Arquivo da Categoria ‘comunicação’

jazz.pt | F.R.I.C.S.: balanço do 1º ano de actividade

Terça-feira, 2 de Dezembro, 2008

Porque vem a propósito da comemoração do 2º aniversário da Fanfarra Recreativa e Improvisada Colher de Sopa - F.R.I.C.S., que será eficazmente assinalado com o concerto de amanhã, e porque estou diligentemente a fazer crescer o número de artigos do blog originalmente publicados na Jazz.pt, republico na íntegra o ensaio/reportagem que escrevi para o número 17 da revista, por encomenda do Rui Eduardo Paes, responsável pelo seguinte prólogo:

O crescendo de popularidade em apenas 15 meses de vida desta invulgar mini-”big band” está a torná-la num dos mais curiosos fenómenos musicais da actualidade do nosso país.

Muita água correu debaixo das pontes, mas o que escrevi em Janeiro de 2008 continua, na minha modesta opinião, a valer o espaço que ocupa.

FANFARRA RECREATIVA E IMPROVISADA COLHER DE SOPA - F.R.I.C.S.

Balanço do primeiro aniversário

A 14 de Dezembro de 2006, em jeito de “mashup” celebrativo- juntando o Natal ao Solstício de Inverno e ao Ano Novo-, o colectivo portuense Soopa, no cumprimento duma quase “tradição”, levou a um espaço habitual (o palco dos Maus Hábitos) alguns dos suspeitos do costume- anunciados como “algumas das mais obscuras celebridades do underground nortenho”-, numa configuração e sob um pretexto inesperado: “Uma Fanfarra Para o Século XXI!“.
A promessa, como é aliás comum nas propostas deste prolixo colectivo elevava a fasquia bem alto:

“Este grupo de 7 músicos irá levar o público numa viagem psicadélica que tem como ponto de partida o princípio comunitário, festivo e ruidoso das fanfarras populares, estando o ponto de chegada situado algures entre o desconhecido e a madrugada do dia 15.”

Não é nunca fácil a tarefa de compreender a real profundidade ou o real compromisso de quem se envolve neste tipo de propostas, ou neste tipo de formulações (nem quando se é parte do evento), pelo que, quanto ao nascimento do projecto, por elementar justiça, poder-se-á apenas afirmar que o investimento feito a priori na definição dum modus operandii e na selecção dos intervenientes e instrumentação disponível, provou ser determinante na definição da anatomia do concerto em causa e, consequentemente, de todo o projecto, a longo prazo: a estratégia de improvisação dirigida, por recurso à figura do “tele-maestro”, com imensa eficácia conceptual e pragmática e a opção pela prevalência de instrumentos de sopro transformaram uma promessa que poderia não passar disso mesmo, num daqueles raros momentos em que, no reino da experimentação mais radical (na perspectiva de alguns), o prometido é cumprido.

Não é claro, nem será a curto prazo, quanto do resto desta história depende directamente do eventual sucesso dessa primeira abordagem deste universo. E o panorama onde circulam estes projectos está cheio de histórias que se encerram com um primeiro capítulo deste género, independentemente do grau de realização ou das repercussões geradas.
O que é claro é que essa primeira experiência não só deixou marcas nos participantes directos, como terá criado necessidades imprevistas no público: não só a recepção foi entusiasta e incrédula quanto seu ao carácter inaugural, como nos deparámos com incentivos e convites para a sua repetição em diversos contextos e receptividade face ao possível lançamento de um disco.
Para um projecto recém-nascido, em que parte substancial dos músicos se encontrava pela primeira vez, a natureza dessas reacções não era vulgar. Mas era verosímil e parecia fazer sentido.
Ainda que articular uma explicação fosse (e continue a ser) uma tarefa difícil.

(more…)

O grau zero da crítica

Sábado, 15 de Novembro, 2008

Até agora, a minha colaboração com a jazz.pt passava por assistir a concertos, pontualmente, e escrever sobre eles, num registo que se situa algures entre a crónica e a crítica. Não sou crítico nem de Jazz, nem de outros tipos de música, porque não sei e não quero saber fazer esse papel. Mas não quero, nem sei e nem poderia fazer o papel do repórter, trabalho que, além do mais, não interessaria a ninguém. Faço, por isso, um papel que tenho dificuldade em descrever, que é o papel do músico relativamente informado e disponível, tentando apresentar uma visão relativamente objectiva, ainda que parcial, sobre as propostas e suas concretizações, reduzindo ao mínimo o inevitável juízo subjectivo, que uso em jeito de tempero, cruzado com a percepção (também subjectiva) do que terá sido a reacção do público.
A maior parte das vezes, de resto, basta uma observação cuidada de como as propostas musicais se confrontam com as suas concretizações para conseguir construir um discurso que aspira a ser útil. Porque foi só por causa da “utilidade” que aceitei o convite para escrever. E este exercício, relativamente ingénuo, de retirar da equação os egos em confronto— o meu, o dos artistas em palco, o dos promotores, os dos públicos mais ou menos especializados— e procurar esclarecer alguns dos termos da proposta (os que são para mim compreensíveis) e a eficácia relativa da sua concretização, faz(-me) falta em grande parte do discurso que se produz sobre o Jazz em particular e sobre a(s) Música(s) e a Arte, em geral.

Chamemos-lhe o grau zero da crítica. O patamar a partir do qual se pode construir o discurso crítico e, sem o qual, o discurso crítico é vácuo.

Vem isto a propósito de estar a acabar (daqui a umas horas é o “meu” último concerto) a cobertura da primeira semana do Guimarães Jazz 2008 e de como seria fácil “disparar” críticas positivas ou negativas em (quase) todas as direcções, sem sair do meu “lugar”. E que difícil que é acompanhar as mudanças de perspectiva sobre o fenómeno “Jazz” que o programa do festival sugere. E que bom que é fazê-lo, sentindo que se estão a apresentar desafios importantes ao(s) público(s).

Não tenho a certeza de estar certo nesta minha forma de encarar o desafio que a revista me coloca. Mas tenho a certeza que não estou errado. Faz sentido?

Se este blog fosse sobre mim

Sábado, 8 de Novembro, 2008

Este blog é, de facto, sobre mim, mas nem sempre o tempo e/ou a vontade de escrever registam algumas coisas relevantes que me vão acontecendo e que, num blog sobre mim, ou num relatório da autoria duma entidade autónoma, abstracta e mais ou menos burocrática, focado na minha insignificante pessoa (tipo O que Diz de Molero, estão a ver?) teriam direito a algumas linhas.

As coisas que, por exemplo, justificam o acto de estar a escrever este artigo, sentado no Bar de Artistas da Casa da Música, às 10h30 da manhã de sábado. A presença no 4º Curso de Animadores Musicais é uma parte importante dum novo percurso que decidi começar, focando-me na descoberta e melhoria de vários aspectos, quer das minhas estratégias e práticas musicais, quer das “competências sociais” que tantas vezes me limitam na construção de melhores relações criativas e/ou na dinamização de trabalhos colaborativos. O processo, no caso deste curso, interessa-me mais do que as suas eventuais manifestações públicas, que terão também a sua importância, obviamente.

A razão que me põe aqui a esta hora, sendo a sessão de hoje, apenas à tarde, é outro facto relevante, sobre o qual, não tinha conseguido ainda dizer nada: o Space Ensemble está em processo de ensaios para o seu novo projecto, Filmes da Terra do Pai Natal, com estreia marcada também para a Casa da Música, a 20 de Novembro.

E promete.

Agora vou ensaiar…

Sem telemóvel

Terça-feira, 4 de Novembro, 2008

É impressionante o impacto positivo que um telemóvel avariado pode ter na vida dum tipo.
E mais não digo.

América a votos

Quinta-feira, 30 de Outubro, 2008

As eleições americanas, como é óbvio, têm um impacto global e, como é óbvio, só podem ser decididas pelos americanos, por muito que isso nos custe, às vezes. E, mesmo que o sistema eleitoral norte-americano nos confunda (a mim confunde) e que a realidade, como nos é apresentada pelos media, nos assuste, entusiasme ou simplesmente baralhe, só podemos esperar que muitos milhões de norte-americanos esclarecidos, entusiasmados e esperançosos vão às urnas e votem.

Se isso acontecer, a América elegerá Barack Obama e podemos presumir que o mundo começará, lentamente, a transformar-se num sítio mais seguro. A alternativa, McCain-Palin, é simplesmente assustadora.

Só para dizer que…

Sábado, 25 de Outubro, 2008

… este não é um “blogue-enquanto-blogue”, como definido pelo incomparável Eduardo Pitta. Por 2 razões, somente:

  1. como não uso o SiteMeter, não estou no Blogómetro
  2. ainda não perguntei ao Pitta se o meu blog é ou não temático e acho que apenas o superior critério dele (que me escapa) é que poderia iluminar a questão

Fora isso, acho que este post no Bitaites ilustra bem a divisão real entre a blogosfera e a “blogosfera-enquanto-blogosfera”, que nos andava a iludir a todos.

Um caso de polícia

Sexta-feira, 17 de Outubro, 2008

Escrevi, em Dezembro de 2007, um artigo sobre o lançamento da revista Web Designer, onde partilhava algum do meu desalento e desconfiança. Estava longe de imaginar que o assunto teria o desenvolvimento que se percebe pela leitura dos comentários que continuamente vou recebendo e que a editora Enjoy deixaria as coisas chegar ao limite do absurdo, por actos e omissões. Mas deixou até que a questão, para alguns assinantes, se transformasse num caso de polícia. Têm razão todos aqueles que reclamam por direitos elementares, como a devolução dos valores pagos, dado o incumprimento, a todos os títulos lamentável, da editora. E têm razão em se manifestarem contra manobras dilatórias, quebras de comunicação e confiança e todos os comportamentos contrários aos direitos que nos assistem a todos, enquanto consumidores.

Eu não assinei a revista, mas estou solidário com todos aqueles que agora reclamam, como é óbvio. Mas não sei o que pensar do facto de ser num artigo do meu blog que estas pessoas trocam informações e se tentam organizar para reivindicarem os seus direitos. Gostava de poder fazer mais alguma coisa e tenho a certeza que há estratégias mais adequadas e visíveis para obrigar a Enjoy a mostrar o mínimo de respeito pelos consumidores. Assim, lanço daqui um apelo a todos os envolvidos neste caso e a quem possa eventualmente dar-lhes um apoio específico (advogados, juristas, activistas e especialistas em direitos do consumidor…) para que façam propostas concretas e apontem caminhos mais seguros e directos para a defesa dos direitos destes consumidores.

Agradeço antecipadamente.

Se for para mudar, que mudem para melhor

Terça-feira, 7 de Outubro, 2008

Ouvi, nas notícias, que o Multibanco ia mudar de imagem. Fiquei curioso, obviamente, mas por acaso, e porque uso a Internet para quase todas as operações bancárias, só alguns dias depois da mudança é que me deparei com ela. E fiquei muito desiludido. As questões mais profundas, as que potencialmente dificultarão a acessibilidade ao novo interface, são bem analisadas pelo Ivo Gomes, mas a mim, a impressão mais imediata e superficial foi “porque é que isto ficou tão feio”? E reparem que eu não achava nem a imagem, nem o interface antigo particularmente bonito. Mas se, por um lado, funcionava, por outro, tinha algum equilíbrio. Já esta nova imagem, pode eventualmente ter melhorias ao nível da “actualização” da identidade gráfica do Multibanco que se reflectem (eventualmente) na comunicação fora do interface. Aceito até que pessoas menos sensíveis a questões de legibilidade e acessibilidade considerem que, em geral, a nova imagem é mais “moderna”.

Multibanco - nova imagem

Mas não concordam que o novo “boneco” do MB é feio e mal desenhado?

MB, o novo boneco é feioE isso, chama a atenção para os pormenores de todo o interface e da identidade e, genericamente, há imensas fragilidades gráficas. Ora reparem com atenção… não é mesmo “feio”?

Porquê?

Visões Úteis: Outubro em Lisboa

Segunda-feira, 6 de Outubro, 2008

Visões Úteis, logotipoComo continua a ser verdade que, neste país provinciano e parolo, muitas decisões estão nas mãos de gente que, sem pensar, sente que “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”, este mês de Outubro, em que o Visões Úteis volta a pisar palcos da capital, é estranhamente importante:

Os espectáculos em Lisboa, envolvem-me “fisicamente”, um pouco para lá dos limites do estritamente necessário para assegurar a bandas sonora e sonoplastia.

Gosto de fazer O Contrabaixo e assumir a condição de “músico em cena”. O texto do Süskind é brutal (e um músico percebe isso um bocadinho melhor) e agrada-me a simplicidade, a portabilidade e a eficácia da encenação, além de não me deixar de surpreender com a interpretação do Pedro. E um espectáculo de teatro que tanto se faz em bares, como em auditórios (como em estações de metro), sem perder a eficácia, é, por definição, um espectáculo “forte”.

O Contrabaixo, imagem de Paulo Pimenta

Já o Muna, é “outro campeonato”: no que exige de cada um de nós, criadores, intérpretes e técnicos; no que exige do espaço; no que exige do(s) público(s)… ficará seguramente na História do Visões Úteis e, havendo alguma justiça, ficaria noutras Histórias, mais globais.

Muna, ilustração de Júlio Vanzeler

Na minha, como músico e sonoplasta, como inventor e construtor de instrumentos, como performer e como pessoa (e pai) fica certamente. E o esforço de adaptar o espectáculo à sala-estúdio do TNDMII está também a revelar-se digno de antologia, mas é sempre preciso sofrer qualquer coisa pela “Arte”. :)

Dos nossos amigos e conhecidos na capital, espera-se algum apoio: pela presença e por algum apoio na divulgação. Obrigado.

oCulto (d)a banda

Quinta-feira, 2 de Outubro, 2008

Os Secret Chiefs 3 deram o seu primeiro concerto em Portugal, mais precisamente no Porto, na passada terça-feira, no PlanoB, num evento Soopa / AmplificaSom.

Secret Chiefs 3, cartaz do concerto no Porto

Este projecto de Trey Spruance, colaborador habitual de Mike Patton e um dos responsáveis dos extintos Mr. Bungle, é um híbrido de luxo, onde se juntam referências esotéricas a estilos musicais exóticos e sub-apreciados, numa mistura alucinada, relativamente contagiante, virtuosa e exigente. As complexas estruturas rítmicas colhidas nas músicas do médio oriente e do sub-continente indiano, juntam-se a referências mainstream de surf-rock e música de filme à la Morricone, polvilhadas de massas agressivas q.b. colhidas nos contextos do metal e rematadas com linhas melódicas verdadeiramente assombrosas. O jogo instrumental é impressionante e o rigor e qualidade de execução ao vivo, mesmo em condições longe de ideiais, exige muito respeito.

E é verdadeiramente incompreensível como é que a estreia em Portugal dum projecto destes acontece num espaço da dimensão do PlanoB e como, apesar dos melhores esforços dos promotores, passa relativamente despercebido.

Que algo de muito estranho se passa na imprensa dita especializada e na generalidade das redacções dos generalistas que, teoricamente, deveriam compreender a importância relativa dos eventos em agenda, já todos sabíamos, mas o que parece ser evidente é que o último critério em uso, actualmente, é a verdade essencial do acontecimento (seja música, seja outra coisa qualquer). Essa “verdade” é preterida permanentemente por aproximações subjectivas a quem promove, em que local e em que contexto, por oscilações de humor pessoais e intransmissíveis e níveis de conforto relativo que trarão constantemente à ribalta as banalidades próximas dos círculos restritos de editores e redactores, normalmente quase tão ignorantes como arrogantes e preguiçosos.

E assim, bandas de culto merecido, como os Secret Chiefs 3, são confundidas com bandas “ocultáveis”. Mas um dia isto muda…