jazz.pt | Alípio C. Neto Quartet + Ivo Perelman Trio

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

16 de Abril 2009, 22h00, Casa da Música, Sala 2
Integrado no Ciclo Jazz e no País Tema 2009 (Brasil)

Duplo Concerto: Ivo Perelman Trio + Alípio C. Neto Quartet

Este duplo concerto, proposto pela Casa da Música e integrado simultaneamente no Ciclo de Jazz e na programação do país tema para 2009, o Brasil, ao juntar 2 formações lideradas por saxofonistas brasileiros “emigrados” (Alípio C. Neto em Portugal, Ivo Perelman nos EUA), constituiu um interessante desafio para o público a quem se apresentou, numa sessão única e num contexto onde parecia haver tantas semelhanças, 2 experiências claramente diferentes.
A música que se fez ouvir, e, com ela, os processos, as estratégias e a atitude dos dois grupos, foram um óptimo exemplo da extraordinária diversidade que se pode encontrar no jazz contemporâneo, independentemente das restrições taxonómicas que se queiram construir. Continuar a ler

Handmade Music @ Casa da Música

Ao repto para a internacionalização das festas Handmade Music, a Digitópia responde com uma série de festas regulares que juntam um “mostra&conta” a uma “jam session” com instrumentos únicos. De hardware a software feito em casa até “circuit bending”, kits personalizados ou instrumentos acústicos originais, todos estão convidados a aparecer na Casa da Música pelas 21h30 para montagem de instrumentos. Estarão disponíveis algumas mesas e tomadas, contudo os canais de amplificação serão muito limitados, pelo que será melhor vir prevenido. Pelas 22h abrimos o evento ao público geral– a entrada é livre e recomenda-se-, ocupando a Digitópia e a zona do bar do Foyer Sul. O primeiro evento é já no dia 21 de Julho, uma data especial já que coincide com o final da SMC Summer School e o início do SMC 2009. Contamos convosco!

via http://www.ruipenha.pt

jazz.pt #25 já nas bancas!

jazz.pt #25, imagem da capa

A jazz.pt #25 [Julho e Agosto] já está nas bancas, com Bill Dixon, Jazz em Agosto, Greg Osby e a Lisbon Jazz Summer School em destaque na capa.

Eu assino 2 reports de concertos na Casa da MúsicaQuarteto de Alípio C. Neto + Ivo Perelman Trio e The inside songs of Curtis Mayfield, por William Parker— e 3 críticas de discos no Ponto de Escuta:

Vão lá comprar a revista para confirmar. Eu publico os textos aqui no blog, mas só depois de ter tido tempo de ler a versão em papel. E ainda nem sequer tenho a minha.

jazz.pt | Wayne Shorter Quartet

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
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Wayne Shorter Quartet

Sala Suggia, Casa da Música, Porto | 11 de Março de 2009

Wayne Shorter (Sax Tenor e Soprano), Danilo Perez (Piano), John Patitucci (Contrabaixo), Brian Blade (Bateria)

A actual fase da carreira de Wayne Shorter, com o regresso à forma do quarteto acústico e com os cúmplices de elevadíssimo nível que escolheu para o acompanharem, é marcada, claramente pela afirmação do próprio Shorter que diz “com a idade que tenho, não tenho nada a perder“. Não é claramente por uma questão de idade, mas sim pela vastíssima experiência e pela quantidade de distinções e reconhecimento generalizado da sua importância na história do jazz que Shorter se encontra num patamar em que, não tendo nada a provar, pode assumir um caminho de risco que, nem sempre trilhou com o mesmo à vontade. Tendo ao seu lado músicos com tanta qualidade e mérito reconhecido nas várias áreas musicais em que se movem, o quarteto cumpre essa condição de se poder apresentar sem medos, sem sentimentos de cumprimento obrigatório destas ou daquelas expectativas. Apresentam-se com e pela música, conscientes de que o caminho que percorrerem, seja ele qual for, está de tal forma bem alicerçado na extraordinária capacidade técnica individual e na vastidão do repertório que se dedicam a desconstruir, que a viagem os levará sempre a bom porto, ainda que desconhecido.
De facto, a estratégia empregue pelo quarteto para o set contínuo de quase 1 hora com que brindou a vasta audiência que se dirigiu à Sala Suggia, consitiu na exploração sucessiva de frases e/ou temas, uns mais reconhecíveis do que outros, das várias fases da ecléctica carreira de Shorter. Num fluxo constante de ideias musicais partilhadas, apontamentos pontuais, ora de Shorter, ora de Danilo Perez, ora de Patitucci, realimentavam os ouvidos do público com material familiar e, quase sempre rapidamente, iniciava-se um processo de desmembramento ou escalpelização, passando pelas várias estratégias instrumentais disponíveis. A formação clássica erudita de Danilo Perez e John Patitucci, revelaram “cadenzas” escondidas, encaixadas nas formas mais ou menos jazzísticas ou mais pop(ulares); o virtuosismo técnico de Brian Blade, oferece ao quarteto, a bateria como instrumento solista, livre das hierarquias tradicionais e a veia de Wayne Shorter, que “aqueceu” com o decorrer do concerto, navegava sobre todo o material.
Mas mais do que a capacidade interpretativa ou técnica, o quarteto demonstrou uma imensa capacidade auditiva e colaborativa, trabalhando de forma notável as trocas de material, os processos de pergunta-resposta e mantendo, apesar da inexistência duma base rítmica ou harmónica convencional, uma coesão estrutural assinalável ao longo do (longo) set.
A execução do exercício proposto só aparece prejudicado pela fraca qualidade da amplificação utilizada neste formato acústico, onde a excessiva amplificação do piano de Danilo Perez, cria uma base dinâmica muito comprimida e retira ao quarteto algum do seu potencial expressivo.

O público menos adepto da estratégia inicial terá sido amplamente recompensado pelos 3 encores, onde o quarteto (a)cedeu à apresentação mais convencional de cada tema, com Brian Blade e John Patitucci a assumirem de forma mais clara a posição de secção rítmica e Wayne Shorter a ter mais espaço para “solar”, quer no soprano, quer no tenor.

Para um quarteto que subia ao palco sem nada a perder e se lançou convictamente numa exploração partilhada, podemos dizer que, com os encores, o concerto é uma aposta completamente ganha.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
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jazz.pt | Luso Skandinavian Avant Music Orchestra

Texto escrito por João Martins, a 02/10/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 21 da revista jazz.pt.
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Luso Skandinavian Avant Music Orchestra
dirigida por Raymond Strid

Casa da Música, Sala Suggia, Terça-Feira, 30 de Setembro de 2008, 22h00

  • Raymond Strid – Direcção e Bateria
  • Gabriel Ferrandini – Bateria
  • Rodrigo Amado – Saxofone Tenor e Barítono
  • Sture Ericson – Saxofone Tenor e Clarinete
  • Sten Sandell – Piano
  • João Paulo – Piano
  • Nuno Rebelo – Guitarra
  • Dave Stackenas – Guitarra
  • Ernesto Rodrigues – Violino
  • Per Zanussi – Contrabaixo
  • Per-Ake Holmlander – Tuba

O concerto de encerramento do Ciclo Novas Músicas na Casa da Música, também integrado no contexto temático do Focus Nórdico, permitiu o encontro em palco de músicos portugueses e escandinavos, todos activos na improvisação livre, sob a direcção do baterista sueco Raymond Strid, com a designação de Luso Skandinavian Avant Music Orchestra.
Strid, com um percurso musical peculiar, já que começou directamente pela improvisação livre, escapando a percursos mais comuns de “fuga” (ao jazz, ao rock, ao pop…), explora há muito os jogos de improvisação (Gush, a colaboração com Mats Gustafsson e Sten Sandell, por exemplo começou nesse contexto) e a estratégia de direcção e construção da experiência deste encontro luso-escandinavo passou por cartões coloridos— pelo que se pôde perceber, verdes para protagonistas, vermelhos para paragens e brancos para ambientes—, que conduziram um set único marcado por contenção, exploração de diferentes formas de silêncio e uso generalizado de técnicas instrumentais expandidas.
A instrumentação (2 pianos, 2 guitarras, 2 baterias, 2 saxofones, 1 contrabaixo, 1 violino e 1 tuba) e a distribuição entre “nações”, poderia sugerir “confrontos” de estratégia ou linguagem, ou sucessões de diálogos-debates-demonstrações, mas os 11 músicos em palco não só estavam empenhados no cumprimento das regras do jogo e, por isso, bastante dependentes das instruções de Strid, como pareciam relativamente de acordo quanto aos registos tímbricos a usar e à manutenção da forma fluída e livre. Praticamente todos os instrumentos foram tocados durante grande parte do concerto nos seus limites técnicos quanto à produção de som (arcos sul-tasto e cordas afinadas em sub-graves, abafadores manuais externos nos pianos, ruídos nos corpos das guitarras, guinchos, vento e slaps nas palhetas, voz na tuba, mãos e escovas nos corpos das baterias), esbatendo a identidade musical e instrumental e afirmando um contínuo sonoro, com menos variações dinâmicas do que se esperaria dum ensemble tão numeroso. Rodrigo Amado e Raymond Strid, com auxílio de Dave Stackenas, terão protagonizado o momento mais “activo” do set, mas não passou duma curta excepção a uma performance que parecia marcada por um certo receio da massa sonora possível e que, de tanto se esforçar por criar silêncios, fundamentais nas improvisações colectivas, poderá ter esquecido a possibilidade de pontuar mais momentos e libertar outras expressões. João Paulo e Sture Ericson terão esboçado ainda uma espécie de duo, com alguma troca de material e Sten Sandell, parecia procurar responder às partículas ocasionais produzidas pelo ensemble, mas nenhum momento se afirmou verdadeiramente, nem pela dinâmica, nem pelo eventual estabelecimento de diálogos compreensíveis.
A fraca afluência de público, numa sala que não é particularmente acolhedora nessas condições, poderá ter tido algum impacto nos níveis de energia em palco, mas a direcção de Raymond Strid parecia, de facto, apostada na exploração duma certa ideia de silêncio intersticial.
De resto, é de destacar, o equilíbrio e o acordo entre todos os envolvidos (portugueses e escandinavos), que pareciam coordenados a um nível mais profundo do que a direcção, por vezes hesitante, de Raymond Strid, permitia compreender (que complicado que é gerir um sistema de direcção com a vontade de participar no jogo).

Texto escrito por João Martins, a 02/10/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 21 da revista jazz.pt.
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jazz.pt | Searching for Adam

Texto escrito por João Martins, a 28/09/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 21 da revista jazz.pt.
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Searching for Adam
de Rodrigo Amado

  • Rodrigo Amado, saxofones
  • Taylor Ho-Bynum, cornetas
  • John Hebert, contrabaixo
  • Gerald Cleaver, bateria

Casa da Música, 18 de Setembro de 2008, Sala II

O concerto do novo projecto de Rodrigo Amado, que pretende cruzar de algum modo as suas duas ferramentas artísticas, fotografia e música, estreou-se na Casa da Música, no Porto, com a particularidade de não estar disponível para o público da cidade a exposição de fotografia que é parte integrante da “experiência”. No entanto, quer pela projecção das imagens que acompanha e participa no concerto (da responsabilidade de Guillaume PazatKameraphoto), quer pela música produzida pelo quarteto em estreia (Rodrigo Amado convida para este projecto músicos notáveis com quem nunca tinha tocado antes), a veia fotográfica do projecto é extraordinariamente nítida e visível, mesmo para quem apenas usufrui do concerto.
O desenvolvimento da música improvisada por Rodrigo Amado, Taylor Ho-Bynum, John Hebert e Gerald Cleaver, permite a audição-visualização de “planos fotográficos” de alguma forma relacionados com as imagens recolhidas por Rodrigo Amado em Nova Iorque ao longo dos anos e em exposição na Galeria Módulo, em Lisboa. Como as fotografias, esta música é muito mais instantânea do que meticulosamente preparada, nasce muito mais da reacção instintiva do indivíduo à realidade que o envolve e se desenrola perante ele, fixa expressões e estados de espírito em caras e poses naturais, sem esconder ou mascarar a complexidade para lá do primeiro plano, capta pormenores e detalhes que “habitam” estruturas vivas e complexas… a música, como a fotografia, tem profundidade de campo, mostra-nos temas e detalhes focados em primeiro plano, sem esconder os seus vivos ambientes urbanos.
O contraste entre o fraseado mais linear e narrativo usado por Rodrigo Amado e a vasta paleta tímbrica e quase impressionista de Taylor Ho-Bynum, nas cornetas assegura parte substancial deste “efeito”. Mas a eficácia do concerto enquanto objecto musical conseguido, deve-se igualmente à segurança estrutural da secção rítmica, com a bateria de Gerald Cleaver e o contrabaixo de John Hebert que, sem limitarem a margem de manobra do ensemble, conduzem e acompanham as inflexões rítmicas e dinâmicas necessárias para a construção das várias paisagens e para a afirmação dos sujeitos em observação.
De resto, o “movimento” do colectivo (e do concerto) tem também qualquer coisa de fotográfico, na forma como sentimos variações “focais”, conduzidas sabiamente por cada um dos músicos, capazes de liderar e afirmar um detalhe, com a mesma eficácia com que acompanham o percurso seguinte, numa oscilação delicada e bem conseguida entre primeiros e últimos planos.
Uma estreia auspiciosa para um projecto que, sem pretensões despropositadas, e com extraordinária simplicidade na apresentação, nos coloca, de facto, perante uma forma alternativa e muito bem conseguida de cruzamento transdisciplinar, onde a fotografia se afirma como excelente catalisador da criação e improvisação musical.

Texto escrito por João Martins, a 28/09/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 21 da revista jazz.pt.
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jazz.pt | Insólito na Casa da Música

Texto escrito por João Martins, a 17/07/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 20 da revista jazz.pt.
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Saxophone Summit

  • Dave Liebman sax tenor, soprano e flauta
  • Ravi Coltrane sax tenor
  • Joe Lovano sax tenor e clarinete alto
  • Phil Markowitz piano
  • Cecil McBee contrabaixo
  • Billy Hart bateria

Casa da Música, 10 de Julho 2008, 23h00, Sala Suggia

INSÓLITO

Pouco mais de um mês depois do lançamento de “Seraphic Light” (Telarc, 2008), o regresso de Saxophone Summit a Portugal, renascido após a morte trágica de Michael Brecker com a colaboração de Ravi Coltrane— não no lugar de Brecker, mas na manutenção da estrutura do sexteto com 3 saxofones—, alimentava consideráveis (e compreensíveis) expectativas. E a grande afluência de público entusiasta à Casa da Música foi reflexo disso mesmo.
O projecto liderado por Dave Liebman, assumidamente comprometido com a exploração da herança menos visível do mestre do sax tenor John Coltrane, procurando, mais do que tocar o repertório “tardio” de Coltrane, encontrar formas de o (re)aproximar do público, iluminando os diferentes aspectos que tornam esta música “transcendente” e, por isso mesmo, menos imediata, conquista de facto a crítica e o público especializado e, aparentemente, a particularidade de juntar em palco tantos nomes consagrados (3 dos mais importantes saxofonistas do Jazz de hoje, seja com Brecker, até 2007, seja com Ravi Coltrane, agora, unidos a uma secção rítmica de luxo) confere ao projecto um factor atractivo extra que, felizmente, mobiliza também um público menos especializado. A designação usada por vezes de “os 3 tenores do jazz” explora precisamente esse aspecto grandioso e mediático que é justificado não só pelo imenso currículo de cada um dos músicos, como pelo considerável esforço empregue na procura do equilíbrio entre as diversas personalidades musicais e a herança que pretendem partilhar.
Não era por isso de estranhar o entusiasmo e a invulgar afluência de público e, também por isso, a sucessão de acontecimentos neste dia 10, na Casa da Música, pode ser descrita como “insólita”, com um olhar benevolente, mas configura-se como uma das situações mais caricatas, graves e deprimentes a que tive oportunidade de assistir numa estrutura e evento desta natureza. O concerto, incluído no ciclo “Verão na Praça” estava previsto para ocorrer na Praça, com a possibilidade de acontecer na Sala Suggia, caso as condições meteorológicas a isso obrigassem (que foi o que aconteceu com “Blood On The Floor“, pelo Remix Ensemble, 5 dias antes). Esta variabilidade é normal e pressupõe apenas alguma capacidade de previsão e planeamento, pelo que, quando ao princípio da noite e de acordo com as previsões meteorológicas desse dia, começou a choviscar, o público já presente presumia que o concerto seria então mudado para a Sala Suggia, apesar do equipamento já montado na Praça. Com espanto crescente, proporcional ao número de pessoas que continuava a chegar e a engrossar a multidão, fomos sendo informados que o concerto decorreria na Praça, uma vez que o material já estava montado. O espanto foi temperado com humor, aqui e ali, quando, à hora marcada para o início do espectáculo (22h00) e com uma chuva persistente a varrer a Praça, se ouviam assistentes da Casa da Música dizer que a decisão acerca da realização do concerto na Praça ainda estava a ser tomada, que existia esperança de que o tempo melhorasse e que seria feito um anúncio em breve. Entre os típicos comentários desiludidos ora com o Estado da Nação (que se debateu na AR nesse mesmo dia) ora com o mais que provável cancelamento do concerto (estes em mais do que uma língua, já que o concerto de Saxophone Summit teve dimensão suficiente para atrair outros públicos, nomeadamente espanhóis), o anúncio prometido causou acima de tudo perplexidade: o concerto começaria 45 minutos depois da hora marcada, na Praça (onde chovia tanto na plateia como no palco, ainda), a não ser que as condições meteorológicas o não permitissem. Prometia-se a troca dos bilhetes ou a devolução no dia seguinte, mas reforçava-se a vontade de fazer o concerto com o referido atraso. Da multidão mobilizada não é claro quantos se retiraram, mas não terão sido muitos. Fosse pela perplexidade, fosse pela expectativa de seguir a novela até ao fim, o público foi-se espalhando pelos corredores, pelas escadas, pelo foyer e pelo café e às 22h40, a perplexidade é alimentada com um novo anúncio, verdadeiramente espantoso: dada a inexistência de condições meteorológicas (que o público podia comprovar há mais de 3 horas), mas face à “enorme vontade” de realizar o concerto, ele iria ter lugar às 23h00 (uma hora depois da hora marcada), na Sala Suggia, mas “ACÚSTICO”. A reacção generalizada misturava o alívio e satisfação pela realização do concerto, com a indignação face à desorganização e ao atraso, temperada, aqui e ali, pela incredulidade de quem (não) compreendia o verdadeiro significado da referência ACÚSTICO.
Propunha-se a Casa da Música a apresentar na Sala Suggia (com mais de mil lugares e deficiências acústicas bem conhecidas) um sexteto de Jazz sem qualquer amplificação? Com que objectivo? Porquê? Quem teria tomado a decisão, tendo preferido a apresentação nessas condições ao já previsível cancelamento? Saberiam os músicos a verdadeira dimensão do problema? Estaria o público preparado para uma experiência desta natureza?

Estas e outras perguntas acompanharam-me e mantiveram-me relativamente baralhado até ocupar o meu lugar na 3ª fila, procurando garantir alguma proximidade do palco, e a quantidade de gente que acedeu a assistir ao concerto nestas condições, enchendo a sala a perto de 2/3 da lotação (ou seja, com muito público a uma distância muito considerável do palco) deixou-me inquieto. Tendo assistido a vários concertos naquela sala, diversificados nas suas necessidades de amplificação, e tendo mesmo tido a oportunidade de tocar naquele palco, toda a situação me parecia surreal: os 3 saxofones sem amplificação teriam problemas de definição e amplitude, assim como a bateria, mas um piano acústico seria impossível de ouvir, a não ser que estivesse a solo e um contrabaixo com um simples combo no palco garantia condições catastróficas para a relação entre os diversos elementos da secção rítmica e tornaria absurda a exploração dos “solos simultâneos”— uma das características da herança de Coltrane que o Saxophone Summit procura realçar— já que, sem o apoio da amplificação, a Sala Suggia, quer no palco, quer para a plateia, pelas suas características acústicas, deixa tudo “empastelado”.
As perplexidades que sentia ao entrar na sala pareciam reflectir-se também no ar confuso de alguns membros da banda, com destaque para Phil Markowitz que compreendeu de imediato as dificuldades que teria em fazer chegar ao público, ou mesmo aos seus cúmplices em palco, o som do piano. E durante todo o concerto, o desconforto (e mesmo o desencontro) em palco entre os vários músicos reforçava apenas o enorme espírito de sacrifício ali investido. Um sacrifício inglório e desnecessário, já que ninguém tinha nada a provar. Ainda assim, de forma esforçada e manipulando a estrutura do concerto e até de cada tema, cada um dos 6 músicos teve o seu espaço de afirmação, necessariamente a solo, no caso do piano, contrabaixo e bateria, com um suporte mínimo no caso dos saxofones. O sexteto, como tal, nunca se ouviu, mas os ouvidos mais treinados terão imaginado e usufruído dessa ficção. E mesmo nas intervenções solistas, partes significativas das ideias musicais expressas só se consolidavam no complemento entre o que se ouvia na realidade e o que se esperava ouvir.
Uma experiência desgastante para os músicos e, certamente, para parte do público, resultado dum comportamento incompreensível e, esperamos, irrepetível, da Casa da Música.
Sem ter a certeza de ter sido o que realmente se ouviu (ou quanto disto é fruto da minha imaginação), é interessante notar que a lógica do disco, em que os temas mais densos e transcendentes do Coltrane dos anos 60 são reservados para o fim, não é seguida no concerto. A abertura, com “Seraphic Light“, o tema que dá nome ao álbum, e com os 3 saxofones a explorarem solos simultâneos, liberdade rítmica e harmónica, apoiados numa base densa e ondulante da secção rítmica, esclarece em palco a verdadeira natureza do projecto, mas, no caso concreto, demonstrou também imediatamente as situações impraticáveis. O tema mais “claro” terá sido “The 13th Floor“, de Ravi Coltrane, com introdução solo de Cecil McBee e a diversificação dos sopros (Dave Liebman no sax soprano e Joe Lovano no clarinete alto) que “abriu” ligeiramente o campo sonoro. Phil Markowitz teve oportunidade de desenhar também ele uma introdução a solo, assim como Billy Hart que pode, ainda assim, explorar algumas situações de partilha com os saxofones (um de cada vez) aproveitando a supremacia do volume.
Mas qualquer consideração pormenorizada sobre o concerto terá tanto de conjectura como de facto, pelo que será sempre duma enorme injustiça para com os músicos. Sempre menor do que a injustiça praticada pela Casa da Música, ainda assim.

Um último apontamento de perplexidade: apesar do cenário descrito, a reacção do público que permaneceu foi entusiástica, com palmas de toda a sala, inclusivamente a solos que duvido se ouvissem depois da 5ª fila.
Solidariedade para com o esforço dos músicos? Satisfação pela capacidade que demonstraram de se adaptarem e “desenrascarem”, à boa moda portuguesa? Alucinação auditiva colectiva, alimentada por um profundo conhecimento dos vocabulários em uso ao ponto de permitir uma reconstrução cerebral, mas inconsciente, do concerto ideal? Provincianismo extremo, ao ponto de ser irrelevante a situação musical, face ao significado simbólico de estar perante consagrados? Reacção instintiva e incontrolável?…

O insólito evento certamente deixou marcas em todos os presentes. Esperamos que tenha deixado também uma lição à Casa da Música.

Links:

Texto escrito por João Martins, a 17/07/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 20 da revista jazz.pt.
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jazz.pt | Blood on the Floor

Texto escrito por João Martins, a 16/07/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 20 da revista jazz.pt, com fotografias cedidas pela Casa da Música.
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Blood On The Floor, de Mark-Anthony Turnage
pelo Remix Ensemble e solistas de jazz
dirigido por Peter Rundel

Solistas Jazz

  • Peter Erskine bateria
  • John Parricelli guitarra
  • Martin Robertson saxofones alto e soprano
  • Laurence Cottle baixo

Casa da Música, 5 de Julho 2008, 22h00, Sala Suggia

A apresentação de “Blood On The Floor“, obra do compositor britânico Mark-Anthony Turnage escrita entre 1993 e 1996 e estreada nesse ano, em Londres, pelo Ensemble Modern, sob direcção de Peter Rundel e com um corpo de solistas de jazz com Peter Erskine em lugar de destaque, mas também John Scofield e Martin Robertson, é sempre uma ocasião privilegiada para pensar as diferentes relações que o Jazz pode estabelecer com a música escrita / erudita. As opções no processo de criação da peça, o seu próprio desenvolvimento ao longo das sucessivas apresentações, com a introdução do papel do baixo como ponto de encontro entre os dois mundos musicais, em grande parte pela influência de Dave Carpenter e o estado actual da obra permitem-nos compreender possíveis dinâmicas desta relação específica.
A apresentação na Casa da Música, com o maestro responsável pela estreia, com o Remix Ensemble reforçado— que se propõe pela segunda vez, e passados 5 anos, apresentar esta peça— e com um corpo renovado de solistas (Parricelli no lugar de Scofield, por questões de agenda e Laurence Cottle no lugar de Dave Carpenter, devido ao seu inesperado e trágico falecimento semanas antes deste concerto) permitiu ao público já conhecedor da obra o contacto com um objecto mais “amadurecido” e aos estreantes, uma aproximação rigorosa e bem sucedida às intenções de Turnage.
Para lá de considerações de teor mais ou menos filosófico acerca da validade e bondade da estratégia e objectivos de Turnage nesta obra, que agradará a muitos, mas desagrada, naturalmente, aos mais sectários militantes seja da música erudita, seja do Jazz, como refere Erskine na entrevista concedida à CdM, a obra “responde aos maiores desejos e esperança do movimento (…) que começou com Raphsody in Blue de Gershwin e continuou na década de 50 com o movimento Third Stream” e apresenta caminhos reais de contacto entre formas de pensar e fazer a música, ainda assim, difíceis de conciliar.
Blood On The Floor” que resulta duma interpretação inicial de Mark-Anthony Turnage da obra homónima de Francis Bacon, se, por um lado, evolui no contacto inicial com Peter Erskine no sentido de integrar estratégias e vocabulários jazzísticos, explorando estruturas rítmicas permutáveis propostas pelo próprio Erskine e se pode definir como um encontro entre um ensemble contemporâneo erudito e um corpo de solistas de jazz, apresenta-se na realidade como uma peça relativamente convencional a um nível estrutural, onde a presença dos jazzmen parece ter sido “domesticada” logo após as primeiras experiências e é, nesse sentido, “instrumentalizada”, abdicando-se, ao nível interpretativo, das reais estratégias jazzísticas que podem ter influenciado a escrita. Não é uma abordagem nova, nem sequer se pretende com estas considerações criticar negativamente as opções do compositor: a relação necessariamente complexa entre o ensemble e os solistas, a bem duma certa estabilidade interpretativa, relevante no universo da música de tradição clássica, precisa de fronteiras e regras definidas e a opção de Turnage de iniciar e finalizar a obra no “seu território”, reservando dois andamentos centrais (em 9), Needles e Crackdown, para injecções mais claras do vocabulário jazzístico e mantendo uma relativa compartimentação entre os materiais em uso pelos solistas de jazz e pelo ensemble— com excepção de padrões rítmicos de Erskine, das contribuições atribuídas a Dave Carpenter e que permitem uma maior solidez global e dos solos de Martin Robertson, em regra, “dobrados” ora por um solista do ensemble (flauta, trombone) ora pelos saxofonistas do Remix— é uma opção que aproximará “Blood On The Floor“, do ponto de vista interpretativo e como resultado musical global, duma peça do universo erudito e escrito, não muito variável, mas cuja contaminação é claramente perceptível. Aliás, na esteira duma tradição de séculos na música erudita ocidental que procura integrar nos seus processos as linguagens ou os “dialectos” mais estimulantes: Bartok, Ravel, Debussy ou até Lopes-Graça, para citar nomes significativos e diversificados, trouxeram para a sua escrita expressões populares ora próximas, ora longínquas, muitas das vezes, descartando os processos dessas músicas e fazendo delas um uso temático e adaptado. Não será exactamente nessa tradição de princípios do séc. XX que Turnage se inclui, mas não se pode deixar de notar que não são processos jazzísticos os que se destacam na interpretação, ainda que se ponham reconhecer em alguns momentos da obra. Reconhecem-se isso sim, clichés e vícios de linguagem do Jazz em geral e de alguns dos solistas em particular, o que retira à obra alguma da “identidade” ou do “carácter único” normalmente associado ao Jazz.
Feitas as ressalvas, não podemos deixar de concordar com o multifacetado Erskine, quando afirma que Blood On The Floor tem “um incrível potencial” e é, de facto, uma das possíveis e válidas formas de cruzar o Jazz com a música erudita. Claro que “o futuro da música é impossível de prever”, mas a “Passacaglia in Memoriam Dave Carpenter“, escrita propositadamente por Turnage e que abriu o concerto, com o próprio compositor ao piano, solistas e ensemble, terá mostrado que a experiência de 12 anos com “Blood On The Floor” pode ter aproximado Mark-Anthony Turnage duma escrita ainda mais interessante para um ensemble desta natureza, melhorando as perspectivas.

Quanto à interpretação da peça foi dum extremo rigor e qualidade técnica por parte de todos os envolvidos, mostrando maior maturidade por parte do Remix Ensemble, uma imensa capacidade de trabalho de Laurence Cottle, com a difícil tarefa de substituir Dave Carpenter, e o papel central de Erskine na composição e interpretação. Um êxito, portanto, ainda que o final da peça, relativamente previsível e fechando novamente o ensemble erudito sobre si próprio possa ter desiludido ligeiramente.

Texto escrito por João Martins, a 16/07/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 20 da revista jazz.pt, com fotografias cedidas pela Casa da Música.
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jazz.pt | Scorch Trio

Texto escrito por João Martins, a 30/05/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 19 da revista jazz.pt, com fotografias de Luís Pedro Carvalho.
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Casa da Música, Sala 2
27 de Maio 2008

Scorch Trio

Raoul Bjõrkenheim guitarra
Ingebrigt Håker Flaten baixo
Paal Nilssen Love bateria

Apesar de estar anunciado como sendo parte do Focus Nórdico, uma parte substantiva das pessoas que se dirigiram à Casa da Música para assistir ao concerto do Scorch Trio, esperava um concerto de Jazz. E sabemos que por mais que se tentem educar os espíritos e os ouvidos para quebrar as barreiras estilísticas, parte do público que espera “Jazz”, não espera o material sonoro do Scorch Trio. E assim se explica, em jeito introdutório a enorme disparidade entre o número de pessoas à espera que o concerto começasse, às 22h00, e o número de resistentes (e, menos ainda, entusiastas) que ainda estavam na sala, na altura em que se deu por terminada a sessão. Mas foi um mau concerto? Não na minha opinião, mas foi, muito provavelmente, um concerto para o público errado, se é que tal coisa existe.
O trio que une Raoul Bjõrkenheim à secção rítmica de Element exige dos ouvintes uma disponibilidade fora do vulgar. O empenho com que os três músicos evitam a criação de momentos de estabilidade estrutural (seja rítmica, harmónica ou melódica) e o talento criativo que investem na exploração dos seus instrumentos numa abordagem expandida, transforma a experiência de audição num desafio à concentração, dada a quantidade de eventos simultâneos. Apesar dum aspecto geral relativamente marcado por ambientes flutuantes, reminiscentes de transes xamãnicos identificáveis como influências de Hendrix, por exemplo, a fluidez da performance dificulta a identificação de pontos de referência, âncoras a que o ouvinte se possa segurar, ou noções direccionais que permitam compreender a evolução.
A liberdade da performance é, nesse sentido, real e só a escuta atenta, tanto com os ouvidos como com o cérebro, permite descobrir, em toda aquela densidade, a troca pontual de material rítmico e melódico entre os três músicos, libertos de hierarquias e papéis convencionais. Nos momentos (intencionais, presumo) de pausa e solo (o primeiro de Paal Nilsen Love confirma-o como um baterista de excepção a todos os níveis), essas trocas tornavam-se mais evidentes, com os músicos a sucederem-se na exploração de ideias e padrões já apresentados, mas rapidamente a intervenção intencionalmente desconstrutiva dos três músicos dificultava a leitura e análise do material, cuja relação se tornava mais ou menos evidente com a flutuação de intensidades que manteve a tensão necessária em cada um dos dois sets.
O talento criativo e a mestria técnica de cada um dos músicos deste “power trio”, especialmente no que diz respeito à diversidade tímbrica, evidencia a honestidade da proposta e nos momentos mais bem conseguidos da performance, qualquer um dos três músicos terá surpreeendido qualquer um dos presentes com rasgos de génio, com destaque, se me é permitido, para o domínio fora de série duma complexa matriz de processamento por parte de Ingebrigt Håker Flaten, num instrumento tradicionalmente difícil.
Mas a performance do Scorch Trio não resulta pela soma das personalidades. Resulta pelo nível percebido de risco e pela sintonia entre os músicos na alimentação das dinâmicas que os permitem explorar um espectro diversificado de ambientes sonoros, sem se resignarem às suas posições convencionais.
Quanto ao público, a estranheza é, apesar de tudo, compreensível: as ideias base que conformam a improvisação do Scorch Trio parecem ter sido desenvolvidas antes do início do concerto, ficando reservadas para a performance a exploração já fragmentada e dispersa dos seus pequenos elementos…
Incrível para quem acompanha os processos de criação musical. Eventualmente demasiado trabalhoso para quem pretende usufruir apenas dum concerto.

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Texto escrito por João Martins, a 30/05/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 19 da revista jazz.pt, com fotografias de Luís Pedro Carvalho.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt

jazz.pt | 2 dias de História do Jazz

A 28 e 29 de Abril de 2008 a Casa da Música ofereceu ao seu público 2 eventos históricos em vários sentidos. O mais óbvio trata-se da referência explícita, nos 2 concertos apresentados, a duas figuras seminais da História do Jazz: Charlie Parker e Thelonious Monk. E interessa, não só por isso, mas também por se afirmarem, em duas noites autónomas, projectos com uma forte componente historiográfica e, até, pedagógica. Os dois pianistas e compositores responsáveis por cada uma das noites, Bernardo Sassetti e Jason Moran, não só partilharam de forma genuína as suas referências mais “profundas”, como apresentaram, com diferentes perspectivas, percursos através da(s) história(s) do Jazz que permitem compreender a sua evolução natural e a inevitabilidade dum futuro sempre transformador.

O texto que se segue foi escrito a propósito desde duplo evento, para o número 19 da Jazz.pt. Continuar a ler