Já me estou a passar contigo, Maria!

Volta e meia, sai-me uma barbaridade destas pela boca fora. Quando a Maria está muito irrequieta, durante uma muda de fralda mais complicada, ou quando me escapa pela enésima vez para ir fazer de conta que brinca com uma tomada1, dou mostras da minha falta de paciência com uma destas afirmações absurdas de se dirigir a uma filha com quase 15 meses. Porque é absurdo dizer que me estou passar, considerando tudo o que ainda aí vem: se me estiver a passar por ela insistir em coçar o rabiote ou passear quando lhe mudo a fralda ou por gatinhar a alta velocidade até um ponto proibido2 e fazer uma das fitinhas dela, o que é que faço quando ela chegar à idade das perguntas repetitivas ou quando for, simplesmente autónoma a caminhar, ou nessa maratona de esforço parental que há-de ser a adolescência?

Ainda assim, às vezes sai-me um “já me estou a passar contigo, Maria!“, com mais ou menos colorido3 e, logo a seguir a dizê-lo, tenho vontade de rir. É que é verdade que me estou a passar com a Maria, mas precisamente por todas as outras coisas: pela autonomia, pelo sentido de humor, pela ternura, pela inteligência, pela perspicácia, pela rapidez, pela curiosidade, pela beleza4… por tudo.

Não me lembro de ter feito nada para merecer tão boa experiência enquanto pai. A não ser “encontrar” uma mãe estupenda. Seja o que for, obrigado a quem de direito.

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1 estão todas protegidas, mas é importante educar para o perigo como se não estivessem
2 ela já conhece bem os “pontos proibidos” da casa e uma forma de o demonstrar é ir muito depressa até eles, estender uma mãozita e fazer um olhar maroto como quem diz “é aqui que eu não posso mexer, não é?”
3 recuperei o “caramba” para o meu vocabulário desde que sou pai
4 deixem-me ser vaidoso

Desabafo

Estou plenamente convencido que a capacidade dum pai se sentir confortável afastado dum filho é inversamente directamente proporcional à idade deste último.

Quero com isto dizer que este afastamento forçado por pouco mais duma semana da minha Maria, que ainda só tem 4 meses, está-me a pôr com os nervos em franja. Chamem-me frágil, papá-galinha, mariquinhas ou outra coisa qualquer, mas cada dia que passa é um dia arrancado a ferros. Felizmente recebo fotografias novas todos os dias e tenho novidades frescas à distância dum telefonema. Mas nada (nem a generosidade da Cláudia), me convence que não estou a perder, dia-a-dia, momentos irrepetíveis.

E sei que, com o passar do tempo, a tolerância a este afastamento vai melhorar. Faz parte do crescimento dela, enquanto criança e do nosso, enquanto pais. Mas agora (e até domingo) tudo me faz falta.

Saudades antecipadas

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colocada no Flickr por joaomartins

Vêm aí dias difíceis: a temporada do Muna, no Teatro Nacional D. Maria II, obriga-me a estar em Lisboa e, pela primeira vez nestes 4 meses, vou estar afastado da Maria por vários dias consecutivos. Ainda não sei bem como será, mas sei que há muitas coisas de que vou sentir saudades no meu quotidiano.

Momentos altos do dia

Olhar para a Maria, que está quase a fazer 4 meses, e perder a noção do tempo. Fazê-la rir, dar-lhe banho, espalhar creme nas coxas gordinhas e na cara, trocar fraldas, adormecê-la… deitá-la de barriga para baixo no tapete de brincadeiras e vê-la levantar a cabeça e os ombros, fincar os joelhos e abanar os bracitos, como se fosse a nadar… falar com ela, ouvi-la a descobrir sons… deixá-la a brincar com a minha mão, com um ar espantado… dar-lhe colinho… vê-la a dormir.

Não há nada parecido com isto.

Quem sai aos seus…

O pai: 31 anos, 1,56m de altura, 55Kg de peso

A mãe: 30 anos, 1,55m de altura, 55Kg de peso

A filha: 2 meses, 0,59m de altura, 5,95Kg de peso

Para quem nunca olhou para as curvas de percentis de crescimento nos boletins de saúde infantil ou não está familiarizado com o ritmo de crescimento dos bebés e crianças, saibam que isto quer dizer que, apesar dos pais da criança serem mais pequenos do que 95% dos jovens de 20 anos (nestas tabelas), a criança é maior do que 90% a 95% das crianças da sua idade:

Maria - Crescimento aos 2 meses

É caso para dizer que, às vezes, quem sai aos seus não só não degenera, como parece regenerar. :)

E o comentário mais frequente continua a ser: “que bebé tão grande!” ;)

Coisa mais linda!

DSC00007.JPG, colocada no Flickr por joaomartins.

Já há muito tempo que sabia que os pés dos bébés são um exagero de “ternura”. Agora, que o bébé é “meu” e que posso passar horas a olhar para os pézitos, posso afirmar, sem dúvida nenhuma, que têm um efeito hipnótico que desencadeia, além do ocasional suspiro, pequenas e breves exclamações. “Coisa mais linda!”

A Farmácia Universal

Continuo a ser pouco experiente, mas posso afirmar, por experiência própria, que um bébé pode ser:

  • ansiolítico
  • anti-depressivo
  • relaxante
  • soporífero
  • anestésico
  • revigorante
  • estimulante

É fascinante constatar que todos estes estados (e mais), que muitas vezes são induzidos por intoxicação farmacológica, podem resultar simplesmente do contacto com um bébé. O problema é que não sabemos nem podemos controlar ou programar o efeito. Mas, genericamente, considerando a totalidade de efeitos combinados à escala “universal”, é um dos únicos remédios do mundo em que podemos mesmo confiar.

Nota breve acerca da importância dos standards

A Maria completa um mês de vida no próximo dia 21 e quase desde o primeiro dia que me incomoda a inexistência de “standards” na roupa para bébé. Os pais que andam por aí sabem bem do que estou a falar, mas é tempo de dizer bem alto: “se a esmagadora maioria da roupa das crianças e adultos obedece a regras relativamente simples que facilitam a generalização rápida dos processos de vestir e despir, porque carga de água é que a roupa dos bébés tem que ter toda o seu próprio sistema de enfiar, apertar, segurar… à frente, atrás, pela cabeça, pelas pernas, com fitinhas, com molinhas, simétrico, assimétrico… chiça!

Proponho, desde já, a formação dum comité de normalização e submeto duas ou três ideias base:

  • desaconselhar peças de enfiar pela cabeça para os primeiros meses
  • desaconselhar peças de apertar atrás para os primeiros meses
  • banir camisolinhas interiores presas com fitinhas que NUNCA ficarão seguras nas polainas
  • normalizar a indicação do tamanho em função do comprimento e peso do bébé e NUNCA em função da idade em meses
  • criar um sistema internacional de representação gráfica das diferentes tipologias que permitam aos pais, seleccionar rapidamente as peças em função das formas de enfiar e das “tecnologia” de aperto a que melhor se adaptam, evitando o processo moroso e frustrante de procurar um “body” ou um “babygrow” com um daqueles desenhos giros que, além de ter o tamanho certo, não seja uma daquelas peças que demora 2 minutos a vestir, me vez de 30 segundos

Se quiserem apresentar outras contribuições, força. Eu tenho ainda menos de um mês de experiência mas já há tanta coisa que gostava de ver “normalizada”, que vocês nem imaginam.

Bebé – Livro de Instruções

Bébé - Livro de Instruções, arteplural ediçõesTodos os pais “por estrear” passam pelo ritual de ouvir centenas de conselhos contraditórios acerca do processo e de toda a experiência, desde que se sabe da gravidez. Toda a gente tem palpites, saber “de experiência feito”, truques e dicas, que vai partilhando com mais ou menos insistência, mais ou menos seriedade na voz. E é habitual que se diga, como “desculpa” para todas as dúvidas que possam surgir, que “os bebés não trazem livro de instruções”. Como se pode ver, isso já não é completamente verdade: o livro de Joe e Louis Borgenicht não vem com o bebé, é um facto, mas é mesmo um livro de instruções: com diagramas, listas de peças, questões frequentes, conselhos de utilização e, acima de tudo uma abordagem à puericultura bem diferente da habitual, cheia de fotografias “queridinhas” e inúteis e “paleio” mais ou menos metafísico.

Como se diz na contracapa, este é mesmo um “manual para principiantes sobre Tecnologia de Recém-nascidos“. Muito adequado para espíritos mais “técnicos”e uma óptima combinação de útil, agradável e divertido. E, sinceramente, acho que o trabalho de ilustração é uma óptima demonstração da utilidade do (bom) desenho na comunicação técnico-científica: muitas questões e explicações são bem mais evidentes numa boa ilustração do que em várias fotografias. No caso da puericultura, o que se perde no factor “que bébé tão fofinho!”, ganha-se na clareza do “ah! é assim que se pega no bébé… nunca tinha percebido onde ficava a outra mão”.

O Grande Livro do Bebé, de Mário CordeiroMas mesmo numa altura de aprendizagem acelerada, acho que a primeira escolha em termos de literatura técnica de puericultura continuaria a ser O Grande Livro do Bebé, de Mário Cordeiro, por ser mais aprofundados e por estar claramente pensado em termos da nossa realidade nacional.

Acima de tudo, é óptimo poder escolher e variar. E uma coisa é certa: independentemente da literatura consultada, teremos sempre a família, os amigos, os conhecidos e até alguns desconhecidos, disponíveis e desejosos de partilharem a sua experiência ou mesmo “coisas que ouviram dizer”.

“O saber não ocupa lugar”, não é?