Porta 65 Fechada: MANI FESTA ACÇÃO

O Movimento Porta 65 Fechada promove um fim de semana de contestação com acções em vários pontos do país.
A causa é justa, o momento é este e é urgente agir. Eu, que beneficiei do antigo Incentivo ao Arrendamento Jovem e que sei reconhecer o impacto positivo que teve em parte da minha “auto-determinação”, acho que se “mete pelos olhos dentro” o absurdo duma parte considerável do Decreto Lei Porta 65.

Parece, entre outras coisas, que alguém achou que esta era uma boa forma de moralizar ou pressionar o mercado do arrendamento em Portugal e que, face a esse desígnio maior, o sacrifício duma geração era perfeitamente aceitável. A malta, ainda por cima, é nova!, o que é que lhes custa pôr a vida em stand-by, até que os proprietários percebam que estão a perder clientes ou “vítimas” e comecem a baixar os valores das rendas até aos padrões definidos pelo Estado? De facto…

Nota-se um padrão nesta forma de pensar e agir por parte do Executivo: é uma familiar mistura de autismo com prepotência cobarde.

Se o desígnio de moralizar o mercado do arrendamento é nobre, que sentido faz “atacar” a questão usando os jovens arrendatários como arma de arremesso?

O programa das festas para o próximo fim de semana pode ser visto no blog do movimento e, para quem estiver no Porto, fica aqui o meu convite especial para o concerto de F.R.I.C.S. na Casa Viva, no sábado, dia 9, às 21h00.

Cartaz do fim de semana de contestação promovido pelo movimento Porta 65 Fechada

Na ordem do dia: um agradecimento ao Alexandre Alves Costa

 O Arquitecto Alexandre Alves Costa esteve ontem Na Ordem do Dia, o programa da TSF em que as diferentes ordens profissionais têm tempo de antena. Não é irrelevante que tenha estado em representação da Ordem dos Arquitectos, mas a intervenção que fez diz-nos respeito a todos e põe muitas coisa na ordem do dia.


A mim, marcou-me o dia e devolveu-me um sentimento de admiração pela classe dos arquitectos pela qual nutro uma complexa mistura de amor e ódio… uma paixão assolapada, de facto.

Acho que a audição desta breve intervenção faz bem à alma de toda a gente que se preocupa com a cidade (a do Porto, particularmente), com a cultura e com o exercício activo e enérgico da cidadania.

Obrigado, Alexandre. Muito obrigado.

Raízes

Eu não sou propriamente agarrado a uma qualquer ideia de “raízes” e tenho até dificuldade— devido a uma certa inveja, talvez— em perceber as pessoas que são muito ligadas ao sítio onde nasceram ou do qual se sentem parte por uma razão ou por outra.
As circunstâncias de ter nascido numa altura em que os meus pais ainda não tinham “assentado” e de, nos primeiros 4 anos de vida, ter vivido em várias cidades e vários países, talvez seja responsável pela ideia que tenho de que o período mais longo e, teoricamente, mais formativo passado em Aveiro, entre os 5 e os 18 anos, não terá sido (estranhamente) suficiente para me sentir confortável com a ideia de “ser” desta cidade. O período posteriormente passado no Porto, apesar de mais curto e eventualmente menos significativo na formação da minha personalidade contribuiu também para esse sentimento de “desenraizado”, que sempre vi como uma coisa positiva. Mas a mudança regular de escola (as obrigatórias), associadas à mudança regular de grupos de colegas de turma (que não é tão comum assim, na minha geração) talvez seja responsável por uma parte muito significativa deste sentimento: um certo desprendimento em relação à ideia de ter “amigos de e para sempre” desprende-me de sentimentos de pertença social que, para quem sente as suas raízes, são tão ou mais importantes do que os sentimentos de pertença geográfica.

E foi no Porto, aliás, que encontrei mais pessoas que sentiam as suas raízes como algo de “fundamental”, umas por serem e se alimentarem do Porto, outras por sentirem o peso que esta cidade exerce e, assim reagirem pela afirmação de “raízes” que talvez nem sentissem, não fosse o caso de estarem na “inbicta“.

Estas sensações e reflexões, articuladas desta forma, devem-se, em grande parte, aos processos de criação de vários espectáculos do Visões Úteis, com ênfase particular nos projectos Visíveis na Estrada Através da Orla do Bosque, Coma Profundo, Errare, Cidade dos Diários e O Resto do Mundo, em que os conceitos de Memória, Lugar e Fronteira foram matéria-prima e combustível. Aliás, o Visões é precisamente um desses sítios onde se juntam pessoas “desenraizadas” com pessoas que se mantêm perto das suas raízes e pessoas que mantêm as suas raízes perto de si.

Tudo isto a propósito de pequenos momentos que vou saboreando demoradamente e que me fazem pensar que, apesar de tudo, tenho raízes:

  • comer uma francesinha ao balcão duma cervejaria em Gaia e ser tratado como um cliente habitual, mesmo que não vá lá mais do que duas vezes por ano;
    assistir à confecção da francesinha, ouvir as conversas dos empregados que, do outro lado do balcão estão no seu território, assistir às velhas cumplicidades com e entre os verdadeiros clientes habituais, perceber que o verdadeiro apreciador da francesinha é o que sabe que há dias para as tripas, para a tripa enfarinhada, para os rojões…
  • entrar no Conservatório de Música de Aveiro e ser tratado como “Joãozinho”, pelas mesmas funcionárias que lá trabalhavam quando era aluno;
    olhar para a sucessão de muros de pedra e canteiros onde nos sentávamos na conversa entre aulas ou em vez delas, por vezes com os professores…
  • estar sentado na areia da praia da Costa Nova ou da Barra, a olhar para o mar e, sem fazer o mínimo esforço para manter uma conversa, observar como ela flui;

Sem raízes, nem sequer conseguimos andar à deriva, não é?
A sério, a sério, vale a pena ler as entradas recentes do blog da minha irmã, com recolhas de testemunhos de moradores da zona oriental da cidade do Porto. Material para O Resto do Mundo.

Conhecem a nova pateira de Aveiro?

Pateira de Fermentelos (in Wikipedia)

A Pateira de Fermentelos é uma lagoa natural, localizada no triângulo dos concelhos de Águeda, Aveiro e Oliveira do Bairro, antes da confluência do Rio Cértima com o Rio Águeda.

Considerada uma zona húmida de elevada riqueza ecológica, a Pateira de Fermentelos desde cedo se tornou um sistema em que as actividades humanas se integravam perfeitamente na sua dinâmica, permitindo assim a manutenção da lagoa. A prática de uma agricultura drenante e a recolha constante do moliço (para posterior utilização como adubo natural), permitiu a manutenção de uma significativa superfície livre de água e impediu o avanço do pântano.

Este equilíbrio, entre a actividade agrícola e a recolha do moliço, conduziu a uma paisagem humanizada de elevada organização e diversidade, na qual a lagoa atingia a sua maior dimensão. No entanto, as alterações económicas e sociais operadas por volta da década de 1960, com a emigração de muitas pessoas da zona, reduziram progressivamente a prática de recolha do moliço, permitindo assim o seu livre desenvolvimento. Este processo foi ainda grandemente acelerado pela descarga de esgotos, efluentes orgânicos e industriais e drenagem dos terrenos agrícolas envolventes.

Margem da Pateira de Óis da Ribeira - Foto de Luís Neves
Margem da Pateira de Óis da Ribeira – Foto de Luís Neves

Eu gosto muito da Pateira de Fermentelos no sítio dela, por isso, é com estranheza e algum desconforto que tenho atravessado no meu percurso diário até ao escritório a nova “pateira” em que se está a transformar uma das áreas do lago no Jardim da Baixa de S.to António. Mais alguém reparou ou sou só eu?

Pateira da Baixa de S.to António

Cá está mais uma utilização possível para o Skitch… será que é um vício?

Bicing vs. BUGA

Através deste post no digit@lIP, fiquei a conhecer o projecto Bicingn, de Barcelona, que partilha imensos aspectos em comum com a nossa BUGA – Bicicleta de Utilização Gratuita de Aveiro. Acho que vale a pena estar atento ao desenvolvimento deste projecto, para ver até que ponto numa cidade com a dimensão de Barcelona, os problemas que afectam o conceito original da BUGA se aplicam ou não.

Uma das questões, a ausência de vias e percursos cicláveis bem planeados parece estar a ser acautelada na capital catalã. E isso, juntamente com a lógica não turística e virada para a ideia base de que este sistema de bicicletas pode fazer parte dum sistema de transportes públicos alternativos, na minha opinião, conta muito… mais do que os aspectos hi-tech dos cartões magnéticos e da disponibilidade online e em tempo real dos números de bicicletas em cada “estação”.

É de estar atento.

Declaração de voto

Peço desculpa a todos aqueles que estão neste momento a utilizar o seu dia de reflexão, mas não posso deixar de dizer que, se votasse em Lisboa, votava no José Carlos Fernandes. E não porque sou simpatizante do Bloco de Esquerda, mas porque o “Zé” cumpriu corajosamente com os seus compromissos, é frontal e sério, tentou com todas as suas energias fazer desta campanha um momento útil para a cidade, apesar de todos os ataques baixos a que foi sujeito, fala do que sabe e conhece a fundo as coisas que são verdadeiramente importantes.

Cartaz Zé Sá Fernandes

Mas estas eleições têm candidatos para todos os gostos:

  • há o António Costa, para os que sofrem de partidarite crónica (variante PS) e para os que acham que pode haver vantagem numa coligação de interesses entre a Câmara Municipal da capital e o governo do país, acreditando que a cidade pode ter alguma vantagem, nisso, ou seja, sendo suficientemente ingénuo para acreditar no que diz um alto dirigente deste Partido Socialista;
  • há o Fernando Negrão, para os que sofrem de partidarite crónica (variante PSD) e não se importam de ter um presidente que não distingue as empresas municipais e os Institutos do Estado e para os que acham que o voto autárquico nestas condições tem leitura na análise da dinâmica do centrão, ou para os que esqueceram que o Carmona Rodrigues era o candidato do Marques Mendes até cair em desgraça;
  • há o Telmo Correia, para os que sofrem de partidarite crónica (variante CDS-PP) e para os que acham que a segurança é mesmo um assunto quente especialmente na altura das eleições e que com video-vigilância se vai lá e para os que acham que o CDS do Portas (o que ficava) merece tanta ou mais confiança do que o do Ribeiro e Castro, que ainda conseguiu a eleição da Maria José Nogueira Pinto— cobiçada por todos para a reabilitação da Baixa-Chiado não fossem os chatos da esquerda a lembrar os problemas do modelo de financiamento e de gestão de tráfego e estacionamento e os da direita não a poderem reclamar para si…;
  • há o Ruben de Carvalho, para os que sofrem de partidarite crónica (variante PCP / CDU) e para os que ainda sentem conforto com a reputação de trabalho e confiança dos autarcas da CDU e ainda não se aperceberam bem que quem inventou as empresas municipais foi a própria CDU, não exactamente para serem o forróbódó que têm sido, mas para serem um espaço de empregabilidade mais flexível para clientelas partidárias e boas alavancas para o poder dos autarcas minoritários da CDU o que faz deles reféns, volta e meia (remember Rui Sá?);
  • há o Carmona Rodrigues, para quem anda de tal forma desfasado da realidade que não percebeu sequer porque é que vai haver eleições e só sabe é que foi bem simpático receber a visita do senhor presidente lá no Bairro que ainda por cima trouxe o Toi à festa da Associação… o Carmona também é uma boa escolha para os adeptos de teorias de conspiração esquisitas e que tenham um ódio de estimação aos partidos e ao “sistema” e que acreditem piamente que ele foi “tramado pelo sistema partidário”, em particular pelo chato do Zé Sá Fernandes do Berloque que fez tudo e mais alguma coisa para fazer a vida negra ao Executivo com pedidos de transparência e fiscalização (vê-se logo que esse “Zé” não percebe nada da alma dos negócios);
  • há o Manuel Monteiro, para os liberais mais hardcore que acham que é boa ideia acabar com as empresas municipais apenas para conceder a privados a prestação dos serviços essenciais ou confiar no mercado para conduzir a reabilitação urbana;
  • há o Garcia Pereira, para quem ainda compreenda o discurso do PCTP-MRPP e para quem ache razoável que os problemas financeiros da cidade e os investimentos infra-estruturais necessários sejam assegurados pelo Estado, sob a justificação abrangente de que os investimentos necessários para criar uma cidade capital digna em conforto, qualidade de vida, progresso, cultura e dinamismo económico deve ser um esforço nacional;
  • há o Pedro Quartin Graça para quem perceba essa coisa da ecologia humanista e para quem queira investir o seu voto numa visão parcial e especializada da vida política, da qual emanam propostas ingénuas como a transferência de fundos das portagens da Brisa ou o pagamento de indemnizações à cidade pelos atrasos nas obras do Metro e outras, por causa dos estaleiros;
  • há o Gonçalo da Câmara Pereira, para os monárquicos boémios e para outro tipo de anarcas que ache razoável a apresentação de candidaturas de indignação e protest protagonizadas por pessoas que, acerca da reabilitação urbana dizem que “Lisboa é tão bonita como está… não lhe façam nada”;
  • há o José Pinto-Coelho para os fascistas pouco inteligentes e exigentes e para quem acha que é mesmo boa ideia extinguir a PSP e a GNR para, em vez desses dois corpos, constituir um único corpo policial militarizado… e para quem seja capaz de ouvir com gosto a repetição doentia do soundbyte contra o “sistema”, os partidos, os homens do sistema e dos partidos e os tachos, sem que nenhum passo seja dado fora deste círculo confortável, demagógico e populista, com medo de perder a atenção do eleitor que é, certamente, considerado burro que nem uma porta;
  • há a Helena Roseta, para quem acredite na força e na importância dos movimentos de cidadãos, para quem goste de ver mulheres decididas, fortes e inteligentes na política, para quem aprecie a competência técnica e a frontalidade política de assumir a necessidade de fazer compromissos para governar com maiorias reais, construídas de acordo com a vontade dos eleitores (eu podia perfeitamente votar nela se não sentisse mais confiança no projecto global do José Sá Fernandes e espero que ela tenha um óptimo resultado);
  • e há o Zé, que faz mesmo falta.

Acima de tudo, o voto de todos os Lisboetas é importante para percebermos melhor que raio de jogo é este que se vai jogar nos próximos tempos no executivo camarário da maior cidade do país. O futuro de Lisboa dirá muito acerca do futuro do país, nomeadamente no que diz respeito ao tipo de coligações de interesses que surgirem e no papel que a candidatura de Carmona Rodrigues venha a ter na dança de cadeiras.

Muito se vai ficar a saber acerca da seriedade real de cada um dos intervenientes dessa dança.

Pequena descoberta

A web tem destas coisas: fui dar uma espreitadela à sala de refeições do Guilherme e, a partir das leituras recentes dele, dei de caras com uma entrevista (em espanhol) ao Francesco Carreri, autor de “Walkscapes, walking as an aesthetical practice”.

Para os leitores recentes isto não quer dizer nada, mas para quem me conhece há tempo suficiente para saber que eu (no Visões Úteis) estive envolvido na criação de dois audiowalks, lembra-se de algumas referências ao Carreri

Está tudo ligado!