás, a segunda intervenção da deputada nesta audição e todos lamentamos que o Bloco não mostre nos seus clipes no YouTube todas as intervenções e, mais do que isso, as reacções ou falta delas, pelo que convém ver o que se passou de facto na audição— que, repito, pode ser vista na íntegra aqui.

Especialmente relevante para um analista de sofá seria o primeiro confronto, em que a deputada levanta o problema dos cortes a 100% nos fundos de aquisição, falando explicitamente do problema de Serralves, referindo-se à colecção de Arte Contemporânea para a qual o Estado contribui— e que o Estado põe em causa com esta decisão— como uma “colecção pública”, no sentido em que, apesar da sua forma jurídica, uma Fundação privada, existe a garantia de que “se a Fundação de Serralves deixar de existir, de hoje para amanhã, a colecção reverte para o Estado” (palavras da deputada).

Reage a Ministra com um vitorioso “a colecção é privada” e “a senhora deputada deve verificar melhor os estatutos”. Ora toma que já almoçaste, deputada irritante do partido radical e nunca satisfeito. Toma, embrulha e mete na tulha! E siga a rusga, mantendo sempre a Fundação de Serralves e a Fundação Berardo bem juntinhas, a bem da confusão geral e, com um jeitinho e alguns vasos comunicantes, o disparate polémico da Fundação Berardo fica diluído no prestígio e solidez incontestada da Fundação de Serralves.
Ainda por cima, para vergonha pública maior da deputada, não há sequer possibildade de responder, já que quem está a ser ouvido nesta audição é a Ministra e não os deputados. BUM!, diria o Jon Stewart,

Mas não deixamos de nos interrogar como é que uma deputada que tem dado tão bem conta de si se deixa apanhar nesta gaffe flagrante e, para a ajudar, vamos ver o que dizem de facto, os porventura intrincados e subtis estatutos da Fundação de Serralves, que terão induzido em erro a inexperiente parlamentar:

CAPÍTULO V
Extinção da Fundação

Artigo 32º

  1. Extinta a Fundação, o seu património reverterá integralmente para o Estado.

Ups. Não foi exactamente isto que a deputada disse? Quer dizer que a Ministra da Cultura acusou a deputada, em sede de Comissão Parlamentar, de falta de informação e/ou de faltar à verdade, sem nenhum fundamento e munida apenas duma enorme cara de pau? Ou estarão os estatutos da Fundação Berardo elaborados da mesma forma, pelo que o destaque dado pela deputada bloquista é, em si mesmo, demagógico e merecedor de repreensão?

CAPÍTULO V
Dissolução e liquidação da Fundação

Artigo 30º

Dissolução da Fundação

  1. Em caso de impossibilidade, por qualquer razão, de obtenção dos objectivos para que foi constituída, a Fundação dissolve-se nos termos legais, constituindo-se o conselho de administração em comissão liquidatária.
  2. Extinta a Fundação, o respectivo património será partilhado nos seguintes termos:
    a) O direito de usufruto do centro de exposições do Centro Cultural de Belém extingue-se, reassumindo a Fundação do Centro Cultural de Belém a sua posseplena e gestão;
    b) O comodato extingue-se, reassumindo a Associação Colecção Berardo a posse plena e gestão da Colecção Berardo, caso a essa data o Estado não tenha exercido a opção de compra;
    c) Caso já tenha exercido a opção, o património reverte a favor do Estado, que se obriga a integrar em projecto museológico já constituído ou a constituir preservando a memória da Colecção Berardo;
    d) Todo o restante património, nomeadamente as obras adquiridas através do fundo de aquisições ou por doações ou legados, reverte a favor do Estado, sem prejuízo do disposto na parte final da alínea c) anterior.
  3. As obras de arte compradas com recurso ao fundo de aquisições podem ser adquiridas por José Manuel Rodrigues Berardo ou por quem ele venha a indicar, pelo respectivo preço de aquisição, sendo deduzida a parte do preço que constituiu a sua participação.

Bem… sendo assim, não quererá a Ministra fazer mais um pequeno recuo, para se colocar numa posição em que não esteja permanentemente a dar tiros nos próprios pés? É que, para quem vai estando atento, neste momento, a ausência de resposta a provocações deste género por parte da Ministra (um misto de arrogância ignorante com ignorância arrogante), é simplesmente um sintoma crescente (gritante) da sua irrelevância política.

Em jeito de nota de rodapé, destacaria ainda o facto do próprio Presidente da Comissão ter tentado, sem grande êxito, explicar à Ministra que ela não tinha percebido o conteúdo da primeira intervenção da deputada e que, por isso, o clamor por provas de que ela tivesse mentido ou insultado o sector eram descabidas. Nesse aspecto, também, a Ministra aproveitou para enfiar um gigantesco barrete— a deputada referia-se ao “discurso da subsidio-dependência [que] é mentiroso e insultuoso”.

EDIT: este post tinha um vídeo do Youtube que, entretanto deixou de estar disponível.

No meio da tragédia, um instante de orgulho familiar

Sexta-feira, 9 de Julho, 2010

Ouço a minha irmã na Assembleia da República e o seu brilhantismo chega a fazer-me esquecer, ainda que por instantes, a gravidade da situação criada pelas opções deste Ministério da Cultura.

«Para poupar o equivalente a três quilómetros de auto-estrada, este Governo decidiu colocar todo o sector cultural em risco. E porque o próprio Ministério da Cultura— qual comissão liquidatária do sector— tem promovido um discurso populista e demagógico de ataque à cultura e aos seus profissionais não será demais esclarecer o que está em causa:o Ministério da Cultura assina contratos com estruturas privadas a quem delega prossecução de políticas públicas e o que o Ministério propõe agora é não cumprir estes contratos. E isto é inédito!

(…)

Todos os cortes são retroactivos porque se referem a contratos já assinados e portanto correspondem a compromissos que os privados já assumiram. E todos os cortes têm efeito irreversíveis: as estruturas que se desmobilizam agora não conseguirão refazer-se.

(…)

Desistir do sector da Cultura é desisitir de uma ideia de futuro para o país.»

E, no registo de intervenção não escrita, também dá gosto. Reparem:

E directamente na cara da Ministra da Cultura, fazendo-a encostar às cordas:

«Vai ou não o Ministério da Cultura cumprir os contratos assinados no âmbito dos concursos da Direcção Geral das Artes e do Instituto do Cinema e do Audiovisual? Lembro que a assinatura destes contratos são a única coisa a que o sector cultural se pode agarrar, de fixo, num Ministério da Cultura cada vez com menos fundos e cada vez com menos critérios. E a partir do momento em que nem os contratos assinados valem, nada vale neste sector. (…) Os contratos eram quase nada e era tudo o que existe. E portanto, senhora Ministra, vai ou não cumprir os contratos assinados pelo Ministério da Cultura?»

Tenho pena de não ter tido ainda acesso à (eventual) resposta da Ministra.

EXTRA: A Ministra parece ter ficado »visivelmente irritada», segundo o Público, e cai mesmo na dupla asneira de acusar o Bloco de «liderar o protesto dos agentes culturais»— numa demonstração de paternalismo e infantilização do sector que os agentes culturais não poderão deixar passar impunemente— e exigir “sangue”, leia-se, querer que lhe mostrem casos concretos de gente que perde o emprego como consequência destes cortes, que considera estarem a ser empolados.

Para que servem os apoios à criação?

Terça-feira, 6 de Julho, 2010

Este tipo de questão é recorrente e é (cada vez mais) difícil ter uma conversa sobre estes assuntos sem que tudo se misture e sem que algum ruído folclórico, ódios de estimação ou preconceitos de “classe” contamine todo o ambiente.

Em Outubro do ano passado, Rui Vieira Nery deu uma entrevista (que destaquei via Twitter) a todos os títulos formidável sobre política cultural e a inexistência duma visão estratégica em Portugal para estas questões e falou da questão dos apoios a criação de forma desassombrada.

Não acha que a música é, em Portugal, o parente pobre da cultura?
Acho é que a cultura é o parente pobre de tudo o resto, logo à partida. Portanto, ser parente pobre de um parente pobre naturalmente que é pior.

(…)

A cultura é o parente pobre da política portuguesa porque não há dinheiro, não há a consciência da sua importância ou porque não rende?
O principal problema da política cultural do Estado dos últimos 20 anos é que não há vontade política de a assumir como prioridade. Uma coisa que está clara em toda a Europa é que não há desenvolvimento económico e social sustentável sem uma componente cultural decisiva. Já não estamos a falar dos méritos espirituais das artes, mas de um sector que cria emprego, que gere mais-valias. É necessário dar ao Ministério da Cultura meios orçamentais adequados. O Estado não consegue fazer nem deixar fazer. Sou da geração do Tintim e costumo dizer que, nesta fase, tanto faz estar lá o general Tapioca como o general Alcazar porque a situação é a mesma. Penso que o engenheiro Sócrates, neste último ano, já por várias vezes reconheceu esta necessidade e deu a entender que haveria um investimento reforçado na próxima legislatura. Acabou por não haver uma quantificação no programa do PS.

fonte da transcrição: http://www.snpcultura.org/vol_rui_vieira_nery_entrevista.html

Na mesma entrevista, que até custa ler nas circunstâncias actuais, Rui Vieira Nery não aceitava a visão comum dos apoios à criação como apoios aos criadores e propunha uma forma de pensar nesse investimento do Estado como uma espécie de comparticipação pública no acesso à cultura e foi por isso que, perante esta reflexão do Gonçalo Falcão no Facebook, decidi tecer alguns comentários que me parecem pertinentes para republicação no blog:

Gonçalo Falcão E se cortassemos totalmente os subsídios aos criadores e se passássemos a subsidiar o acesso à criação? porque é que o Jorge Silva Melo (por exemplo), por ter 62 anos e uma carreira feita exclusivamente de subsídios acha que tem direito a mais? criou público? como é que ele sabe que o trabalho que faz é suficientemente bom para dever continuar a ser subsidiado só para existir? porque os seus pares o dizem?

João Martins E se não pensássemos em questões complexas como esta, olhando para elas com filtros “binários”. Eu sou absolutamente favorável a que não se junte tudo no mesmo saco e se diferenciem apoios à criação dos apoios à programação, divulgação, formação e educação de públicos, etc. O sistema que sugeres, vigorou (vigora?) na Galiza (pelo que percebi numa das suas Feiras de Artes Escénicas, onde os dinheiros públicos suportam a circulação e divulgação de espectáculos. Um dos resultados disso foi a engorda absurda duma classe de intermediários (programadores, agentes e divulgadores) e um foco excessivo na aceitação face ao público, que resultou numa normalização por baixo (o máximo denominador comum é tramado) e num empobrecimento real do tecido criativo galego, que depende do exterior (festivais e outros) para ter contacto com criações mais arriscadas.
Por outro lado, Gonçalo, dizia (e bem) o Rui Vieira Nery, que o actual sistema de apoio à criação é, na verdade, um apoio aos públicos, já que, sem estes apoios, se se reflecti-se no preço dos bilhetes, por exemplo, o custo das produções e sua itinerância, todos os espectáculos se tornariam incomportáveis para a esmagadora maioria dos portugueses. Dizia ele, em entrevista, que temos que ultrapassar esta visão mesquinha de que o Estado está a pagar aos criadores e perceber que o Estado está (ou estaria se tivesse orçamento para isso) a facilitar o acesso à criação por parte dos públicos, quase numa lógica de comparticipação.
Mas, repito: eu preferiria um sistema de investimento público na área das artes performativas e da criação artística contemporânea que separasse o que não é comparável, precisamente para ganharmos em transparência e podermos fazer avaliações objectivas daquilo que pode ser objectivamente avaliado. O que não se pode é querer avaliar objectivamente o impacto do trabalho do Jorge SIlva Melo, para usar o teu exemplo, pelo número de espectadores ou outros indicadores cirúrgicos. Não é assim tão simples.

Este é só um início de conversa que continua, felizmente, e com mais intervenientes e maior clarificação do sentido inicial da reflexão do Gonçalo, que é muito pertinente.
Estas reflexões e a capacidade de discutirmos de forma desassombrada estes assuntos pode e deve ser o caminho para (re)afirmarmos a necessidade de uma estratégia clara relativamente ao papel do Estado na promoção da criação e do acesso à cultura.

Às vezes falamos pouco. Outras falamos muito. Quase sempre agimos muito pouco. É tempo de mudar isto.

Plataforma Geral da Cultura

Terça-feira, 6 de Julho, 2010

Não será fácil contrariar a demagogia e o populismo que este ataque aos “subsídio-dependentes” representa para a opinião pública. Não será fácil esclarecer sobre a ineficácia destas medidas do ponto de vista das contas públicas, inversamente proporcional ao esmagador impacto que têm no tecido criativo. Mas, unidos, temos algumas hipóteses de, pelo menos, tentar.

Por isso, eu assinei a Petição da Plataforma Geral da Cultura, saída do encontro no Teatro Maria Matos (Lisboa), de 5 de Julho de 2010. Por isso, eu aconselho a leitura deste artigo recente da Catarina Martins ou da Carta Aberta à Ministra da Cultura, enviada pela Plateia - Associação de Profissionais das Artes Cénicas.

E por achar que esta questão é uma questão elementar de cidadania, liberdade e democracia (o acesso ao conhecimento e à cultura são condições essenciais para a definição de qualquer destes conceitos fundamentais), espero que a mobilização do sector cultural possa contar com a solidariedade de o maior número possível de pessoas. Para isso, precisamos de informação e acção consequente. Em causa também estão as novas formas de obscurantismo que o “infotainment” facilita.

Convocatória

Quinta-feira, 1 de Julho, 2010

A decisão, recentemente comunicada, de reduzir em 10% todos os apoios financeiros atribuídos pelo Ministério da Cultura em 2010 e a cativação de 20% das verbas aos Institutos, que já se encontram há muito fragilizados, terá, para a produção artística e para o sector cultural efeitos devastadores.

Convocamos todos os criadores, trabalhadores e agentes das áreas artísticas e culturais para encontrar soluções que impeçam a aplicação destas medidas que atirarão a arte e a cultura do nosso país para uma crise sem precedentes.

Todos ao TEATRO MARIA MATOS, 2ª feira dia 5 de Julho às 18h

Sobre esta situação e a forma como o sector pode e deve reagir às decisões da tutela, aconselho leitura atenta da Carta Aberta que a PLATEIA - Associação dos Profissionais das Artes Cénicas publicou:

CARTA ABERTA A SUA EXCELÊNCIA A MINISTRA DA CULTURA

Carta enviada hoje para o Gabinete de S.E.M.C. e divulgada para a Comunicação Social após nova insistência infrutífera de pedido de audiência.
http://plateia-apac.blogspot.com/2010/06/carta-aberta-sua-excelencia-ministra-da.html

As notícias vindas a público na imprensa, o DL 72-A, a Carta que dirigiu a estruturas com protocolos em vigor, ou candidatas a programas de financiamento, com a DGArtes, e a Nota à Comunicação Social de hoje, merecem-nos algumas reflexões.

Como nota prévia manifestamos a nossa disponibilidade para em conjunto estudarmos com a tutela as formas de contenção financeira possíveis e justas para solidariamente sermos parte activa no controle das contas públicas que esta crise nacional, europeia e mundial impõe ao Estado Português.

Os profissionais das artes cénicas são cidadãos e não é escamoteável que como tal contribuímos já para esta contenção pagando sobretaxas de IRS, sendo penalizados nos abonos de família, pagando o aumento de IVA no consumo e todas as demais medidas.

Não pretendemos um tratamento de excepção. Mas não podemos ser excepção pela negativa.

A solidariedade da Cultura para com o todo nacional em tempo de crise foi já exigida aquando da elaboração do Orçamento de Estado. Disse o Senhor Primeiro Ministro, em campanha eleitoral,— pensamento que Vossa Excelência parece reiterar na missiva que nos enviou— reconhecer ter errado no seu anterior mandato ao desinvestir na Cultura. Não se viu disso reflexo no magro orçamento que inicialmente lhe foi atribuído.

Menos ainda se vê neste tratamento que é oferecido como “igualitário” mas que nada mais é senão demissão de responsabilidade política. Sendo o Orçamento do Ministério da Cultura (MC) 0,4% do Orçamento de Estado (OE), um corte de 20% em tão exíguo montante corresponde a 0,08% do OE o que só com muita demagogia pode considerar-se importante para a redução da despesa da administração central. Igual “poupança” seria atingida com uma cativação de mais uma décima percentual em um ou outro Ministério. E em nenhum outro Ministério estão previstos “cortes” em contratos já assinados. Da política exige-se que analise e conheça a realidade e que sobre ela actue, moldando-a, alterando-a. Tratar de forma igual o que é diferente não é responsável, não é conducente ao equilíbrio, à coesão no desenvolvimento. Foram esquecidos os mais variados estudos europeus e nacionais (um deles, aliás, muito recentemente apresentado e de iniciativa do Vosso Gabinete Ministerial), em que continuamente é reafirmada a importância da Cultura como factor dinamizador do desenvolvimento, da competitividade, do conhecimento e da qualidade de vida dos cidadãos.

De todas as notícias que nos chegam, inclusivamente na Carta de Vossa Excelência, concluímos que houve falhas em inúmeras etapas em todo este processo.

  • Não existiu iniciativa de diálogo com o sector (no caso da PLATEIA, não houve resposta aos insistentes pedidos de audiência);
  • Não foi promovida, em sede de Conselho de Ministro, uma distribuição ponderada do esforço de contenção financeira em cada Ministério, que tivesse como base a avaliação do histórico de desenvolvimento e do impacte em cada sector;
  • Avançou-se para uma cativação “cega”, pelas próprias palavras de Vª Ex.ª, sem critério, sem responsabilidade, igual em todos os sectores e organismos do Ministério da Cultura, sem ter em conta compromissos previamente assumidos ou um diagnóstico consequente da realidade.

As perplexidades sucedem-se. Por que razão não foi tido em conta que o PIDDAC gerido pela DGArtes é sempre executado a 100% (qualquer corte é real) enquanto noutros organismos do MC a sua execução pouco ultrapassa os 80%? Por que razão não foi atendida a aplicação dessas verbas do PIDDAC em cada um dos organismos do MC? Como é do conhecimento de Vª Exª, o PIDDAC da DGArtes— estrutura leve, com um muito baixo orçamento de funcionamento— esgota-se totalmente no financiamento contratualizado com estruturas e projectos de todo o país, e este corte, por incidir nesses contratos que ou já estão em execução ou já deviam estar, é uma quebra da “palavra dada”. Haverá área de investimento mais reprodutivo e mais distribuído pelo todo nacional do que a criação e programação artísticas? E haverá área onde os cortes tenham consequências mais negras?

Interrogamo-nos ainda como será possível atingir a cativação de 20% do PIDDAC retendo apenas 10% dos valores já contratualizados entre os agentes culturais e a DGArtes; se não existe ainda a hipótese de as notícias virem num futuro próximo a ser ainda mais dramáticas.

Não pode à crise responder-se com mais crise; não pode a crise ser argumento para pôr em causa o estado de direito, a boa fé das relações contratuais do estado.

A realidade do sector mostra bem a crueldade social destes cortes: 70 a 80% dos orçamentos das estruturas e projectos destinam-se a recursos humanos. Um corte de 10% a meio do ano corresponde na realidade a 20%: o resto já está executado. São portanto inevitáveis cortes na massa salarial. Espera-nos uma situação de desemprego que, e ainda segundo o estudo de Augusto Mateus & Associados (números de 2006), afectará os 6 mil postos de trabalho directos das artes performativas a que se juntam os inúmeros postos de trabalho indirectos (o carpinteiro, o designer gráfico, a costureira…). E este é um desemprego silencioso e cruel: silencioso porque não constará das estatísticas oficiais, cruel porque os profissionais não têm sequer acesso ao subsídio de desemprego. Como sabe, aguardamos ainda o tão prometido regime laboral e social para o sector.

À crise da paralisação do sector e do desemprego dos profissionais, juntar-se-ão em muitos casos as execuções de dívidas pelos bancos. Como sabe, muitas entidades usam o crédito bancário para ir pagando as actividades até chegarem os fundos contratualizados com o Ministério da Cultura. Em quase todos os casos, ascende a muito perto dos 100% o total da verba já comprometida mesmo que não executada. Há disto casos claros, como o de festivais já realizados: FITEI, Imaginarius (7 sóis 7 luas) e Fazer a Festa (Teatro Art’Imagem), só para referir alguns dos associados da PLATEIA.

As consequências dos cortes agora estabelecidos são imediatas mas também de longo prazo. A fragilização do sector, com diminuição do número e valor das contratações de profissionais e o eventual cancelamento de alguns projectos, provocará uma profunda recessão de que dificilmente se recuperará.

Assim, a PLATEIA

  • rejeita liminarmente qualquer corte nos financiamentos às artes em 2010;
  • propõe uma alteração urgente do comportamento do Vosso Gabinete, acedendo a dialogar com os profissionais das artes cénicas, beneficiando do facto de estes profissionais estarem actualmente organizados em estruturas associativas representativas do sector.

Reiteramos a disponibilidade da PLATEIA para estudar formas extraordinárias, planificadas e não casuísticas, para a participação dos profissionais e agentes de criação, produção e programação das artes cénicas no controle das contas públicas que o nosso país precisa.

Ainda sobre o filtro de Vuvuzelas

Quinta-feira, 17 de Junho, 2010

Notícias recentes fazem saber que algumas televisões vão transmitir jogos do Mundial sem Vuvuzelas. O Meo prepara-se para oferecer essa opção e a BBC também a estuda. Obviamente não o farão com uma solução parecida com a que andámos a estudar (houve quem perguntasse).

Um fitro de Vuvuzelas, para os emissores de TV, é uma coisa relativamente elementar. Um filtro simples como o que desenvolvemos, aplicado exclusivamente ao som do estádio chegaria para atenuar a irritação, mas podem e devem usar filtros mais avançados, com análise em tempo real de padrões de ruído, como o Vuvux da Prosoniq, específico para Vuvuzelas (gratuito, mas exclusivo para Mac OS) ou o SoundSoapPro da Bias, por exemplo, que é usado para “limpar” registos sonoros ruidosos— desde vinis antigos e riscados a gravações ao ar livre com ruídos de fundo irritantes (motores, ares condicionados, vuvuzelas…). Estes softwares específicos para “limpeza” e/ou “restauro” incluem algoritmos que visam a protecção da voz e, apesar de não fazerem milagres, no caso das Vuvuzelas, a sua aplicação é relativamente elementar e os benefícios evidentes. Considerando que quem transmite tem a possibilidade de separar o som do estádio do som dos comentários e aplicar os filtros de forma doseada, só não se compreende porque é que tardaram tanto a tomar medidas, mas deram-me indicações que o relato da TSF já era relativamente livre de Vuvuzelas, por exemplo. Não tive oportunidade de confirmar.

Entretanto, para quem não tem acesso a emissões pré-filtradas, o filtro que desenvolvemos está disponível para ser usado e melhorado.

Cuidado com as aparências

Quinta-feira, 17 de Junho, 2010

Deparei-me agora com um site, uma conta no Twitter e toda a uma presença online identificada com o Arquitecto Álvaro Siza Vieira que tenho praticamente a certeza que não tem nada a ver com ele, nem com o gabinete dele e pode, eventualmente, ser lesiva da sua imagem pública. Não sei se esta é uma situação já conhecida e relativamente à qual já alertaram o gabinete dele e/ou se foram tomadas medidas no sentido de evitar equívocos. Se sim, peço desculpa pela redundância.

O site é http://www.alvarosizavieira.com e tem uma conta no Twitter: http://www.twitter.com/sizavieira (não coloco links clicáveis, precisamente porque prefiro evitar contribuir para a visibilidade desta “manobra”).

A imagem do Arquitecto e da sua obra é usada extensivamente, como poderão constatar, com o objectivo de fazer dinheiro via anúncios no site e sistemas de filiação em lojas online (vendem livros e vídeos do e sobre o Arquitecto Siza Vieira, via Amazon, por exemplo). Os conteúdos aparecem no site “automagicamente”, rapinando aqui e ali as inúmeras referências online que existem.

Não sei se isso incomoda ou não o Arquitecto e o seu gabinete. A mim incomodou-me ver a cara do Siza na minha timeline do Twitter e descobrir que é só um esquema de republicação de conteúdos e publicidade.

Procurei um site verdadeiramente oficial e contactos fidedignos online, mas não encontrei, por isso, se algum dos leitores tiver forma de o fazer, podem fazer chegar este alerta ao gabinete dele?

Obrigado.

Acção Urgente pelos Direitos Humanos no Irão

Terça-feira, 8 de Junho, 2010

No Irão vive-se uma situação de urgência no que diz respeito aos direitos humanos. Hoje, 13 pessoas foram executadas e há outras tantas execuções marcadas para as próximas 24 horas. Não há muito que possamos fazer, mas, por isso mesmo, o pouco que podemos, é fundamental. Por sugestão, via Twitter, acabei de enviar uma carta a vários Ministros dos Negócios Estrangeiros e ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos apelando a uma acção urgente. Juntei aos endereços sugeridos duas hipóteses de contacto com o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros que não sei se resultam em endereços válidos, mas não custa tentar.

Assim, quem quiser, basta copiar e colar esta mensagem e sente que está a fazer qualquer coisa.

Para: npillay@ohchr.org, michael.spindelegger@bmeia.gv.at, kab.bz@diplobel.fed.be, info@mvp.gov.ba, iprd@mfa.government.bg, ministar@mvpei.hr, minforeign1@mfa.gov.cy, podatelna@mzv.cz, udenrigsministeren@um.dk, vminfo@vm.ee, umi@formin.fi, bernard.kouchner@diplomatie.gouv.fr, inform@mfa.gov.ge, guido.westerwelle@auswaertiges-amt.de, gpapandreou@parliament.gr, titkarsag.konz@kum.hu, external@utn.stjr.is, minister@dfa.ie, gabinetto@cert.esteri.it, segreteria.frattini@esteri.it, mfa.cha@mfa.gov.lv, urm@urm.lt, tonio.borg@gov.mt, secdep@mfa.md, m.verhagen@minbuza.nl, post@mfa.no, DNZPC.Sekretariat@msz.gov.pl, miguel.moratinos@maec.es, registrator@foreign.ministry.se, info@eda.admin.ch, ministro@mne.gov.pt, senec@mne.gov.pt, pm@pm.gov.pt
CC: urgent-action@ohchr.org, Iran_team@amnesty.org

Assunto: 13 Dead TODAY. 17 executions in 17 Days please

To the Ministers of Foreign Affairs, and High Commissioner of Human Rights Navi Pillay:

Your Excellencies,

This is the utmost URGENCY AND IMPORTANCE! I am writing to appeal to your governments to do everything in their power to obtain immediate prevention of the execution of prisoners in Iran which is scheduled to take place in 48 hours. Today, THIRTEEN have been executed, illegally, without legal representation! THE REMAINING 13 LIVES ARE GOING TO BE TAKEN IN 24 HOURS!

We urge you to take efforts to stop these 13 people from dying, their crimes are (if actually committed, who knows since the Iran governments judicial systems are filled with corruption and false charges) violations that can be dealt with in a fair trial for simple jail time, and should never be a judgment of death by hanging for selling drugs or more politically correct term, “drug trafficking”.

The Iran government is a state party of the UN declaration of human rights which GUARANTEES the RIGHT TO LIFE! [Article 6.1 of the International Covenant on Civil and Political Rights!]

Yesterday, Sunday 6th June 2010, well-known attorney, Mohammad Mostafaie, said in a statement that 26 death row inmates, convicted of drug trafficking, have been placed in quarantine ahead of their imminent execution! According to RAHANA, “Mohammad Jafari, Mohammad Azarfam, Bagher Amini, Soltan Abadi, Mohammad Moradi and Nader Azarnoush are among the inmates who are scheduled to be executed”. According to Mosatafaie, most of the accused had asked to be pardoned, but their requests were turned down by the Parole Board, adding that some were given death sentence even though they had no history of past convictions. Most of the death sentence verdicts were issued by judge Hosseini, who is the presiding judge of the 1st branch of the Revolutionary Court. Mostafaie believes that the Parole Board could have easily spared their lives, considering the damage their execution will cause to Iran’s international. “History shows that execution is not an appropriate tool to prevent crime, and other ways based on science of criminology are far more effective to reduce criminal offenses.” Since the beginning of Khordad (Persian calendar month May 21- June 20), at least 15 executions have been carried out across Iran, amid condemnations by international and Iranian human rights groups.

Now, 13 are DEAD!

Please do not let the other 13 people die! There are families and friends at home who care for these people and hoping their lives will be spared by the mercy of the international community intervening to stop these violent and horrific jugements of death against the people of Iran.

The report of these scheduled executions comes urgently from human rights organizations in Iran, an Iran news website, and an Italian news website. Please read further:

English:http://www.rhairan.biz/en/?p=4179
http://www.agi.it/world/news/201006062106-cro-ren1089-world_iran_plans_mass_executions

Persian: http://www.rahesabz.net/story/16824

Please, please, do not let the value of a life be reduced to this end result without taking any action on our behalf.

Please speak out NOW! We citizens of the world are counting on you to be their voice and ours.

Sincerely,

A Comissão: assustador!

Terça-feira, 1 de Junho, 2010

O que me parece mais extraordinário n’A Comissão é que os momentos mais cómicos e as intervenções mais ridículas são citações reais de pessoas “sérias”, em contextos e locais “sérios”, em circunstâncias muitas vezes “graves”. Episódios passados em salas de reuniões, como aquela em que a peça acontece, ou mesmo em locais mais públicos e solenes, como as Comissões e Audições Parlamentares. Episódios a que assistimos todos via comunicação social, na maior parte dos casos. E a realidade, mais uma vez, supera a ficção e é isso que nos faz rir, mas nos assusta, ao mesmo tempo: “é que é mesmo assim!“, dizia algum do público com mais experiência nestas andanças.

Visões Úteis está, por isso, de parabéns: é que espectáculos assim alteram a forma como cada um de nós olha para o que nos rodeia. Acredito mesmo que será difícil a qualquer espectador d’A Comissão conter o riso quando ouvir ou ler um desses personagens da vida real que nos explica que devemos ter “confiança e avançar, sem medo, juntos“, ou tenta demonstrar, com termos técnicos, de preferência em inglês, porque é que o trabalho deles é tão importante, mesmo que ninguém perceba o seu processo, conteúdo ou efeito.

Como este, por exemplo:

“A Comissão” estreia a 27 de Maio

Quarta-feira, 12 de Maio, 2010

A Comissão, cartaz de entropiadesign a partir de imagem de Ricardo Lafuente

A COMISSÃO

36ª Criação Visões Úteis

27 de Maio a 5 de Junho 2010
Hotel Dom Henrique, Porto

Terça a Sábado às 22h00
Domingo e Segunda às 18h30, integrado no 33º FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica

Uma bem humorada reflexão acerca dos actuais mecanismos de decisão política e económica, nomeadamente em Portugal e na Europa.
Apresentado na sala de um Hotel onde uma Comissão se reúne, o espectáculo questiona a linguagem utilizada pelos decisores políticos enquanto mecanismo de exercício de poder e domínio.
Espécie de Lado B do recentemente estreado “Boom & Bang” onde abordámos as circunstâncias que levaram à crise financeira que atravessamos, “A Comissão” enquadra-se no desenvolvimento do projecto artístico do Visões Úteis, num cruzamento constante entre os temas que fazem o nosso aqui e agora e a procura de linguagens performativas contemporâneas.

  • Texto e Direcção: Ana Vitorino e Carlos Costa
  • Colaboração na Dramaturgia: Nuno Casimiro
  • Figurinos e Adereços: Inês de Carvalho
  • Banda Sonora Original e Sonoplastia: João Martins
  • Desenho de Luz: José Carlos Gomes
  • Infografismo e Audiovisuais: João Martins / entropiadesign
  • Projecto Fotográfico: Paulo Pimenta
  • Coordenação Técnica: Luís Ribeiro
  • Produção Executiva: Joana Neto
  • Assistência de Produção: Helena Madeira
  • Design Gráfico: entropiadesign a partir de imagem de Ricardo Lafuente
  • Interpretação: Ana Vitorino, Carlos Costa, Pedro Carreira e ainda Joana Neto e Luís Ribeiro com a participação especial (em vídeo) de Nuno Casimiro, João Teixeira Lopes, José Pinto da Costa, Miguel Guedes, Alice Costa, Carolina Gomes, Raquel Carreira, Ana Azevedo, João Martins e José Carlos Gomes
  • Produção: Visões Úteis
  • M12 | 80 minutos
    Condições especiais, info e reservas:
    (+351) 22 200 6144 | mail@visoesuteis.pt