“A Comissão” estreia a 27 de Maio

A Comissão, cartaz de entropiadesign a partir de imagem de Ricardo Lafuente

A COMISSÃO

36ª Criação Visões Úteis

27 de Maio a 5 de Junho 2010
Hotel Dom Henrique, Porto

Terça a Sábado às 22h00
Domingo e Segunda às 18h30, integrado no 33º FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica

Uma bem humorada reflexão acerca dos actuais mecanismos de decisão política e económica, nomeadamente em Portugal e na Europa.
Apresentado na sala de um Hotel onde uma Comissão se reúne, o espectáculo questiona a linguagem utilizada pelos decisores políticos enquanto mecanismo de exercício de poder e domínio.
Espécie de Lado B do recentemente estreado “Boom & Bang” onde abordámos as circunstâncias que levaram à crise financeira que atravessamos, “A Comissão” enquadra-se no desenvolvimento do projecto artístico do Visões Úteis, num cruzamento constante entre os temas que fazem o nosso aqui e agora e a procura de linguagens performativas contemporâneas.

  • Texto e Direcção: Ana Vitorino e Carlos Costa
  • Colaboração na Dramaturgia: Nuno Casimiro
  • Figurinos e Adereços: Inês de Carvalho
  • Banda Sonora Original e Sonoplastia: João Martins
  • Desenho de Luz: José Carlos Gomes
  • Infografismo e Audiovisuais: João Martins / entropiadesign
  • Projecto Fotográfico: Paulo Pimenta
  • Coordenação Técnica: Luís Ribeiro
  • Produção Executiva: Joana Neto
  • Assistência de Produção: Helena Madeira
  • Design Gráfico: entropiadesign a partir de imagem de Ricardo Lafuente
  • Interpretação: Ana Vitorino, Carlos Costa, Pedro Carreira e ainda Joana Neto e Luís Ribeiro com a participação especial (em vídeo) de Nuno Casimiro, João Teixeira Lopes, José Pinto da Costa, Miguel Guedes, Alice Costa, Carolina Gomes, Raquel Carreira, Ana Azevedo, João Martins e José Carlos Gomes
  • Produção: Visões Úteis
  • M12 | 80 minutos
    Condições especiais, info e reservas:
    (+351) 22 200 6144 | mail@visoesuteis.pt

Silêncio em Aveiro

Começou neste dia 15 e prolonga-se até dia 25 o ciclo Silêncio, promovido pelas Oficinas sem Mestre, aqui em Aveiro, com iniciativas a decorrer no Teatro Aveirense, no PerFormas e no Mercado Negro. A iniciativa é de peso, com manifestações diversas (workshops, conferências, exposições, concertos, teatro, filmes comentados, etc) e agitando, de facto, quase todo o tecido cultural da cidade. No dia 23, modero um painel dedicado ao Declínio da Era da Palavra, mas aconselho vivamente uma consulta atenta e profunda a toda a programação:

SILÊNCIO

Toda a palavra ou enunciado são precedidos por uma voz silenciosa, por um sonho acordado repleto de imagens e de pensamentos difusos sempre actuantes no nosso íntimo. As formulações que daí emergem podem depois ser esmagadas logo à nascença. As ditaduras, na essência ou nas margens dos regimes políticos, ou como doença viral em relacionamentos pessoais, tendem a calar o indivíduo. A modernidade, por outro lado, leva a mal o silêncio.

A palavra sem fim e sem réplica prolifera em detrimento da palavra renascente da comunicação quotidiana com os nossos próximos. Falamos da palavra que muda de estatuto antropológico: sai da ordem da conversa, entra no domínio dos mass media, das redes, dos telemóveis. Invasora, vã e tranquilizante. Philippe Breton falava do paradoxo de uma sociedade “altamente comunicante e fracamente coincidente”.

Mas não devemos avaliar o silêncio apenas por antifrase. No início dos anos 60, George Steiner já proclamava o “declínio do primado da palavra”, por um lado devido a factores sociais (tendência para crescente iliteracia, incluindo as elites económicas e políticas) e por outro, devido à evolução técnico-científica (que leva à valorização de outras linguagens, nomeadamente a linguagem matemática). Se alargarmos a geografia das nossas reflexões, veremos também que Ocidente e Oriente assumem estratégias distintas de significação do silêncio e da palavra. Falemos então de silêncios – os que crescem connosco, os que conservamos, os que estranhamos, os que quebramos.

PROGRAMAÇÃO

15 de Abril | Quinta-feira
PERFORMAS
| O SILÊNCIO NO CINEMA – I

22H00 | Exibição do filme «The Bow» («O Arco») de Kim Ki-duc (Coreia do Sul, 2005, 90’) seguido de debate

23H45 | Filme escolhido pelo público de entre uma pré-seleccão de filmes feita pelas OSM

16 de Abril | Sexta-feira
PERFORMAS

21h30 | Painel I – OLHAR O SILÊNCIO: IMAGEM E COMUNICAÇÃO

  • Adriana Baptista, docente da ESE e da ESMAE, apresenta «Nas imagens, o silêncio diz tudo ao mesmo tempo»
  • Paula Soares, docente da UA/DeCA, apresenta «Uma retórica do silêncio, João César Monteiro»

Moderação: Rui Baptista, jornalista (Lusa)

17 Abril | Sábado
MERCADO NEGRO

17h00 | Inauguração de Exposições

  • «Sobre Perder Tempo», Envelopes Anónimos, autor anónimo
  • «Personagens imaginárias ou imaginários de uma personagem», fotografia, mariana de almeida
  • No exercício constante do fazer de conta, faz de conta que é actriz. Significa, exprime, divaga estados de (in)consciência, gestos, silêncios, sentimentos, máscaras. O retrato do imaginário, transparece uma multiplicidade de reflexões, como que numa casa de espelhos, sabendo-se que neles as imagens são intocáveis.
    “ (…) a máscara é o sentido quando é absolutamente pura…”, Roland Barthes
  • «Silêncio», colectiva de pintura (listagem definitiva de artistas a anunciar)
  • Projecção (contínua) do filme «La Maison des Petits Cubes» de Kunio Katõ (Japão, 2008, 12’3’’)
  • Intervenção cénica, «Larilalá», Larissa Latif

18h00 | COMUNIDADE DE LEITORES ALMA AZUL

  • A partir da obra «Amigo e Amiga – Curso de Silêncio de 2004» de Maria Gabriela Llansol.
  • Projecção do filme «Curso de Silêncio» de Vera Mantero (Portugal, 2007).

17 Abril | Sábado
PERFORMAS

21h30 | Painel II – SILÊNCIO NA LITERATURA

  • Isabel Cristina Pires, psiquiatra, poetisa
  • Paulo Pereira, docente da UA/DLC, apresenta «Alguns afluentes do silêncio na poesia contemporânea portuguesa»
  • Lurdes Maria Costa, mestranda na UA/DLC, apresenta «O silêncio é o sítio onde se grita – a poesia de Ary dos Santos»
    “O silêncio não é apenas a subtracção da palavra. O grito, o riso, a palavrosidade excessiva, a afronta, o insulto e a obscenidade, a exuberância … também são formas de silêncio.”
  • Irene Alexandre, mestranda na UA/DLC, apresenta «Silêncio na obra de Gonçalo M. Tavares»

O painel conta ainda com a participação de Rui Pedro cantando Ary dos Santos
Moderação: Maria do Rosário Fardilha (socióloga)

23h30 | Recital de Poesia de Alberto Serra com participação especial dos músicos Marco Oliveira e Rui Pedro

“O Silêncio é de todos os rumores o mais próximo da nascente” – Eugénio de Andrade

18 de Abril | Domingo
Sala-estúdio TEATRO AVEIRENSE

11h00-12h00 | Workshop NO SILÊNCIO ACONTECE, orientado por Luísa Vidal (docente de artes visuais e artista plástica) e Tânia Sardinha (docente de artes visuais e formadora na área da criatividade)

Por meio de actividades lúdicas e de carácter plástico, estimular a criatividade, desenvolver a capacidade de expressão e comunicação, e potenciar a partilha na experiência entre pares e em grupo.
Pretende-se também promover a relação e o vínculo afectivo entre avós e netos, através da construção de um espaço e de um tempo onde a criatividade de gerações distintas possa fluir lado a lado.

Destinatários do workshop: avós e netos dos 3 aos 55 anos

17h30-19h30 | Workshop SILÊNCIO, INTERIORIDADE E EXPRESSÃO, com Maria João Regala (psicoterapeuta)

O corpo atravessa o silêncio em novas linguagens. Usa o movimento, a improvisação, a acção. No olhar do outro encontra, decifrada, a sua imagem. Muitas perguntas, respostas transitórias, estranheza, empatia, inquietação e espanto. Do encontro nasce o novo – não sei ainda se um casulo, uma planície ou um castelo.

Destinatários: a partir dos 18 anos

18 de Abril | Domingo
PERFORMAS

21h30 | O NADA, peça da autoria do Ceta – Círculo Experimental de Teatro de Aveiro

21h45 | Painel III – SILÊNCIO E (DES)ORDEM

  • José Tolentino Mendonça, poeta e teólogo (sujeito a confirmação)
  • Ricardo Ribeiro, compositor, apresenta «Silêncio e transversalidade nas artes»
    “É na sua íntima ligação ao vazio, que o silêncio alcança a sua imperecível dimensão de transversalidade artística…
    Do silêncio ao vazio, do vazio à fragilidade: a fragrância do pequeno e do mínimo, é o pouco que sugere o muito, o finito que engendra o infinito…”
  • António Morais, presidente da Direcção do Ceta, apresenta «O duplo silêncio e o absurdo»
    “A origem do teatro acontece depois do silêncio, depois da noite, depois da escuridão… então o homem acorda e descobre o absurdo da sua própria existência… e regressa ao silêncio, à noite, à escuridão, ao nada… O espelho teatral reflecte o absurdo da vida, amenizando-o… Há dois silêncios que envolvem as palavras. Um silêncio que as precede e um outro silêncio que as sucede…”
  • Ana Cruz, mestre em Direito, apresenta «O sagrado direito ao silêncio ou o silêncio no direito?»
    “Em sede de Direito Penal, o direito ao silêncio aparece relacionado com os direitos fundamentais e garantias individuais consagradas na Constituição da República Portuguesa e é considerado como uma garantia fundamental na ordem juridíco-constitucional. (…)”

Moderação: Carlos Picassinos (jornalista)

22 de Abril | Quinta-feira
PERFORMAS | O SILÊNCIO NO CINEMA – II

21h30 | Exibição do filme «Há lodo no cais» de Elia Kazan (EUA, 1954), 108’ seguido de debate com Maria do Rosário Fardilha

23H45 | Filme escolhido pelo público de entre uma pré-seleccão de filmes feita pelas OSM

23 de Abril | Sexta-feira
PERFORMAS

21h15 a 22h45 | Performance de levitação/imobilismo de Toino de Lírio, The Static Man

21h30 | Painel IV – O DECLÍNIO DA ERA DA PALAVRA

  • Isabel Cristina Rodrigues, docente da UA/ DLC, apresenta «Silêncio na Literatura»
  • Fernando Almeida, geofísico, docente da UA/ Depto Geociências e Jorge Hamilton, mestre em Geociências, apresentam «A verdade e o declínio da era da palavra»
    “(…) a nossa verdade é também uma homenagem ao grandioso mestre [Professor Frederico Machado]. Porque este viveu a erupção dos Capelinhos, vamos tentar recriar o momento numa projecção de um filme de 5 minutos ao qual sobrepusemos som virtual. Deste modo, esta verdade também é uma mistura de várias realidades que permite despertar sentimentos.”
  • David Vieira, docente apos. da UA/Depto Matemática, apresenta «Linguagem matemática: pontes quebradas – força e fraqueza»

Moderação: João Martins (sonoplasta)

23h30 | Performance de levitação/imobilismo de Tonio de Lírio, The Static Man
Seguido de actuação de Toino de Lírio como DJ

24 de Abril | Sábado
PERFORMAS

18h30 | Painel V – SILÊNCIO NA MEMÓRIA COLECTIVA
Exibição da curta metragem A Cela Branca (Portugal, 2006, 6’13’’) de Ivar Corceiro
Exibição do filme Dundo Memória Colonial (Portugal, 2009, 60’) de Diana Andringa
Seguidos de debate com:

  • Diana Andringa, jornalista e realizadora.
  • Isabela Figueiredo, escritora, autora de “Caderno de Memórias Coloniais” (2009)
  • Celina Pereira, cantora e contadora de histórias cabo-verdiana, autora de “Estória, Estória… Do Tambor a Blimundo”

Moderação: Catarina Gomes (antropóloga)

22h30| Auditório PERFORMASConcerto Celina Pereira

24h00 | DJ set Couscous Prosjekt (Bagaço Amarelo e Moabird): «Depois do silêncio, uma alvorada em Abril»

25 de Abril | Domingo
MERCADO NEGRO

16h00 | Atelier Cartazes Políticos – exploração didáctica e criativa de uma amostra da colecção cedida por Francisco Madeira Luís ao Núcleo Museológico da UA.
Criação: Oficinas Sem Mestre e docentes do 3º Ciclo e Secundário.

18h00 | Exibição do filme «Cruzeiro Seixas: O Vício da Liberdade» da autoria de Alberto Serra, realizado por Ricardo Espírito Santo (Portugal, 2010) 54’ seguido de debate com Alberto Serra.

22h00 | “OTRA VEZ MARCHAR”
Espectáculo musical a definir.
Leitura de poesia e prosas de liberdade, por Oficinas Sem Mestre

PROGRAMAÇÃO PARALELA

PERFORMAS | Mercado do livro do Silêncio – selecção Livraria Langue D’OC

+ info: silencioemaveiro.blogspot.com

[divulgação] Oficina “Design para uma Redacção Livre”, no JUP

O Hacklaviva organiza no JUP uma oficina dedicada às ferramentas informáticas (FLOSS) necessárias para construir uma “redacção livre”, projecto em curso no JUP. É no próximo sábado, dia 23 de Janeiro, numa tarde cheia de actividades à volta do info-activismo (e que coincide com inaugurações nas galerias da Rua Miguel Bombarda), cujo programa completo pode ser consultado aqui.

Mas, do programa, destaco, por me interessar particularmente, esta Oficina de Design para uma Redacção Livre.

23 jan 2010 | 14h30 – 17h30
Oficina de Design para uma Redacção Livre

Uma redacção a funcionar apenas com software livre? É o objectivo de uma colaboração entre o JUP e o Hacklaviva. Nesta oficina, vamos falar sobre o que é o software livre e as suas implicações na prática criativa, associativa e editorial. Depois veremos como hoje é possível tratar fotografia, criar gráficos e tipografia, paginar, editar áudio e montar vídeo com ferramentas livres. Traz o teu portátil e vem passar uma tarde connosco a descobrir novas formas de fazer o teu trabalho.

A informação chegou-me por via do Ricardo Lafuente, que é uma das pessoas que vai orientar esta oficina. As ferramentas-base da oficina serão:

  • Imagem: GIMP, Scribus e Inkscape (3 que fazem parte do meu workflow actual)
  • Áudio: Audacity (ferramenta muito útil)
  • Vídeo: Kaltura, OpenShot e (talvez) PiTiVi (esta é a área que é toda nova para mim e tenho que verificar se se conseguem instalar algumas destas ferramentas num Mac)

Segundo o Ricardo, “a ideia é mais um overview do que tutoriais; podemos tocar em partes específicas de acordo com as vontades colectivas, mas seria mais uma cena de esclarecimento, já que boa parte do pessoal que vai aparecer não tem noção do que existe no mundo do FLOSS…

Workshop: O Som no Drama

A convite da SOOPA / OOPSA – Associação Cultural, vou orientar um workshop no Maus Hábitos (Porto) sobre sonoplastia e dramaturgia.

O Som no Drama, exercícios de sonoplastia e dramaturgia

por João Martins
13, 14, 21 e 28 Fevereiro

O workshop pretende ser uma forma introdutória, elementar e bastante prática de abordar questões recorrentes em qualquer exercício de sonorização. Dirige-se a todos os interessados na problemática do som e do seu significado e impacto em contextos narrativos e/ou dramático, sejam músicos, técnicos de som, performers (teatro, dança, etc), criadores (encenadores, escritores, etc), estudantes em qualquer uma destas áreas ou simples curiosos.
O workshop abordará questões como “Significado do Som e da Música”, “Convenções e Clichés”, “Gestão do Silêncio” e “Som como Espaço”. Através da análise e discussão de exemplos práticos, procurar-se-á fomentar reflexões pessoais e exemplificar várias técnicas, de acordo com o perfil dos participantes. A vertente prática do workshop assume particular importância, definindo a sua própria estrutura temporal: após as primeiras sessões de exposição, análise, reflexão e pequenos exercícios técnicos, sera proposto um exercício prático para ser realizada de forma autónoma, por cada participante num período de 2 ou 3 semanas. A meio desse exercício, será organizada uma sessão para que cada participante possa fazer um ponto de situação do seu exercício e esclarecer quaisquer questões (teóricas ou práticas, conceptuais ou técnicas). A apresentação final dos exercícios será o mote para uma reflexão conjunta global.

Nota: as questões abordadas no workshop têm aplicação prática não só em objectos artísticos (peças de teatro, dança performance, vídeo, cinema, sound art, etc), mas também em objectos de consumo (publicidade, aplicações multimédia, video-jogos, etc).
Os formandos deverão trazer o seu próprio equipamento (computador portátil e equipamento de gravação, se tiverem).

Datas e horário:

  • 13 e 14 de Fevereiro | 10:00- 13:00 15:00-18:00
  • 21 de Fevereiro | 15:00-18:00
  • 28 de Fevereiro | 10:00-13:00 15:00- 18:00

Duração: 15 horas, em 5 sessões de 3 horas

Nº de formandos mínimo: 4
Nº de formandos máximo: 10
Custo: 70€ por aluno

Biografia
João Martins nasceu em 1977. Estudou Música, Arquitectura e Design. Colabora com o Visões Úteis (companhia profissional de teatro do Porto) desde 1998, como músico e sonoplasta, sendo responsável por diversas bandas sonoras, assim como pela sonoplastia e pela criação de paisagens sonoras para peças de teatro e audiowalks. Criou também música para cinema e para instalações multimédia e desenvolve inúmeros projectos como músico quer em colectivos, quer a solo.
Desenvolve paralelamente a actividade de designer e tem experiência como formador e consultor na área das ferramentas informáticas e da comunicação.

Informações: producao [@] soopa.org

Exercício curioso sobre a falta de curiosidade dos públicos

Ando a tentar perceber qual a melhor forma de vos explicar as incríveis relações que vejo entre este acontecimento em Espanha e este outro, em Portugal.

Fico por um resumo de circunstâncias:

  1. em Espanha, no V Festival de Jazz de Sigüenza, um espectador chamou a polícia por achar que o espectáculo de Larry Ochs Sax & Drumming Core não era um espectáculo de jazz e querer o seu dinheiro de volta. O músico, fundador do Rova Saxophone Quartet e com mais de 30 anos de carreira como músico criativo e nas vanguardas do jazz, foi “acusado” de fazer “música erudita contemporânea” que, para o melómano-jazzista em causa, teria contra-indicações clínicas, por perigos psicológicos. Ficou claro que o senhor teria problemas de estabilidade psicológica, não ficou claro se a polícia espanhola compreende o seu papel em situações deste tipo, o que é preocupante.
    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=_EuW-mIGno0[/youtube]
  2. em Portugal, Lisboa, mais propriamente, um grupo de idosos participantes frequentes em excursões do INATEL foi trazido ao Teatro São Luiz, para assistir à peça “O que se leva desta vida“, que conta com caras conhecidas da televisão, como Gonçalo Waddington (Os Contemporâneos). A linguagem usada na peça (que não conheço), terá chocado os idosos que enchiam o teatro provocando reacções enérgicas, com vaias e insultos, obrigando a um final abrupto, numa cena pouco vista nos nossos palcos. Foram recolhidos testemunhos de alguns dos idosos e dos actores da peça num vídeo disponibilizado pelo I, a que tive acesso via Arrastão e dactilógrafo.
    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=kaMxdEZeYnM[/youtube]

São episódios radicalmente diferentes, mas parecem convergir em alguns aspectos tão curiosos como perigosos. Tendo tempo, tentarei dizer mais qualquer coisa sobre isto e sobre as legítimas e ilegítimas expectativas do(s) público(s).

A vocês, o que vos parece?

Teatro no Porto: O Anzol, de Gemma Rodríguez

aqui anunciei a estreia no Porto de O Anzol, de Gemma Rodríguez. É a 34ª criação do Visões Úteis, na qual participo com a banda sonora original e sonoplastia. De 11 a 13 de Dezembro, podem assistir ao espectáculo no Teatro Helena Sá e Costa (Porto), às 21h30.

É evidente que haverá sempre boas desculpas para não ir ao teatro, mas, ocasionalmente, como é o caso em muitas peças do Visões, há também óptimas razões para ir. Fiquem com o “trailer” que o Pedro Maia realizou, para vos ajudar a decidir.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=zUBmyAJ99rs[/youtube]

Aveiro Jovem Criador 2009

Foi hoje a sessão de entrega de prémios e a inauguração da mostra relativa ao concurso Aveiro Jovem Criador 2009. No ano passado, fui convidado a integrar o júri da área de Artes Digitais e a experiência teve os seus altos e baixos (o workshop de Pure Data proposto na altura não se chegou a realizar por falta de interessados, que acabaram por se reunir em Águeda, na d’Orfeu). Este ano, apesar de manter as minhas reservas quanto a concursos deste tipo que exigem anonimato, decidi experimentar o processo do lado dos concorrentes, por razões várias, que vão da oportunidade ao risco. Submeti ao júri uma instalação interactiva, a que dei o nome de Public Piano #0909, e que resultou da junção dum par de ideias que me interessava testar no contexto da criação das “Criaturas“: trata-se dum patch relativamente simples, em Pure Data + GEM que

  1. recolhe e analisa o som ambiente, convertendo-o em sinal MIDI, usado para tocar um piano sintetizado
  2. capta a imagem do público e espelha-a no monitor, alterando o espaço de cor e a opacidade de acordo com a frequência e amplitude do som ambiente

A instalação apresenta-se de forma simples, como uma mistura de jogo e setup performativo, com uma estante de música virada para o monitor-espelho, montado num plinto, à altura do olhar. O microfone está colocado de forma visível junto à estante e virado para o público e, sobre a estante e o plinto, vários objectos (um metrónomo, uma caixa de música de manivela, um martelo de São João, entre outros) complementam o desafio do jogo, impresso na superfície da estante:

Imagina que isto é um jogo. Ou imagina que é um instrumento musical: um piano para todos, tocado de qualquer maneira. Usa o teu corpo e a tua voz ou os objectos disponíveis. Experimenta novos objectos e, se quiseres e puderes, oferece novos objectos à instalação, depositando-os na estante ou no chão. Aqui não há intérpretes e audiência: todos somos tudo. Limita-te a participar.

O patch está programado de tal forma que a sensibilidade (a amplitude mínima para gerar reacção) e a espontaneidade (o tempo entre a acção no ambiente e a reacção do sistema) variam de forma pendular, algo aleatória entre valores pré-determinados, por forma a que, ao longo do tempo, as condições do jogo se vão alterando. Contribui também para essa ideia de imprevisibilidade o facto do som produzido pelo sistema integrar o próprio som ambiente e, assim, realimentar a cadeia de processamento— problema técnico que resolvi, aplicando uma operação de divisão da frequência e amplitude em cada ciclo, que dá origem a uma espécie de delay com pitch shifter ou arpeggiator e impede loops infinitos. A ideia é que, a cada momento, o som produzido possa ser imediatamente identificado como reacção a estímulos acústicos exteriores ou seja completamente imperceptível essa relação, dada a quantidade de material residual ainda em processo e que, na alternância entre esses dois estados, resulte um objecto orgânico e vivo. A imagem pretende apenas funcionar como espelho-simbólico, reagindo às condições acústicas, mas, acima de tudo, projectando a imagem do público-performer, confrontando-nos com a nossa actual condição de criadores obsessivos.
Ao criar esta peça não conhecia ainda o conceito do RjDj, mas, de certa forma, foi sobre ideias semelhantes e com as mesmas ferramentas que trabalhei. ;)

No processo de submissão da obra, juntamente com um registo vídeo pouco eficaz, em parte devido à limitação do anonimato que me obrigou a um registo muito parcial e limitado da instalação em uso, entreguei a seguinte Explicação de Processos e Argumentação:

Explicação de Processos
Public Piano #0909 é uma instalação intermédia que capta o som e a imagem produzidas no espaço expositivo e devolvem-nos, em forma híbrida de “piano de imitação” e “vídeo-espelho manipulado”. Usando o Pure Data e GEM, os parâmetros do som são analisados em tempo real e convertidos em sinal MIDI para accionar um piano sintético e, simultaneamente, para definir as alterações cromáticas no “vídeo-espelho”.
O público é, simultaneamente, performer.

Argumentação
Numa era de democratização dos meios de criação e produção artísticas e em que todos pretendemos ser mais do que meros espectadores-receptores, Public Piano #0909 apresenta-se como um resultado natural do encontro entre o video-jogo, o instrumento musical virtual e um espelho, símbolo do nosso crescente egoísmo. Se o aparato tecnológico remete para o universo das consolas, os objectos disponíveis convidam à experimentação e fruição acústicas.

O vídeo em causa, era este:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Wlq8rD9yYcw[/youtube]

O júri pediu para ser montada uma demonstração da instalação na Casa da Juventude, de acordo com sugestão da minha parte no momento da candidatura e em total respeito pelo regulamento e pelas normas relativas ao anonimato e teve, assim, acesso à montagem possível, dadas as limitações de espaço, tempo e recursos durante uma das suas reuniões.

A peça foi seleccionada para integrar a mostra, mas o júri decidiu não atribuir quaisquer prémios ou menções honrosas na área de Artes Digitais, na edição deste ano. A experiência de integrar o júri do ano passado ajuda-me a compreender a dificuldade destas decisões e a respeitá-las. Estivesse eu no lugar do júri e, provavelmente, não consideraria a minha peça digna de prémio ou menção honrosa, pela forma como foi apresentada e até por alguns aspectos da sua realização. Mas a experiência de preparar esta candidatura, este ano, mostrou-me de forma bem mais evidente, as fragilidades deste concurso, na área específica de Artes Digitais. Tenho pena que algumas das questões levantadas no ano passado não tenham ainda sido objecto de reflexão para o regulamento deste ano. Entristece-me saber que algumas obras interessantes foram desclassificadas, de novo, pelo problema da sua identificação e compreendi bem algumas dificuldades que se colocam aos concorrentes para apresentar as obras no seu melhor estado, sem as identificar. Espero que a regra do anonimato, que já não existe na área da Pintura, por exemplo, possa cair em todas as áreas. E, acima de tudo, espero que as limitações técnicas das obras a concurso na área de Artes Digitais sejam explicitadas com a clareza que se vê na Escultura, por exemplo (extraordinário o trabalho vencedor nesta categoria, já agora). Com uma descrição dos recursos técnicos disponíveis e das limitações existentes na mostra (projecção, computadores, monitores, sistemas de som, espaço expositivo, isolamento, iluminação) e a possibilidade de montagem prévia das obras, nos casos em que se justifique, para apreciação pelo júri, em local adequado e/ou com imposições claras relacionadas com a natureza da mostra, o trabalho dos concorrentes é facilitado. Eu, pessoalmente, arrependo-me de ter produzido sistematicamente versões e apresentações da proposta a pensar em eventuais limitações técnicas finais e usando apenas material que poderia ceder para a mostra (condição que acabou por se verificar), quando algumas experiências de montagem com mais meios me mostraram um objecto artístico muito mais bem conseguido, completo, compreensível, envolvente e impactante. Reduzi nos meios usados em função do que me parecia ser possível para a mostra e, com isso prejudiquei a “obra”. Mas a verdade é que a montagem final, na mostra, depende de facto do meu material e é uma versão “modesta”, na qual, entre outras coisas, os responsáveis pela organização não podem garantir som contínuo e/ou a alternativa de auscultadores que sugeri: na inauguração de hoje, por exemplo, várias pessoas pararam em frente à instalação, usando os objectos e esperando reacção que não existia, já que o som estava cortado, por causa duma intervenção musical a ocorrer no mesmo espaço.

Há muito caminho a fazer.
Pessoalmente, espero pegar neste objecto e apostar na versão mais ambiciosa, com meios mais capazes, quer em termos de captação de vídeo e áudio, quer em termos de difusão e ocupação de espaço. Espero encontrar o local e os parceiros necessários para, pelo menos, uma montagem e demonstração pública para efeitos de registo.

Entretanto, aconselho a visita à exposição, na Casa Municipal da Cultura Fernando Távora, aqui em Aveiro (em frente aos Paços do Concelho). Se o meu Public Piano #0909 estiver mudo, peçam a alguém para o ligar e avisem-me.

Criaturas @ TA, um registo possível

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=UrdCRECDEMo[/youtube]

Nem o som, nem a imagem estão brilhantes, mas, para já, é o registo possível. Também no Vimeo, no Facebook e no MySpace.

Uma pequena experiência de “cross-posting” para ver qual das plataformas gera mais feedback.

(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos

Apresenta-se hoje, dia 5 de Novembro, quinta-feira, às 22h00, na Sala Estúdio do Teatro Aveirense, a minha mais recente criação, com o longo título

(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos

Esta obra resulta dum convite dirigido pelo Teatro Aveirense para que apresentasse uma nova criação no âmbito do CANT – Ciclo Arte e Novas Tecnologias e foi desenvolvida, na sua fase final, em residência, o que apresenta claras vantagens para um projecto desta natureza.
Este é um projecto muito mais “pessoal” do que qualquer outro que tenha realizado até agora, pelo que, por agora, falta-me um distanciamento mínimo para saber se resulta. Cabe ao público essa função, como sempre.

Imagem de divulgação das "criaturas"

Sinopse

Alguns dos sonhos mais extraordinários e marcantes são aqueles cuja verosimilhança nos deixa num estado confuso; sonhos que estão de tal forma contaminados de realidade e familiaridade que chegam a integrar as nossas memórias reais, até serem denunciados por um ou outro pormenor.

Nesses sonhos é frequente encontrar solução para problemas que nos afligem, ainda que ou a solução ou o problema pertençam, por vezes, apenas ao universo peculiar dos sonhos, faltando-lhes qualquer aplicação prática.

O poder sugestivo, quase hipnótico, da verosimilhança e da familiaridade cria também alguns dos mais intensos e assustadores pesadelos, mas nestes nota-se, com mais facilidade, que no universo dos sonhos estas sensações podem estar associadas não a elementos ou representações da realidade, mas apenas a sensações ou imagens que integram desde cedo um determinado vocabulário onírico. Elementos com os quais sonhamos frequentemente- sejam sensações, personagens ou imagens…- podem, paradoxalmente, deixar de denunciar a situação-sonho, já que se encontram no seu universo natural e, por isso, são verosímeis no contexto: verdadeiros porque completamente imaginados, como diria Boris Vian.

O que define a fronteira entre o sonho e a realidade e a forma como nos debatemos para a transgredir é o tema central da obra que se estreia no Teatro Aveirense: “(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos“, assim como uma pergunta recorrente: “tens mais medo do escuro ou do silêncio?“.

Som, imagem e palavras, situações e bandas sonoras e visuais recuperadas de fragmentos de sonho, pesadelo e realidade são apresentadas e propostas ao público num convite não à contemplação ou voyeurismo onírico, nem ao devaneio surrealista, mas como exercício colectivo de reconstrução das sensações individuais das viagens de e para o sonho.

Sobre o processo de criação:

A obra a apresentar intitula-se “(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos” e já teve duas apresentações como work-in-progress, em que explorei um trecho da obra que envolve processamento de saxofone baixo em tempo real associado a uma simples experiência de privação sensorial (a obra apresenta-se em escuro absoluto).

A experiência pretende explorar as sensações e os momentos em que o sonho se deixa contaminar pela realidade e nos faz acordar confusos pela aparente estranheza do que nos é(era) familiar. As motivações originais são os instrumentos que toco, uns familiares e outros muito estranhos e a forma como construo grande parte da minha música, por um lado e a relação que estabeleço entre isso e ilustrações que fazem parte do meu imaginário de criança.

O primeiro estudo-apresentação que mereceu esta designação e que iniciou o processo, apresentava-se assim:

Este estudo é a primeira apresentação (identificada como tal) dum work-in-progress, que conta já com alguns anos de existência / insistência: a procura e reprodução de sons sugeridos por criaturas nascidas em ilustrações familiares.
Essas criaturas, através dos novos instrumentos que “geraram” e das novas técnicas que me “ensinaram”, povoam a minha criação musical dos últimos 10 anos, sem exigir nada em troca. Ao preparar um momento de reconhecimento e retribuição, o plano de estudos prevê a apresentação pontual de algumas dessas criaturas, intercaladas com momentos de mais descoberta e diálogo.

Foi no Cinema Passos Manuel, no Porto, no contexto do Projecto Tell que propunha performances no escuro absoluto. Essa experiência foi bastante intensa, quer para mim quer para o público e decidi voltar a repetir esta forma de privação sensorial no AveiroSaxFest, em que fiz uma segunda apresentação, sem escuro absoluto, mas sem que a minha presença fosse visível, também.

Recrutei, entretanto, a colaboração da Cláudia Escaleira, para usar o desenho como instrumento narrativo.

Estes testes serviram para afinar algumas estratégias e, com o feedback de pessoas presentes (músicos e outros criadores, além de público), estou a desenvolver a estratégia global de cruzamento entre os instrumentos convencionais que toco e os que concebo e construo: a MeSA, o Contratear, o Munaciclo, etc.

Alguns destes instrumentos tiveram uma atenção particular em vários projectos e bandas sonoras, mas quero avançar particularmente no campo dos cruzamentos entre instrumentos e na construção duma experiência capaz de submergir completamente o público: som, vídeo, luz, etc.