Arquivo da Categoria ‘família’

Remorsos

Domingo, 29 de Agosto, 2010

Chego ao fim deste mês de Agosto com a certeza de ter feito quase tudo mal. Quase tudo o que interessava, bem visto. Pela simples razão de saber que, quando a Maria voltar ao infantário e os meninos partilharem memórias das suas férias, é bem provável que eu não faça partes dessas memórias.

Pensando nisso, fico triste e penso “que se lixe o trabalho…”.

Ainda vamos ter as nossas férias, Maria. Desculpa.

Férias em Setembro. Aceitam-se sugestões

Domingo, 29 de Agosto, 2010

Quando regressar de Cluny vou estar exausto e vou mesmo precisar de uns dias de férias em família, para me recompensar a mim e a elas. Tempo para planear não houve / não há e ideias também não abundam.
Quem quer contribuir com sugestões de locais e/ou actividades?

Gabriela Canavilhas entala deputada do Bloco de Esquerda… ou não?

Sexta-feira, 16 de Julho, 2010

Nota prévia: confesso-me espectador atento e adepto do formato do Daily Show, de Jon Stewart, que me parece parte integrante dos bocados mais saudáveis da democracia norte-americana. A mediatização da sociedade e da política, muito mais (doentia e) profunda por lá, mas já um fenómeno global a que não escapamos, precisam não só duma comunicação social ágil e capaz de trabalhar bem nas várias velocidades— do “soundbyte” directo e instantâneo, à longa reportagem e investigação profunda, passando pela notícia minimamente documentada—, mas também de sistemas de “desmontagem rápida” dos episódios mais ou menos caricatos que poluem o próprio espaço público da comunicação, muitas vezes, simplesmente por falta de gente atenta, com tempo e visibilidade. Essa desmontagem rápida é, muitas vezes, mais eficaz com recurso ao humor e à sátira, como faz Stewart, num formato que já foi imitado em Portugal pelo Gato Fedorento, mas que tem dificuldade em se afirmar, já que não temos os necessários alicerces: a nossa comunicação social tem imensa dificuldade em garantir níveis mínimos de cobertura noticiosa, a investigação jornalística anda pelas ruas da amargura, não temos uma cultura mínima de escrutínio contínuo e consequente da actividade de ninguém, nem dos mais altos responsáveis políticos, por exemplo, pelo que esforços de sátira e desmontagem cómica do quotidiano se tornam tarefas virtualmente impossíveis.

Ainda assim, a propósito da última audição da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República (pode ser vista na íntegra aqui), recheada de momentos saborosos para o amante da sátira, não resisti a imaginar a estrutura dum sketch intitulado “Gabriela Canavilhas entala deputada do Bloco de Esquerda… ou não?“. Para quem tem acompanhado a agenda política e cultural das últimas semanas, não é novidade nenhuma que há uma deputada do Bloco de Esquerda, de seu nome Catarina Martins, que tem irritado frequentemente a Ministra, merecendo mesmo o Bloco a acusação de “liderar o protesto dos agentes culturais“— que foi mais uma forma de insultar os artistas na sua autonomia cívica e legitimidade de protesto. A intervenção que muito irritou a Ministra foi esta:

Era por isso com alguma expectativa que se aguardava o encontro directo entre a Ministra e a deputada, nesta recente audição, já posterior ao anúncio de que, afinal, o Ministério da Cultura ia cumprir os contratos assinados (a “grande vitória” do Ministério da Cultura que, para muitas pessoas é apenas a correcção dum erro escandaloso). Para espanto de quem acha que isto da política é uma coisa de jogos florais e quejandos, a deputada do Bloco de Esquerda não se deu por satisfeita e pressionou a Ministra, com alguma veemência:

Esta foi, aliás, a segunda intervenção da deputada nesta audição e todos lamentamos que o Bloco não mostre nos seus clipes no YouTube todas as intervenções e, mais do que isso, as reacções ou falta delas, pelo que convém ver o que se passou de facto na audição— que, repito, pode ser vista na íntegra aqui.

Especialmente relevante para um analista de sofá seria o primeiro confronto, em que a deputada levanta o problema dos cortes a 100% nos fundos de aquisição, falando explicitamente do problema de Serralves, referindo-se à colecção de Arte Contemporânea para a qual o Estado contribui— e que o Estado põe em causa com esta decisão— como uma “colecção pública”, no sentido em que, apesar da sua forma jurídica, uma Fundação privada, existe a garantia de que “se a Fundação de Serralves deixar de existir, de hoje para amanhã, a colecção reverte para o Estado” (palavras da deputada).

Reage a Ministra com um vitorioso “a colecção é privada” e “a senhora deputada deve verificar melhor os estatutos”. Ora toma que já almoçaste, deputada irritante do partido radical e nunca satisfeito. Toma, embrulha e mete na tulha! E siga a rusga, mantendo sempre a Fundação de Serralves e a Fundação Berardo bem juntinhas, a bem da confusão geral e, com um jeitinho e alguns vasos comunicantes, o disparate polémico da Fundação Berardo fica diluído no prestígio e solidez incontestada da Fundação de Serralves.
Ainda por cima, para vergonha pública maior da deputada, não há sequer possibildade de responder, já que quem está a ser ouvido nesta audição é a Ministra e não os deputados. BUM!, diria o Jon Stewart,

Mas não deixamos de nos interrogar como é que uma deputada que tem dado tão bem conta de si se deixa apanhar nesta gaffe flagrante e, para a ajudar, vamos ver o que dizem de facto, os porventura intrincados e subtis estatutos da Fundação de Serralves, que terão induzido em erro a inexperiente parlamentar:

CAPÍTULO V
Extinção da Fundação

Artigo 32º

  1. Extinta a Fundação, o seu património reverterá integralmente para o Estado.

Ups. Não foi exactamente isto que a deputada disse? Quer dizer que a Ministra da Cultura acusou a deputada, em sede de Comissão Parlamentar, de falta de informação e/ou de faltar à verdade, sem nenhum fundamento e munida apenas duma enorme cara de pau? Ou estarão os estatutos da Fundação Berardo elaborados da mesma forma, pelo que o destaque dado pela deputada bloquista é, em si mesmo, demagógico e merecedor de repreensão?

CAPÍTULO V
Dissolução e liquidação da Fundação

Artigo 30º

Dissolução da Fundação

  1. Em caso de impossibilidade, por qualquer razão, de obtenção dos objectivos para que foi constituída, a Fundação dissolve-se nos termos legais, constituindo-se o conselho de administração em comissão liquidatária.
  2. Extinta a Fundação, o respectivo património será partilhado nos seguintes termos:
    a) O direito de usufruto do centro de exposições do Centro Cultural de Belém extingue-se, reassumindo a Fundação do Centro Cultural de Belém a sua posseplena e gestão;
    b) O comodato extingue-se, reassumindo a Associação Colecção Berardo a posse plena e gestão da Colecção Berardo, caso a essa data o Estado não tenha exercido a opção de compra;
    c) Caso já tenha exercido a opção, o património reverte a favor do Estado, que se obriga a integrar em projecto museológico já constituído ou a constituir preservando a memória da Colecção Berardo;
    d) Todo o restante património, nomeadamente as obras adquiridas através do fundo de aquisições ou por doações ou legados, reverte a favor do Estado, sem prejuízo do disposto na parte final da alínea c) anterior.
  3. As obras de arte compradas com recurso ao fundo de aquisições podem ser adquiridas por José Manuel Rodrigues Berardo ou por quem ele venha a indicar, pelo respectivo preço de aquisição, sendo deduzida a parte do preço que constituiu a sua participação.

Bem… sendo assim, não quererá a Ministra fazer mais um pequeno recuo, para se colocar numa posição em que não esteja permanentemente a dar tiros nos próprios pés? É que, para quem vai estando atento, neste momento, a ausência de resposta a provocações deste género por parte da Ministra (um misto de arrogância ignorante com ignorância arrogante), é simplesmente um sintoma crescente (gritante) da sua irrelevância política.

Em jeito de nota de rodapé, destacaria ainda o facto do próprio Presidente da Comissão ter tentado, sem grande êxito, explicar à Ministra que ela não tinha percebido o conteúdo da primeira intervenção da deputada e que, por isso, o clamor por provas de que ela tivesse mentido ou insultado o sector eram descabidas. Nesse aspecto, também, a Ministra aproveitou para enfiar um gigantesco barrete— a deputada referia-se ao “discurso da subsidio-dependência [que] é mentiroso e insultuoso”.

EDIT: este post tinha um vídeo do Youtube que, entretanto deixou de estar disponível.

No meio da tragédia, um instante de orgulho familiar

Sexta-feira, 9 de Julho, 2010

Ouço a minha irmã na Assembleia da República e o seu brilhantismo chega a fazer-me esquecer, ainda que por instantes, a gravidade da situação criada pelas opções deste Ministério da Cultura.

«Para poupar o equivalente a três quilómetros de auto-estrada, este Governo decidiu colocar todo o sector cultural em risco. E porque o próprio Ministério da Cultura— qual comissão liquidatária do sector— tem promovido um discurso populista e demagógico de ataque à cultura e aos seus profissionais não será demais esclarecer o que está em causa:o Ministério da Cultura assina contratos com estruturas privadas a quem delega prossecução de políticas públicas e o que o Ministério propõe agora é não cumprir estes contratos. E isto é inédito!

(…)

Todos os cortes são retroactivos porque se referem a contratos já assinados e portanto correspondem a compromissos que os privados já assumiram. E todos os cortes têm efeito irreversíveis: as estruturas que se desmobilizam agora não conseguirão refazer-se.

(…)

Desistir do sector da Cultura é desisitir de uma ideia de futuro para o país.»

E, no registo de intervenção não escrita, também dá gosto. Reparem:

E directamente na cara da Ministra da Cultura, fazendo-a encostar às cordas:

«Vai ou não o Ministério da Cultura cumprir os contratos assinados no âmbito dos concursos da Direcção Geral das Artes e do Instituto do Cinema e do Audiovisual? Lembro que a assinatura destes contratos são a única coisa a que o sector cultural se pode agarrar, de fixo, num Ministério da Cultura cada vez com menos fundos e cada vez com menos critérios. E a partir do momento em que nem os contratos assinados valem, nada vale neste sector. (…) Os contratos eram quase nada e era tudo o que existe. E portanto, senhora Ministra, vai ou não cumprir os contratos assinados pelo Ministério da Cultura?»

Tenho pena de não ter tido ainda acesso à (eventual) resposta da Ministra.

EXTRA: A Ministra parece ter ficado »visivelmente irritada», segundo o Público, e cai mesmo na dupla asneira de acusar o Bloco de «liderar o protesto dos agentes culturais»— numa demonstração de paternalismo e infantilização do sector que os agentes culturais não poderão deixar passar impunemente— e exigir “sangue”, leia-se, querer que lhe mostrem casos concretos de gente que perde o emprego como consequência destes cortes, que considera estarem a ser empolados.

Peixe para o Pedro Couto e Santos

Quarta-feira, 2 de Junho, 2010

Há dias troquei, via Twitter, umas impressões com alguns conhecidos digitais sobre peixe. A conversa começou com referências a sushi e acabou com uma declaração bombástica do Pedro Couto e Santos— cujo Macacos Sem Galho sigo com interesse já há algum tempo, nomeadamente as suas “postas paternais“. Dizia o Pedro, assim, sem mais:

não como peixe

Eu não sou propriamente um maníaco da comida saudável e não tenho interesses particulares no comércio de peixe, mas, talvez por ser de Aveiro, uma afirmação destas faz-me tremer nas bases. “Não come peixe?” Ainda que se depreenda que desta designação geral pode ficar de fora o bacalhau e o atum, porque para muito boa gente, estes “petiscos” não se qualificam para a designação geral— e, frequentemente pejorativa— de “peixe”, faz-me alguma confusão a frequência com que me apercebo da pouca importância que o peixe tem nas dietas de muitas pessoas esclarecidas. Porque será? Deformação/distorção do gosto ao longo do tempo? Prolongada falta de qualidade do peixe disponível nos restaurantes e/ou supermercados nas áreas de residência? Preguiça face ao trabalho acrescido que a preparação do peixe requer muitas vezes, quer a cozinhar, quer a comer?

Confesso que não é coisa para me tirar o sono, mas foi suficiente para me lembrar, ontem, enquanto comia uma belíssima dourada, que talvez umas sugestões simples possam impulsionar algumas experiências de (re)descoberta do peixe. Por isso, cá fica a sugestão:

Pedro: vê neste livro da Paula Veloso (nutricionista), Dieta Sem Castigo, algumas sugestões de preparação simples e adequada a crianças de muitas coisas, entre as quais, alguns pratos de peixe que lá em casa têm feito sucesso. Um deles é o processo de cozinhar peixe fresco no micro-ondas, com resultados extraordinários e sem trabalho nenhum. Podes comprar o peixe já amanhado, mas não escamado e, depois, só tens que o pousar numa cama de sal e cobri-lo com sal, também, e enfiar no micro-ondas. É uma questão de minutos até estar completamente cozinhado e fica muito bom. Podes inclusivamente comprar o peixe e congelá-lo em casa (comprar congelado é que não é aconselhável), desde que depois o deixes a descongelar naturalmente. Nós comemos douradas assim com alguma frequência e gostamos muito. A Maria, particularmente. E, no caso da dourada, tirar a pele (com o sal) e depois as poucas espinhas que tem é mesmo muito fácil.

E então? Nem assim comes peixe?

Uma estratégia de marketing infalível

Quinta-feira, 15 de Abril, 2010

Há várias receitas para o sucesso dum negócio, umas mais comprovadas e/ou eficazes que outras. Umas completamente disparatadas. E outras tão elementares que são infalíveis.

Hoje fiquei cliente para o resto da vida (é um exagero como outro qualquer) duma óptica chamada Adão Oculista, que fica na Rua de Santa Catarina, no Porto, ao deparar-me com uma dessas elementares estratégias infalíveis que separam algumas empresas de todas as outras (que eu conheço). Digo-o, e conto a história, não por vontade de fazer publicidade, mas por um elementar sentimento de gratidão e justiça.

Os óculos que uso, actualmente, foram comprados numa MultiÓpticas e já há algum tempo que recorro a cadeias de ópticas, daquelas com lojas nos centros comerciais e anúncios na TV. Ontem, a Maria (é a minha filha, que tem quase 2 anos) decidiu pegar neles e arrancar-lhes uma haste. Um comportamento pouco comum nela, que me deixou desesperado pela falta que os óculos me fazem, intrigado com a sua aparente fragilidade e chateado com a minha falta de cuidado. Dirigi-me, naturalmente, à MultiÓpticas, onde comprei os óculos há menos de 1 ano, para saber se haveria alguma forma de reparar o estrago. Trata-se duma peça que se soltou e precisaria de ser soldada de novo, nuns óculos que, de resto, estão impecáveis. O funcionário perguntou-me se tinha comprado os óculos com o seguro deles e, face à minha incerteza, verificou no sistema informático que, de facto, não tinha. Era também relativamente pacífico, para todos, que esta era uma situação que não se enquadrava numa lógica de accionar a garantia, pelo que restava a questão da reparação propriamente dita. “Isso não podemos fazer, porque é um tipo de soldadura muito minuciosa e não temos ferramentas para isso. Podemos vender-lhe uma armação igual, nova, para reaproveitar as lentes… ou pode, eventualmente, ir a uma ourivesaria, daquelas tradicionais, que têm ferramentas para esse tipo de soldadura”.
Em desespero de causa, cheguei a casa, peguei numa bisnaga de Super Cola 3 e, enquanto decidia o que fazer, pus um pingo de cola a assegurar um mínimo de funcionalidade, mas muito pouca dignidade.

Hoje de manhã, num movimento que muito nos surpreendeu, a Maria repetiu exactamente o mesmo movimento, desta vez, com muito menos esforço e arrancou, de novo a haste. Um início de dia perfeito, considerando o trabalho que me esperava no Porto. Mais um pingo de Super Cola 3 e lá me pus no comboio.

Ao chegar ao Porto, a Super Cola 3 já tinha desistido e comecei o dia a optar entre estar sem óculos e equilibrá-los com uma só haste. Escusado será dizer que foi um dia ridículo, em termos de trabalho, e que cheguei ao princípio da tarde com uma imensa dor de cabeça e um princípio de náusea, que me aflige nestas alturas de dificuldades ópticas. A custo, acabei o fundamental do dia e, por ter partilhado o meu drama, recebi a sugestão de me dirigir à Adão Oculista. No Visões Úteis já há bastante tempo que existe uma relação com esta óptica do centro do Porto, que cede, frequentemente, óculos como adereço e/ou peça de figurino em várias peças. Mas o Pedro aconselhou-me fazer-lhes uma visita porque lhes parecia que eram uma “óptica a sério” e porque “se não puderem arranjar lá, talvez indiquem alguém”. Sem grandes esperanças e já a fazer contas ao preço duma nova armação, lá fui à Adão Oculista que, na Rua de Santa Catarina, fica, ironicamente, muito perto da MultiÓpticas.
Entrei, com os “despojos” dos óculos na mão e um ar relativamente suplicante ou apenas pitosga (não sei) e a senhora que me atendeu, disse, com naturalidade “ah!, isto é só uma questão de solda, acho que não há problema. fazem-lhe falta não é? pode voltar daqui a uma hora?”. Fiquei imensamente aliviado e mais ainda, quando o colega, responsável pelo trabalho, que estava a passar confirmou que “a não ser que seja titânio, não há problema. é só o tempo da tinta secar, porque como perde a cor, temos que retocar, depois”.
Eu ainda balbuciei que a mudança de cor, para mim, era pouco importante, e saí, com a indicação de que podia ir dar uma volta ou, se preferisse “esperar sentado num dos sofás”. Estava com um ar bastante pitosga, provavelmente, mas ainda assim, fui dar uma volta em Santa Catarina, com aquela particularidade de saber que se me cruzasse com alguém conhecido, muito dificilmente dava por ela e, por isso, correndo o risco de ser muitíssimo antipático.
A dada altura, a meio da volta, apercebi-me que não tinha perguntado qual seria o preço do serviço, mas pela simpatia e naturalidade do atendimento, presumi que seria sempre bastante inferior ao preço duma armação nova.

Voltei, sem deixar passar a hora completa, porque a dor de cabeça não me dava grande descanso e a senhora lembrava-se de mim e foi verificar, enquanto eu me sentava num dos tais sofás, à espera. Disseram-me que tinha que aguardar um minuto, porque a tinta estava a secar. Uma outra funcionária, veio, uns 2 minutos depois, com os meus óculos na mão e perguntou-me “que tal?”. A haste corrigida parecia que nunca tinha saído e os óculos assentam-me tão bem agora como no dia em que os comprei. Fiquei maravilhado. E disse-o. E perguntei: “quanto devo?”. “4 euros”, respondeu a senhora, pelo que eu peguei no meu Multibanco para pagar (quase nunca ando com dinheiro). Ela olhou para o cartão e disse “deixe lá!”. Eu presumi que era uma daquelas coisas de pagamentos inferiores a 5 euros, blabla, pelo que me dispus a ir a uma das caixas Multibanco ali na rua para pagar. Ela repetiu “deixe lá, não vale a pena”. Eu, sinceramente, disse “olhe que eu assim até me sinto mal” e ela rematou com um “é oferta da casa”.

“Muito obrigado, muito obrigado e boa tarde” e cá estava eu, na Rua de Santa Catarina, de óculos novos e sem gastar um tostão, atendido com uma enorme simpatia e servido com enorme profissionalismo. E reparem: nunca comprei ali nenhuns óculos, nem nunca tinha ali entrado, nem sequer me foi perguntado, quando ali cheguei, se os óculos lhes tinham sido comprados. Não fui identificado como cliente especial, nem sequer referi a relação indirecta, via Visões Úteis, ou a referência que me tinha sido dada. Fui, tanto quanto sei, tratado como um cliente normal. E se é assim que eles tratam todos os seus clientes, imagino que tenham uma clientela satisfeita e fiel. Eu, pelo menos, é assim que me sinto.

Há alguma estratégia de marketing melhor do que tratar todas as pessoas muito bem e fazer tudo para que se sintam bem servidas? Há melhor publicidade que a que é feita pelos clientes satisfeitos? Duvido.

Por estas e por outras, eu, sem ter gasto ainda um tostão ali, sou cliente da Adão Oculista.

Do papel social da paternidade

Terça-feira, 30 de Março, 2010

Hoje fui buscar a minha filha ao infantário e, seguindo a rotina habitual, fui com ela à padaria mais próxima, onde ela pede e come, entusiasmada, um pão simples, para grande alegria dos funcionários, e eu aproveito para lanchar. No caminho e na padaria— que é um daqueles estabelecimentos típicos de Aveiro, padaria/confeitaria aberta e mantida por famílias de emigrantes na Venezuela que voltaram—, a boa disposição da Maria, que me vai apresentando a quem passa— “papá, papá”, com o dedito apontado—, enquanto distribui sorrisos e olhares carinhosos tem o estranho efeito de iluminar a cara das pessoas, aliviando-lhes, aparentemente, a carga dos dias e fazendo-as sorrir o que, comprovadamente, é bom para a sua saúde. O efeito é particularmente visível entre as pessoas de mais idade que, eventualmente, estão mais necessitadas desse tónico reconfortante, mas também se nota entre pessoas mais jovens, como são as funcionárias da padaria, para quem estes sorrisos familiares são uma óptima quebra na rotina.

De repente dei por mim a pensar que isto também é um papel social da paternidade que não deve ser menorizado: os pais socialmente responsáveis devem permitir um saudável e necessário contacto de quem os rodeia com a felicidade das suas crianças, que é um remédio natural para tantos males do corpo e do espírito. A bem das crianças, com toda a certeza, mas também como uma espécie de serviço público com recompensa imediata.

Dependendo dos pais, a parte mais difícil será garantir a felicidade das suas crianças ou a generosidade de partilhar publicamente a sua manifestação, mas vale bem a pena.

despedidas

Quinta-feira, 18 de Fevereiro, 2010

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hoje foi dia de despedidas.
definitivas.
e não encontro forma de crescer
para lá da angústia infantil que estas despedidas me provocam.

Fusível

Quarta-feira, 13 de Janeiro, 2010

Hoje passei 2 horas à espera, às escuras, que um piquete da EDP viesse trazer de volta ao presente a nossa casa. Fiquei a saber que a instalação eléctrica da casa, quadro incluído, que foi renovada recentemente e sofreu uma alteração na potência contratada para 30 amperes, está muito bem e que o fusível principal até tem uma margem que permite chegar aos 40 amperes antes do corte.

Em eletrônica e em engenharia elétrica fusível é um dispositivo de proteção contra sobrecorrente em circuitos. Consiste de um filamento ou lâmina de um metal ou liga metálica de baixo ponto de fusão que se intercala em um ponto determinado de uma instalação elétrica para que se funda, por efeito Joule, quando a intensidade de corrente elétrica superar, devido a um curto-circuito ou sobrecarga, um determinado valor que poderia danificar a integridade dos condutores com o risco de incêndio ou destruição de outros elementos do circuito.

Fusíveis e outros dispositivos de proteção contra sobrecorrente são uma parte essencial de um sistema de distribuição de energia para prevenir incêndios ou danos a outros elementos do circuito.

Fusível, Wikipedia

No “nosso” quadro, com contador bi-horário, maravilha da técnica, com led a piscar e um mostrador em ciclo constante com mais informação do que consigo compreender, está tudo em grande forma e a tal margem sobre a potência contratada é normal, mas, de facto, não é sempre a mesma. “Varia, que eles não podem andar a verificar um a um“, que é uma coisa que não se gosta muito de ouvir dizer a um técnico da EDP. Menos mal: em casa, tudo em ordem.

À porta, no átrio do prédio, uma caixinha misteriosa, esconde a razão do nosso “blackout” particular: uma caixa de ligações e fusíveis, que regula a ligação de cada apartamento. “É uma instalação antiga” e os fusíveis são umas tranças de filamentos a ligar dois pinos duma espécie de grande ficha eléctrica. Os 5 filamentos que constituíam o fusível da nossa ligação não aguentavam a margem acima dos 30 amperes que o “nosso” fusível aguenta e, assim, puf!

O técnico, diligente, fez novo fusível. Sim, fez, com as mãozinhas, uma trancinha de 5 filamentos a partir dum cabo que descarnou— numa cena que me fez recordar antigas montagens de peças de teatro em que se faziam os cabos que faltavam, à medida— e passou a trancinha à volta dos pinos, recolocou a tal ficha e fez-se luz. Pediu-me para ligar tudo e, a frágil trança voltou a desfazer-se. “Vamos ter que medir, então“. Nova trança, desta feita com 6 filamentos, fiquei a saber depois, e “ligue tudo menos as duas últimas coisas“, enquanto um aparelho avançado se ligava às entranhas do nosso quadro. “25 amperes, está a ver? Ligue o resto“. Mais dois aparelhos e “30, 35, 40…“, mas antes da trança, desta vez, ouvimos o clique do quadro. “Está a ver? A sua instalação está óptima. Lá fora, não podemos fazer melhor. É uma instalação antiga“. Do pouco que percebo de física, percebi que a nova trança de 6 filamentos tem mais resistência que a anterior e, assim, aguenta a margem de manobra que o nosso quadro nos dá a nós, face à potência contratada. Mas sei também que não é nada de tecnicamente rigoroso ou garantido que essa resistência da trancinha feita à mão se mantenha acima da do fusível industrial que temos no quadro e, por isso, “têm que gerir as coisas que ligam“. Pois… mas era mais confortável saber que, em caso de distração ou acidente, o nosso quadro nos protegesse, antes de se comprometer a “trancinha” a que não temos acesso. Mas as instalações antigas é assim.

Portugal parece que é isto, também.

fim de tarde / fim de semana

Domingo, 10 de Janeiro, 2010

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Depois do ar do mar e da ria, frio, que é como sabe bem em Janeiro e dum pastel de nata na Atlântida, a olhar para o sorriso estafado e satisfeito da Maria, percebe-se melhor o significado dum fim de tarde, num fim de semana.