Montanhas de papel

Qualquer pessoa normal ficaria surpreendida ao olhar para a actual dimensão, em papel, dos elementos obrigatórios a submeter às Câmaras Municipais no momento de entregar um projecto de arquitectura. É que são montanhas de papel!

No tempo do e-gov, da obrigatoriedade de preenchimento online de declarações ao Estado, de informatização generalizada nos serviços da administração pública e de todas essas coisas que se dizem por aí, apesar de ser norma e, em alguns casos, obrigação dos arquitectos, desenvolver e apresentar os projectos (também) em formato digital, o processo de entrega dum licenciamento continua a passar pela manipulação de cópias variadas de documentos de diversas fontes e preenchimento de formulários e minutas que, apesar de estarem disponíveis em formato digital e corresponderem a realidades informáticas em cada uma das entidades emissoras ou receptoras (Registos Prediais, Finanças, Instituto Nacional de Estatística, a própria Câmara Municipal, a Ordem dos Arquitectos…) têm que ser impressas, coleccionadas e entregues em duplicado, triplicado ou mais, dependendo do número de entidades “reguladoras” (Património, Economia, etc.).

O exemplo mais caricato é o dum formulário de dados estatísticos (para o INE) obrigatório em todos os licenciamentos, que está disponível em PDF, mas não como formulário digital, pelo que se imprime e preenche, para que, depois, alguém leia e volte a digitar a informação!

E cópias de BIs dos requerentes e dos técnicos e cópias de certidões que incluem referência a códigos de referenciamento electrónico no serviço emissor (Registo Predial, por exemplo), mas que se supõe não estar disponível para verificação noutros serviços… uma trapalhada que resulta em noites em claro só para a tarefa de imprimir e verificar as tais montanhas de papel.

Estamos (eu e a Cláudia), numa dessas “aventuras”. Eu, solidário, a gerir a impressora e a organizar processos enquanto ela finaliza e verifica PDFs. É um nunca acabar de árvores mortas que me passa pelas mãos e que tem como único objectivo alimentar um monstro burocrático. E não páro de pensar se alguém verifica mesmo estas pilhas de papel e as usa para seja o que for. De facto, não acredito que seja útil e acho mesmo que tudo não passa dum embuste: para que ninguém tenha o trabalho e assuma a responsabilidade de organizar estes processos com mecanismos de centralização, verificação e validação documental, “venham daí as cópias em papel que a indústria da celulose agradece e nós havemos de pedir instalações maiores para os arquivos”!

E lá vamos, cantando e rindo…

(a impressora pede, incessantemente, mais papel)