Regresso à escola

Com 34 anos e 2 licenciaturas deixadas por fazer, decidi, este ano, regressar à “escola” e tentar “normalizar” as minhas habilitações académicas. Por razões relativamente óbvias, a oferta de ensino à distância (desculpem mas eu não consigo mesmo usar a expressão “ensino/educação a distância” [1]) da Universidade Aberta foi a que mais sentido fez para mim, tendo iniciado neste segundo semestre a frequência da Licenciatura em Estudos Artísticos. Ou melhor, iniciarei ainda este mês, assim que conclua o Módulo de Ambientação Online, que é obrigatório.

A opção da Universidade Aberta pela plataforma Moodle agrada-me e faz com que a minha “ambientação” não seja propriamente um desafio extremo. Desafio será manter-me focado em objectivos e gerir mais este aspecto do meu quotidiano.

É possível que, por isso e outras razões, desapareça por longos períodos ou, pelo contrário, comece a escrever mais por aqui, mas sobre assuntos bem diversos.

Tenham paciência. ;)

1. vejam mais sobre esta polémica aqui, sabendo que eu concordo com o Prof. Paulo Pereira que diz
“Na minha opinião «ensino a distância» não está incorreto, pois não viola nenhuma regra gramatical, mas vai contra o uso corrente (que também está correto). Mais uma vez o capricho estético momentâneo de alguns eruditos foi por cima da lógica cristalina da linguagem do povo. Se um uso é correto (tem coerência interna), comum, antigo e tradicional, para quê mudar?”

Curso Profissional de Instrumentista de Jazz

Curso Profissional de Instrumentista de Jazz no Conservatório de Música da JOBRA
Branca, Albergaria-a-Velha
Primeiro Curso Profissional de Instrumentista de Jazz do País

O Conservatório de Música da JOBRA, localizado na Branca (Albergaria-a-Velha), inclui na sua oferta formativa de Cursos Profissionais (10º, 11º e 12º ano) a vertente “Instrumentista de Jazz“, aguardando homologação por parte da ANQ (Agência Nacional para a Qualificação) para iniciar o seu funcionamento já no ano lectivo 2010/11.
O Conservatório de Música da JOBRA será assim a “primeira Escola de Ensino Oficial Artístico em Portugal a oferecer a possibilidade de formação de quadros médios na área do Jazz“. O Curso Profissional, com a duração de 3 anos, tem as opções de saxofone, trompete, trombone, voz, piano, guitarra, contrabaixo, vibrafone e bateria e no seu corpo docente contam-se reconhecidos intrumentistas do panorama nacional e professores das principais instituições de ensino desta área, incluindo a ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo), Escola Superior de Música de Lisboa e escola do Hot Club de Lisboa.

Jeffery Davis, Óscar Graça, Alexandre Frazão, Marcos Cavaleiro, Hugo Alves, Carl Minnemann, Lars Arens e Nuno Ferreira são alguns dos docentes deste curso que se desenrolará nas instalações na Branca que “foram consideradas pela DREC como as melhores instalações para o ensino artístico da Região Centro”.

Mais informação em http://cmjcursosprofs.wordpress.com/

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 32 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

NOTA POSTERIOR: No dia 7 de Outubro foi publicado em Diário da República a criação do curso de instrumentista de jazz (pdf aqui).

Plataforma Geral da Cultura

Não será fácil contrariar a demagogia e o populismo que este ataque aos “subsídio-dependentes” representa para a opinião pública. Não será fácil esclarecer sobre a ineficácia destas medidas do ponto de vista das contas públicas, inversamente proporcional ao esmagador impacto que têm no tecido criativo. Mas, unidos, temos algumas hipóteses de, pelo menos, tentar.

Por isso, eu assinei a Petição da Plataforma Geral da Cultura, saída do encontro no Teatro Maria Matos (Lisboa), de 5 de Julho de 2010. Por isso, eu aconselho a leitura deste artigo recente da Catarina Martins ou da Carta Aberta à Ministra da Cultura, enviada pela Plateia – Associação de Profissionais das Artes Cénicas.

E por achar que esta questão é uma questão elementar de cidadania, liberdade e democracia (o acesso ao conhecimento e à cultura são condições essenciais para a definição de qualquer destes conceitos fundamentais), espero que a mobilização do sector cultural possa contar com a solidariedade de o maior número possível de pessoas. Para isso, precisamos de informação e acção consequente. Em causa também estão as novas formas de obscurantismo que o “infotainment” facilita.

Vuvuzela Filter, a PureData approach

As promised, I’ve studied some of the solutions around Vuvuzela filtering and with the help of my good friend Ricardo Lameiro, we’ve started to put up a simple PureData patch to filter, via EQ, the annoying sound of the Vuvuzela. Ricardo’s first attempt was already very good, but I’ve experimented with some recordings of games, and it didn’t seem to filter enough. The secret, apparently, is to duplicate the EQ chain in use, so, instead of having one [biquad~] object for each partial, I’ve made a version that uses 2. That means that the frequency is filtered twice (as in the Logix exemple we saw earlier), and that has a great impact. My first upgrade on the patch is, therefor, that simple duplication of EQ chains, along with a slider to alter the “dry/wet” parameter of the effect. All the way to “dry” you’ll hear only the original source, and all the way to “wet”, you get only the processed version. This way, one can customize the desired amount of noise reduction.

That’s my vuvuzela_basicEQ_filter_static:

Vuvuzela Basic EQ Filtering
Detail of the Vuvuzela EQ filter wit double biquad~ objects

This works pretty good in standard conditions, but I was wondering if it would be possible (and useful) to have a dynamic version of this patch, that would calculate the frequencies of the annoying sound in real time. In some broadcasts this can be usefull, if the noise from the Vuvuzelas is being altered by some oher stuf, but, also as a proof-of-concept, it was important for me. This dynamic patch can be used now for the Vuvuzelas and later for any annoying sound on a recording or on a real time audio source.

The principle is the same, but the frequencies being filtered can be altered by pressing the “Sample Noise” button, wich will rearrange the filter according to what’s being listened to at the time. It should be used, normally, when all you can hear are Vuvuzelas, but you can make different experiments, pressing it over the commentators’ voices and stuf like that. It has a reset button, for standard Vuvuzela mode but will allow you to filter any continuous buzz.

So, here’s my vuvuzela_basicEQ_filter_dynamic:

Vuvuzela Dynamic EQ Filtering

The problem with taking out the main frequencies of the Vuvuzela remains: they are closely linked to the main frequencies of the human voice (our ears softspot, so to say), and that’s why they are so annoying. So any filter will have an impact on the voices and all the other sounds. But this thing works, quite surprisingly, and, since it’s made on PureData, you can use it in any computer, regardless of Operating System, completely free.

Please try it out, if you can.

You can use these recordings I made during a recent match to see for yourselves:

If you have any doubts as to how you can install PureData and use these patches, feel free to comment here or reach me on Facebook or Twitter. Or use the community of PureData users.

And if you need audio examples on how good (or bad) does this sound, here it is:

Here you can hear the unprocessed sound (100% dry), then the processed one (100% wet) and it changes twice from one status to the other. Then, I used the “Sample Noise Button” (I’m using the dynamic version) and the third time you hear only processed sound (100% wet), the profile of the filter sounds better, in my opinion. Then I made some more experiences, just to show other possibilities.

Please share your comments, doubts or suggestions. These are all learning processes.

And, if that’s yout thing, enjoy the soccer matches with or without Vuvuzelas. My interest is purely academical. ;)

PS: The 3rd aproach I was planning was to use a noise gate, based on the examples that come with PureData, but I had no time to figure that one out. If anyone wants to try that, I’ll appreciate to know about the results.

PS para os leitores portugueses: desculpem o psot em inglês, mas esta é uma questão que pareceu interessar mais leitores estrangeiros e/ou portugueses que estão à vontade com o inglês. Se alguém quiser explicações detalhadas, avise.

EDIT#1: After real live testing during today’s match Portugal vs Ivory Coast, I’ve made some adjustments (bandwith values for different partials) and here’s the new and improved patch:
http://dl.dropbox.com/u/8101250/Vuvuzela%20Filtering/vuvuzela_basicEQ_filter_dynamicV2.pd

E se usar o Ecoponto fosse um dever?

Estamos todos fartos do paleio politicamente correcto do “bio-isto” e do “eco-aquilo” e o cínico que há em cada um de nós desespera sempre que ouve falar da possibilidade de salvar o mundo separando o lixo ou apagando a luz do “standby” das televisões. É verdade. Mas também é verdade que é preciso ser um selvagem a viver no meio duma gruta ou um grunho neandertal para não sentir a pressão social que existe para que, pelo menos a utilização dos ecopontos (a separação do lixo) se generalize e, excepção feita aos locais onde esses equipamentos escasseiam (queixem-se disso aqui, por favor), nota-se alguma mudança de comportamentos e a vergonha (ou uma consciência ambiental real?) faz com que seja cada vez mais natural não gostarmos de ver imagens como esta:

Caixas de cartão no chão, junto a um contentor de lixo? Porquê?

Não é raro, bem sei, mas começa a despertar em todas as pessoas um incómodo natural, talvez até mesquinho, do tipo “então eu ando a separar e transportar a porcaria dos recicláveis e há uns espertos que os pousam aqui no chão e que se lixe?”
Em alguns sítios e em algumas alturas, estamos quase dispostos a não dar grande importância, mas quando isso acontece de forma continuada e sistemática, damos por nós a olhar à volta e a pensar “mas quem é o bronco que faz isto?”. Pensamos nos nossos vizinhos, pensamos nos patrões e empregados das lojas que vemos carregarem caixas e desempacotarem mercadorias…

Pior ainda é se abrirmos o tal contentor e encontrarmos alguma coisa parecida com isto:

Dentro do contentor do lixo, quase tudo cheio com recicláveis

O contentor do lixo não tem sequer espaço para o nosso lixo (que é mesmo lixo) porque alguém— agora há cada vez menos potenciais broncos na vizinhança e os olhos concentram-se nas caixas para perceber se são as sapatarias ou a loja de electrodomésticos a ganhar a luta da falta de civismo— decidiu que o Ecoponto mais próximo é muito longe. Alguém, perceba-se isto, que não tem sequer que fazer nenhuma separação de lixo, já que tem apenas recicláveis (plástico e cartão) e que acha que é razoável usar o contentor do lixo indiferenciado que tem à porta (ou à montra), em vez de fazer o percurso que eu faço para depositar os despojos da operação de descarga. Alguém que muito provavelmente tem ou já teve na sua montra destaque às características “eco-isto” ou “bio-aquilo” dos produtos que vende.

E um gajo começa a ferver.
“Ferves em pouca água”, dizem vocês. “Se calhar levar aquilo tudo para o Ecoponto ainda é uma grande chatice que demora imenso tempo e é preciso é ser produtivo e, além disso, os Ecopontos estão quase sempre cheios, seja como for”.

Então olhem lá para este esquema, para perceberem porque é que eu fervo:

Mapa do disparate

Tudo isto se passa em Aveiro, na Rua Mário Sacramento, junto à Rotunda do Centro Comercial Glicínias (preferia chamar-lhe Rotunda do Eucalipto, mas já ninguém a conhece por esse nome). O “Ecoponto 1″, junto à PT Inovação é um Ecoponto normal e, de facto, está normalmente cheio, já que esta é uma área residencial algo densa e, vá-se lá perceber porquê, há muita gente a separar o seu lixo. Mas, a uma distância igual, com um acesso fácil a carros e tudo, há desde há uns meses, um Eco Drive (uma inovação da Câmara Municipal de Aveiro, segundo consta):

Cada estrutura destas é constituída por dois ecopontos completos, dois pilhões, um oleão, um contentor para deposição de resíduos eléctricos e electrónicos, um contentor para deposição de resíduos verdes, outro para deposição de resíduos de grandes dimensões (monos/monstros) e dois contentores para resíduos sólidos indiferenciados.

Está ali, mesmo à mão de semear, com acesso fácil, junto à Vila Jovem e ao antigo edifício da Escola Profissional de Aveiro e até tem um outdoor a publicitá-lo na Rotunda.

E, desde que o Eco Drive ali está, já me deparei com esta situação junto do contentor do lixo mais do que uma vez. Por isso, o que é que se faz nestas situações? Uma peixeirada (é aquilo que estou a fazer, digitalmente)? Uma acção pedagógica directa junto dos comerciantes? Pede-se apoio à Câmara ou à Junta de Freguesia ou à Sociedade Ponto Verde? Ou não se faz nada porque estas coisas dependem da consciência individual?

E se não dependessem? E se usar o Ecoponto, separar o lixo, fosse mais do que um simples acto de civismo? Adiantava alguma coisa?

O que é uma Universidade?

Por coincidência, ou talvez não, tropecei recentemente em casos estranhos de decisões administrativas ou de (má) gestão da Universidade de Middlesex (Londres)— especificamente a decisão de encerrar o prestigiado departamento de Filosofia e acabar com o curso BA em Sonic Arts— e comecei a acompanhar uma interessante discussão sobre o significado destas decisões e, a montante disto tudo, sobre a integração do ensino das Belas Artes e Letras nas Universidades, que tem tido lugar na Arena, mailing list promovida pela Virose. Sendo o rastilho circunstancial as ilógicas decisões dos administradores da dita universidade londrina— alguém referia no Facebook que a extinção do Departamento de Filosofia e a criação da equipa de Futebol Americano estavam relacionadas, já que para tomar a segunda decisão seria preciso excluir a lógica— a verdade é que os fundamentos e as estratégias a que assistimos aqui, não nos são estranhas. Os ataques sistemáticos às áreas de estudo consideradas “não rentáveis”, com “baixos níveis de empregabilidade” e coisas que tais, são fenómenos globais que, como tal, têm que ser combatidos globalmente. E, em Portugal, temos também razões para nos empenharmos na defesa dum conceito de Universidade que resiste a lógicas puramente mercantilistas, porque o que está em causa é precisamente o próprio conceito de Universidade.

Muito a propósito, o Fernando José Pereira, trouxe à discussão na Arena, um editorial da Art Monthly relativo ao processo de integração dos processos de aprendizagem das Artes na própria estrutura académica convencional. Com fortes raízes num sistema baseado na prática de atelier e na relação mestre/discípulo, a integração de todo o sistema de aprendizagem das Belas Artes nas estruturas universitárias foi sempre um processo conflituoso entre aquilo que tem que ser diferente e o que pode ser equiparado. Vale a pena ler e reflectir, sobre a forma como esse processo de integração e equiparação descaracterizou (ou não) o próprio processo de ensino/aprendizagem das Artes (e o que é isso?), colocando-o, neste momento, em risco. Citando o tal editorial da Art Monthly:

Dan Mitchell asks whether art can be taught, whether there is even such a thing as ‘fine art education’ (Letters). It is a good question. It has always been a good question, or at least since the idea of art ‘education’, as opposed to art training rooted in craft traditions and the apprenticeship system, began to take shape in Europe in the 15th century. In fact, the question lies at the heart of what a fine art education is or could be.

When art schools were absorbed into the university sector under the last Conservative government, the process was achieved with the minimum of fuss or protest. For some art schools it was a matter of survival, for others it was a matter of status. But now, even those that welcomed the move have discovered, too late, that academic parity has been gained at the cost of a totalloss of autonomy (see Editorial AM316). Now that the idea that a fine art education is somehow different from an education in other, acadernic, subjects has largely been relinquished, it would seem that it can, indeed, be ‘taught’. And, given the subsequent proliferation of fine art courses in the UK, it is big business, too.

When New Labour repackaged the arts as the ‘R&D’ wing of the so-called creative industries, the laudable aim was to persuade the Treasury that they were financially viable and, as such, worth funding. The strategy proved successful and, when New Labour came to power, the funding was forthcoming. But, as everyone now knows, it came with strings attached. A less obvious, but arguably even more pernicious effect of this rebranding of the arts, one that has been highlighted by Stephen Lee (Letters AM316), was the way that corporate jargon – with its emphasis on ‘transferable skills’, ‘creative outcomes’ and ‘economic returns’ – began to supersede the language, and values, of the existing art educational culture.

With the corporatisation of art and education came the inevitable process of ‘rationalisation’ – shedding staff while boosting student numbers – and asset-stripping: the selling off of property and shutting down or merging of smaller, less profitable departments. In this new corporate culture, departments compete against one another for much-needed space and resources. At the University of the Arts, for example, as Alexander Myers points out (Letters), the proposal to move the fine art department of Central Saint Martins from its highly desirable West End site to a new site at King’s Cross will mean not only that there will be ’38% less space’ available, but also that access to resources will be shared with other courses. The implied threat is that, unless it turns a profit, fine art will be closed down or absorbed by another course or department.

At a time when cuts are being made across the whole university sector, a move described by Sally Hunt, General Secretary of the University and College Union, as ‘an act of academic vandalism’, fine art departments are particularly vulnerable because they demand access to space and materiaIs, as well as to staff.

Mitchell and Myers are right, it is time for all concerned to sit down and talk before it is too late and all fine art departments, along with all other arts departments, are subsumed into the non-category of ‘visual culture’. Is there such a thing as a fine art education? As long as the question is being asked, and contested, then perhaps there is. As Duchamp said of art, it can only be declared dead when no one is talking about it. Indifference is deadly.

Fala-se aqui sobre a situação no Reino Unido. Mas as semelhanças com a situação portuguesa são mais que muitas. Que fazemos?

Concertos Promenade no Teatro Aveirense: uma óptima ideia

Os Concertos Promenade no Teatro Aveirense são da responsabilidade do Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian e ocorrem no primeiro domingo de cada mês, de manhã, tendo começado em Março. Hoje foi a segunda edição (o concerto de Abril coincidiria com o domingo de Páscoa) e eu lá estive, com a Maria e sua avó. Mesmo antes de ir, poderia dizer que esta é uma óptima ideia e é o tipo de iniciativas que contribui, de facto, para a afirmação dum Teatro Municipal. Trata-se de serviço público que enriquece todos os participantes:

  • os alunos do Conservatório têm uma experiência formativa fundamental, que é a apresentação em público do seu trabalho, num contexto diferente das audições de escola; e têm contacto com a estrutura profissional do teatro, aprendendo muito acerca de aspectos menos abordados na escola da sua (eventual) futura profissão
  • o Conservatório ganha um merecido espaço de visibilidade na cidade e exercita as suas capacidades de inserção e relação com o tecido cultural da cidade
  • o Teatro Aveirense ganha público, que poderá vir pela primeira vez para um evento desta natureza e, neste contacto, (re)construir uma relação com este equipamento e com a sua programação; todas as actividades de natureza cíclica / rotineira, têm também a vantagem de criar hábitos de consumo cultural e, na minha opinião, são os alicerces de qualquer coisa a que se possa chamar uma “corrente de público”
  • o Teatro Aveirense ocupa um novo lugar na rede de estruturas locais de produção e formação ao acolher uma iniciativa desta natureza e assumir as suas responsabilidades como parceiro público e institucional, representante da cidade, nesta rede local
  • o Teatro Aveirense assegura uma maior abrangência da sua própria lógica de programação ao delegar no Conservatório a programação destes eventos
  • o público assiste a concertos de música erudita em horários confortáveis para a família e a preços simbólicos

Em suma, a cidade ganha um espaço privilegiado de partilha, através da música, daquilo que é e daquilo que pode ser. Ao ouvirmos os estudantes do Conservatório, estamos não só a usufruir de boa música, mas também (espero) a lembramo-nos, enquanto comunidade, do extraordinário poder que a Educação e a Escola têm. E, se voltamos a acreditar na Escola e, também por isso, a investir nela o que é preciso, que não são só recursos financeiros, talvez encontremos um caminho para fora da crise.

Como vêm, um Concerto Promenade é tão bom que até deixam um tipo como eu a fazer discursos optimistas. ;)

Obrigado ao Conservatório de Música de Aveiro e ao Teatro Aveirense, mesmo que saibamos que não estão a fazer mais do que cumprir a sua missão de serviço público. ;)

Silêncio em Aveiro

Começou neste dia 15 e prolonga-se até dia 25 o ciclo Silêncio, promovido pelas Oficinas sem Mestre, aqui em Aveiro, com iniciativas a decorrer no Teatro Aveirense, no PerFormas e no Mercado Negro. A iniciativa é de peso, com manifestações diversas (workshops, conferências, exposições, concertos, teatro, filmes comentados, etc) e agitando, de facto, quase todo o tecido cultural da cidade. No dia 23, modero um painel dedicado ao Declínio da Era da Palavra, mas aconselho vivamente uma consulta atenta e profunda a toda a programação:

SILÊNCIO

Toda a palavra ou enunciado são precedidos por uma voz silenciosa, por um sonho acordado repleto de imagens e de pensamentos difusos sempre actuantes no nosso íntimo. As formulações que daí emergem podem depois ser esmagadas logo à nascença. As ditaduras, na essência ou nas margens dos regimes políticos, ou como doença viral em relacionamentos pessoais, tendem a calar o indivíduo. A modernidade, por outro lado, leva a mal o silêncio.

A palavra sem fim e sem réplica prolifera em detrimento da palavra renascente da comunicação quotidiana com os nossos próximos. Falamos da palavra que muda de estatuto antropológico: sai da ordem da conversa, entra no domínio dos mass media, das redes, dos telemóveis. Invasora, vã e tranquilizante. Philippe Breton falava do paradoxo de uma sociedade “altamente comunicante e fracamente coincidente”.

Mas não devemos avaliar o silêncio apenas por antifrase. No início dos anos 60, George Steiner já proclamava o “declínio do primado da palavra”, por um lado devido a factores sociais (tendência para crescente iliteracia, incluindo as elites económicas e políticas) e por outro, devido à evolução técnico-científica (que leva à valorização de outras linguagens, nomeadamente a linguagem matemática). Se alargarmos a geografia das nossas reflexões, veremos também que Ocidente e Oriente assumem estratégias distintas de significação do silêncio e da palavra. Falemos então de silêncios – os que crescem connosco, os que conservamos, os que estranhamos, os que quebramos.

PROGRAMAÇÃO

15 de Abril | Quinta-feira
PERFORMAS
| O SILÊNCIO NO CINEMA – I

22H00 | Exibição do filme «The Bow» («O Arco») de Kim Ki-duc (Coreia do Sul, 2005, 90’) seguido de debate

23H45 | Filme escolhido pelo público de entre uma pré-seleccão de filmes feita pelas OSM

16 de Abril | Sexta-feira
PERFORMAS

21h30 | Painel I – OLHAR O SILÊNCIO: IMAGEM E COMUNICAÇÃO

  • Adriana Baptista, docente da ESE e da ESMAE, apresenta «Nas imagens, o silêncio diz tudo ao mesmo tempo»
  • Paula Soares, docente da UA/DeCA, apresenta «Uma retórica do silêncio, João César Monteiro»

Moderação: Rui Baptista, jornalista (Lusa)

17 Abril | Sábado
MERCADO NEGRO

17h00 | Inauguração de Exposições

  • «Sobre Perder Tempo», Envelopes Anónimos, autor anónimo
  • «Personagens imaginárias ou imaginários de uma personagem», fotografia, mariana de almeida
  • No exercício constante do fazer de conta, faz de conta que é actriz. Significa, exprime, divaga estados de (in)consciência, gestos, silêncios, sentimentos, máscaras. O retrato do imaginário, transparece uma multiplicidade de reflexões, como que numa casa de espelhos, sabendo-se que neles as imagens são intocáveis.
    “ (…) a máscara é o sentido quando é absolutamente pura…”, Roland Barthes
  • «Silêncio», colectiva de pintura (listagem definitiva de artistas a anunciar)
  • Projecção (contínua) do filme «La Maison des Petits Cubes» de Kunio Katõ (Japão, 2008, 12’3’’)
  • Intervenção cénica, «Larilalá», Larissa Latif

18h00 | COMUNIDADE DE LEITORES ALMA AZUL

  • A partir da obra «Amigo e Amiga – Curso de Silêncio de 2004» de Maria Gabriela Llansol.
  • Projecção do filme «Curso de Silêncio» de Vera Mantero (Portugal, 2007).

17 Abril | Sábado
PERFORMAS

21h30 | Painel II – SILÊNCIO NA LITERATURA

  • Isabel Cristina Pires, psiquiatra, poetisa
  • Paulo Pereira, docente da UA/DLC, apresenta «Alguns afluentes do silêncio na poesia contemporânea portuguesa»
  • Lurdes Maria Costa, mestranda na UA/DLC, apresenta «O silêncio é o sítio onde se grita – a poesia de Ary dos Santos»
    “O silêncio não é apenas a subtracção da palavra. O grito, o riso, a palavrosidade excessiva, a afronta, o insulto e a obscenidade, a exuberância … também são formas de silêncio.”
  • Irene Alexandre, mestranda na UA/DLC, apresenta «Silêncio na obra de Gonçalo M. Tavares»

O painel conta ainda com a participação de Rui Pedro cantando Ary dos Santos
Moderação: Maria do Rosário Fardilha (socióloga)

23h30 | Recital de Poesia de Alberto Serra com participação especial dos músicos Marco Oliveira e Rui Pedro

“O Silêncio é de todos os rumores o mais próximo da nascente” – Eugénio de Andrade

18 de Abril | Domingo
Sala-estúdio TEATRO AVEIRENSE

11h00-12h00 | Workshop NO SILÊNCIO ACONTECE, orientado por Luísa Vidal (docente de artes visuais e artista plástica) e Tânia Sardinha (docente de artes visuais e formadora na área da criatividade)

Por meio de actividades lúdicas e de carácter plástico, estimular a criatividade, desenvolver a capacidade de expressão e comunicação, e potenciar a partilha na experiência entre pares e em grupo.
Pretende-se também promover a relação e o vínculo afectivo entre avós e netos, através da construção de um espaço e de um tempo onde a criatividade de gerações distintas possa fluir lado a lado.

Destinatários do workshop: avós e netos dos 3 aos 55 anos

17h30-19h30 | Workshop SILÊNCIO, INTERIORIDADE E EXPRESSÃO, com Maria João Regala (psicoterapeuta)

O corpo atravessa o silêncio em novas linguagens. Usa o movimento, a improvisação, a acção. No olhar do outro encontra, decifrada, a sua imagem. Muitas perguntas, respostas transitórias, estranheza, empatia, inquietação e espanto. Do encontro nasce o novo – não sei ainda se um casulo, uma planície ou um castelo.

Destinatários: a partir dos 18 anos

18 de Abril | Domingo
PERFORMAS

21h30 | O NADA, peça da autoria do Ceta – Círculo Experimental de Teatro de Aveiro

21h45 | Painel III – SILÊNCIO E (DES)ORDEM

  • José Tolentino Mendonça, poeta e teólogo (sujeito a confirmação)
  • Ricardo Ribeiro, compositor, apresenta «Silêncio e transversalidade nas artes»
    “É na sua íntima ligação ao vazio, que o silêncio alcança a sua imperecível dimensão de transversalidade artística…
    Do silêncio ao vazio, do vazio à fragilidade: a fragrância do pequeno e do mínimo, é o pouco que sugere o muito, o finito que engendra o infinito…”
  • António Morais, presidente da Direcção do Ceta, apresenta «O duplo silêncio e o absurdo»
    “A origem do teatro acontece depois do silêncio, depois da noite, depois da escuridão… então o homem acorda e descobre o absurdo da sua própria existência… e regressa ao silêncio, à noite, à escuridão, ao nada… O espelho teatral reflecte o absurdo da vida, amenizando-o… Há dois silêncios que envolvem as palavras. Um silêncio que as precede e um outro silêncio que as sucede…”
  • Ana Cruz, mestre em Direito, apresenta «O sagrado direito ao silêncio ou o silêncio no direito?»
    “Em sede de Direito Penal, o direito ao silêncio aparece relacionado com os direitos fundamentais e garantias individuais consagradas na Constituição da República Portuguesa e é considerado como uma garantia fundamental na ordem juridíco-constitucional. (…)”

Moderação: Carlos Picassinos (jornalista)

22 de Abril | Quinta-feira
PERFORMAS | O SILÊNCIO NO CINEMA – II

21h30 | Exibição do filme «Há lodo no cais» de Elia Kazan (EUA, 1954), 108’ seguido de debate com Maria do Rosário Fardilha

23H45 | Filme escolhido pelo público de entre uma pré-seleccão de filmes feita pelas OSM

23 de Abril | Sexta-feira
PERFORMAS

21h15 a 22h45 | Performance de levitação/imobilismo de Toino de Lírio, The Static Man

21h30 | Painel IV – O DECLÍNIO DA ERA DA PALAVRA

  • Isabel Cristina Rodrigues, docente da UA/ DLC, apresenta «Silêncio na Literatura»
  • Fernando Almeida, geofísico, docente da UA/ Depto Geociências e Jorge Hamilton, mestre em Geociências, apresentam «A verdade e o declínio da era da palavra»
    “(…) a nossa verdade é também uma homenagem ao grandioso mestre [Professor Frederico Machado]. Porque este viveu a erupção dos Capelinhos, vamos tentar recriar o momento numa projecção de um filme de 5 minutos ao qual sobrepusemos som virtual. Deste modo, esta verdade também é uma mistura de várias realidades que permite despertar sentimentos.”
  • David Vieira, docente apos. da UA/Depto Matemática, apresenta «Linguagem matemática: pontes quebradas – força e fraqueza»

Moderação: João Martins (sonoplasta)

23h30 | Performance de levitação/imobilismo de Tonio de Lírio, The Static Man
Seguido de actuação de Toino de Lírio como DJ

24 de Abril | Sábado
PERFORMAS

18h30 | Painel V – SILÊNCIO NA MEMÓRIA COLECTIVA
Exibição da curta metragem A Cela Branca (Portugal, 2006, 6’13’’) de Ivar Corceiro
Exibição do filme Dundo Memória Colonial (Portugal, 2009, 60’) de Diana Andringa
Seguidos de debate com:

  • Diana Andringa, jornalista e realizadora.
  • Isabela Figueiredo, escritora, autora de “Caderno de Memórias Coloniais” (2009)
  • Celina Pereira, cantora e contadora de histórias cabo-verdiana, autora de “Estória, Estória… Do Tambor a Blimundo”

Moderação: Catarina Gomes (antropóloga)

22h30| Auditório PERFORMASConcerto Celina Pereira

24h00 | DJ set Couscous Prosjekt (Bagaço Amarelo e Moabird): «Depois do silêncio, uma alvorada em Abril»

25 de Abril | Domingo
MERCADO NEGRO

16h00 | Atelier Cartazes Políticos – exploração didáctica e criativa de uma amostra da colecção cedida por Francisco Madeira Luís ao Núcleo Museológico da UA.
Criação: Oficinas Sem Mestre e docentes do 3º Ciclo e Secundário.

18h00 | Exibição do filme «Cruzeiro Seixas: O Vício da Liberdade» da autoria de Alberto Serra, realizado por Ricardo Espírito Santo (Portugal, 2010) 54’ seguido de debate com Alberto Serra.

22h00 | “OTRA VEZ MARCHAR”
Espectáculo musical a definir.
Leitura de poesia e prosas de liberdade, por Oficinas Sem Mestre

PROGRAMAÇÃO PARALELA

PERFORMAS | Mercado do livro do Silêncio – selecção Livraria Langue D’OC

+ info: silencioemaveiro.blogspot.com

Que raio de tourada é esta?

Como diz a Catarina, podia ser uma piada, mas não é: O Conselho Nacional de Cultura, na mesma altura em que é reactivado e passa finalmente a ter uma secção dedicada às Artes, passa também a ter uma secção dedicada à Tauromaquia (ver notícia no Público). O cumprimento dum desígnio relativamente elementar— a reactivação dum importante órgão consultivo e de articulação da relação dos agentes culturais com o Estado— fica assim associado a um momento de surrealismo a vários títulos ofensivos para sectores culturais (ligados a tradições ou não) que nunca mereceram tal atenção. Pense-se por exemplo na representatividade das ciências e/ou da cultura científica no Conselho Nacional de Cultura. Pense-se nas religiões, reduzidas a um representante da Conferência Episcopal Portuguesa.

O plenário do CNC é composto pelos membros do Governo com competências na área da Cultura, pelos presidentes das secções especializadas, por um representante do Centro Português de Fundações, da Associação Nacional de Municípios Portugueses, da Associação Nacional de Freguesias, do Conselho Nacional de Reitores das Universidades Portuguesas, do Conselho Nacional de Consumo, da Conferência Episcopal Portuguesa e, ainda, pelas 10 individualidades de reconhecido mérito representativas das várias áreas da Cultura agora designadas pela Ministra da Cultura.

As 10 individualidades são:

  1. o ensaísta Eduardo Lourenço
  2. o arquitecto Siza Vieira
  3. o musicólogo Rui Vieira Nery
  4. o programador e ex-bailarino Jorge Salavisa
  5. o encenador Ricardo Pais
  6. a escritora Inês Pedrosa
  7. a jornalista Paula Moura Pinheiro
  8. o ensaísta e programador António Pinto Ribeiro
  9. o crítico de cinema João Lopes
  10. o economista Augusto Mateus

As secções existentes, com as 2 novas criações são (de acordo com o Decreto Regulamentar nº 35/2007 de 29 de Março):

  • a) Secção do Livro e das Bibliotecas
  • b) Secção dos Arquivos
  • c) Secção dos Museus e da Conservação e Restauro
  • d) Secção do Património Arquitectónico e Arqueológico
  • e) Secção do Cinema e Audiovisual
  • f) Secção dos Direitos de Autor e Direitos Conexos
  • g) Secção das Artes
  • h) Secção de Tauromaquia

Tudo isto junto, com uma leitura da constituição da Secção das Artes, para ajudar, faz-me rir às gargalhadas, para não chorar. O Conselho Nacional de Cultura ainda não tinha uma Secção das Artes, mas tinha uma para o Cinema e Audiovisual, que não integra, pelos vistos as “Artes”.
A secção das Artes, tem, de resto, uma constituição sui generis (verificar aqui):

Quanto mais informação se recolhe, menos se percebe. Não há artistas/criadores ou seus representantes na secção de Artes, com a honrosa excepção dos arquitectos e designers que têm lugar assegurado. Na dança, é menos claro, já que a REDE, é uma “associação de estruturas empregadoras”. De resto, há dúvidas que, para um tipo como eu, são absolutamente esmagadoras: qual é o lugar da Música no CNC? Não há representantes de Orquestras, a Fundação Casa da Música fica de fora… o facto da actual Ministra vir desta área invalida a sua legítima representação nos órgãos consultivos? Porquê?

Fora isso, a importância dada à Tauromaquia através da criação da sua secção é completamente descabida e contrária ao natural rumo da história (concordo com a Catarina e com o Bloco de Esquerda) e um tipo não pode deixar de pensar o que é que acontece a um país em que, num órgão consultivo do Ministério da Cultura, um representante do Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses ou da Associação Nacional de Grupos de Forcados, está no mesmo patamar dos representantes dos Teatros Nacionais e mais próximo do plenário do CNC do que um representante duma Orquestra ou duma Associação Científica (sem nenhum lugar assegurado em nenhuma secção).

E posto isto em termos que até os aficionados da tourada serão capazes de perceber: o Ministério da Cultura deve consultar um toureiro ou um forcado numa estrutura que não consulta nenhum chefe de cozinha (ou alguém ligado à gastronomia), nenhum futebolista (ou alguém ligado ao desporto) nem ninguém ligado ao artesanato?

Que raio de tourada é esta?

Entretanto, já existe uma petição contra a criação da secção de Tauromaquia no CNC. Eu faria mais umas:

  • pela inclusão de representantes de criadores/artistas, na secção de Artes
  • pela inclusão da Música na Secção de Artes ou em secção autónoma, se não nos quiserem misturar com os “artistas” a sério
  • pela criação duma Secção de Ciência
  • pela criação duma Secção de Desporto
  • pela criação duma Secção de Tradições, incluindo artesanato, folclore, gastronomia e, quem sabe, tauromaquia

Ou então uma só: pela utilização de vulgar bom senso e cultura na reestruturação e reactivação do Conselho Nacional de Cultura, consultando, previamente, pessoas com um bocadinho das duas coisas (cultura e bom senso) na criação de novas secções especializadas e/ou na reestruturação das existentes. É pedir demais?