Maria e Valentim

Pediram-me para pôr alguma coisa numa caixa para que a Maria a receba, como carinho, amanhã.

Para mim, as caixas são de música.

Dia Tónico

A frequência com que canções de embalar me assaltam o espírito é quase preocupante.

Este “Dia Tónico”, dedicado à minha filha, começou a insinuar-se há uns dias, numa viagem de regresso de Paredes de Coura, onde estive com muitas crianças. Vai por isso para todas elas, para quem partilhou essa experiência comigo e para uma bebé muito simpática, chamada Ana Luísa.

Sons microscópicos: improvisações

Como disse no artigo inicial sobre este trabalho dos sons microscópicos, “além dos desenhos, que são solos, fizemos improvisações em alguns dos meus “instrumentos” que, depois duma oficina de sonoplastia, já faziam mais sentido.

Cá estão as improvisações (dirigidas): 3 trios e um duo em “MeSA”, “laptop acústico” e “desenho”.

Sons microscópicos: faz-me um desenho III

continuação dum artigo anterior

[desenho 11 e 12. trios improvisados no próximo artigo]

Sons microscópicos: faz-me um desenho II

continuação do artigo anterior

[desenhos 6 a 10. continua no próximo artigo]

Sons microscópicos: faz-me um desenho para eu ouvir

Depois de ter experimentado fazer pequenos “audiowalks” à descoberta de lugares escondidos, voltei ao Programa À Descoberta do CCVF e estivemos a procurar “sons microscópicos”. As actividades com este grupo desenvolveram-se à volta desta ideia, ligando-se à visita que tinham feito no dia anterior à Universidade do Minho e continuei a explorar exercícios de escuta e exploração do som. Chamámos “sons microscópicos” aos sons para os quais precisamos de ajuda técnica na escuta e estivemos a testar várias formas de captar e amplificar os mais diversos sons, desde o bater do coração à textura da pele, passando pelo som dum desenho.

Também partilhei com as crianças um “lugar-acústico escondido” muito especial: o limite superior do espectro audível delas, que os adultos, como eu, não conseguem ouvir. ;)

Além dos desenhos, que são solos, fizemos improvisações em alguns dos meus “instrumentos” que, depois duma oficina de sonoplastia, já faziam mais sentido.

Se quiserem um conselho, experimentem ouvir vários “desenhos” em simultâneo e não ponham o volume muito alto, porque todos eles descobriram a magia dos “pontos” bastante cedo. ;)

[desenhos de 1 a 5. continuação no próximo artigo]

Coisas com música | Música com coisas

Foi este o mote das actividades que propus durante o Curso de Verão do Balleteatro, em que trabalhei, de 11 a 15 de Julho, com 2 grupos de crianças, divididos por idades.

Curso de Verão Balleteatro

O Curso de Verão estava subordinado ao tema geral dos “objectos” e pedia-se às crianças que trouxessem objectos de casa que seriam usados nas várias oficinas.

A minha abordagem foi mais ou menos esta:

coisas com música

Dado o tema geral proposto e o facto da colecção, criação e manipulação de objectos estar presente de forma permanente, a minha proposta passa por explorar o som dos objectos. Não se tratará duma oficina de construção de instrumentos a partir de objectos, mas sim dum oficina de procura de sons interessantes produzidos pelos objectos disponíveis. Trata-se por isso dum exercício de escuta, criatividade e imaginação, que incorpora formas de captar e amplificar sons a que normalmente não prestamos atenção, mas que podem ser interpretados como matéria musical.
Muito orientado para acções práticas de manipulação, captação e gravação, os momentos de reflexão da oficina serão associados a exercícios de escuta, que promovem a concentração e a promoção duma nova forma de ouvir.

música com coisas

Com a exploração de sons e com os exercícios de escuta, coloca-se naturalmente a questão do que pode ser a música que as “coisas” produzem. Usando como parâmetro fundamental a ideia de organização de eventos sonoros no tempo e conceitos de padrão e jogo, faremos exercícios com os sons descobertos para procurarmos “frases musicais” e usaremos ferramentas simples de edição e sequenciação de som, para desenvolver pequenas ideias musicais.
Conceitos cada vez mais usuais e transversais como os loops (ciclos repetíveis) e os samples (excertos ou amostras) serão manipulados na prática, em suportes simples e intuitivos e as pequenas ideias musicais produzidas ficarão disponíveis quer para os participantes levarem consigo para casa, quer para utilização noutras oficinas.

A implementação do plano exigiu algumas adaptações e o que podem ouvir aqui é o resultado dessas adaptações e uma amostra do tipo de trabalho que se fez.

Com o grupo dos mais novos, explorámos o som dos objectos e padrões rítmicos simples. Em “Baterias de Coisas” o que podem ouvir resulta de padrões rítmicos desenhados por eles no Hydrogen, em que cada “instrumento” é um som descoberto nos seus objectos.
Como nota para quem quiser pensar em actividades similares, devo dizer que fiquei muito satisfeito com a combinação de Audacity e Hydrogen para criar rapidamente “drumkits” a partir de qualquer fonte sonora.

Com os mais velhos, trabalhámos os sons dos objectos e a ideia de padrões em lógicas de sobreposições e montagens um pouco mais complexas, das quais resulta a peça “Coisas com Música“. Num segundo momento, usando um patch de análise e conversão MIDI em PureData, fizemos “Música com Coisas” com todos eles a “tocar piano” manipulando sons elementares: voz, corpo, objectos.

Divirtam-se a ouvir, como nós nos divertimos a fazer. E se ficarem com dúvidas, digam, para aprendermos todos uns com os outros.

À Descoberta de Lugares Escondidos

Esta semana começou com uma experiência extraordinária: no contexto das Oficinas À Descoberta, do Centro Cultural Vila Flor, que nesta primeira semana tinham como tema “À Descoberta de Lugares Escondidos“, propus desenvolver com o grupo de crianças/participantes, um conjunto de percursos sonoros por lugares escondidos do próprio CCVF. Uma experiência arriscada, que o Serviço Educativo do CCVF acolheu de braços abertos e que ultrapassou largamente as minhas melhores expectativas.

Sala

Desenhei previamente os percursos, com apoio da equipa técnica do CCVF e, com as 12 crianças divididas em 3 grupos, explorámos e registámos o som dos percursos na segunda-feira à tarde e na terça-feira de manhã. O processo foi rigoroso e o plano impecavelmente cumprido por todos e durante a tarde de terça-feira ouvimos as gravações já montadas na sequência correcta e procurámos outras formas de representar os percursos traçados por este mapa de som.

O objectivo final era muito ambicioso: queria mostrar às crianças alguns dos “lugares escondidos” do CCVF; queria que elas activassem a audição como sentido de reconhecimento espacial e se relacionassem com os sons destes espaços; queria mostrar-lhes formas alternativas de “registar” a experiência de conhecer um lugar; queria produzir um conjunto de objectos sonoros e espaciais interessantes, considerando, desde o início, os percursos individualmente e a possibilidade de os sobrepôr. Creio que todos os objectivos foram atingidos— mesmo os mais irrealistas ou líricos— e esta foi, de longe, a experiência mais intensa e recompensadora que tive de trabalho em contexto de formação/sensibilização, em qualquer área e com qualquer “público”.

Todos os percursos começavam no mesmo local, junto à rua, e terminavam no Grande Auditório (um, na Plateia, um no Palco e outro na Teia). E todos atravessavam zonas públicas e zonas de acesso reservado, cruzando-se, ocasionalmente. Nesse desenho se jogava também a possibilidade de sobreposição.

Diagrama 3 Percursos

O “Grupo 1″ (Ana Carolina Pereira, Tiago Martins, Afonso Andrade e Afonso Santos), acabou o seu percurso no palco do Grande Auditório, depois de atravessar grande parte do jardim, entrar nas áreas reservadas junto do Café-Concerto, atravessar o sub-palco e a oficina de luz e usar o monta-cargas para conhecer o cais de carga.

Percurso Grupo 1

O “Grupo 2″ (Maria João Teixeira, Helena Pereira, Paulo Cardoso Paolo Cardaso e Rodrigo Silva), acabou o seu percurso na teia do Grande Auditório, depois de entrar nas áreas reservadas através do pátio interior da Sala de Ensaios, atravessar o sub-palco, ir ao palco para ligar luzes de serviço, subir pelas escadas à primeira varanda técnica, percorrendo todo o perímetro da caixa de palco e finalizar a subida até ao ponto mais alto do CCVF.

Percurso Grupo 2

O “Grupo 3″ (Carolina Monteiro, Francisco Anjo, Afonso Lemos, Ângelo Martins), acabou o seu percurso na plateia do Grande Auditório, depois de aceder às áreas reservadas através do parque de estacionamento e do acesso de cargas à cozinha do restaurante, que atravessou até à zona pública, regressar à zona reservada junto ao Pequeno Auditório, subir ao piso da produção, cruzar um corredor técnico até à régie de cinema, e chegar ao foyer do GA, através da régie geral.

Percurso Grupo 3

Podem ouvir os 3 percursos individualmente, mas também podem ouvir “A Grande Aventura”, que é a sobreposição destes 3 percursos.

trama³ | uma amostra

trama³, trama ao cubo

Com a aproximação da estreia do projecto trama³ (dia 26 de Junho no Fundão e apresentação no dia 2 de Julho em Aveiro), haverá quem se interrogue sobre o que verdadeiramente interessa: a que soa este novo instrumento.

Pode soar a muita coisas e esta gravação que partilho é um exemplo. É a primeira improvisação que gravámos durante o processo de construção e creio que é um bom cartão de visita para o projecto. Adequado, pelo menos.

trama³

um projecto de João Martins, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes

Neste projecto, um tear artesanal transforma-se num hiper-instrumento musical, com diversos registos tímbricos em configurações interligadas que permitem aos 3 músicos abordá-lo ora como um instrumento único, ora como um ensemble quase orquestral. Sobre a estrutura do tear, em intervenções que procuram compreender o seu funcionamento primário, enquanto exploram um vasto conjunto de possibilidades sónicas— sugeridas, na sua maior parte, pela observação de teares nos seus contextos originais—, fixam-se cordas, molas, caixas e vários objectos comuns, distribuindo pelas várias “faces visitáveis” da máquina, modos de produção de som interligados.

E, do mesmo modo que a concepção e construção do próprio instrumento procura compreender e valorizar os aspectos funcionais pré-existentes, a concepção global do projecto procura estabelecer pontes tangíveis entre os modos e os conteúdos da nova produção musical e as técnicas artesanais, as pessoas e os locais que compõem a memória do objecto. Gestos da tecelagem e das actividades relacionadas são recuperados como gestos de produção sonora no novo instrumento; recolhas de sons quer dos teares, quer das paisagens sonoras em que os descobrimos integram, como texturas e como motivos, o reportório concebido.
Estes teares— os seus “corpos”, o seu universo e identidade particular— são por isso, física e conceptualmente, o material de base para mais dois músicos— cúmplices de longa data—, artesãos, inventores e construtores de instrumentos que interpretam com as suas próprias ferramentas o desafio original.
Uma intrincada teia que cruza Música e Arte Sonora, aborda várias definições possíveis de instrumento musical e estende uma ponte audível, atenta e crítica entre práticas artísticas e práticas artesanais, enquanto reconhece o valor primordial das paisagens naturais e humanas genuínas.

Uma encomenda do Município do Fundão
Co-produção: Câmara Municipal do FundãoA Moagem - Cidade do Engenho e das Artes / Granular Associação
Produção executiva e acolhimento: A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes

História do Projecto

Em 2005, como parte do processo de concepção dum espectáculo de teatro, concebi e construí um instrumento musical reutilizando a estrutura dum tear manual de mesa, que tinha utilizado em trabalhos oficinais como aluno do ensino secundário. O instrumento, a que chamei Contratear- a partir do nome da peça, “O Contrabaixo” (Visões Úteis, 2005)-, foi usado posteriormente em vários concertos e performances e passou a integrar o meu instrumentário regular. Em 2009, A Moagem – Cidade do Engenho e das Artes, propõe à Granular o desenvolvimento dum projecto musical centrado nos esforços de dinamização da actividade artesanal de grupos de tecedeiras nas Aldeias do Xisto e a Granular contacta-me, por causa do Contratear. E, assim, em Maio de 2009, estive em residência artística nas Aldeias do Xisto (Janeiro de Cima e Bogas do Meio), tendo como objectivo de curto prazo a concepção duma performance a apresentar na LX Factory, em Junho de 2009 e, como objectivo final a concepção e construção dum novo instrumento musical construído a partir dum tear. Essa primeira fase, a solo, mudou consideravelmente a minha relação com o Contratear, não tanto pela performance que realizei na Arthobler / Ler Devagar (LX Factory), mas pela imersão no universo dos teares artesanais e pela descoberta de imensos pontos de contacto entre os objectos da tecelagem e diversos instrumentos musicais, mas também entre os processos de concepção e registo dos padrões em uso nas práticas artesanais e técnicas de composição e escrita musical. A compreensão, também nessa altura, do carácter primordial do tear, enquanto máquina-ferramenta universal e a reflexão sobre o seu desenvolvimento mecânico e técnico, especialmente a partir da Revolução Industrial, e sobre o significado que a manutenção das práticas artesanais tem, face a esse desenvolvimento, influenciaram de forma decisiva, ainda que menos visível, a orientação conceptual do projecto para o qual, desde o início, contava com a colaboração do Gustavo Costa e do Henrique Fernandes, parceiros em variadíssimos projectos e, eles próprios, inventores e construtores de instrumentos. A estratégia usada na performance a solo de 2009, recorrendo a uma base audiovisual construída pela selecção, edição e manipulação de recolhas áudio e vídeo feitas durante a residência provou a sua eficácia quer como mecanismo de referenciação, quer como partitura estrutural e com base nessa primeira experiência, a segunda fase do projecto avançou para a concepção e construção dum novo instrumento sobre a estrutura pré-existente dum daqueles teares. Nesta segunda fase, trabalhámos já em conjunto, no Fundão, procurando transferir todas estas preocupações para o próprio processo de construção, a que acrescia a vontade e necessidade de diversificar os modos de produção de som, por forma a aproveitar ao máximo a área disponível na estrutura e alcançar o objectivo de, em vez de sobrepôr vários pequenos instrumentos à estrutura, usá-la como base dum instrumento único, polivalente, com o máximo de módulos interligados. A interpretação do desafio original, concretizou-se e expandiu-se no encontro das 3 personalidades e experiências específicas e com o contributo crítico de quem acompanhou este processo e, especialmente, de Albrecht Loops. Além da concepção e construção deste novo instrumento, realizámos novas recolhas sonoras e testámos novas formas de utilização e manipulação e desenvolvemos estratégias composicionais baseadas em regras simples e padrões que referenciam, de alguma forma, o universo das práticas artesanais e estudámos e estruturámos vários modos performativos. Um processo desta natureza evolui constantemente e não tem um fim natural; apenas
pontos de paragem e reflexão que sugerem novos desenvolvimentos. O ponto onde nos encontramos é particularmente rico: não só possuímos um instrumento poderoso e flexível, como dominamos formas performativas coerentes e consequentes. A documentação e enquadramento da globalidade do projecto permitirão uma leitura mais completa e rica do objecto em si mesmo, mas as suas actuais possibilidades performativas são inegáveis.

Criatura #20081127

Para ouvir às escuras, o meu solo em saxofone baixo apresentado no Projecto Tell, no dia 27 de Novembro, no Passos Manuel.

(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos

estudo #20081127

Este estudo é a primeira apresentação (identificada como tal) dum work-in-progress, que conta já com alguns anos de existência / insistência: a procura e reprodução de sons sugeridos por criaturas nascidas em ilustrações familiares.
Essas criaturas, através dos novos instrumentos que “geraram” e das novas técnicas que me “ensinaram”, povoam a minha criação musical dos últimos 10 anos, sem exigir nada em troca. Ao preparar um momento de reconhecimento e retribuição, o plano de estudos prevê a apresentação pontual de algumas dessas criaturas, intercaladas com momentos de mais descoberta e diálogo.

Com um agradecimento muito especial ao João Figueiredo e ao Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian, por me permitirem explorar essa extraordinária criatura musical que é o saxofone baixo.