Sons microscópicos: faz-me um desenho para eu ouvir

Depois de ter experimentado fazer pequenos “audiowalks” à descoberta de lugares escondidos, voltei ao Programa À Descoberta do CCVF e estivemos a procurar “sons microscópicos”. As actividades com este grupo desenvolveram-se à volta desta ideia, ligando-se à visita que tinham feito no dia anterior à Universidade do Minho e continuei a explorar exercícios de escuta e exploração do som. Chamámos “sons microscópicos” aos sons para os quais precisamos de ajuda técnica na escuta e estivemos a testar várias formas de captar e amplificar os mais diversos sons, desde o bater do coração à textura da pele, passando pelo som dum desenho.

Também partilhei com as crianças um “lugar-acústico escondido” muito especial: o limite superior do espectro audível delas, que os adultos, como eu, não conseguem ouvir. ;)

Além dos desenhos, que são solos, fizemos improvisações em alguns dos meus “instrumentos” que, depois duma oficina de sonoplastia, já faziam mais sentido.

Se quiserem um conselho, experimentem ouvir vários “desenhos” em simultâneo e não ponham o volume muito alto, porque todos eles descobriram a magia dos “pontos” bastante cedo. ;)

[desenhos de 1 a 5. continuação no próximo artigo]

Coisas com música | Música com coisas

Foi este o mote das actividades que propus durante o Curso de Verão do Balleteatro, em que trabalhei, de 11 a 15 de Julho, com 2 grupos de crianças, divididos por idades.

Curso de Verão Balleteatro

O Curso de Verão estava subordinado ao tema geral dos “objectos” e pedia-se às crianças que trouxessem objectos de casa que seriam usados nas várias oficinas.

A minha abordagem foi mais ou menos esta:

coisas com música

Dado o tema geral proposto e o facto da colecção, criação e manipulação de objectos estar presente de forma permanente, a minha proposta passa por explorar o som dos objectos. Não se tratará duma oficina de construção de instrumentos a partir de objectos, mas sim dum oficina de procura de sons interessantes produzidos pelos objectos disponíveis. Trata-se por isso dum exercício de escuta, criatividade e imaginação, que incorpora formas de captar e amplificar sons a que normalmente não prestamos atenção, mas que podem ser interpretados como matéria musical.
Muito orientado para acções práticas de manipulação, captação e gravação, os momentos de reflexão da oficina serão associados a exercícios de escuta, que promovem a concentração e a promoção duma nova forma de ouvir.

música com coisas

Com a exploração de sons e com os exercícios de escuta, coloca-se naturalmente a questão do que pode ser a música que as “coisas” produzem. Usando como parâmetro fundamental a ideia de organização de eventos sonoros no tempo e conceitos de padrão e jogo, faremos exercícios com os sons descobertos para procurarmos “frases musicais” e usaremos ferramentas simples de edição e sequenciação de som, para desenvolver pequenas ideias musicais.
Conceitos cada vez mais usuais e transversais como os loops (ciclos repetíveis) e os samples (excertos ou amostras) serão manipulados na prática, em suportes simples e intuitivos e as pequenas ideias musicais produzidas ficarão disponíveis quer para os participantes levarem consigo para casa, quer para utilização noutras oficinas.

A implementação do plano exigiu algumas adaptações e o que podem ouvir aqui é o resultado dessas adaptações e uma amostra do tipo de trabalho que se fez.

Com o grupo dos mais novos, explorámos o som dos objectos e padrões rítmicos simples. Em “Baterias de Coisas” o que podem ouvir resulta de padrões rítmicos desenhados por eles no Hydrogen, em que cada “instrumento” é um som descoberto nos seus objectos.
Como nota para quem quiser pensar em actividades similares, devo dizer que fiquei muito satisfeito com a combinação de Audacity e Hydrogen para criar rapidamente “drumkits” a partir de qualquer fonte sonora.

Com os mais velhos, trabalhámos os sons dos objectos e a ideia de padrões em lógicas de sobreposições e montagens um pouco mais complexas, das quais resulta a peça “Coisas com Música“. Num segundo momento, usando um patch de análise e conversão MIDI em PureData, fizemos “Música com Coisas” com todos eles a “tocar piano” manipulando sons elementares: voz, corpo, objectos.

Divirtam-se a ouvir, como nós nos divertimos a fazer. E se ficarem com dúvidas, digam, para aprendermos todos uns com os outros.

Oportunidades desperdiçadas

Os audiowalks Viagens com Alma, que o Visões Úteis criou para 4 locais geridos pela Diocese do Porto, são também uma forma de propor novas relações com o património construído e com os locais religiosos e têm uma forte componente de captação de pessoas / público para os locais e para a dinamização de relações mais entusiasmadas com o património. Também por isso se apresentam versões em inglês e se procuraram soluções logísticas adequadas à integração com propostas “turísticas” e se manteve sempre presente uma variedade de públicos maior do que a que seria expectável para um audiowalk “puro”.

Recebi indicações, desde a abertura ao público, de que alguns dos locais nem sempre acautelaram a realização dos audiowalks nos horários previstos, confirmando algumas suspeitas com que fiquei na fase final de implementação de que os objectivos desta intervenção não eram claros e/ou partilhados por todos os intervenientes. É hoje público que, durante o mês de Agosto, 2 dos locais vão encerrar a possibilidade de se fazerem os audiowalks, ficando os restantes 2 numa situação algo imprevisível.

Eu não aprecio particularmente a sensação de trabalhar para gavetas (vide Os Ossos de que é Feita a Pedra). Não sei quantas pessoas poderão ter tido a experiência das Viagens com Alma e nem sei bem de que forma é que esta situação se poderia evitar, Mas parece-me algo evidente que o encerramento durante o principal mês de férias dum projecto que tem esta componente de “turismo cultural”, chamemos-lhe assim, é um reflexo do pouco que mudámos na nossa relação com a cultura e com a sazonalidade.

Pessoalmente, e no contexto da minha relação com o Visões Úteis, estou disponível para o que for preciso para garantir que o maior número de pessoas tem contacto com esta obra no seu estado original: no percurso. Infelizmente, tal não depende só da nossa vontade ou da vontade do público, já que alguns dos espaços atravessados não estão permanentemente abertos ao público.

O Verdadeiro Poder das Artes Performativas, Ben Cameron

Conferência TED de Ben Cameron, de Fevereiro de 2010.

Um interessante paralelo entre o momento actual das Artes Performativas, face à democratização dos meios de criação, difusão e consumo e a Reforma Protestante do século XVI. E uma defesa apaixonada do papel das artes na construção dum mundo mais equilibrado em tempos conturbados.

jazz.pt #37 já nas bancas

O número 37 da jazz.pt já está nas bancas.

O destaque de capa vai para Wadada Leo Smith que vem ao Jazz em Agosto.

O “meu” destaque vai para o “forward” que assinala os 10 anos dos Soopa. Além disso, escrevo sobre a presença de Pauline Oliveros e Elaine Summers em Serralves, sobre o concerto de Elliot Sharp’s Carbon na Casa da Música e sobre os discos de José Valente and Experiences of Today e Tubab, de Jorge Queijo e Sérgio Carolino.

Enjoy!

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=1bumHGnfRVg[/youtube]

Instrumento descartável – palhinha 01

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=MQbS87qFPak[/youtube]

Há imensas instruções disponíveis online sobre como fazer este “instrumento de palheta dupla” e muitas variações. Mas basta achatar e cortar a ponta duma palhinha de plástico para fazer a palheta dupla e cortar uns furos para os dedos na própria palhinha para ficar com um brinquedo giro que quase parece capaz de tocar uma escala. Um dos sítios onde tudo isto está bem explicado é no site sciencetoymaker.org e há várias actividades propostas ali que funcionam bem com miúdos e graúdos.

O Júlio Vasconcelos também tem uma versão mais elaborada no seu canal do YouTube.

Nota: a Maria, que tem 3 anos, consegue, ocasionalmente fazer um ruído com esta “palheta”, mas uma das amiguinhas dela, com a mesma idade, não consegue. Creio que seja simples fazer coisas com este instrumento com crianças a partir dos 4. Talvez possa experimentar daqui a pouco.

À Descoberta de Lugares Escondidos

Esta semana começou com uma experiência extraordinária: no contexto das Oficinas À Descoberta, do Centro Cultural Vila Flor, que nesta primeira semana tinham como tema “À Descoberta de Lugares Escondidos“, propus desenvolver com o grupo de crianças/participantes, um conjunto de percursos sonoros por lugares escondidos do próprio CCVF. Uma experiência arriscada, que o Serviço Educativo do CCVF acolheu de braços abertos e que ultrapassou largamente as minhas melhores expectativas.

Sala

Desenhei previamente os percursos, com apoio da equipa técnica do CCVF e, com as 12 crianças divididas em 3 grupos, explorámos e registámos o som dos percursos na segunda-feira à tarde e na terça-feira de manhã. O processo foi rigoroso e o plano impecavelmente cumprido por todos e durante a tarde de terça-feira ouvimos as gravações já montadas na sequência correcta e procurámos outras formas de representar os percursos traçados por este mapa de som.

O objectivo final era muito ambicioso: queria mostrar às crianças alguns dos “lugares escondidos” do CCVF; queria que elas activassem a audição como sentido de reconhecimento espacial e se relacionassem com os sons destes espaços; queria mostrar-lhes formas alternativas de “registar” a experiência de conhecer um lugar; queria produzir um conjunto de objectos sonoros e espaciais interessantes, considerando, desde o início, os percursos individualmente e a possibilidade de os sobrepôr. Creio que todos os objectivos foram atingidos— mesmo os mais irrealistas ou líricos— e esta foi, de longe, a experiência mais intensa e recompensadora que tive de trabalho em contexto de formação/sensibilização, em qualquer área e com qualquer “público”.

Todos os percursos começavam no mesmo local, junto à rua, e terminavam no Grande Auditório (um, na Plateia, um no Palco e outro na Teia). E todos atravessavam zonas públicas e zonas de acesso reservado, cruzando-se, ocasionalmente. Nesse desenho se jogava também a possibilidade de sobreposição.

Diagrama 3 Percursos

O “Grupo 1″ (Ana Carolina Pereira, Tiago Martins, Afonso Andrade e Afonso Santos), acabou o seu percurso no palco do Grande Auditório, depois de atravessar grande parte do jardim, entrar nas áreas reservadas junto do Café-Concerto, atravessar o sub-palco e a oficina de luz e usar o monta-cargas para conhecer o cais de carga.

Percurso Grupo 1

O “Grupo 2″ (Maria João Teixeira, Helena Pereira, Paulo Cardoso Paolo Cardaso e Rodrigo Silva), acabou o seu percurso na teia do Grande Auditório, depois de entrar nas áreas reservadas através do pátio interior da Sala de Ensaios, atravessar o sub-palco, ir ao palco para ligar luzes de serviço, subir pelas escadas à primeira varanda técnica, percorrendo todo o perímetro da caixa de palco e finalizar a subida até ao ponto mais alto do CCVF.

Percurso Grupo 2

O “Grupo 3″ (Carolina Monteiro, Francisco Anjo, Afonso Lemos, Ângelo Martins), acabou o seu percurso na plateia do Grande Auditório, depois de aceder às áreas reservadas através do parque de estacionamento e do acesso de cargas à cozinha do restaurante, que atravessou até à zona pública, regressar à zona reservada junto ao Pequeno Auditório, subir ao piso da produção, cruzar um corredor técnico até à régie de cinema, e chegar ao foyer do GA, através da régie geral.

Percurso Grupo 3

Podem ouvir os 3 percursos individualmente, mas também podem ouvir “A Grande Aventura”, que é a sobreposição destes 3 percursos.

Tempo de Antena: uma política para a Cultura é uma política para o país inteiro

Eu acho que as propostas do Bloco de Esquerda para a Cultura devem ser ouvidas pelo maior número de pessoas e analisados com o máximo de cuidado. E fico triste por ler e ouvir dizer que a Cultura não é um tema desta campanha eleitoral, com a triste excepção da eventual extinção do Ministério, proposta pelo PSD.

Uma política para a Cultura é, de facto, uma política para o país inteiro. E o Bloco de Esquerda fala a sério sobre isso.

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UMA POLÍTICA PARA A CULTURA, SEM SUBSERVIÊNCIA NEM FAVORECIMENTO E COM A CRIAÇÃO DE UMA REDE DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS

Em 2006, no único estudo que existe sobre os hábitos culturais da população, Portugal estava na cauda na Europa: 81% não tinha ido uma única vez ao teatro, 76% não assistira a qualquer concerto, ou visitara qualquer museu ou galeria, 75% não tinha entrado numa biblioteca. E 73% dos inquiridos portugueses declararam ainda não ter participado em qualquer tipo de organização em que pudesse tocar um instrumento, cantar, dançar, escrever, pintar, fotografar, filmar, ou mesmo fazer qualquer tipo de artesanato, decoração, jardinagem ou outra actividade. Teremos portanto mais de 70% da população afastada da vida cultural do país.

Neste momento o orçamento do Ministério da Cultura representa cerca de 0,2% do Orçamento do Estado. É o orçamento mais baixo dos últimos 12 anos, em valores nominais. Este desinvestimento coloca em causa o património, a criação artística e o acesso da população à cultura. Mas também cria a situação paradoxal de desperdício de fundos.

Com menos meios para programação e divulgação, as instituições culturais perdem público e actividade mas, em grande medida, os seus custos fixos mantêm-se. Quer isto dizer que não só está em causa património e criação artística, mas também desperdiçamos o muito pouco dinheiro público investido. Os monumentos, no último ano, perderam quase um milhão de euros de receitas com a quebra de visitantes. Há património que corre o risco de pura e simplesmente desaparecer e os teatros e salas de espectáculos do país, em média, só abrem as portas 6 dias por mês.

Em Portugal estima-se que o sector cultural represente 3,5 mil milhões de euros e empregue mais de 120 mil pessoas. Estudos internacionais indicam que a cultura tem vindo a gerar cada vez mais riqueza, mas que o investimento público é central para o funcionamento do sector. Quando cai o investimento público, perde-se a capacidade de gerar riqueza.

Duplicar o orçamento do Ministério da Cultura em 2012 representa uma despesa de apenas 200 milhões de euros e é um passo essencial para assegurar que se podem aumentar os mais de 3 mil milhões de euros que o sector gera por ano. Com o aumento gradual deste valor, até atingir em 2015 o mínimo da decência de 1% do Orçamento do Estado, há muito prometido por José Sócrates, cria-se emprego e multiplica-se a riqueza que o sector gera.

Desenvolver a Rede Nacional de Bibliotecas

As orientações da Unesco são claras ao afirmarem a necessidade de os Estados criarem legislação específica que garanta o direito dos seus cidadãs e cidadãos à Biblioteca Pública. Portugal é, no entanto, um dos poucos países da União Europeia que não cumpriu ainda as recomendações internacionais e onde não existe legislação específica sobre as bibliotecas públicas. Há ainda 120 municípios que não aderiram à Rede de Bibliotecas.

Temos então um país ainda desigual, em que nem toda a população está servida por uma Biblioteca Municipal, e temos bibliotecas que não cumprem os requisitos necessários à execução da sua missão. A situação vivida hoje em Portugal é paradoxal: o investimento feito nos últimos 20 anos não é rentabilizado. Com a crise os problemas agravam-se; há já notícia de bibliotecas que cortaram alguns dos serviços e paira o fim da gratuitidade no acesso.

O Bloco apresentou já um projecto de lei para a Rede de Bibliotecas Públicas para garantir a existência de uma rede coerente e integrada de bibliotecas em todo o território nacional, prestando amplos serviços às populações, tais como a consulta e empréstimo de livros, mas também o acesso a recursos multimédia, aos meios de comunicação social e à Internet.

Proposta do Bloco de Esquerda:

  • Bibliotecas públicas em todo o território com garantia de acesso gratuito, horários alargados e projectos de formação e teatros e cine-teatros em funcionamento em todo o território, garantindo programação plural e regular, com financiamento plurianual e responsabilidades de apoio à criação local e circulação de programação nacional e internacional.
  • Implementação de serviços educativos, de ligação à comunidade e mediação cultural nos equipamentos públicos de cultura – bibliotecas, teatros e cine-teatros, museus e monumentos – com actividade contínua e regular.
  • Promoção da articulação em rede dos equipamentos, a nível nacional (rede de bibliotecas públicas, rede de teatros, rede de museus) e municipal (rede de equipamentos culturais e educativos).
  • Levantamento do património cultural material e imaterial e criação de estratégias a prazo da sua promoção e disponibilização online das obras da cultura portuguesa que estejam em domínio público.
  • Valorização das associações culturais, com criação de estatuto de dirigente associativo, mecanismos transparentes de financiamento da sua actividade e de acesso aos equipamentos públicos.

Vejam o documento na fonte, vejam os vídeos, sigam os links, mas, façam o que fizerem, não aceitem a ideia de que ninguém tem propostas para uma política para a Cultura.

Odo @ Santo Tirso

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Odo @ Santo Tirso, um álbum no Flickr.

Uma nova versão do Odo estará agora disponível em Santo Tirso, no contexto do projecto Viagens com Alma.

Esta nova versão foi reconstruída apenas em HTML5 e a interacção depende da manipulação dum teclado numérico. Vão lá experimentar e digam qualquer coisa.