Arquivo da Categoria ‘jazz.pt’
Terça-feira, 12 de Janeiro, 2010
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Pluto Junkyard, de Lucky 7’s
CLASSIFICAÇÃO: 4/5
Nas notas do disco, sobre as composições apresentadas, Jeff Albert, descreve “Pluto Junkyard”, o tema que dá nome ao disco, como uma tentativa de demonstrar as capacidades desta instrumentação e destes músicos para criar ambientes “assustadores, engraçados e pouco comuns”. A peça cumpre esse objectivo e esta descrição das possibilidades deste septeto é bastante eficaz. Através dos arranjos e da interpretação, este quase ensemble de metais, transforma-se em algo de completamente diferente, não só pelo espaço dado ao vibrafone de Jason Adasiewicz, que oferece um colorido muito especial e se integra de forma esplêndida com toda a secção rítimica, mas também pela forma como os 4 metais (sax, 2 trombones e corneta), se complementam, se desafiam e se dividem para garantir que não somos sujeitos a uma experiência entediante de sucessões intermináveis de solos, mas sim a uma evolução natural das ideias musicais, em combinações eficazes, por vezes estranhas e frequentemente bem humoradas. Também a estrutura dos temas procura caminhos menos evidentes para fazer evoluir a música e o álbum por paisagens novas.
A acompanhar a escrita inteligente dos temas, as intervenções de tipo solista aproveitam a sua “abertura” estrutural e harmónica e levam-nos a momentos menos previsíveis.
Músicos que parecem confiantes do caminho que trilham e satisfeitos com o ambiente instrumental em que se encontram produzem tendencialmente música cativante. E é este o caso.
Pluto Junkyard, de Lucky 7’s
Gravado 2007 Chicago (EUA)
Edição Clean Feed 2009
- Jeb Bishop, trombone e guitarra
- Jeff Albert, trombone e trombone baixo
- Josh Berman, corneta
- Keefe Jackson, saxofone tenor
- Jason Adasiewicz, vibrafone
- Mathew Golombisky, contrabaixo e baixo eléctrico
- Quin Kirchner, bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.
Etiquetas:Clean Feed, crítica, discos, jazz, jazz.pt, Lucky 7's, música, Pluto Junkyard
Na categoria jazz, jazz.pt, música | Sem Comentários »
Terça-feira, 22 de Dezembro, 2009
Como muitos de vocês já saberão (aos outros peço desculpa por ser portador de más notícias), o edifício na Praça da Alegria onde se situava o Hot Clube de Portugal sofreu um grave incêndio hoje de madrugada e, segundo fontes oficiais (Junta de Freguesia, citada pelo Público), dificilmente o prédio poderá vir a ter condições para voltar a albergar o HCP.
Depois do seu 60º aniversário, esta era uma das piores coisas que podia acontecer ao HCP e afecta todos os melómanos e músicos portugueses, em particular os que se sentem próximos do Jazz.
Não faço ideia se e como se organizará um movimento cívico capaz de dar o apoio necessário ao HCP para que planifique e concretize um renascimento depois desta tragédia.
Peço a todos que estejam atentos e que partilhem, dentro do possível, todas as iniciativas de que tiverem conhecimento, para que possamos garantir o máximo apoio e solidariedade.
(mensagem que enviei hoje a vários colegas da Jazz.pt, com conhecimento ao Hot Clube de Portugal)
Etiquetas:cidadania, hot clube de portugal, jazz, jazz.pt, lisboa, música, portugal, solidariedade
Na categoria cidadania, cidade, comunicação, concertos, cultura, jazz, jazz.pt, música, portugal | Sem Comentários »
Domingo, 2 de Agosto, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Quadrologues, Transit
CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5
A primeira gravação deste grupo, de 2006, tinha o nome de “Transit”.
Transit é agora nome de grupo e Quadrologues o nome do álbum.
E Quadrologues é um óptimo nome para o que o grupo dirigido pelo percussionista Jeff Arnal realiza: não nos oferece uma estrutura convencional hierarquizada com secção rítmica e solistas, apesar da formação o permitir, apostando isso sim, numa lógica horizontal, em que os diferentes elementos do grupo encetam uma conversa, não limitando os seus instrumentos aos papéis convencionais e trabalhando muito mais na reacção e troca de material musical do que na afirmação de temas ou modelos.
A utilização de ruídos e técnicas expandidas, em quase todos os temas, a partir de “Walking of Fire”, permite a construção dum léxico vasto e são sistematicamente evitados clichés estilísticos, procurando-se uma forma não restringida, que procura nas características sónicas intrínsecas o seu modo de expressão válido.
Estruturalmente, apesar da liberdade presente, os temas são coesos e construídos à volta de algumas ideias simples e eficazes. O alinhamento do álbum faz das transições entre temas momentos quase indetectáveis, o que contribui para a fluidez da experiência de audição, e o álbum funciona como uma experiência de audição contínua, com as inflexões e o arco dramático que se esperaria duma obra única.
“Z Train”, a meio do álbum, ao retomar ambientes mais familiares, dá um segundo fôlego à experiência de audição e, globalmente, os vocabulários em uso pelos vários músicos são adequados aos ambientes criados, revelando-se flexibilidade técnica e sensibilidade auditiva.
Como ponto menos positivo, parece-me que alguns momentos introdutórios, com as técnicas estendidas, algo repetidas a partir de determinada altura no álbum, parecem demorar-se mais do que o necessário, dificultando a fruição contínua do disco.
Quadrologues, por Transit
Gravado em Dezembro de 2006 e Janeiro de 2007, em NY (EUA)
Edição: Clean Feed, 2009
- Jeff Arnal, percussão
- Seth Misterka, saxofone alto
- Reuben Radding, contrabaixo
- Nate Wooley, trompete
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.
Etiquetas:Clean Feed, crítica, discos, jazz, jazz.pt, Jeff Arnal, música, Quadrologues, Transit
Na categoria jazz, jazz.pt, música | Sem Comentários »
Segunda-feira, 27 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Herculaneum III, Herculaneum
CLASSIFICAÇÃO: 2.5 / 5
Herculaneum, o septeto de Chicago, que tem como principal compositor o seu percussionista Dylan Ryan, apresenta um conjunto de temas que fazem um uso inteligente das particularidades tímbricas das diferentes combinações de instrumento que o compõem e que consegue afirmar várias dimensões de ensemble, ora soando como uma mini-orquestra, ora deixando toda a acção a cargo de um duo ou trio, como no princípio de “Lavender Panther” ou “Mahogany”. A diversidade instrumental é fundamental para afirmar os momentos mais interessantes do álbum, com o vibrafone e a flauta a permitirem a afirmação de momentos completamente diferentes daqueles que se conseguem com os metais e as madeiras. A energia rítmica que se sente em parte dos temas é igualmente interessante e a interpretação é bastante competente. Mas a qualidade da gravação não é das melhores e, infelizmente, a escrita dos temas, não mantém sempre um nível elevado o que, apesar dos esforços interpretativos dos 7 músicos, faz com que o disco não mantenha um interesse constante, sendo de escuta bastante agradável, mas pouco desafiante.
Herculaneum III, Herculaneum
Gravado em 2007 (EUA)
Edição Clean Feed 2009
- John Beard, guitarra
- David Mcdonnel, sax alto e clarinete
- Nick Broste, trombone
- Patrick Newberry, trompete e feliscórnio
- Nate Lepine, flauta
- Greg Danek, contrabaixo
- Dylan Ryan, bateria e vibrafone
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.
Etiquetas:Clean Feed, crítica, discos, Herculaneum, jazz, jazz.pt, música
Na categoria jazz, jazz.pt, música | Sem Comentários »
Sexta-feira, 24 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.
26 de Abril de 2009, 22h00 | Casa da Música, Sala Suggia
Ciclo Música e Revolução
William Parker: The Inside Songs of Curtis Mayfield
- Amiri Baraka, spoken word
- Leena Conquest, voz e dança
- Lewis Barnes, trompete
- Darryl Foster, saxofones
- Sabir Mateen, saxofones
- Dave Burrell, piano
- William Parker, contrabaixo
- Hamid Drake, bateria
O Ciclo Música e Revolução, que a Casa da Música promove pelo 3º ano consecutivo, procura abordar de forma complementar a influência que as revoluções sociais, políticas e económicas tiveram na produção musical ao longo dos tempos, as práticas musicais associadas a esses momentos de ruptura histórica e as práticas musicas revolucionárias “per se”. As implicações programáticas são complexas e as escolhas necessariamente difíceis, sendo por isso necessário, como os próprios programadores reconhecem, acrescentar, a cada edição, alguns sub-temas ou vectores de entendimento destas relações. Em 2009, enquanto se focou parte da programação nas práticas musicais revolucionárias de Karlheinz Stockhausen, elegeram-se também as lutas do Movimento dos Direitos Civis, nos Estados Unidos da Améria, como forma paralela de enquadramento conceptual, o que resultou num conjunto de concertos, do qual faz parte esta proposta de William Parker, mas também as presenças de The Last Poets e a apresentação da “Sinfonia para Oito Vozes e Orquestra” de Luciano Berio ou de “Coming Together” de Frederic Anthony Rzewski. A contaminação do discurso musical pelo discurso político, ou a própria afirmação do discurso musical como discurso politico, apresenta-se assim em diversas formas durante o ciclo e cruza todo o espectro de músicas e formas estéticas que habitam a Casa da Música. Trata-se dum programa ambicioso e merecedor da máxima atenção. (more…)
Etiquetas:Amiri Baraka, casa-da-música, Ciclo Música e Revolução, concerto, crítica, Curtis Mayfield, jazz, jazz.pt, música, política, William Parker
Na categoria arte, cidadania, concertos, cultura, jazz, jazz.pt, música, política | Sem Comentários »
Segunda-feira, 20 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.
16 de Abril 2009, 22h00, Casa da Música, Sala 2
Integrado no Ciclo Jazz e no País Tema 2009 (Brasil)
Duplo Concerto: Ivo Perelman Trio + Alípio C. Neto Quartet
Este duplo concerto, proposto pela Casa da Música e integrado simultaneamente no Ciclo de Jazz e na programação do país tema para 2009, o Brasil, ao juntar 2 formações lideradas por saxofonistas brasileiros “emigrados” (Alípio C. Neto em Portugal, Ivo Perelman nos EUA), constituiu um interessante desafio para o público a quem se apresentou, numa sessão única e num contexto onde parecia haver tantas semelhanças, 2 experiências claramente diferentes.
A música que se fez ouvir, e, com ela, os processos, as estratégias e a atitude dos dois grupos, foram um óptimo exemplo da extraordinária diversidade que se pode encontrar no jazz contemporâneo, independentemente das restrições taxonómicas que se queiram construir. (more…)
Etiquetas:Alípio C. Neto, Brasil, casa-da-música, concertos, crítica, Ivo Perelman, jazz, jazz.pt, música
Na categoria concertos, jazz, jazz.pt, música | Sem Comentários »
Segunda-feira, 13 de Julho, 2009

A jazz.pt #25 [Julho e Agosto] já está nas bancas, com Bill Dixon, Jazz em Agosto, Greg Osby e a Lisbon Jazz Summer School em destaque na capa.
Eu assino 2 reports de concertos na Casa da Música— Quarteto de Alípio C. Neto + Ivo Perelman Trio e The inside songs of Curtis Mayfield, por William Parker— e 3 críticas de discos no Ponto de Escuta:
Vão lá comprar a revista para confirmar. Eu publico os textos aqui no blog, mas só depois de ter tido tempo de ler a versão em papel. E ainda nem sequer tenho a minha.
Etiquetas:Alípio C. Neto, Bill Dixon, casa-da-música, Clean Feed, concertos, crítica, discos, Greg Osby, Herculaneum, Ivo Perelman, jazz, jazz-em-agosto, jazz.pt, Lisbon Jazz Summer School, Lucky 7's, música, Transit, William Parker
Na categoria comunicação, concertos, cultura, jazz, jazz.pt, música | Sem Comentários »
Segunda-feira, 6 de Julho, 2009
A crítica ao CD Now Boarding, publicada no nº 24 da jazz.pt, aconteceu depois de ter conduzido uma entrevista ao Quad Quartet, em Dezembro de 2008, para publicação na Viento, uma revista espanhola especializada em instrumentos de sopro e editada pela Mafer Musica, representante ibérica da Selmer e da Vandoren. A edição na revista espanhola acontecerá brevemente, mas, para os leitores portugueses, deixo o conteúdo aqui, em pré-publicação. (more…)
Etiquetas:entrevista, Fernando Ramos, Henrique Portovedo, jazz.pt, joão figueiredo, música, Quad Quartet, Romeu Costa, saxofone
Na categoria comunicação, cultura, ensino, jazz.pt, música | Sem Comentários »
Sexta-feira, 3 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Prelude, de Ambrose Akinmusire
CLASSIFICAÇÃO: 4/5
Os “sons frescos” a que esta editora se dedica são já reconhecíveis. E este “Prelude”, de Ambrose Akinmusire, encaixa no catálogo sem grande surpresa.
A escrita de Ambrose Akinmusire é a dum jazz contemporâneo, inteligente e articulado: consciente das raízes, da necessidade de expôr formas mais elaboradas, da inevitável miscigenação da linguagem estritamente jazzística com outras expressões, umas mais eruditas, outras mais populares, mas sem a urgência de confrontar ou incomodar o ouvinte com experiências fracturantes: “apiration to evolution and beauty” (aspiração à evolução e beleza) é o mote deste jovem, mas já notável músico, que, recém-licenciado, ganhou em 2007 o Concurso Internacional Carmine Caruso para Solo de Trompete Jazz e o Concurso Internacional de Jazz Thelonious Monk.
“Prelude” é, assim, mais um disco dum jazz inteligente, urbano e contemporâneo, quase tão bem escrito como executado, por um ensemble vasto e diverso, que oferece ao disco uma rica paleta tímbrica. A riqueza dos temas não sobrecarrega os intérpretes com a responsabilidade individual de elevarem a experiência a um outro nível, solísticamente. Trata-se, nesse sentido, pela forma e pelos arranjos, de mais um exemplo de como o jazz pode ser um verdadeiro trabalho de equipa, sem hierarquias artificiais ou dependente de fortes personalidades.
Não quer isso dizer que o trabalho individual dos intérpretes não seja relevante. Pelo contrário: a capacidade técnica e expressiva de cada um dos envolvidos é o que garante a coesão do trabalho, o som distinto do ensemble e a realização completa do potencial da música escrita por Ambrose Akinmusire.
Evolução e Beleza são, de facto, boas palavras-chave para a catalogação deste “Prelude”.
Prelude, de Ambrose Akinmusire
Ed. Fresh Sound Records
Nova Iorque, EUA, 2008
Intérpretes: Ambrose Akinmusire (Trompete), Aaron Parks (Piano), Joe Sanders (Contrabaixo), Justin Brown (Bateria), Chris Dingman (Vibrafone), Walter Smith III (Sax Tenor)
Convidados: Junko Watanabe (Voz), Logan Richardson (Sax Alto)
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.
Etiquetas:Ambrose Akinmusire, crítica, discos, Fresh Sound New Talent, jazz, jazz.pt, música, Prelude
Na categoria jazz, jazz.pt, música | Sem Comentários »
Quinta-feira, 2 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

SHAKTI, de David S. Ware
CLASSIFICAÇÃO: 3/5
Em SHAKTI, o quarteto dirigido pelo saxofonista David S. Ware explora o rico filão dos cruzamentos e ligações entre o Jazz e as suas raízes negras, com as ricas tradições indianas. Há uma aproximação mais evidente ao carácter repetitivo e hipnótico dos mantras e drones do que ao microtonalismo ou à complexidade rítmica das estruturas tradicionais indianas, mas parece estar também mais em causa um certo tipo de ligação à transcendência do que uma abordagem especificamente musical. Os temas são elementares e extremamente abertos, proporcionando amplos espaços discursivos para os solos, sobre uma textura rítmica normalmente bastante activa, com Warren Smith a pontuar extensivamente todos os solos e William Parker a manter rápidas linhas no contrabaixo, sem que se afirme nem um contorno harmónico, nem uma pulsação regular. A partir destes temas simples, mas com um forte pendor lírico-espiritual, os solos de David S. Ware desenvolvem-se com níveis de energia notáveis e uma força genuína no que é dito e como é dito, resultando esses momentos em fortes experiências, também pela relação estabelecida com a secção rítmica e parece evidente e, quiçá, intencional a forte dicotomia entre o discurso de Ware no saxofone tenor e o de Joe Morris, na guitarra. Especialmente ao nível da qualidade do som, a limpeza quase cristalina de Morris, parece querer salientar a “crueza” orgânica do som de Ware. Intencionais ou não, estas variações na “intensidade” do discurso apresentam-se como cortes ineficazes na fruição do disco, talvez por não serem acompanhadas por mudanças estratégicas pela secção rítmica que quando é chamada a solar se parece aproximar da abordagem mais visceral de Ware. Paralelamente, em alguns dos momentos de uníssono com Ware e Morris, as frases mais angulares parecem mais ajustadas ao rigor do guitarrista do que à interpretação mais livre e apaixonada de Ware e, também nesses momentos o dualismo é sentido com estranheza.
Globalmente, destacam-se variadíssimos momentos de grande intensidade musical e expressiva, mas periodicamente somos confrontados com estes outros momentos estranhos, cuja presença pode perfeitamente ser intencional, ainda que misteriosa e discutível na concretização.
SHAKTI, de David S. Ware
Edição AUM Fidelity
Nova Iorque, EUA, 2008
Intérpretes: David S. Ware (Sax Tenor e Kalimba), Joe Morris (Guitarra e Percussões), William Parker (Contrabaixo), Warren Smith (Bateria)
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.
Etiquetas:AUM Fidelity, crítica, David S. Ware, discos, jazz, jazz.pt, música, Shakti
Na categoria jazz, jazz.pt, música | Sem Comentários »