jazz.pt | OJM & 3 Tenores

OJM & 3 Tenores
4 de Outubro 2009, 22h00
Sala Suggia, Casa da Música

Direcção: Carlos Azevedo e Pedro Guedes
Solistas convidados: Chris Cheek, Mark Turner e Andy Sheppard

A Orquestra de Jazz de Matosinhos apresentou na Sala Suggia da Casa da Música o evento que, no final de 2008, marcou a reabertura do Cine-Teatro Constantino Nery, em Matosinhos: um concerto para o qual a OJM encomendou novas obras a Ohad Talmor e John Hollenbeck (ambos com presenças marcantes no percurso da Orquestra) e aos seus maestros e compositores de serviço, Pedro Guedes e Carlos Azevedo. 4 novas obras para a OJM explorar, convidando 3 saxofones tenor como solistas.
Em Matosinhos, em 2008, os solistas foram Chris Cheek, Ohad Talmor e Joshua Redman e nesta reapresentação do projecto OJM & 3 Tenores, na Casa da Música, apresentaram-se Chris Cheek, Mark Turner e Andy Sheppard (os dois primeiros já com colaborações com a OJM, Sheppard em estreia).

As 4 obras resultantes da encomenda, pela diversidade de abordagens, pelo enquadramento oferecido ao trio de solistas, pelo papel e exigências atribuídas à própria OJM, funcionam quase como uma vista panorâmica da evolução do projecto da Orquestra, com a particularidade de, neste evento, praticamente se abolirem expressões solísticas dos membros da OJM, explorando-se, isso sim, as capacidades expressivas do grupo, que demonstrou, neste contexto, uma enorme diversidade tímbrica, grande flexibilidade idiomática, rigor na execução e inteligência na interpretação. Com a eventual excepção da obra de Pedro Guedes, mais curta e convencional na forma, com espaço para uma apresentação clara do tema e uma abordagem clássica dos solos, as obras apresentadas desenvolvem-se em secções, enquadrando os solistas em contextos diversificados e explorando diferentes ambientes musicais, com opções na instrumentação que permitem que a OJM percorra um largo espectro, entre a big band clássica e a orquestra de câmara (especialmente quando os saxofonistas, pegam em flautas e clarinetes e os metais se equipam com surdinas), passando pelos pequenos grupos que ocorrem quando apenas a secção rítmica acompanha os solistas. A escrita de Ohad Talmor e John Hollenbeck, particularmente, com que a OJM já se tinha deparado em projectos específicos, parece desmultiplicar as possibilidades musicais da orquestra, que se apresenta com enorme maturidade e convicção, com verdadeira dimensão de Orquestra de Jazz.

E é interessante notar que o papel dos solistas, neste contexto, sendo desempenhado com elevado rigor pelo excelentes intérpretes e improvisadores que são Cheek, Turner e Sheppard, parece ser menos relevante do que o funcionamento global da orquestra face às encomendas feitas aos compositores. A música apresentada, sendo muitíssimo enriquecida pelos solistas, quer na interpretação dos temas escritos, quer no desenvolvimento dos solos improvisados, é construída como música de orquestra, pelo que a performance específica de cada um dos convidados parece ser um assunto secundário.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Steve Swell: Planet Dream

Planet Dream, capa do disco
Planet Dream, de Steve Swell

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

5 improvisações, 4 temas compostos por Steve Swell. 3 músicos que se conhecem profundamente e partilham um universo sonoro que surge naturalmente da abundante e peculiar cena free jazz nova-iorquina. Um universo que está plasmado nas composições de Swell, mas que se constrói através das longas cumplicidades entre estes 3 músicos (Rob Brown e Daniel Levin tocam na big band de Steve Swell, The Nation of We, Steve Swell e Rob Brown integram a Little Huey Creative Music Orchestra, de William Parker e Rob Brown e Daniel Levin tocam em duo e trio com Satoshi Takeishi). Trombone, saxofone e violoncelo podem constituir uma combinação invulgar, mas o talento e versatilidade destes músicos permite-lhes explorar com intensidade e pertinência as diversas possibilidades e combinações, quer pelas similaridades, quer pelo constrastes, pintando este “Planet Dream” com uma vasta e luminosa paleta de cores. Se nos 4 momentos de improvisação total, temos oportunidade de ouvir de forma mais evidente momentos de encontro e partilha sonora mais abstracta, como na faixa que dá nome ao disco, em explorações técnicas e tímbricas que procuram desafiar as fronteiras dos instrumentos de formas enriquecedoras para o conjunto, e podemos acompanhar jogos de interacção riquíssimos, nos temas compostos por Steve Swell, ao fornecer-se um mote melódico-rítmico, como no multi-swing de “Juxtsuppose”, o trio consegue apresentar e desenvolver os temas com grande expressividade e liberdade, prosseguindo então para a sua desconstrução e exploração, alimentando o processo de improvisação com as ideias sugeridas nos próprios temas ou por cada um dos músicos.
E a riqueza deste universo engloba mesmo muitas realidades: por exemplo, em “Airtight”, o pizzicato de Daniel Levin mostra como um violoncelo pode segurar um groove, para quem, depois de Tom Cora e Erik Friedlander, ainda precisava de explicações sobre o papel dum violoncelo num ensemble de jazz, enquanto as intervenções de Rob Brown e Steve Swell, lembram desenhos de John Zorn com George Lewis— o genial trio de John Zorn, George Lewis e Bill Frisell em “News For Lulu” é, de facto, uma das formações mais próximas da sonoridade de “Planet Dream”. Já em “City Life”, a introdução virtuosa e vertiginosa de Levin, primeiro com o arco, depois em pizzicato, coloca-nos de imediato no plano agitado e anguloso, sobre o qual o tema se desenvolve, com as intervenções de Brown e Swell, mais marcadas e quase soluçantes, a polviharem um quadro sugestivo duma paisagem urbana quotidiana, sem caírem na tentação da ilustração. E, em “Texture #2″, padrões numéricos são tocados em uníssono, e desconstruídos até se atingirem interesantes clusters, que Daniel Levin explora em cordas dobradas, enquanto Swell e Brown retomam o carácter pontuado dos padrões.
Mas, acima de tudo, “Planet Dream” é o resultado singular da colaboração específica destes 3 músicos de excepção e do encontro destes 3 instrumentos tão carismáticos.
Como Steve Sweel, desejava, um universo completo, complexo e múltiplo onde há, aparentemente, espaço para tudo e, ainda assim, o que se ouve parece estar no sítio certo, na altura certa. Naturalmente.

Planet Dream, de Steve Swell

Edição Clean Feed, 2009
Gravação: Nova Iorque, 2008

  • Steve Swell, trombone
  • Rob Brown, saxofone alto
  • Daniel Levin, violoncelo
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Simak Dialog: Demi Masa

Simak Dialog: Demi Masa, capa do disco
Demi Masa, de Simak Dialog

CLASSIFICAÇÃO 2/5

Simak Dialog, o grupo de jazz-rock progressivo, liderado por Riza Arshad (compositor da quase totalidade dos temas) e baseado em Jacarta, capital da Indonésia, existe desde 1993 e este “Demi Masa” é já o seu quinto álbum de originais. A origem exótica é notada em raros momentos do disco, onde as percussões sudanesas kendang têm espaço para conferir ao disco uma sonoridade particular em algumas introduções de temas, como “Salilana Pertuma” e “Salinana Kerdua”, ou em “Trah Lor – Tapak”, onde pontua a voz de Mian Tiara, e são esses momentos mais exóticos, ou genuínos, que se afiguram como mais interessantes, já que o disco, globalmente, repete fórmulas ora dum Ambient Jazz (muitos discos da ECM vêm à memória aqui e ali) ou dum jazz fusão, relativamente datado, e mantém-se demasiado próximo, quer do ponto de vista da composição, quer do ponto de vista da sonoridade, dos seus modelos (Chick Corea, John Scofield, Pat Metheny…) que trilharam caminhos já exaustivamente explorados.
O disco alterna entre momentos “eléctricos” e momentos “acústicos”, com Riza Arshad e Tohpati Ario Hutomo, clássicos “frontmen”, a alinharem rigorosamente a guitarra acústica com o piano e a eléctrica com o fender rhodes e os sintetizadores, decalcando com algum brilhantismo muitos dos clichés e imagens de marca dos seus modelos, mas sem conseguirem acrescentar alguma frescura ou uma nova perspectiva. As percussões sudanesas, apesar do seu som característico, ou, por isso mesmo, parecem aprisionadas nos estreitos modelos rítmicos dos modelos ocidentais e têm muito pouco espaço para mostrarem o seu potencial, parecendo, a espaços, “transplantadas” para este projecto, mais por um capricho de marketing do que por uma real intenção de explorar eventuais interacções entre este jazz-rock e as músicas do mundo.
O disco, globalmente, tem momentos interessantes, aqui e ali, mas torna-se aborrecido na repetição, ainda que virtuosa, de modelos muito datados e na incapacidade de criar um espaço de encontro entre esses modelos ocidentais e as músicas locais, proposta que seria bem mais interessante.

Demi Masa, de Simak Dialog

Editora MoonJune Records 2009
Indonésia, 2009

  • Riza Arshad: piano eléctrico fender rhodes, piano, sintetizador analógico
  • Tohpati Ario Hutomo: guitarra eléctrica e acústica
  • Adhitya Pratama: guitarra baixo
  • Endang Ramdan: percussões sudanesas kendang (líder), pandeireta, palmas, brinquedos e vozes
  • Erlan Suwardana: percussões sudanesas kendang, palmas, brinquedos, vozes

Convidados;

  • Emy Tata: percussões sudanesas kendang, palmas, vozes
  • Mian Tiara: vozes
  • Dave Lumenta: paisagens sonoras
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Christian Lillinger’s Grund: First Reason

First Reason, capa do disco
First Reason, de Christian Lillinger’s Grund

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

A definição e justificação do nome do grupo, “Grund”, que Christian Lillinger oferece nas notas do disco corresponde de forma clara ao que o estreante grupo apresenta neste disco. “Grund”, como chão ou o tipo de base que 2 contrabaixos são capazes de fornecer, para uma improvisação mais livre e espaçosa e “Grund”, como razão para fazer as coisas duma maneira e não doutra, razão pela qual certa combinação de instrumentos funciona de determinada maneira… os dois sentidos implícitos no nome do grupo ouvem-se ao longo do disco e percebem-se como forças orientadoras na escolha dos instrumentos e instrumentistas, no trabalho de composição e no desenvolvimento da interpretação do grupo e de cada músico.
A formação com 2 contrabaixos e o tipo de liberdade pretendida que justifica esta escolha é claramente evocativa de Ornette Coleman, e os momentos de contacto entre “First Reason” e o trabalho em duplo quarteto acústico de Ornette Coleman são bem conseguidos, como se vê imediatamente em “Pfranz”, o tema de abertura. E as semelhanças entre “Grund” e os duplos quartetos de Ornette Coleman, estendem-se positivamente a diversos aspectos do desenvolvimento do disco. “Grund” é uma formação muito horizontal constituída por músicos versáteis, criativos e produtivos em todos os instrumentos e onde se garante abundante espaço para que todos se exprimam, em duos e solos, ora em padrões, ora em linhas livres mas, genericamente, os diversos intervenientes podem afirmar-se, sem demasiada necessidade de competirem num frenesim permanente. O legado de Ornette Coleman é, de resto, usado com sensibilidade e mestria na própria anatomia melódico-rítmica de alguns temas, como “Pfranz” e “Shape”, na sua apresentação em uníssono pela banda com posteriores explorações melódico-rítmicas lideradas pelos solistas, na utilização consciente de uma pulsação nervosa, quase polirrítmica, no “swing” e mesmo em alguns dos aspectos do desenvolvimento dos solos, reminiscentes de Ornette, mas também de Don Cherry e outros dos grandes improvisadores que com eles colaboraram, nestes contextos.
Mas “First Reason” é estruturalmente comedido, evitando explorações demasiado prolongados do mesmo material, oferecendo aos ouvintes 11 temas de elevada qualidade e ancorados, apesar das referências, em universos diferenciados e vastos: as 3 faixas de nome Grund, estrategicamente espalhadas pelo disco, são aliás exercícios ricos de exploração sonora, recorrendo a efeitos, clusters, técnicas e vocabulários mais próximos da vanguarda erudita do que do Jazz mais tradicional, evocativos da complexidade e riqueza tímbrica de Anthony Braxton, por exemplo.
Racionalizando, podemos dizer que, em “First Reason”, Grund combina um conjunto vasto de referências e, dessa forma, não é capaz de afirmar uma identidade singular, esmagado pelo peso das brilhantes evocações que faz. Mas a audição dum disco é bem mais do que um exercício estritamente racional e qualquer músico de jazz poderá facilmente ser esmagado pelo peso dos fantasmas que evoca, se os evocar “travestidos”. Christian Lillinger com esta estreia “Grund” parece, pelo contrário, ter os pés bem assentes num terreno que conhece bem, que sabe ser fértil e onde há ainda muita música para crescer e florescer. Esta primeira colheita, “First Reason”, poderá ter ainda demasiado cheiro da terra em que cresceu, mas é de grande qualidade.

First Reason, de Christian Lillinger’s Grund

Edição: Clean Feed, 2009
Gravação: Ibiza, 2008

  • Tobias Delius: saxofone e clarinete
  • Wanja Slavin: saxofone, clarinete e melódica
  • Jonas Westergaard: contrabaixo
  • Robert Landfermann: contrabaixo
  • Christian Lillinger: bateria e percussão
  • convidado: Joachim Kühn: piano
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt.
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jazz.pt | Trespass Trio: … was there to illuminate the night sky…

Trespass Trio, capa do disco
“… was there to illuminate the night sky…”, Trespass Trio

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

«O que é que podemos conseguir com cordas, palhetas, peles e paus?
Além de sermos ignorantes fazedores de música, o que é que somos?
Estamos a tentar ver através do esventramento da nossa sociedade, mas com sons– uma tarefa impossível, poderão dizer. Uma audição cega. (…)
Como fazer música no ano 2009? Digam-me vocês!»

Esta angústia de Martin Küchen, expressa nas notas da edição, marca este “… was there to illuminate the night sky…” da primeira à última nota, concedendo à experiência de audição uma intensidade emocional verdadeiramente invulgar. A substância exacta ou a motivação da mensagem política de Martin Küchen, da sua ira e frustração, é verdadeiramente de angústia que se trata, não são sequer necessárias para que o disco nos arrepie e entre por baixo da pele, nos interrogue e nos preencha com essa angústia, uma tristeza profunda e paralisante, que tememos, mas aceitamos.
Através dos seus saxofones e da sua escrita musical, profunda, genuína e desesperada, Martin Küchen envolve os seus parceiros do Trespass Trio e os ouvintes numa experiência quase catártica e o disco parece transcender a superficialidade de registo sonoro e transforma-se em instrumento terapéutico ou arma de combate… E se a construção dum projecto musical à volta duma genuína mensagem política de revolta é, nos dias que correm, relativamente rara, raríssimo é que o resultado desse projecto seja capaz de sensibilizar fisicamente os seus ouvintes, mobilizando-nos emocionalmente exclusivamente através da música.
“… was there to illuminate the night sky…” corre seriamente esse risco, na alternância consequente entre um grande ira e revolta e uma simplicade e pungência avassaladoras, colocando os melhores recursos destes 3 instrumentistas escandinavos de referência ao serviço da construção de momentos emocionalmente densos, sem medo do belo trágico ou falsos pudores líricos. Essa pungência, assim como o carácter militante, recorda vagamente, “Alerte à l’eau / Water Alert” (Label Bleu, 2007), do sexteto de Henri Texier, Strada, com o som de François Corneloup no sax barítono. Mas na militância ambientalista do veterano francês Texier, há réstias de esperança e sinais de vida, enquanto que na obra do saxofonista sueco, parece não existir outra luz que não a de uma bomba de fósforo. Eventualmente uma vela tremeluzente.
Martin Küchen despeja a sua alma através das suas composições, primeiro, mas, de forma mais evidente, através dos saxofones, com especial eficácia visceral no barítono. E conta com a solidária companhia e o apoio empenhado de Per Zanussi e Raymond Strid, uma secção rítmica de sonho na música improvisada escandinava.
E um homem que despeja a sua alma na música que faz, tem em si a coragem de mudar o (seu) mundo. E oferece a quem ouve essa magnífica e rara oportunidade de, com ele, lavarmos um pouco da nossa própria alma. Intenso, eventualmente perigoso, mas precioso.

“… was there to illuminate the night sky…”, Trespass Trio

Edição: Clean Feed, 2009
Gravação: Oslo, 2007

  • Martin Küchen: saxofone alto e barítono
  • Per Zanussi: contrabaixo
  • Raymond Strid: percussão
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Vibrafonias, apresentação do Jeffery Davis Quartet

Jeffery Davis Quartet: “Haunted Gardens”

Ficha Técnica do disco
título: Haunted Gardens
editora: Tone of a Pitch
gravação: Novembro de 2008 e Março de 2009, Estúdios Timbuktu, Lisboa
lançamento: Julho de 2009
staff: Jeffery Davis (Vibrafone e Marimba), André Fernandes (Guitarra), Nelson Cascais (Contrabaixo) e Marcos Cavaleiro (Bateria)
Todos os temas compostos por Jeffery Davis.

Jeffery Davis é um músico invulgar: com apenas 28 anos, este percussionista português nascido no Canadá, acumula no currículo uma vastíssima formação, um invejável número de distinções e longa experiência nos principais palcos e com alguns dos nomes maiores, quer da música erudita, quer do jazz, em Portugal e fora de portas. A sua progressão académica foi meteórica e merecedora de atenção: concluiu, com nota máxima, a licenciatura em percussão na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto, onde estudou com Miguel Bernat e Manuel Campos e colaborou, entre outros, com o Drumming – Grupo de Percussão, tendo estreado peças de compositores tão diversos e distintos como Emmanuel Nunes, João Pedro Oliveira, Mário Laginha e Carlos Azevedo; concluiu, com o estatuto Summa Cum Laude, o curso de “Jazz Performance Vibraphone” na importante Berklee College of Music, onde ingressou após vencer o primeiro prémio no Concours International de Jazz, em Paris, em 2002, tendo sido igualmente reconhecido na Berklee como “Most Active Mallet Player”, com a “Gary Burton Scholarship” e o prémio por excelência académica “Dean of Curriculum”. Durante a sua estadia nos EUA recebeu também do IAJE (International Association for Jazz Education) o prémio de “Outstanding Musicianship” e colaborou com alguns nomes incontornáveis da cena jazzística norte-americana: Hal Crook, Joe Lovano, Gary Burton, Dave Liebman, Dave Samuels, Phil Wilson, Terrence Blanchard, Michel Camilo, Bob Mintzer, entre outros.
Mas, apesar deste sucesso e reconhecimento, Jeffery Davis, actualmente professor de Vibrafone na Licenciatura em Jazz da ESMAE, entre outras tarefas pedagógicas no mundo da música erudita e do jazz, não cedeu à tentação de se especializar na linguagem jazzística e distanciar-se da música erudita porque, como afirma, não vê “grande separacão entre os dois: é tudo música.” Para Jeffery, “tocar um estilo ajuda-me a tocar melhor o outro. A enorme diferença que existe entre os dois é a preparação necessária. Para o Jazz sinto que para tocar é muito mais de momento, não é preciso uma preparação tão específica para um determinado concerto, embora, obviamente, tudo depende da banda e dos temas que se vai tocar. Para o clássico é preciso uma preparação bastante mais específica e minuciosa, para um determinado concerto. Mas o estudo diário e bastante intenso é preciso para os dois mundos. Se não estiver em forma, nem um estilo nem o outro serão executados com rigor.”
Esta visão global do fenómeno musical e da sua interpretação é bastante precoce na formação de Jeffery: “sempre ouvi muito Jazz, desde miúdo, e sempre ouvi muita música erudita.”
Mas é uma convicção amadurecida ao longo do tempo, consciente e atenta: “também acho que cada vez mais estes dois estilos se estão a aproximar um do outro. A existência de músicos que tocam estes dois estilos é cada vez (mais rara), na minha opinião, só pelo enorme trabalho que é (preciso para) fazer as duas coisas: são precisas longas horas de estudo diário para se sobreviver nos dois mundos.” E Jeffery faz bem mais do que “sobreviver”: no universo da música erudita, mantém uma sólida carreira como concertista, além das actividades pedagógicas, e importantes colaborações, nomeadamente nos duos com percussionista Pedro Carneiro e com o saxofonista Fernando Ramos, tendo estreado várias peças escritas propositadamente para estes agrupamentos; no universo do jazz, além do seu próprio quarteto, que se apresentará no festival jazz.pt, Jeffery lidera um trio e integra de forma activa muitos projectos nacionais: Quinteto de Nelson Cascais, Lift Off, Duo Erro de Sintaxe, Yeti Project, Quarteto de Vasco Agostinho, Septeto de Michael Lauren, Trio de Percussão “Jeffery Davis, Pedro Carneiro e Alexandre Frazão”, entre outros. E na cena internacional, quer como jazzman, quer como intérprete de música erudita, Jeffery Davis é um músico activo e reconhecido pelos pares e pela crítica, merecendo de forma continuada a atenção de compositores e líderes de agrupamentos.
E, apesar da elevada exigência que a sua actividade de instrumentista impõe, Jeffery afirma-se como músico criativo completo, compondo para diversos músicos e agrupamentos de música erudita e jazz, numa experiência completa de afirmação duma identidade musical madura, exigente e em constante crescimento.
O próprio processo de consolidação do quarteto e do reportório que poderemos ouvir no disco “Haunted Gardens” e no seu concerto de lançamento, durante o Festival Jazz.pt, reflecte bem essa exigência e esse crescimento constante, como nos diz Jeffery: “quando voltei dos Estados Unidos andei bastante tempo à procura dos músicos ideais para desenvolverem este projecto, porque tinha algumas ideias bastante claras. O André Fernandes, para mim, era uma escolha óbvia, desde o princípio, porque me relaciono muito bem com o que ele faz e porque dei por mim a escrever especificamente para ele, a pensar nas coisas que ele faz. Depois conheci o Nelson Cascais e percebi que era com ele que  projecto podia resultar. O que me custou mais foi o baterista, até porque o Marcos (Cavaleiro) andava ocupado com outros afazeres. O disco já esteve para sair antes, mas eu re-escrevi quase tudo: tocámos durante algum tempo e eu fui-me apercebendo que as coisas não estavam a funcionar como eu queria. Só fazemos no disco uma peça minha mais antiga, que é uma suite que escrevi ainda quando estava na América e que foi sofrendo um processo de metamorfose.”
“Haunted Gardens” é, por isso, o encontro entre estes músicos, todos eles notáveis e amplamente reconhecidos, e as ideias, em constante crescimento e evolução, de Jeffery Davis, que assina todos os temas, numa escrita que, pela amostra, faz justiça aos talentos interpretativos e criativos do quarteto e às imensas possibilidades que uma personalidade musical completa e sem preconceitos pode alcançar: o som que esta escrita e este quarteto produzem é singular e, por vezes, surpreendente, explorando um ambiente que o próprio Jeffery classifica de “sombrio – daí o título (Haunted Gardens)”, com as lâminas do vibrafone e da marimba em grande destaque– pelo virtuosismo verdadeiramente musical, pela forte expressividade, pela clareza do gesto, pela enorme paleta dinâmica e tímbrica– mas com espaço para a expressão também singular de André Fernandes, Nelson Cascais e Marcos Cavaleiro (no concerto, substituído por Carlos Miguel), em estruturas articuladas e coesas, onde o discurso solístico parece cumprir funções no arco dramático.
Sombria a música? Positivamente densa, isso sim. Mas claramente em contraste com a personalidade afável, acessível e simples do luso-canadiano que se afirma “português de gema, gajo de aldeia, daqueles que vai beber umas minis à taberna, com os amigos“, que um acaso biográfico fez nascer no Canadá, pátria paterna, e a incompatibilidade entre o frio e a bronquite trouxe de regresso à pátria materna, Febres, Cantanhede.

A promessa está feita: a apresentação de “Haunted Gardens”, disponível a partir de Julho através da “Tone of a Pitch”, tem todas as condições para ser um concerto notável, rico, intenso e fortemente empático, a cargo de Jeffery Davis, no vibrafone e marimba, de André Fernandes, na guitarra, de Nelson Cascais, no contrabaixo e de Carlos Miguel, na bateria.

+ info: www.toapmusic.com | www.jefferydavis.net

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt, como parte da apresentação do Festival jazz.pt 2009. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Não foi bonita a festa, pá!

Casa da Música, Sala Suggia
28 de Junho, 22h00

Brad Mehldau e Chico Pinheiro convidam Fleurine e Luciana Alves
Ciclo Jazz e Brasil, País Tema 2009

Brad Mehldau: piano
Chico Pinheiro: voz e guitarra
Fleurine e Luciana Alves: voz
Doug Weiss: contrabaixo
Edu Ribeiro: bateria

Este concerto, primeiro duma curta digressão nacional, estava apresentado como “Brad Mehldau e Chico Pinheiro convidam Fleurine e Luciana Alves” e prometia aos amantes do jazz e da música brasileira uma noite plena de emoções, dada a importância e o talento dos nomes principais do cartaz. A colaboração entre Brad Mehldau, um dos mais prolíficos e requisitados pianistas de jazz da sua geração e de Chico Pinheiro, figura incontornável da música brasileira de hoje, compositor e virtuoso do emblemático “violão”, justificava uma elevada expectativa em torno do concerto e a sala cheia e entusiasta confirmava isso mesmo.
E esse entusiasmo teve o retorno esperado no início do concerto, primeiro com Brad Mehldau e Chico Pinheiro em duo, sozinhos no palco a explorar um tema do músico brasileiro, assim como o segundo tema, já com Doug Weiss e Edu Ribeiro, músicos de elevada craveira e parceiros habituais de Mehldau e Pinheiro, respectivamente, a completarem a secção rítmica. As ligações íntimas e o jogo de sedução constante entre o jazz e as músicas brasileiras, com especial destaque para a bossanova, cuidadosamente equilibradas, e com músicos de tão elevado nível técnico e criativo podem dar origem a concertos formidáveis, capazes de agradar às mais diversas audiências, mas, infelizmente, não foi o caso desta noite de encontro entre Mehldau e Pinheiro. Por um lado porque o desequilíbrio entre o Jazz e a Bossanova foi evidente do princípio ao fim, nas palavras de algum público à saída “bossanova a mais e jazz a menos“, o que, apesar dos esforços de Mehldau e Weiss, limita a sua capacidade expressiva e, no geral, torna o concerto menos interessante. Por outro lado, porque um encontro mais intenso entre os talentos musicais de Mehldau e Pinheiro ficou muitíssimo limitado, quer pela estrutura das canções que foram sendo apresentadas, com poucos espaços para mais explorações, quer pela estrutura do concerto que ofereceu apenas mais um momento de duo, com o virtuoso “Tema em 3“, novamente de elevado nível, mas ainda em territórios de Pinheiro.
Mas, acima de tudo porque, na realidade, na agenda de todos estes músicos está, acima de qualquer outra coisa, a apresentação do mais recente álbum da cantora holandesa Fleurine, “San Francisco” (Sunnyside 2008), onde se juntaram Mehldau e Pinheiro pela primeira vez, de facto, e onde a parceira de Brad Mehldau, cantora de jazz de reconhecidos méritos faz uma incursão pela música brasileira, gravando temas de 3 Franciscos notáveis: Francisco Buarque de Hollanda, Francis Hime, e o próprio Chico Pinheiro. Impunha-se, por isso, uma mais rigorosa apresentação do concerto, evitando o equívoco de se pensar que se estaria perante o fruto duma colaboração directa entre Pinheiro e Mehldau. Questões de comunicação e marketing, que em nada afectariam a fruição do concerto, não fosse dar-se o caso de Fleurine, figura central do concerto, de facto, se encontrar num momento particularmente infeliz, com muitíssimas dificuldades de afinação, numa prestação sofrível e atípica para performers com estes pergaminhos e que afectou de forma indelével a totalidade do concerto.
Principalmente no duo com Brad Mehldau, único tema do pianista norte-americano tocado, para o qual Fleurine escreveu uma letra em português, “Resignation / Resignação, não para nós“, não só a desafinação e dificuldades vocais nos momentos sinuosos da melodia de Mehldau, como as dificuldades de dicção do português, transformaram todo o tema num momento quase embaraçoso.
Fleurine teve momentos menos maus, especialmente quando cantou em inglês, mas nunca esteve à altura dos seus parceiros em palco, facto que a voz segura e acolhedora de Luciana Alves terá ajudado a realçar, e o concerto, entre essas fragilidades, a escolha pouco criteriosa e algo populista do reportório e os seus arranjos minimalistas e repetitivos ficou muitíssimo abaixo das expectativas. Tom Jobim, Moacir Santos, Milton Nascimento, Baden Powell e Francis Hime e Chico Buarque “encheram” o concerto, canção atrás de canção, até aos encores, em temas escolhidos de acordo com o gosto mais genérico e sem grandes preocupações de variação da fórmula. Os temas de Chico Pinheiro terão sido os únicos a ser alvo de maior atenção, mas nem isso, nem o talento dos músicos em palco bastam para um concerto à altura da proposta.
Pode ter sido só uma noite de azar, mas não “foi bonita a festa, pá!”.

+ info: www.casadamusica.com | www.fleurine.com

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt.
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jazz.pt | Lucky 7′s: Pluto Junkyard

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt.
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Pluto Kunkyard, de Lucky 7's

Pluto Junkyard, de Lucky 7′s

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

Nas notas do disco, sobre as composições apresentadas, Jeff Albert, descreve “Pluto Junkyard”, o tema que dá nome ao disco, como uma tentativa de demonstrar as capacidades desta instrumentação e destes músicos para criar ambientes “assustadores, engraçados e pouco comuns”. A peça cumpre esse objectivo e esta descrição das possibilidades deste septeto é bastante eficaz. Através dos arranjos e da interpretação, este quase ensemble de metais, transforma-se em algo de completamente diferente, não só pelo espaço dado ao vibrafone de Jason Adasiewicz, que oferece um colorido muito especial e se integra de forma esplêndida com toda a secção rítimica, mas também pela forma como os 4 metais (sax, 2 trombones e corneta), se complementam, se desafiam e se dividem para garantir que não somos sujeitos a uma experiência entediante de sucessões intermináveis de solos, mas sim a uma evolução natural das ideias musicais, em combinações eficazes, por vezes estranhas e frequentemente bem humoradas. Também a estrutura dos temas procura caminhos menos evidentes para fazer evoluir a música e o álbum por paisagens novas.
A acompanhar a escrita inteligente dos temas, as intervenções de tipo solista aproveitam a sua “abertura” estrutural e harmónica e levam-nos a momentos menos previsíveis.
Músicos que parecem confiantes do caminho que trilham e satisfeitos com o ambiente instrumental em que se encontram produzem tendencialmente música cativante. E é este o caso.

Pluto Junkyard, de Lucky 7′s
Gravado 2007 Chicago (EUA)
Edição Clean Feed 2009

  • Jeb Bishop, trombone e guitarra
  • Jeff Albert, trombone e trombone baixo
  • Josh Berman, corneta
  • Keefe Jackson, saxofone tenor
  • Jason Adasiewicz, vibrafone
  • Mathew Golombisky, contrabaixo e baixo eléctrico
  • Quin Kirchner, bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
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O Hot Clube de Portugal ardeu. Que vamos fazer?

Como muitos de vocês já saberão (aos outros peço desculpa por ser portador de más notícias), o edifício na Praça da Alegria onde se situava o Hot Clube de Portugal sofreu um grave incêndio hoje de madrugada e, segundo fontes oficiais (Junta de Freguesia, citada pelo Público), dificilmente o prédio poderá vir a ter condições para voltar a albergar o HCP.
Depois do seu 60º aniversário, esta era uma das piores coisas que podia acontecer ao HCP e afecta todos os melómanos e músicos portugueses, em particular os que se sentem próximos do Jazz.
Não faço ideia se e como se organizará um movimento cívico capaz de dar o apoio necessário ao HCP para que planifique e concretize um renascimento depois desta tragédia.
Peço a todos que estejam atentos e que partilhem, dentro do possível, todas as iniciativas de que tiverem conhecimento, para que possamos garantir o máximo apoio e solidariedade.

(mensagem que enviei hoje a vários colegas da Jazz.pt, com conhecimento ao Hot Clube de Portugal)

jazz.pt | Transit: Quadrologues

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
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Quadrologues, Transit (Clean Feed)

Quadrologues, Transit

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

A primeira gravação deste grupo, de 2006, tinha o nome de “Transit”.
Transit é agora nome de grupo e Quadrologues o nome do álbum.
E Quadrologues é um óptimo nome para o que o grupo dirigido pelo percussionista Jeff Arnal realiza: não nos oferece uma estrutura convencional hierarquizada com secção rítmica e solistas, apesar da formação o permitir, apostando isso sim, numa lógica horizontal, em que os diferentes elementos do grupo encetam uma conversa, não limitando os seus instrumentos aos papéis convencionais e trabalhando muito mais na reacção e troca de material musical do que na afirmação de temas ou modelos.
A utilização de ruídos e técnicas expandidas, em quase todos os temas, a partir de “Walking of Fire”, permite a construção dum léxico vasto e são sistematicamente evitados clichés estilísticos, procurando-se uma forma não restringida, que procura nas características sónicas intrínsecas o seu modo de expressão válido.
Estruturalmente, apesar da liberdade presente, os temas são coesos e construídos à volta de algumas ideias simples e eficazes. O alinhamento do álbum faz das transições entre temas momentos quase indetectáveis, o que contribui para a fluidez da experiência de audição, e o álbum funciona como uma experiência de audição contínua, com as inflexões e o arco dramático que se esperaria duma obra única.
“Z Train”, a meio do álbum, ao retomar ambientes mais familiares, dá um segundo fôlego à experiência de audição e, globalmente, os vocabulários em uso pelos vários músicos são adequados aos ambientes criados, revelando-se flexibilidade técnica e sensibilidade auditiva.
Como ponto menos positivo, parece-me que alguns momentos introdutórios, com as técnicas estendidas, algo repetidas a partir de determinada altura no álbum, parecem demorar-se mais do que o necessário, dificultando a fruição contínua do disco.

Quadrologues, por Transit
Gravado em Dezembro de 2006 e Janeiro de 2007, em NY (EUA)
Edição: Clean Feed, 2009

  • Jeff Arnal, percussão
  • Seth Misterka, saxofone alto
  • Reuben Radding, contrabaixo
  • Nate Wooley, trompete
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
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