História simples de civilidade

Estávamos na fila duma caixa Multibanco. A usar a caixa estava uma senhora de idade. Atrás, uma jovenzinha com ar impaciente (daquelas que poderia ter uma idade qualquer entre os 16 e os 30 anos). Estava assim quando chegámos e não sabíamos há quanto tempo estaria ali. Uns instantes depois, a jovem desistiu, soltando uma qualquer observação, provavelmente sarcástica, acerca do tempo que as pessoas de idade demoram nestas coisas e declarando a sua falta de paciência para tal. Repito que não sabemos quanto tempo esperou a jovem, mas presumimos que tivesse sido algum, pelo que a Cláudia se aproximou da senhora de idade para tentar perceber qual seria a dificuldade, já que estávamos com a Maria, que tem 15 meses e, por isso, boas razões para ser mais impaciente que a jovem desistente. A senhora de idade recebeu a oferta de ajuda da Cláudia com gentileza e alívio: a posição da caixa Multibanco face ao sol, como em muitos locais, tornava o ecrã quase ilegível e a senhora não conseguia confirmar os dados necessários para efectuar o carregamento do seu telemóvel. Com a devida autorização da senhora, a Cláudia foi fazendo a ginástica de pescoço e mãos-em-jeito-de-sombra, para ditar o que se lia no ecrã e concluir a operação com sucesso. A senhora agradeceu e despediu-se.

Se não estivéssemos ali para usar aquela caixa, provavelmente não nos teríamos apercebido da dificuldade da senhora: não somos bons samaritanos à procura de velhinhas em apuros nas caixas Multibanco. A ajuda que a Cláudia ofereceu foi apenas um gesto simples de civilidade, com motivações elementares e egoístas: queríamos usar a caixa.

É no entanto notável como estes gestos simples de civilidade rareiam no quotidiano das nossa cidades (grandes, médias e pequenas). E essa raridade é um indicador valioso e deprimente do estado da nossa democracia.

Com tantas eleições à porta, não nos podemos esquecer que esses acontecimentos não são mais do que marcos, importantes, porém simbólicos, do funcionamento à grande escala do sistema de governo que temos e que é “o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros”. Não nos podemos esquecer que as mudanças reais na qualidade da nossa democracia não se medem em votos, mas em mudanças de comportamentos e atitudes e na quantidade e qualidade da participação de cada um no bem-estar colectivo.

E isso começa com gestos simples de civilidade.