Serralves em Festa, uma participação em grande

Nos últimos anos tenho tido participações pontuais nessa grande iniciativa que é o Serralves em Festa, integrado em algum dos projectos colectivos em que milito, como a F.R.I.C.S. ou o Space Ensemble, mas este ano, os convites “choveram”, fruto provavelmente de alterações na própria forma de programar a festa, pelo que, durante as 40 horas non stop, estarei envolvido em 3 apresentações independentes, entre sexta, dia 4 e sábado, dia 5. A saber:

  • F.R.I.C.S. – Fanfarra Improvisada Colher de Sopa
    Sexta-feira, dia 4, às 21h30, na Praça Parada Leitão ao Café Piolho (Baixa)
  • Margareth Kammerer, Gustavo Costa, Henrique Fernandes e João Martins
    Sábado, dia 5, às 16h30, na Casa de Serralves
    O nosso trio mais constante junta-se à cantora alemã Margareth Kammerer, para uma sessão de improvisação seguramente inesperada.
  • Derek Shirley’s CARD BLANCHE ENSEMBLE
    Sábado, dia 5, às 18h00, na Casa de Serralves
    Uma das estratégias da Festa deste ano é convidar músicos do Porto a integrarem colectivos de improvisação, com a designação genérica de CARD BLANCHE ENSEMBLE, dirigidos por alguns dos músicos estrangeiros convidados a participar no evento e o contrabaixista canadiano Derek Shirley, manifestou interesse na minha colaboração.

jazz.pt | Jazz no Parque 2009, Regresso à História

Jazz no Parque

18ª edição
18 e 25 de Julho e 1 de Agosto de 2009
Ténis do Parque de Serralves

A edição que marca a maioridade do Jazz no Parque e que coincide com o duplo aniversário de Serralves (20 anos da Fundação e 10 anos do Museu de Arte Contemporânea) teve como principal novidade o facto de se apresentarem 2 projectos originais, resultantes de encomendas do seu programador, António Curvelo, facto que não sucedia desde 2002. As encomendas, dirigidas a Mário Barreiros e a Bennie Wallace, ilustram com rigor a orientação programática deste festival— em rigor, trata-se dum ciclo de 3 concertos— que aposta na divulgação e afirmação dum Jazz de pés bem assentes na história. Se em anos anteriores assistimos a alguns concertos mais “arriscados”, protagonizados por músicos que circulam com gosto por algumas fronteiras estilísticas e se aventuram, a espaços, por algum discurso mais vanguardista, esta edição, em grande parte, graças às encomendas dirigidas, afirma um regresso a um Jazz mais convencional, que celebra respeitosamente o passado e arrisca muito pouco na definição de futuros (im)possíveis.

18 Julho 2009, 18h00
Mário Barreiros
Kind Steps – O Legado de 1959

  • Mário Barreiros bateria
  • Abe Rábade piano e direcção musical
  • Carlos Barretto contrabaixo
  • Avishai Cohen trompete
  • Ben Van Gelder sax alto
  • Jesús Santandreu sax tenor

A Mário Barreiros, António Curvelo sugeriu a invocação do ano mítico de 1959 em que se editaram obras incontornáveis para o futuro do Jazz— como “Kind of Blue”, de Miles Davis, “Giant Steps”, de John Coltrane, “The Shape of Jazz to Come” e “Change of the Century”, de Ornette Coleman e “Mingus Ah Um” e “Blues and Roots”, de Charles Mingus—, ao mesmo tempo que se consolidavam alguns dos alicerces sobre os quais se construía esse futuro— com edições como “Portrait in Jazz”, de Bill Evans, Scott LaFaro e Paul Motian, “Sevem Pieces”, de Jimmy Giufre 3, “Modern Jazz Classics”, de Art Pepper com Eleven ou “Blowin’ the Blues Away”, de Horace Silver. Uma viagem de 50 anos no tempo para a qual Mário Barreiros chamou o pianista galego Abe Rábade, para dirigir um sexteto e se debruçar sobre os propostos “Kind of Blue”, “Giant Steps”, “Mingus Ah Um” e “The Shape of Jazz to Come”, acrescentando “Cannonball Takes Charge”, de Cannonball Adderley e “Anatomy of a Murder” de Duke Ellington.
“Kind Steps – O Legado de 1959″, pelo sexteto de Mário Barreiro e com direcção musical de Abe Rábade foi, assim, a primeira proposta a subir ao palco do Ténis do Parque de Serralves, no dia 18 de Agosto, com Avishai Cohen (trompete), Ben Van Gelder (sax alto), Jesús Santandreu (sax tenor), Carlos Barretto (contrabaixo) e os próprios Mário Barreiros (bateria) e Abe Rábade (piano).
Mário Barreiros e Abe Rábade, na escolha dos temas e nos arranjos, aprofundaram o carácter historiográfico da encomenda e todo o ensemble pareceu empenhado numa reconstituição relativamente fiel, ou pelo menos, académica, dos temas seleccionados. Uma de muitas opções possíveis, eventualmente a menos pertinente, dada a miríade de reconstituições a que este reportório é submetido diariamente em escolas e clubes de jazz. Uma selecção mais criteriosa dos temas a abordar ou um tratamento estilístico- quer nos arranjos, quer na interpretação, quer nos solos- menos “colado” aos originais teria eventualmente sido mais refrescante e poderia mesmo ter-se afirmado como uma estratégia mais confortável para os músicos que, com excepção de Abe Rábade, claramente alinhado com a proposta e Avishai Cohen, o único solista que parecia confortável nas mudanças de registo e se libertou um pouco mais nos seus solos, pareciam demasiado constrangidos.
De forma geral, o concerto em forma de revisitação desta música seminal, mas com mais de 50 anos, poderia ter sido uma oportunidade de perspectivar futuros, mas o ensemble conduziu o concerto de forma quase reverencial, acertando os registos, as sonoridades e os vocabulários de improvisação de acordo com os originais, eliminando quase por completo a afirmação de alguma singularidade. E ao debruçar-se mais sobre as edições menos controversas de 1959 (de Ornette Coleman só tocaram “Chronology”, por exemplo), seleccionando clássicos como “All Blues”, de Miles Davis, “Blue in Green” de Bill Evans/Miles Davis, “Almost Cried” de Duke Ellington, “Syeda’s Song Flute” de Coltrane e “Better Get it in your soul” e “Goodbye Porcupine” de Mingus, que só muito raramente foram tratados como material “novo”, o concerto tornou-se académico e até, em alguns casos, aborrecido, apesar da excelente qualidade técnica dos intérpretes.

25 de Julho de 2009, 18h00
Donny McCaslin Group

  • Donny McCaslin sax tenor
  • Ricky Rodriguez contrabaixo
  • Jonathan Blake bateria

A presença do trio dirigido pelo saxofonista norte-americano Donny McCaslin foi o único concerto que não resultou de encomenda directa do Jazz no Parque e consistiu na apresentação dos álbuns já editados pelo grupo, particularmente “Recommended Tools” (GreenLeaf Music 2008), gravado com Jonathan Blake e Hans Glawischnig. Donny McCaslin apresenta um jazz contemporâneo ancorado em referências históricas sólidas, articulado num vocabulário bem estruturado, dialogante com um universo musical externo, mas próximo— como a música brasileira (Hermeto Pascoal é uma das suas referências) ou a pop (um dos temas é dedicado a Madonna)—, mas um dos factores determinantes no impacto que a sua performance tem sobre o público é o seu virtuosismo e o extraordinário rigor técnico que todo o grupo assegura, sem sacrifício da musicalidade. A significativa capacidade técnica de Donny McCaslin, quer na fluidez e rapidez do fraseado, quer no rigor da afinação e no detalhe tímbrico expressivo, acompanhado a grande nível quer por Jonathan Blake, quer por Ricky Rodriguez, colocam a performance do trio num nível de execução difícil de atingir e permitem uma grande exploração dos temas, cuja construção demonstra à partida uma enorme confiança na capacidade técnica dos intérpretes. Ainda assim, a “força da técnica” não esmaga a musicalidade da performance, fazendo lembrar a máxima dedicada aos bailarinos clássicos e aos patinadores do gelo de que não devem em nenhuma altura deixar transparecer a dificuldade associada aos seus movimentos, já que isso se traduzirá em desconforto para o público. O Donny McCaslin Group cumpre esse requisito clássico, apresentando uma performance envolvente e, em alguns momentos estonteante, com o virtuosismo a servir propósitos musicais.
E se, globalmente, a música do Donny McCaslin Group se mantém fiel a formas clássicas do jazz, a disponibilidade do solista em assumir papéis tradicionalmente atribuídos à secção rítmica, liberta a estrutura do trio para outras explorações e para a afirmação completa de cada um dos intérpretes, que acontece quer em solos, quer em duos, quer na forma de pergunta-resposta.
O concerto evolui, passando revista e reconhecendo algumas das influências menos óbvias de Dony McCaslin, como Hermeto Pascoal e Bill Frisell. O seu registo, recorda, a espaços, e de acordo com os ambientes, a fluidez de fraseado de Michael Brecker ou o timbre luminoso de Jan Garbarek, mas a sua voz afirma-se de forma inequívoca, com o acompanhamento certeiro e cúmplice de Jonathan Blake (com 1 grande solo em “3 Signs” entre várias intervenções notáveis) e a grande qualidade de Ricky Rodriguez, quer em papéis mais tradicionais, quer no desenvolvimento de solos, ou na introdução de temas como “Late Night”, com a devida vénia a Bill Frisell.

1 de Agosto de 2009, 18h00
“Bennie Walace Plays Monk”

  • Bennie Wallace sax tenor
  • Donald Vega piano
  • John Hebert contrabaixo
  • Yoron Israel bateria

Ao saxofonista norte-americano Bennie Wallace, António Curvelo sugeriu uma nova incursão ao universo do génio Thelonious Monk, recuperando um projecto de 1981 do saxofonista do Tennessee. Bennie Wallace, já com uns respeitáveis 62 anos, aceitou o convite com generosidade e entusiasmo, dada a presença regular do reportório de Monk nos seus projectos, o seu enorme potencial e as possibilidades criativas ainda por realizar. Apresentou-se numa formação clássica de quarteto, com Donald Vega, John Hebert e Yoron Israel e entregou-se a um concerto que teve grandes momentos, mas no qual se puderam também notar as naturais fragilidades associadas à sua idade: quer nas dificuldades de articulação mais rápida de algum fraseado, quer na afinação e timing de algumas intervenções.
Mas esses momentos mais frágeis humanizam uma performance marcada pela generosidade e entrega e pelo inconformismo: Bennie Wallace, logo na primeira introdução a solo, em “Twinkle, Twinkle”, mostrou que pretendia explorar e reinventar o genial reportório de Monk, mais do que se limitar a interpretá-lo, e assim o fez, quer nos solos, quer na forma de apresentar os temas. Entre os músicos que o acompanhavam, destaque, pela positiva, para o contrabaixista John Hebert (grande solo em “Heavy Rotation”), muito atento e alinhado com Bennie Wallace e, pela negativa, para o baterista Yoron Israel, a quem parecia faltar convicção na interpretação mais livre e criativa deste reportório.
As flutuações na performance de Bennie Wallace, a quem, por vezes, parecia faltar em forma física o que sobrava em energia criativa marcaram o desenvolvimento do concerto, mas o génio de Monk foi assinalado de forma genuína e momentos como o solo (mesmo a solo) de Bennie Wallace, em “Round About Midnight”, elevaram o concerto a um outro nível, musical e emocional.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Louis Sclavis e Evan Parker, uma noite de contrastes

12 de Setembro de 2009, 22h00
Casa da Música, Sala Suggia

Duplo Concerto:
Evan Parker Quartet + Louis Sclavis Trio

O dia 12 de Setembro de 2009 fica marcado na Casa da Música, no Porto, com um duplo concerto de peso: no primeiro concerto apresentou-se Louis Sclavis— um dos nomes fundamentais da improvisação europeia e um dos responsáveis pela boa reputação que goza o clarinete, particularmente o baixo, na improvisação e no jazz contemporâneos— em trio com o pianista Craig Taborn e o baterista Tom Rainey, numa colaboração não muito habitual do clarinetista francês com músicos norte-americanos; no segundo concerto, ao trio do incontornável Evan Parker— o saxofonista britânico assegurou já um lugar no panteão dos grandes improvisadores e é uma referência respeitada em todos os quadrantes da música criativa—, com o contrabaixista Barry Guy e o baterista Paul Lytton, juntou-se, para completar um quarteto uma das mais promissoras estrelas da improvisação— com provas dadas recentemente no Jazz em Agosto—, o trompetista Peter Evans.

Uma noite de contrastes, de propostas arriscadas e intensas e improvisação ao mais alto nível.

Louis Sclavis Trio

  • Louis Sclavis sax soprano, clarinete baixo
  • Craig Taborn piano, teclados
  • Tom Rainey bateria

Louis Sclavis, no seu encontro com o pianista Craig Taborn— um improvisador completo, congregando uma sólida formação clássica com incursões em vários domínios da música não erudita, mas com uma intensa carreira de jazzman— e com o baterista Tom Rainey— colaborador regular de alguns dos mais importantes músicos da cena jazzística nova-iorquina— coloca-se, mais uma vez, num território diferente, com ampla margem de manobra pelos meandros do jazz e das músicas não-eruditas, sem a partilha de algumas das referências de raiz marcadamente europeia que explora em alguns dos seus projectos, mas com amplo espaço para caminhos diferentes, dada a competência técnica e criatividade dos seus novos parceiros norte-americanos. E o concerto desenvolveu-se, assim mesmo, resultando claramente do encontro das culturas musicais de Sclavis, Taborn e Rainey, navegando entre referências mais puramente jazzísticas até universos menos “idiomáticos”, passando até por momentos mais “ligeiros”.
Quer com o clarinete baixo, quer com o sax soprano, Sclavis deu conta da sua veia aparentemente inesgotável e a quantidade e diversidade dos temas apresentados permitiu a exploração aprofundada de diversos universos musicais, de forma relativamente estanque. Ouvimos temas de forma mais livre, com recurso a técnicas instrumentais expandidas, sem pulsação definida e com grande exploração de timbres e partilha de sonoridades, ouvimos cadências eruditas virtuosas, quer por Taborn, quer por Sclavis, ouvimos o que poderiam ser excertos duma banda sonora dum “film noir”, jazz europeu “embriagado”, ouvimos explosões massiças de energia, assumidas imitações de swing, beats quase electrónicos, melodias nostálgicas e espirituais… um concerto com 7 temas que se desdobrou em inúmeras possibilidades, envolvendo as personalidades musicais dos 3 intervenientes, claramente guiado por uma urgência de ser coerente a cada momento, mas garantindo a diversidade dos diferentes momentos, que parece ser um dos impulsos de Sclavis.
Craig Taborn empenhou-se na construção deste mosaico com afinco e gosto, explorando muitas das possibilidades instrumentais do piano e demonstrando enorme versatilidade na improvisação e grande rigor na interpretação dos temas, muitas vezes tecnicamente exigentes e estruturalmente complexos. Tom Rainey, igualmente à vontade e muitíssimo seguro, demonstrou o potencial expressivo da bateria, mesmo em universos de grande fragilidade.
E esta forma de expressão “estilhaçada” ofereceu ao público da Casa da Música uma curiosa amostra de diversas possibilidades de “construção musical” que, sendo criativas e dando grande espaço e ênfase à prática da improvisação e à experimentação, não receiam referências idiomáticas, que se conjugam quase em forma de narrativa. Esta que parece ser uma intenção recorrente de Sclavis- que além do virtuosismo técnico, tem a necessária criatividade e versatilidade-, realiza-se de forma notável quando os músicos que com ele partilham o palco se apresentam também a elevado nível técnico e criativo e munidos da versatilidade e da generosidade necessária para essa construção colectiva angulosa. Assim foi com Craig Taborn e Tom Rainey: o trio encontrou a sua narrativa e apresentou-a com clareza, pormenor e entusiasmo.

Evan Parker Quartet

  • Evan Parker sax tenor
  • Peter Evans trompete
  • Barry Guy contrabaixo
  • Paul Lytton bateria

O segundo concerto da noite apresentou a junção do trompetista “revelação” Peter Evans, ao trio de Evan Parker, uma das mais significativas formações do free jazz europeu. Um concerto que se repetiu em Lisboa e que antecedeu a gravação dum novo álbum pela portuguesa Clean Feed, álbum que, a fazer justiça ao concerto, se arriscará seriamente a conquistar todos os galardões possíveis.
Com explorações de forma muito livre e marcadas claramente pelo espírito de Evan Parker de procurar a disponibilidade para ouvir constantemente os motivos para tocar na “voz” dos seus companheiros, o trio recebe o jovem trompetista Peter Evans com enorme disponibilidade e generosidade, partilhando um entusiasmo genuíno pelas suas raras capacidades expressivas. A Peter Evans parece, a espaços, faltar a maturidade ou controlo e, recorre ao seu enorme léxico para “comentar” permanentemente a actividade do colectivo, não conseguindo a eficácia que a contenção de Evan Parker lhe permite, ao gerir as suas intervenções com mais clareza e espaço. Mas a verdade é que o virtuosismo de Peter Evans é quase hipnótico, pelo que não se poderá saber que efeito teria alguma contenção da sua parte.
Ao contrário do primeiro concerto, de Louis Sclavis, com Evan Parker não existe uma narrativa ou uma estrutura pré-determinada, sentindo-se mais um fluxo de energia musical que vai sendo gerado e gerido pelos 4 músicos, num jogo cuidadoso de partilha, afastado de referências idiomáticas e focado essencialmente nas capacidades expressivas dos instrumentos e da sua conjugação.

Mas, como forma de provar que não existe nenhuma barreira entre projectos musicais desta natureza, no final do concerto, Evan Parker, convidou Louis Sclavis, Craig Taborn e Tom Rainey para que, em septeto, pudessem oferecer mais alguma música ao público da Sala Suggia, tendo esse final de noite marcado um ponto muito alto na história da Casa da Música. Improvisação pura, inesperada até— Louis Sclavis entrou em palco já depois do início do tema, ainda a montar o clarinete e Tom Rainey foi colocando os pratos na bateria enquanto tocava—, onde todos geriram o seu espaço em função dum colectivo mais complexo, mais intrigante, com a partilha inesperada de materiais tímbricos, rítmicos e melódicos entre músicos dos 2 agrupamentos e uma alargada exploração do potencial hiper-instrumental, para usar a expressão de Denman Maroney, com Sclavis a responder aos aparentemente inatingíveis agudos de Peter Evans com subgraves do tubo do clarinete-baixo sem boquilha e Craig Taborn a percutir as cordas do piano, em resposta às cordas travadas com ferros no contrabaixo de Barry Guy, aparentemente, sempre de forma controlada e partilhada.

Uma festa bonita.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | OJM & 3 Tenores

OJM & 3 Tenores
4 de Outubro 2009, 22h00
Sala Suggia, Casa da Música

Direcção: Carlos Azevedo e Pedro Guedes
Solistas convidados: Chris Cheek, Mark Turner e Andy Sheppard

A Orquestra de Jazz de Matosinhos apresentou na Sala Suggia da Casa da Música o evento que, no final de 2008, marcou a reabertura do Cine-Teatro Constantino Nery, em Matosinhos: um concerto para o qual a OJM encomendou novas obras a Ohad Talmor e John Hollenbeck (ambos com presenças marcantes no percurso da Orquestra) e aos seus maestros e compositores de serviço, Pedro Guedes e Carlos Azevedo. 4 novas obras para a OJM explorar, convidando 3 saxofones tenor como solistas.
Em Matosinhos, em 2008, os solistas foram Chris Cheek, Ohad Talmor e Joshua Redman e nesta reapresentação do projecto OJM & 3 Tenores, na Casa da Música, apresentaram-se Chris Cheek, Mark Turner e Andy Sheppard (os dois primeiros já com colaborações com a OJM, Sheppard em estreia).

As 4 obras resultantes da encomenda, pela diversidade de abordagens, pelo enquadramento oferecido ao trio de solistas, pelo papel e exigências atribuídas à própria OJM, funcionam quase como uma vista panorâmica da evolução do projecto da Orquestra, com a particularidade de, neste evento, praticamente se abolirem expressões solísticas dos membros da OJM, explorando-se, isso sim, as capacidades expressivas do grupo, que demonstrou, neste contexto, uma enorme diversidade tímbrica, grande flexibilidade idiomática, rigor na execução e inteligência na interpretação. Com a eventual excepção da obra de Pedro Guedes, mais curta e convencional na forma, com espaço para uma apresentação clara do tema e uma abordagem clássica dos solos, as obras apresentadas desenvolvem-se em secções, enquadrando os solistas em contextos diversificados e explorando diferentes ambientes musicais, com opções na instrumentação que permitem que a OJM percorra um largo espectro, entre a big band clássica e a orquestra de câmara (especialmente quando os saxofonistas, pegam em flautas e clarinetes e os metais se equipam com surdinas), passando pelos pequenos grupos que ocorrem quando apenas a secção rítmica acompanha os solistas. A escrita de Ohad Talmor e John Hollenbeck, particularmente, com que a OJM já se tinha deparado em projectos específicos, parece desmultiplicar as possibilidades musicais da orquestra, que se apresenta com enorme maturidade e convicção, com verdadeira dimensão de Orquestra de Jazz.

E é interessante notar que o papel dos solistas, neste contexto, sendo desempenhado com elevado rigor pelo excelentes intérpretes e improvisadores que são Cheek, Turner e Sheppard, parece ser menos relevante do que o funcionamento global da orquestra face às encomendas feitas aos compositores. A música apresentada, sendo muitíssimo enriquecida pelos solistas, quer na interpretação dos temas escritos, quer no desenvolvimento dos solos improvisados, é construída como música de orquestra, pelo que a performance específica de cada um dos convidados parece ser um assunto secundário.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Concertos Promenade no Teatro Aveirense: uma óptima ideia

Os Concertos Promenade no Teatro Aveirense são da responsabilidade do Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian e ocorrem no primeiro domingo de cada mês, de manhã, tendo começado em Março. Hoje foi a segunda edição (o concerto de Abril coincidiria com o domingo de Páscoa) e eu lá estive, com a Maria e sua avó. Mesmo antes de ir, poderia dizer que esta é uma óptima ideia e é o tipo de iniciativas que contribui, de facto, para a afirmação dum Teatro Municipal. Trata-se de serviço público que enriquece todos os participantes:

  • os alunos do Conservatório têm uma experiência formativa fundamental, que é a apresentação em público do seu trabalho, num contexto diferente das audições de escola; e têm contacto com a estrutura profissional do teatro, aprendendo muito acerca de aspectos menos abordados na escola da sua (eventual) futura profissão
  • o Conservatório ganha um merecido espaço de visibilidade na cidade e exercita as suas capacidades de inserção e relação com o tecido cultural da cidade
  • o Teatro Aveirense ganha público, que poderá vir pela primeira vez para um evento desta natureza e, neste contacto, (re)construir uma relação com este equipamento e com a sua programação; todas as actividades de natureza cíclica / rotineira, têm também a vantagem de criar hábitos de consumo cultural e, na minha opinião, são os alicerces de qualquer coisa a que se possa chamar uma “corrente de público”
  • o Teatro Aveirense ocupa um novo lugar na rede de estruturas locais de produção e formação ao acolher uma iniciativa desta natureza e assumir as suas responsabilidades como parceiro público e institucional, representante da cidade, nesta rede local
  • o Teatro Aveirense assegura uma maior abrangência da sua própria lógica de programação ao delegar no Conservatório a programação destes eventos
  • o público assiste a concertos de música erudita em horários confortáveis para a família e a preços simbólicos

Em suma, a cidade ganha um espaço privilegiado de partilha, através da música, daquilo que é e daquilo que pode ser. Ao ouvirmos os estudantes do Conservatório, estamos não só a usufruir de boa música, mas também (espero) a lembramo-nos, enquanto comunidade, do extraordinário poder que a Educação e a Escola têm. E, se voltamos a acreditar na Escola e, também por isso, a investir nela o que é preciso, que não são só recursos financeiros, talvez encontremos um caminho para fora da crise.

Como vêm, um Concerto Promenade é tão bom que até deixam um tipo como eu a fazer discursos optimistas. ;)

Obrigado ao Conservatório de Música de Aveiro e ao Teatro Aveirense, mesmo que saibamos que não estão a fazer mais do que cumprir a sua missão de serviço público. ;)

Silêncio em Aveiro

Começou neste dia 15 e prolonga-se até dia 25 o ciclo Silêncio, promovido pelas Oficinas sem Mestre, aqui em Aveiro, com iniciativas a decorrer no Teatro Aveirense, no PerFormas e no Mercado Negro. A iniciativa é de peso, com manifestações diversas (workshops, conferências, exposições, concertos, teatro, filmes comentados, etc) e agitando, de facto, quase todo o tecido cultural da cidade. No dia 23, modero um painel dedicado ao Declínio da Era da Palavra, mas aconselho vivamente uma consulta atenta e profunda a toda a programação:

SILÊNCIO

Toda a palavra ou enunciado são precedidos por uma voz silenciosa, por um sonho acordado repleto de imagens e de pensamentos difusos sempre actuantes no nosso íntimo. As formulações que daí emergem podem depois ser esmagadas logo à nascença. As ditaduras, na essência ou nas margens dos regimes políticos, ou como doença viral em relacionamentos pessoais, tendem a calar o indivíduo. A modernidade, por outro lado, leva a mal o silêncio.

A palavra sem fim e sem réplica prolifera em detrimento da palavra renascente da comunicação quotidiana com os nossos próximos. Falamos da palavra que muda de estatuto antropológico: sai da ordem da conversa, entra no domínio dos mass media, das redes, dos telemóveis. Invasora, vã e tranquilizante. Philippe Breton falava do paradoxo de uma sociedade “altamente comunicante e fracamente coincidente”.

Mas não devemos avaliar o silêncio apenas por antifrase. No início dos anos 60, George Steiner já proclamava o “declínio do primado da palavra”, por um lado devido a factores sociais (tendência para crescente iliteracia, incluindo as elites económicas e políticas) e por outro, devido à evolução técnico-científica (que leva à valorização de outras linguagens, nomeadamente a linguagem matemática). Se alargarmos a geografia das nossas reflexões, veremos também que Ocidente e Oriente assumem estratégias distintas de significação do silêncio e da palavra. Falemos então de silêncios – os que crescem connosco, os que conservamos, os que estranhamos, os que quebramos.

PROGRAMAÇÃO

15 de Abril | Quinta-feira
PERFORMAS
| O SILÊNCIO NO CINEMA – I

22H00 | Exibição do filme «The Bow» («O Arco») de Kim Ki-duc (Coreia do Sul, 2005, 90’) seguido de debate

23H45 | Filme escolhido pelo público de entre uma pré-seleccão de filmes feita pelas OSM

16 de Abril | Sexta-feira
PERFORMAS

21h30 | Painel I – OLHAR O SILÊNCIO: IMAGEM E COMUNICAÇÃO

  • Adriana Baptista, docente da ESE e da ESMAE, apresenta «Nas imagens, o silêncio diz tudo ao mesmo tempo»
  • Paula Soares, docente da UA/DeCA, apresenta «Uma retórica do silêncio, João César Monteiro»

Moderação: Rui Baptista, jornalista (Lusa)

17 Abril | Sábado
MERCADO NEGRO

17h00 | Inauguração de Exposições

  • «Sobre Perder Tempo», Envelopes Anónimos, autor anónimo
  • «Personagens imaginárias ou imaginários de uma personagem», fotografia, mariana de almeida
  • No exercício constante do fazer de conta, faz de conta que é actriz. Significa, exprime, divaga estados de (in)consciência, gestos, silêncios, sentimentos, máscaras. O retrato do imaginário, transparece uma multiplicidade de reflexões, como que numa casa de espelhos, sabendo-se que neles as imagens são intocáveis.
    “ (…) a máscara é o sentido quando é absolutamente pura…”, Roland Barthes
  • «Silêncio», colectiva de pintura (listagem definitiva de artistas a anunciar)
  • Projecção (contínua) do filme «La Maison des Petits Cubes» de Kunio Katõ (Japão, 2008, 12’3’’)
  • Intervenção cénica, «Larilalá», Larissa Latif

18h00 | COMUNIDADE DE LEITORES ALMA AZUL

  • A partir da obra «Amigo e Amiga – Curso de Silêncio de 2004» de Maria Gabriela Llansol.
  • Projecção do filme «Curso de Silêncio» de Vera Mantero (Portugal, 2007).

17 Abril | Sábado
PERFORMAS

21h30 | Painel II – SILÊNCIO NA LITERATURA

  • Isabel Cristina Pires, psiquiatra, poetisa
  • Paulo Pereira, docente da UA/DLC, apresenta «Alguns afluentes do silêncio na poesia contemporânea portuguesa»
  • Lurdes Maria Costa, mestranda na UA/DLC, apresenta «O silêncio é o sítio onde se grita – a poesia de Ary dos Santos»
    “O silêncio não é apenas a subtracção da palavra. O grito, o riso, a palavrosidade excessiva, a afronta, o insulto e a obscenidade, a exuberância … também são formas de silêncio.”
  • Irene Alexandre, mestranda na UA/DLC, apresenta «Silêncio na obra de Gonçalo M. Tavares»

O painel conta ainda com a participação de Rui Pedro cantando Ary dos Santos
Moderação: Maria do Rosário Fardilha (socióloga)

23h30 | Recital de Poesia de Alberto Serra com participação especial dos músicos Marco Oliveira e Rui Pedro

“O Silêncio é de todos os rumores o mais próximo da nascente” – Eugénio de Andrade

18 de Abril | Domingo
Sala-estúdio TEATRO AVEIRENSE

11h00-12h00 | Workshop NO SILÊNCIO ACONTECE, orientado por Luísa Vidal (docente de artes visuais e artista plástica) e Tânia Sardinha (docente de artes visuais e formadora na área da criatividade)

Por meio de actividades lúdicas e de carácter plástico, estimular a criatividade, desenvolver a capacidade de expressão e comunicação, e potenciar a partilha na experiência entre pares e em grupo.
Pretende-se também promover a relação e o vínculo afectivo entre avós e netos, através da construção de um espaço e de um tempo onde a criatividade de gerações distintas possa fluir lado a lado.

Destinatários do workshop: avós e netos dos 3 aos 55 anos

17h30-19h30 | Workshop SILÊNCIO, INTERIORIDADE E EXPRESSÃO, com Maria João Regala (psicoterapeuta)

O corpo atravessa o silêncio em novas linguagens. Usa o movimento, a improvisação, a acção. No olhar do outro encontra, decifrada, a sua imagem. Muitas perguntas, respostas transitórias, estranheza, empatia, inquietação e espanto. Do encontro nasce o novo – não sei ainda se um casulo, uma planície ou um castelo.

Destinatários: a partir dos 18 anos

18 de Abril | Domingo
PERFORMAS

21h30 | O NADA, peça da autoria do Ceta – Círculo Experimental de Teatro de Aveiro

21h45 | Painel III – SILÊNCIO E (DES)ORDEM

  • José Tolentino Mendonça, poeta e teólogo (sujeito a confirmação)
  • Ricardo Ribeiro, compositor, apresenta «Silêncio e transversalidade nas artes»
    “É na sua íntima ligação ao vazio, que o silêncio alcança a sua imperecível dimensão de transversalidade artística…
    Do silêncio ao vazio, do vazio à fragilidade: a fragrância do pequeno e do mínimo, é o pouco que sugere o muito, o finito que engendra o infinito…”
  • António Morais, presidente da Direcção do Ceta, apresenta «O duplo silêncio e o absurdo»
    “A origem do teatro acontece depois do silêncio, depois da noite, depois da escuridão… então o homem acorda e descobre o absurdo da sua própria existência… e regressa ao silêncio, à noite, à escuridão, ao nada… O espelho teatral reflecte o absurdo da vida, amenizando-o… Há dois silêncios que envolvem as palavras. Um silêncio que as precede e um outro silêncio que as sucede…”
  • Ana Cruz, mestre em Direito, apresenta «O sagrado direito ao silêncio ou o silêncio no direito?»
    “Em sede de Direito Penal, o direito ao silêncio aparece relacionado com os direitos fundamentais e garantias individuais consagradas na Constituição da República Portuguesa e é considerado como uma garantia fundamental na ordem juridíco-constitucional. (…)”

Moderação: Carlos Picassinos (jornalista)

22 de Abril | Quinta-feira
PERFORMAS | O SILÊNCIO NO CINEMA – II

21h30 | Exibição do filme «Há lodo no cais» de Elia Kazan (EUA, 1954), 108’ seguido de debate com Maria do Rosário Fardilha

23H45 | Filme escolhido pelo público de entre uma pré-seleccão de filmes feita pelas OSM

23 de Abril | Sexta-feira
PERFORMAS

21h15 a 22h45 | Performance de levitação/imobilismo de Toino de Lírio, The Static Man

21h30 | Painel IV – O DECLÍNIO DA ERA DA PALAVRA

  • Isabel Cristina Rodrigues, docente da UA/ DLC, apresenta «Silêncio na Literatura»
  • Fernando Almeida, geofísico, docente da UA/ Depto Geociências e Jorge Hamilton, mestre em Geociências, apresentam «A verdade e o declínio da era da palavra»
    “(…) a nossa verdade é também uma homenagem ao grandioso mestre [Professor Frederico Machado]. Porque este viveu a erupção dos Capelinhos, vamos tentar recriar o momento numa projecção de um filme de 5 minutos ao qual sobrepusemos som virtual. Deste modo, esta verdade também é uma mistura de várias realidades que permite despertar sentimentos.”
  • David Vieira, docente apos. da UA/Depto Matemática, apresenta «Linguagem matemática: pontes quebradas – força e fraqueza»

Moderação: João Martins (sonoplasta)

23h30 | Performance de levitação/imobilismo de Tonio de Lírio, The Static Man
Seguido de actuação de Toino de Lírio como DJ

24 de Abril | Sábado
PERFORMAS

18h30 | Painel V – SILÊNCIO NA MEMÓRIA COLECTIVA
Exibição da curta metragem A Cela Branca (Portugal, 2006, 6’13’’) de Ivar Corceiro
Exibição do filme Dundo Memória Colonial (Portugal, 2009, 60’) de Diana Andringa
Seguidos de debate com:

  • Diana Andringa, jornalista e realizadora.
  • Isabela Figueiredo, escritora, autora de “Caderno de Memórias Coloniais” (2009)
  • Celina Pereira, cantora e contadora de histórias cabo-verdiana, autora de “Estória, Estória… Do Tambor a Blimundo”

Moderação: Catarina Gomes (antropóloga)

22h30| Auditório PERFORMASConcerto Celina Pereira

24h00 | DJ set Couscous Prosjekt (Bagaço Amarelo e Moabird): «Depois do silêncio, uma alvorada em Abril»

25 de Abril | Domingo
MERCADO NEGRO

16h00 | Atelier Cartazes Políticos – exploração didáctica e criativa de uma amostra da colecção cedida por Francisco Madeira Luís ao Núcleo Museológico da UA.
Criação: Oficinas Sem Mestre e docentes do 3º Ciclo e Secundário.

18h00 | Exibição do filme «Cruzeiro Seixas: O Vício da Liberdade» da autoria de Alberto Serra, realizado por Ricardo Espírito Santo (Portugal, 2010) 54’ seguido de debate com Alberto Serra.

22h00 | “OTRA VEZ MARCHAR”
Espectáculo musical a definir.
Leitura de poesia e prosas de liberdade, por Oficinas Sem Mestre

PROGRAMAÇÃO PARALELA

PERFORMAS | Mercado do livro do Silêncio – selecção Livraria Langue D’OC

+ info: silencioemaveiro.blogspot.com

jazz.pt | Vibrafonias, apresentação do Jeffery Davis Quartet

Jeffery Davis Quartet: “Haunted Gardens”

Ficha Técnica do disco
título: Haunted Gardens
editora: Tone of a Pitch
gravação: Novembro de 2008 e Março de 2009, Estúdios Timbuktu, Lisboa
lançamento: Julho de 2009
staff: Jeffery Davis (Vibrafone e Marimba), André Fernandes (Guitarra), Nelson Cascais (Contrabaixo) e Marcos Cavaleiro (Bateria)
Todos os temas compostos por Jeffery Davis.

Jeffery Davis é um músico invulgar: com apenas 28 anos, este percussionista português nascido no Canadá, acumula no currículo uma vastíssima formação, um invejável número de distinções e longa experiência nos principais palcos e com alguns dos nomes maiores, quer da música erudita, quer do jazz, em Portugal e fora de portas. A sua progressão académica foi meteórica e merecedora de atenção: concluiu, com nota máxima, a licenciatura em percussão na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto, onde estudou com Miguel Bernat e Manuel Campos e colaborou, entre outros, com o Drumming – Grupo de Percussão, tendo estreado peças de compositores tão diversos e distintos como Emmanuel Nunes, João Pedro Oliveira, Mário Laginha e Carlos Azevedo; concluiu, com o estatuto Summa Cum Laude, o curso de “Jazz Performance Vibraphone” na importante Berklee College of Music, onde ingressou após vencer o primeiro prémio no Concours International de Jazz, em Paris, em 2002, tendo sido igualmente reconhecido na Berklee como “Most Active Mallet Player”, com a “Gary Burton Scholarship” e o prémio por excelência académica “Dean of Curriculum”. Durante a sua estadia nos EUA recebeu também do IAJE (International Association for Jazz Education) o prémio de “Outstanding Musicianship” e colaborou com alguns nomes incontornáveis da cena jazzística norte-americana: Hal Crook, Joe Lovano, Gary Burton, Dave Liebman, Dave Samuels, Phil Wilson, Terrence Blanchard, Michel Camilo, Bob Mintzer, entre outros.
Mas, apesar deste sucesso e reconhecimento, Jeffery Davis, actualmente professor de Vibrafone na Licenciatura em Jazz da ESMAE, entre outras tarefas pedagógicas no mundo da música erudita e do jazz, não cedeu à tentação de se especializar na linguagem jazzística e distanciar-se da música erudita porque, como afirma, não vê “grande separacão entre os dois: é tudo música.” Para Jeffery, “tocar um estilo ajuda-me a tocar melhor o outro. A enorme diferença que existe entre os dois é a preparação necessária. Para o Jazz sinto que para tocar é muito mais de momento, não é preciso uma preparação tão específica para um determinado concerto, embora, obviamente, tudo depende da banda e dos temas que se vai tocar. Para o clássico é preciso uma preparação bastante mais específica e minuciosa, para um determinado concerto. Mas o estudo diário e bastante intenso é preciso para os dois mundos. Se não estiver em forma, nem um estilo nem o outro serão executados com rigor.”
Esta visão global do fenómeno musical e da sua interpretação é bastante precoce na formação de Jeffery: “sempre ouvi muito Jazz, desde miúdo, e sempre ouvi muita música erudita.”
Mas é uma convicção amadurecida ao longo do tempo, consciente e atenta: “também acho que cada vez mais estes dois estilos se estão a aproximar um do outro. A existência de músicos que tocam estes dois estilos é cada vez (mais rara), na minha opinião, só pelo enorme trabalho que é (preciso para) fazer as duas coisas: são precisas longas horas de estudo diário para se sobreviver nos dois mundos.” E Jeffery faz bem mais do que “sobreviver”: no universo da música erudita, mantém uma sólida carreira como concertista, além das actividades pedagógicas, e importantes colaborações, nomeadamente nos duos com percussionista Pedro Carneiro e com o saxofonista Fernando Ramos, tendo estreado várias peças escritas propositadamente para estes agrupamentos; no universo do jazz, além do seu próprio quarteto, que se apresentará no festival jazz.pt, Jeffery lidera um trio e integra de forma activa muitos projectos nacionais: Quinteto de Nelson Cascais, Lift Off, Duo Erro de Sintaxe, Yeti Project, Quarteto de Vasco Agostinho, Septeto de Michael Lauren, Trio de Percussão “Jeffery Davis, Pedro Carneiro e Alexandre Frazão”, entre outros. E na cena internacional, quer como jazzman, quer como intérprete de música erudita, Jeffery Davis é um músico activo e reconhecido pelos pares e pela crítica, merecendo de forma continuada a atenção de compositores e líderes de agrupamentos.
E, apesar da elevada exigência que a sua actividade de instrumentista impõe, Jeffery afirma-se como músico criativo completo, compondo para diversos músicos e agrupamentos de música erudita e jazz, numa experiência completa de afirmação duma identidade musical madura, exigente e em constante crescimento.
O próprio processo de consolidação do quarteto e do reportório que poderemos ouvir no disco “Haunted Gardens” e no seu concerto de lançamento, durante o Festival Jazz.pt, reflecte bem essa exigência e esse crescimento constante, como nos diz Jeffery: “quando voltei dos Estados Unidos andei bastante tempo à procura dos músicos ideais para desenvolverem este projecto, porque tinha algumas ideias bastante claras. O André Fernandes, para mim, era uma escolha óbvia, desde o princípio, porque me relaciono muito bem com o que ele faz e porque dei por mim a escrever especificamente para ele, a pensar nas coisas que ele faz. Depois conheci o Nelson Cascais e percebi que era com ele que  projecto podia resultar. O que me custou mais foi o baterista, até porque o Marcos (Cavaleiro) andava ocupado com outros afazeres. O disco já esteve para sair antes, mas eu re-escrevi quase tudo: tocámos durante algum tempo e eu fui-me apercebendo que as coisas não estavam a funcionar como eu queria. Só fazemos no disco uma peça minha mais antiga, que é uma suite que escrevi ainda quando estava na América e que foi sofrendo um processo de metamorfose.”
“Haunted Gardens” é, por isso, o encontro entre estes músicos, todos eles notáveis e amplamente reconhecidos, e as ideias, em constante crescimento e evolução, de Jeffery Davis, que assina todos os temas, numa escrita que, pela amostra, faz justiça aos talentos interpretativos e criativos do quarteto e às imensas possibilidades que uma personalidade musical completa e sem preconceitos pode alcançar: o som que esta escrita e este quarteto produzem é singular e, por vezes, surpreendente, explorando um ambiente que o próprio Jeffery classifica de “sombrio – daí o título (Haunted Gardens)”, com as lâminas do vibrafone e da marimba em grande destaque– pelo virtuosismo verdadeiramente musical, pela forte expressividade, pela clareza do gesto, pela enorme paleta dinâmica e tímbrica– mas com espaço para a expressão também singular de André Fernandes, Nelson Cascais e Marcos Cavaleiro (no concerto, substituído por Carlos Miguel), em estruturas articuladas e coesas, onde o discurso solístico parece cumprir funções no arco dramático.
Sombria a música? Positivamente densa, isso sim. Mas claramente em contraste com a personalidade afável, acessível e simples do luso-canadiano que se afirma “português de gema, gajo de aldeia, daqueles que vai beber umas minis à taberna, com os amigos“, que um acaso biográfico fez nascer no Canadá, pátria paterna, e a incompatibilidade entre o frio e a bronquite trouxe de regresso à pátria materna, Febres, Cantanhede.

A promessa está feita: a apresentação de “Haunted Gardens”, disponível a partir de Julho através da “Tone of a Pitch”, tem todas as condições para ser um concerto notável, rico, intenso e fortemente empático, a cargo de Jeffery Davis, no vibrafone e marimba, de André Fernandes, na guitarra, de Nelson Cascais, no contrabaixo e de Carlos Miguel, na bateria.

+ info: www.toapmusic.com | www.jefferydavis.net

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt, como parte da apresentação do Festival jazz.pt 2009. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Não foi bonita a festa, pá!

Casa da Música, Sala Suggia
28 de Junho, 22h00

Brad Mehldau e Chico Pinheiro convidam Fleurine e Luciana Alves
Ciclo Jazz e Brasil, País Tema 2009

Brad Mehldau: piano
Chico Pinheiro: voz e guitarra
Fleurine e Luciana Alves: voz
Doug Weiss: contrabaixo
Edu Ribeiro: bateria

Este concerto, primeiro duma curta digressão nacional, estava apresentado como “Brad Mehldau e Chico Pinheiro convidam Fleurine e Luciana Alves” e prometia aos amantes do jazz e da música brasileira uma noite plena de emoções, dada a importância e o talento dos nomes principais do cartaz. A colaboração entre Brad Mehldau, um dos mais prolíficos e requisitados pianistas de jazz da sua geração e de Chico Pinheiro, figura incontornável da música brasileira de hoje, compositor e virtuoso do emblemático “violão”, justificava uma elevada expectativa em torno do concerto e a sala cheia e entusiasta confirmava isso mesmo.
E esse entusiasmo teve o retorno esperado no início do concerto, primeiro com Brad Mehldau e Chico Pinheiro em duo, sozinhos no palco a explorar um tema do músico brasileiro, assim como o segundo tema, já com Doug Weiss e Edu Ribeiro, músicos de elevada craveira e parceiros habituais de Mehldau e Pinheiro, respectivamente, a completarem a secção rítmica. As ligações íntimas e o jogo de sedução constante entre o jazz e as músicas brasileiras, com especial destaque para a bossanova, cuidadosamente equilibradas, e com músicos de tão elevado nível técnico e criativo podem dar origem a concertos formidáveis, capazes de agradar às mais diversas audiências, mas, infelizmente, não foi o caso desta noite de encontro entre Mehldau e Pinheiro. Por um lado porque o desequilíbrio entre o Jazz e a Bossanova foi evidente do princípio ao fim, nas palavras de algum público à saída “bossanova a mais e jazz a menos“, o que, apesar dos esforços de Mehldau e Weiss, limita a sua capacidade expressiva e, no geral, torna o concerto menos interessante. Por outro lado, porque um encontro mais intenso entre os talentos musicais de Mehldau e Pinheiro ficou muitíssimo limitado, quer pela estrutura das canções que foram sendo apresentadas, com poucos espaços para mais explorações, quer pela estrutura do concerto que ofereceu apenas mais um momento de duo, com o virtuoso “Tema em 3“, novamente de elevado nível, mas ainda em territórios de Pinheiro.
Mas, acima de tudo porque, na realidade, na agenda de todos estes músicos está, acima de qualquer outra coisa, a apresentação do mais recente álbum da cantora holandesa Fleurine, “San Francisco” (Sunnyside 2008), onde se juntaram Mehldau e Pinheiro pela primeira vez, de facto, e onde a parceira de Brad Mehldau, cantora de jazz de reconhecidos méritos faz uma incursão pela música brasileira, gravando temas de 3 Franciscos notáveis: Francisco Buarque de Hollanda, Francis Hime, e o próprio Chico Pinheiro. Impunha-se, por isso, uma mais rigorosa apresentação do concerto, evitando o equívoco de se pensar que se estaria perante o fruto duma colaboração directa entre Pinheiro e Mehldau. Questões de comunicação e marketing, que em nada afectariam a fruição do concerto, não fosse dar-se o caso de Fleurine, figura central do concerto, de facto, se encontrar num momento particularmente infeliz, com muitíssimas dificuldades de afinação, numa prestação sofrível e atípica para performers com estes pergaminhos e que afectou de forma indelével a totalidade do concerto.
Principalmente no duo com Brad Mehldau, único tema do pianista norte-americano tocado, para o qual Fleurine escreveu uma letra em português, “Resignation / Resignação, não para nós“, não só a desafinação e dificuldades vocais nos momentos sinuosos da melodia de Mehldau, como as dificuldades de dicção do português, transformaram todo o tema num momento quase embaraçoso.
Fleurine teve momentos menos maus, especialmente quando cantou em inglês, mas nunca esteve à altura dos seus parceiros em palco, facto que a voz segura e acolhedora de Luciana Alves terá ajudado a realçar, e o concerto, entre essas fragilidades, a escolha pouco criteriosa e algo populista do reportório e os seus arranjos minimalistas e repetitivos ficou muitíssimo abaixo das expectativas. Tom Jobim, Moacir Santos, Milton Nascimento, Baden Powell e Francis Hime e Chico Buarque “encheram” o concerto, canção atrás de canção, até aos encores, em temas escolhidos de acordo com o gosto mais genérico e sem grandes preocupações de variação da fórmula. Os temas de Chico Pinheiro terão sido os únicos a ser alvo de maior atenção, mas nem isso, nem o talento dos músicos em palco bastam para um concerto à altura da proposta.
Pode ter sido só uma noite de azar, mas não “foi bonita a festa, pá!”.

+ info: www.casadamusica.com | www.fleurine.com

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Projecto Teares na SIC

Aceito sugestões sobre como aceder e partilhar só a peça respeitante ao nosso projecto, em vez de partilhar toda a segunda parte do Primeiro Jornal da SIC.

Da nossa parte, o processo de documentação do projecto está praticamente concluído, pelo que haverá mais informação em breve (áudio, fotos e vídeo).

Um abraço especial ao Albrecht Loops, por ter tornado esta reportagem possível.