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Escapatórias

Pelo pouco que fui acompanhando, parece-me que havia muita gente convencida que desta vez é que íamos ser campeões europeus de futebol. Parece que não, afinal.

Ficam algumas questões no ar, para entreter os próximos dias e fornecer escapatórias, para quem precisar:

  • Terá sido culpa do árbitro sueco que não marcou a falta do Ballack sobre o Paulo Ferreira, no 3º golo alemão?
  • Terá sido culpa do Ricardo que continua “aos papéis” em lances de bola parada e deixou que os alemães repetissem uma jogada ensaiada para o 2º e 3º golos?
  • Terá sido culpa do Scolari que anunciou a sua transferência para o Chelsea durante o campeonato, contribuindo para a desestabilização do plantel?
  • Terá sido culpa do João Moutinho que não soube escolher entre a cabeça e o joelho
    quando o Bosingwa lhe entregou o golo?
  • Terá sido culpa do Pepe que cabeceou para fora quando o Deco lhe meteu um canto mesmo a jeito?

Ou terá sido simplesmente a eficácia germânica e a simplicidade absoluta do futebol que consiste em marcar golos e evitar que o adversário marque, por mais “rodriguinhos” que os nossos meninos façam?

Temos escapatórias para várias semanas de rescaldo do europeu mas fico com uma dúvida: os ecrãs gigantes montados um pouco por todo o país mantêm-se, independentemente da nossa participação? Podem baixar um bocadinho o volume, pelo menos?

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Imagino que não seja complicado

“Eu não percebo nada disso, mas imagino que não seja complicado. É?”

Com cada vez mais frequência sou confrontado com este paradoxo: com a “democratização” das tecnologias e com a disseminação da ideia (absurda) de que dos computadores se tira o trabalho já feito, são cada vez mais as pessoas que, sem terem a menor ideia das competências necessárias, tarefas envolvidas ou tempo dispendido em alguns dos trabalhos que desenvolvo, requerem, em cima do prazo final de entrega dos trabalhos, actualizações, rectificações, modificações, revisões e outras tarefas que têm o seu tempo próprio no processo. E é comum dizerem mesmo coisas deste tipo: “não faço a mínima ideia como é que isso se faz, mas não deve ser assim tão complicado substituir isto, ou acrescentar aquilo ou…”

Mas não é bem assim, senhores. Se não fazem a menor ideia como se faz, é possível, e até provável, que aquilo que vos parece perfeitamente banal, mas que vos foi dito que teria um tempo próprio, seja de facto bastante complicado fora desse tempo.

Ah! É importante que se esclareça que neste “estabelecimento” o cliente não tem sempre razão. Aliás, é raro isso acontecer.

Desculpem o desabafo, mas são 5 da manhã e estou a acabar um desses projectos fora de tempo. Porquê? Porque, apesar de tudo, o trabalho é mesmo “a porca chantagem da sobrevivência”.

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O Acordo Ortográfico e a paternidade

A discussão acerca do Acordo Ortográfico está relativamente quente. Isso é bom, porque é sinal de alguma energia cívica.

Eu não estou contra o Acordo, nem a favor. Ao contrário do que é frequente, no meu caso, não tenho convicções demasiado marcadas a esse respeito. Pelo que vou vendo à minha volta pode muito bem ser uma questão geracional.

Sou sensível aos argumentos que se levantam contra o Acordo, mas parece-me que a indignação aglutinada neste movimento de opinião é diversificada e disfarça muitas indignidades. Demasiadas, na minha modestíssima opinião.
Mas eu uso esta língua há pouco tempo e a que falo, não é exactamente igual à que escrevo. E não escrevo nem falo a língua de Camões, Eça ou Pessoa. Falo esta mistura da língua que se fala aqui em Aveiro com umas coisas que aprendi no Porto e outras mariquices que fui buscar à literatura, ao entretenimento e a círculos académicos, profissionais e sociais que tive o infortúnio de frequentar. No pouco tempo que levo disto, tenho a certeza que fui falando línguas diferentes e que guardo, para ocasiões especiais, variantes mais ou menos eficazes.
Quanto à língua que escrevo, parece-me que será ainda parecida com a que me ensinaram na escola primária, no ciclo e nos primeiros anos da secundária, com ajustes subtis feitos pelos meus pais (terrível vício dos intelectuais esquerdistas de incentivar a leitura e a escrita) e uns quantos, muito menos subtis, feitos por mim próprio, ora teimoso no erro, ora embasbacado com as línguas que fui lendo.
Não tenho idade para dizer que, com mais ou menos acordo, a minha forma de escrever se manterá inalterável. Se nem sem acordo tenho a certeza de ter mantido alguma ortografia cristalizada nestes poucos anos que levo do uso da língua, que garantias posso dar para o futuro?
Quer isso dizer que me estou borrifando e que, com isso, contribuo para um “desastre” de proporções históricas? Duvido…

A Maria nasce um dia destes e vou gostar de a acompanhar na construção da língua que ela for usar. E, se tudo correr bem, vou tentar aprender umas partes e ensinar-lhe umas partes da minha, para não sermos “estranhos”. Como ferramenta, vou querer que ela estude e trate com cuidado a(s) ortografia(s) que lhe forem ensinando. E que mas ensine a mim, se eu ficar demasiado velho, ortograficamente falando.
Vou-lhe ler histórias, faladas na linha língua e, se me apetecer, noutras que já existam, ou noutras ainda que queiramos inventar. Quando ela já souber ler, vou-lhe dar livros dos avós, escritos por eles, por gente do tempo deles, ou ainda mais velhos. E vou-lhe dar as histórias que tivermos escrito, escritas na língua que estiver a escrever na altura.
Não lhe vou dar o Acordo Ortográfico, mas vou dar-lhe um dicionário pequenino, como o meu pai me deu quando eu fui para a escola. Um dicionário novo, só para ela, que há-de ter palavras que eu nem conheço.
Eu quero acreditar que a Maria vai crescer em graça e sabedoria. Tanta, que não lhe farão a ela mais confusão as consoantes mudas do tempo dos avós dela, do que me faziam a mim os “ph” e os “y” do tempo dos meus avós. Tanta, que a pátria dela continuará a ser uma língua filha da minha. Porque isso das línguas-pátria parecem-me territórios unipessoais e de responsabilidade limitada.

A ter que apostar em alguma coisa, aposto nisso: no compromisso gigantesco de nunca me afastar demais da língua da minha filha que ainda não nasceu. Mas atenção que não sou (completamente) parvo: confio suficientemente nas leis da física para saber que atracção gravitacional me dá uma vantagem “desleal”. Só tenho que me manter por perto e não abdicar da minha “densidade” própria. 😉

Nota: texto adaptado duma contribuição que fiz para uma discussão entre amigos.

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Sexo de risco, à “macho valente”. Homofóbicos? Só se for a sério.

O estudo sobre Sexualidade e Saúde que o Instituto de Ciências Sociais realizou e que o Público abordou na edição de sábado, antes da apresentação oficial, que foi hoje, apresenta-nos um país homofóbico, relativamente fiel e pouco informado.

Globalmente, os resultados são deprimentes, apesar de expectáveis, e o prejuízo para o país causado pela ignorância e pelos comportamentos de risco continuados, apesar dos esforços de formação e sensibilização, é significativo e conta-se em vidas destruídas. Nas diversas faixas etárias, o estudo mostra-nos uma população ainda muito pouco informada e quase inconsciente, com especial destaque, pela negativa, para os homens. Também expectável e deprimente.

Mais uma acha bem quente para a discussão sobre a necessidade e eficácia da educação para a sexualidade.

Quanto à homofobia endémica (e mais uma vez com maior incidência entre os homens), é de destacar como a sua expressão é, aparentemente, independente da maior visibilidade e alegada aceitação da homossexualidade, corporizada por figuras e eventos mediáticos e pela integração numa certa cultura urbana de ícones (maioritariamente) “gay”, uns ficcionais, outros nem por isso.

A homofobia “tuga” assume, assim, um duplo preconceito: se este estudo nos diz que o português médio considera as relações homossexuais erradas ou condenáveis, um certo “circo” mediático, faz-nos acreditar que esse preconceito tem fronteiras, excluindo da “reprovação moral” uma certa classe (“artistas” e seus excêntricos apaniguados), que se presume, assim, para lá do cuidado moral das massas. Em bom português, a nossa sociedade tolera (que palavra horrível) os “maricas” conhecidos do mundo do espectáculo, independentemente da sua verdadeira orientação sexual, porque, coitados, faz parte da “excentricidade obrigatória”. Mas homossexuais reais, com vidas reais e privadas, como as nossas? Credo! Deus nos livre!

Assim não vamos lá…

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Culpar os gratuitos é fácil

Segundo esta notícia, os responsáveis dos jornais portugueses acham que os “jornais gratuitos provocaram a queda das vendas dos diários e semanários pagos”. Pois. Porque a pergunta foi essa, certo? Se a pergunta fosse construída à volta do fenómeno dos blog e da difusão de notícias online, seriam esses os responsáveis, suponho. Ou outra coisa qualquer que sirva como forma de “sacudir a água do capote” e sustentar decisões de gestão de recursos como o “aumento das rescisões contratuais”, a exigência de “multi-tasking” excessivo e a persistência na precariedade como condição para o trabalho na comunicação social.

Quem anda atento, sabe que os gratuitos são um fenómeno comum um pouco por todo o lado e que a melhor reacção é assumir que se tratam de campeonatos “à parte”. Há até gratuitos que são fomentados e partilham recursos dos pagos, certo?

Para isso, é preciso apostar na qualidade, no rigor, na diferença e na diversificação estratégica. E isso faz-se com investimento e com projecto.

Os gratuitos têm o seu lugar e a sua função. Se em Portugal o seu impacto é maior, a culpa não é deles: é da diminuição acentuada do poder de compra e de décadas de desinteresse face à leitura e à comunicação social.