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Estado da Nação: nota de rodapé #1

Quinta-feira, 10 de Julho, 2008

Hoje começaram as candidaturas ao Ensino Superior. Os candidatos, jovens finalistas do ensino secundário, podiam optar entre um processo online ou um processo presencial, com filas que começaram à porta de escolas em capitais de distrito durante a madrugada.

Segundo os testemunhos recolhidos por alguns canais de televisão, junto dos jovens que optaram pelas filas e por manipular papelada, uma parte significativa destes candidatos optou mesmo por evitar a Internet, por desconfianças várias e dificuldades umas mais óbvias do que outras.

Este é um preocupante, ainda que superficial, indicador do Estado da Nação, que se discute hoje na AR: esta geração de jovens que não confia na Internet para fazer as suas candidaturas ao Ensino Superior é a mesma a quem o Estado financia a aquisição de portáteis e banda larga móvel, num país em que um vasto conjunto de procedimentos na relação com esse mesmo Estado passa obrigatoriamente pela Internet.

Será tudo uma piada de mau gosto, um enviesamento de informação pela comunicação social? Ou estamos mesmo perdidos num pântano?

Comentador de serviço

Quarta-feira, 4 de Junho, 2008

Às vezes não me contenho e dou por mim a fazer o papel de comentador em blogs alheios, quando os assuntos me tocam particularmente. Não faço muitos amigos, suponho.

Vem isto a propósito dos comentários que fiz hoje, a propósito da natureza da Praxe, em dois blogs:

  • no falta de tempo, a explicar porque é que acho que a parte mais acertada da intervenção do Mariano Gago foi a referência do fascismo ligado à Praxe
  • no Strone’s Blog, a defender o direito a ser contra a Praxe sem nela ter participado, por razões óbvias (1) e a tentar distinguir entre o papel dos dirigentes estudantis democraticamente eleitos e os representantes da estrutura bolorenta da Praxe, que, em algumas cabeças, parecem confundir-se (2)

Confesso que é um assunto que me apaixona. Desde sempre. E não canso de me espantar com os argumentos que surgem, as construções lógicas absurdas, as falhas de memória, a estreiteza de vistas…

Quem fala assim é ou não é gago?

Quarta-feira, 4 de Junho, 2008

Mariano Gago promete denunciar responsáveis que pactuarem com praxes violentas, segundo o Público (via Lusa). Lidas as declarações do ministro, fica a pergunta: já seguiu para o Ministério Público a denúncia dos responsáveis da Escola Superior Agrária de Santarém? É que neste caso até deveria ser fácil: não só os factos foram dados como provados, como, ainda por cima, responsáveis da escola foram testemunhas de defesa e falaram na necessidade de “desmistificar as fezes” (vejam este post hilariante a propósito) e na “normalidade” daqueles comportamentos.

Ou há uma pinga de verticalidade em Mariano Gago e este caso não morre nas multas ridículas aplicadas aos praxistas, ou então, de discursos de circunstância já estamos todos bem cansados. Como é que vai ser?

Penas pedagógicas?

Sábado, 24 de Maio, 2008

7 membros da comissão de praxe da Escola Superior Agrária de Santarém, depois de provado em Tribunal a prática do crime de ofensa à integridade física qualificada (por 6 deles) e do crime de coacção (por um deles), e dados como provados os factos ocorridos em 2002, como descritos pela vítima Ana Francisco— a saber, ter sido “barrada” em excrementos e posteriormente forçada a fazer o pino sobre um bacio cheio de bosta—, foram condenados a multas entre os 640 e os 1600 euros. A condenação é “histórica”, uma vez que os Tribunais têm pactuado com a violência das praxes académicas, mas as penas aplicadas são ofensivas. Releia-se o que ficou provado:

O Tribunal entendeu que a ordem dada a quatro caloiros, na Quinta do Bonito, para “barrarem” Ana com excremento de porco, e depois, pelo sétimo arguido, já na escola, para dois caloiros a forçarem a fazer o pino sobre um penico cheio com bosta de vaca, foi um “castigo” por ter atendido uma chamada da mãe no telemóvel. Para o juiz, os arguidos agiram de forma deliberada e consciente, sabendo que estas práticas são proibidas por lei, sublinhando que era “exigível uma postura ética” a quem já frequentava os últimos anos de um curso superior.

As penas de multa, em crimes com moldura penal que vai até aos 3 e 4 anos de prisão, são consideradas “pedagógicas”, mas no contexto geral das decisões dos Tribunais em casos semelhantes e considerando que este caso remonta a 2002, é muito questionável a eficácia desta “lição” do Tribunal de Santarém. A mim, ainda me parece só uma palmadinha cúmplice nos “meninos que exageraram” e não um sinal claro de que os sistemáticos “abusos” de tipo criminal que se passam nas Praxes académicas por este país fora serão encarados, verificados e punidos de forma séria, coerente e inflexível, garantindo a aplicação da Justiça nestes últimos redutos de barbárie reaccionária.

Mas como a cobardia é um sinal distintivo de quem exerce estes poderes desprezíveis nas “academias”, até pode ser que resulte. Pode pelo menos acontecer que aumente o número de queixas e a seriedade com que são tratadas pelo Ministério Público e pelos Tribunais. Tenhamos esperança.

Para que se perceba melhor como é que estou a “medir” as penas aplicadas e porque é que me parece um escândalo, pensem na multa e indemnização a que foi condenado o Alexandre Rocha por ter feito uma reclamação numa Conservatória do Registo Predial: 1260 euros de multa e 750 euros de indemnização à funcionária contra a qual reclamou!

Qual destas duas “lições” é mais assertiva? Para os devidos efeitos, em Portugal, corre-se um risco maior reclamando num serviço público do que barrando de excrementos um “caloiro” numa Universidade. Isto é normal? É “pedagógico”?

O Acordo Ortográfico e a paternidade

Quarta-feira, 14 de Maio, 2008

A discussão acerca do Acordo Ortográfico está relativamente quente. Isso é bom, porque é sinal de alguma energia cívica.

Eu não estou contra o Acordo, nem a favor. Ao contrário do que é frequente, no meu caso, não tenho convicções demasiado marcadas a esse respeito. Pelo que vou vendo à minha volta pode muito bem ser uma questão geracional.

Sou sensível aos argumentos que se levantam contra o Acordo, mas parece-me que a indignação aglutinada neste movimento de opinião é diversificada e disfarça muitas indignidades. Demasiadas, na minha modestíssima opinião.
Mas eu uso esta língua há pouco tempo e a que falo, não é exactamente igual à que escrevo. E não escrevo nem falo a língua de Camões, Eça ou Pessoa. Falo esta mistura da língua que se fala aqui em Aveiro com umas coisas que aprendi no Porto e outras mariquices que fui buscar à literatura, ao entretenimento e a círculos académicos, profissionais e sociais que tive o infortúnio de frequentar. No pouco tempo que levo disto, tenho a certeza que fui falando línguas diferentes e que guardo, para ocasiões especiais, variantes mais ou menos eficazes.
Quanto à língua que escrevo, parece-me que será ainda parecida com a que me ensinaram na escola primária, no ciclo e nos primeiros anos da secundária, com ajustes subtis feitos pelos meus pais (terrível vício dos intelectuais esquerdistas de incentivar a leitura e a escrita) e uns quantos, muito menos subtis, feitos por mim próprio, ora teimoso no erro, ora embasbacado com as línguas que fui lendo.
Não tenho idade para dizer que, com mais ou menos acordo, a minha forma de escrever se manterá inalterável. Se nem sem acordo tenho a certeza de ter mantido alguma ortografia cristalizada nestes poucos anos que levo do uso da língua, que garantias posso dar para o futuro?
Quer isso dizer que me estou borrifando e que, com isso, contribuo para um “desastre” de proporções históricas? Duvido…

A Maria nasce um dia destes e vou gostar de a acompanhar na construção da língua que ela for usar. E, se tudo correr bem, vou tentar aprender umas partes e ensinar-lhe umas partes da minha, para não sermos “estranhos”. Como ferramenta, vou querer que ela estude e trate com cuidado a(s) ortografia(s) que lhe forem ensinando. E que mas ensine a mim, se eu ficar demasiado velho, ortograficamente falando.
Vou-lhe ler histórias, faladas na linha língua e, se me apetecer, noutras que já existam, ou noutras ainda que queiramos inventar. Quando ela já souber ler, vou-lhe dar livros dos avós, escritos por eles, por gente do tempo deles, ou ainda mais velhos. E vou-lhe dar as histórias que tivermos escrito, escritas na língua que estiver a escrever na altura.
Não lhe vou dar o Acordo Ortográfico, mas vou dar-lhe um dicionário pequenino, como o meu pai me deu quando eu fui para a escola. Um dicionário novo, só para ela, que há-de ter palavras que eu nem conheço.
Eu quero acreditar que a Maria vai crescer em graça e sabedoria. Tanta, que não lhe farão a ela mais confusão as consoantes mudas do tempo dos avós dela, do que me faziam a mim os “ph” e os “y” do tempo dos meus avós. Tanta, que a pátria dela continuará a ser uma língua filha da minha. Porque isso das línguas-pátria parecem-me territórios unipessoais e de responsabilidade limitada.

A ter que apostar em alguma coisa, aposto nisso: no compromisso gigantesco de nunca me afastar demais da língua da minha filha que ainda não nasceu. Mas atenção que não sou (completamente) parvo: confio suficientemente nas leis da física para saber que atracção gravitacional me dá uma vantagem “desleal”. Só tenho que me manter por perto e não abdicar da minha “densidade” própria. ;)

Nota: texto adaptado duma contribuição que fiz para uma discussão entre amigos.

Jazz.pt #18 já nas bancas

Terça-feira, 13 de Maio, 2008

jazz.pt #18 Mai/Jun '08O número de Maio/Junho da Jazz.pt já está nas bancas, com Elliot Sharp na capa, a destacar uma entrevista que vale a pena ler com muita atenção, e uma modesta contribuição deste vosso humilde servo para a caracterização do panorama de ensino de Jazz aqui em Aveiro. Espero ter feito justiça aos dois projectos que abordo e a quem agradeço pela colaboração: Riff e Oficina de Música de Aveiro.

Leiam na revista e, se quiserem, comentem aqui. Eu agradeço.

Abençoados os pobres de espírito

Domingo, 4 de Maio, 2008

Hoje, na Universidade de Aveiro, realiza-se a Benção dos Finalistas. Esta cerimónia que se realiza um pouco por todas as academias do país deixa-me doente, irritado e deprimido.

Por um lado, há a hipocrisia extrema e muito portuguesa de encerrar um período em que se cometem todos os excessos e todos os pecados, quase por obrigação, com uma cerimónia religiosa, bem comportada, para emoção das famílias e satisfação de egos parolos e provincianos.

Depois há esta doença social profunda e muito mais debilitante do que se pensa de aceitar a ideia duma religião dominante e da “normalidade” de se organizarem cerimónias para multidões que se supõem diversas, mas unidas nesse padrão quase nunca praticado e cada vez menos professado. A associação entre a vontade popular (ou estudantil, neste caso) de celebrar ou assinalar com pompa e circunstância um momento mais ou menos determinante com a incompreensível e muito pouco debatida necessidade da sua sacralização é um sintoma claro da pequenez do nosso país. Da nossa pobreza de espírito.

Não questiono (nem tal me passaria pela cabeça) que os estudantes, individualmente ou em grupo, sintam uma necessidade de integrar na sua eventual prática religiosa estes momentos. É natural. O que não é nada natural e resulta apenas e só da perigosa presunção nacional de que, a não ser que nos manifestemos em contrário, somos todos católicos e que ninguém se incomodará com a imposição dessa religião dominante porque “sempre foi assim” e toda a gente sabe que até somos “tolerantes”, é que as instituições (Universidades, Órgãos de Soberania, Associações de Pessoas, etc.) não compreendam a necessidade de fronteiras claras e definidas entre a sua esfera pública e a religiosidade presumida.

Países com uma maior presença de diversas culturas e religiões, que não admitem (porque não podem) que religiões historicamente dominantes se confundam com a expressão do que é público e colectivo, não limitam a liberdade religiosa de ninguém ao atribuir exclusivamente às igrejas e aos indivíduos a responsabilidade de organizarem as suas práticas.

O envolvimento que os nosso poderes públicos, das Câmaras aos Governos, passando pelas Universidades, corporações de Bombeiros, colectividades várias e Associações de Estudantes, por exemplo, continuam a assumir com a Igreja Católica é, por isso mesmo, uma manifestação triste da nossa pequenez e da nossa pobreza de espírito.

Não sei se isso nos garante a benção, mas acho que garante parte do nosso atraso civilizacional.

Governo criou o regime de “estudante a tempo parcial”

Sábado, 3 de Maio, 2008

As Universidades sabem?
Esta é claramente a primeira pergunta que me ocorre face a esta notícia.

O regime proposto é comum em vários sistemas de ensino superior que, curiosamente, têm muito poucas parecenças com o nosso. Não me interessam, apesar de me fazerem sorrir, os comentários e piadas que sugerem que a vasta maioria dos actuais estudantes do ensino superior já o são apenas a tempo parcial, porque se dá nessa análise demasiada importância a quem se dedica quase a tempo inteiro à bebedeira travestida de “vida académica” e quase nunca se pensa nos exemplos de quem poderia de facto beneficiar (para si e para a sociedade) de um sistema mais flexível. Eu não sou o melhor exemplo disso mesmo (estive vários anos inscrito na FAUP sem concluir licenciatura nenhuma e estou inscrito na UA, apesar de não ter conseguido frequentar nenhuma disciplina nos últimos dois anos), mas sou um exemplo, ainda assim. Um exemplo que conheço. E a minha experiência diz-me que as Universidades enquanto instituições e os seus docentes, particularmente, não estão muito preparados ou disponíveis para estes graus de autonomia e flexibilidade na construção dos currículos e percursos escolares por parte dos alunos. O que vou conhecendo das “transições para Bolonha” e do desenvolvimento de projectos transdisciplinares reforça essa convicção de que as Universidades funcionam como capelas de “autistas”, fechados ao(s) exterior(es) e aos seus parceiros naturais. É óbvio que há exemplos que contradizem esta ideia e, optimisticamente, gostaria de pensar que essas não são as excepções que contrariam a regra. Mas não sei.

O que sei, das Universidades que conheço, é que um regime em que alunos “avulsos”, de outras instituições ou de nenhuma, possam frequentar e concluir disciplinas a gosto, por muito que seja uma ideia que me agrade, é um regime que obriga a pequenas “revoluções”. Se elas se fizerem, óptimo. Mas suspeito que, na maioria dos casos, se proceda apenas a um conjunto de alterações cosméticas para parecermos todos muito “modernos”.

Quando os programas de formação e apoio se transformam num fim em si mesmos…

Sexta-feira, 2 de Maio, 2008

O Banco de Portugal estudou os programas de apoio aos desempregados dos últimos anos da década passada e concluiu que os milhões gastos foram pouco eficazes (notícia no Público).
Percebo que seja notícia, mas não creio que seja surpresa para quem quer que conheça uma parte desses programas, especialmente os programas de formação.

Os economistas referem, e bem, que um dos problemas foi não se ter apostado também em subsídios aos salários. É engraçado como o subsídio estatal é apontado ora como um mal terrível, criador de parasitas, ora é apontado como um instrumento importante para regular as áreas em que o mercado falha.  Mas, para lá dessa questão, a minha experiência diz-me que o problema maior deestes programas foi terem-se transformado num fim em si mesmos, em vez de se assumirem como meios de qualificação, transformação e progressão no mercado de trabalho para os diversos envolvidos. O negócio da formação financiada em Portugal— que deu até vários escândalos giros— tem uma dimensão tal e está de tal forma empenhado na sua auto-preservação que são raras as propostas formativas sérias e verdadeiramente voltadas para um processo de integração do indivíduo no mercado de trabalho real.

Isso vê-se, por exemplo, na distribuição da oferta formativa por áreas disciplinares, que obedece muito mais a lógicas estranhas que servem as próprias estruturas de formação e a maximização do seu lucro estão muito pouco viradas para o mercado “real”.

Há uma “anedota” real que ilustra muito bem esta lógica retorcida:
Um empresário de determinado sector da indústria necessitava de operários qualificados e contactou o Centro de  Emprego e Formação Profissional da sua área para que fosse criado um curso, para o qual ele dava condições de formação específica e garantia estágios (e empregos com futuro), cabendo ao Centro a integração desse curso num dos percursos formativos existentes e a garantia das outras áreas disciplinares necessárias à formação completa. Acordo feito e estabelecido, iniciam-se as entrevistas para recrutamento. A empresa participa na fase inicial do recrutamento e envia os jovens seleccionados para o Centro de Emprego para a finalização do processo. Chegados ao Centro de Emprego uma técnica de recursos humanos convence os jovens recrutados (que tinham ido à procura daquela oportunidade) que é muito melhor fazerem um Curso de Informática, porque “tem muito mais futuro”. Moral da história: o empresário ficou sem os operários qualificados de que precisava e que queria formar, os jovens foram fazer um curso que não tinha estágios garantidos, muito menos integração no mercado de trabalho assegurada, mas o Centro de Emprego deve ter cumprido uma quota qualquer de formação tecnológica e não teve que lidar com profissões “sujas”.

É só uma “anedota”, mas ilustra bem a realidade dos programas de formação e de outros apoios a desempregados.

E, enquanto não se quebrar esta lógica viciada, nada há a fazer.

De pequenino se torce o pepino

Quinta-feira, 24 de Abril, 2008

Uma das mais eficazes (e desprezíveis) formas de fomentar o uso de aplicações e linguagens proprietárias e viciar o mercado e o contexto de produção informática é apostar no mercado da educação, com campanhas que, efectivamente, perpetuam e reforçam o ciclo vicioso da aparente falta de alternativas. Várias empresas de software usam estas estratégias: empresas como a Microsoft ou a Autodesk (os exemplos que conheço mais de perto) incentivam a utilização das suas ferramentas no contexto académico, apostam fortemente no circuito da formação financiada e tentam manter relações privilegiadas com o sector, promovendo acções de marketing mais ou menos disfarçadas de formação dirigidas a alunos, professores e demais responsáveis pela selecção de ferramentas a utilizar nas salas de aulas.

Já diz o povo, e com razão, que “de pequenino é que se torce o pepino“, e os efeitos destas acções são evidentes: o percurso formativo em variadíssimas áreas que necessitam de apoios tecnológicos são fortemente marcados por uma única aplicação ou suite. E a emergência de “pseudo” standards, a que algumas pessoas chamam os “standards de mercado”, mesmo que o seu crescimento resulte da manipulação do próprio mercado, é um exemplo claro de como esta é uma estratégia ganhadora para as empresas beneficiárias e altamente prejudicial para a sociedade.

Não me interessam lutas quixotescas contra a Microsoft, que é o exemplo mais completo desta forma de actuar, porque me incomoda (quase) tanto a sua hegemonia na área do “escritório e produtividade”, como me incomoda a hegemonia da Autodesk na arquitectura, engenharia e construção, ou da Adobe nas artes gráficas e multimédia ou mesmo da Apple em certas áreas do áudio e vídeo e como plataforma de hardware nas artes gráficas, ainda que quase não se sinta em Portugal.

As hegemonias, todas, incomodam-me porque resultam num encurtar de perspectivas para os utilizadores e, por esse facto, numa limitação da sua liberdade. É um processo no qual cada indivíduo participa, é certo. E, por isso mesmo, o caminho percorrido durante os períodos iniciais de formação, pelo menos esse, deveria ser marcado pela promoção e exploração de alternativas e deveria ser feita a distinção clara entre os tais “standards de mercado”, circunstanciais, e os standards de facto, dando especial atenção a questões como a interoperabilidade das soluções adoptadas. Esquecer a interoperabilidade é, acima de tudo, viciar as “regras do jogo” e prender os utilizadores numa espécie de “jaula invisível”.

Vem esta reflexão a propósito dum concurso que a Microsoft está a promover, em conjunto com a DGIDC (Direcção Geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação),  dirigido a estudantes do 2º e 3º ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, que premiará sites sobre Segurança na Internet, mas onde se privilegiará a utilização de ferramentas da Microsoft, numa jogada claramente denunciada pelo Rui Seabra.

O concurso promove não só a utilização de software proprietário, como contribui para a relativização da importância dos web standards e isso deveria ser razão mais do que suficiente para que os responsáveis públicos da DGIDC/eCRIE se manterem ao largo. Até porque os termos do concurso contrariam a estratégia positiva de promoção de soluções baseadas em Software Livre , como o Moodle e o Joomla, que, além de serem open source e gratuitas, estão envolvidos na promoção de standards reais e não levantam problemas de interoperabilidade.

Discutir e denunciar as condições de promoção deste concurso são tarefas que nos cabem a todos e espero que a Associação Ensino Livre possa vir a participar também nesta denúncia.