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jazz.pt | Voladores, Tony Malaby’s Apparitions

Sexta-feira, 30 de Julho, 2010

Voladores, Tony Malaby's Apparitions
Voladores, Tony Malaby’s Apparitions

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

Este quarteto Apparitions, de Tony Malaby, na sua própria constituição de saxofone, contrabaixo e 2 baterias contém uma agenda, que se entende tão melhor, quanto mais se observa o perfil e história dos 4 instrumentistas: Tony Malaby, o líder da formação, nascido no Arizona, afirma-se cada vez mais como um dos grandes saxofonistas criativos do nosso tempo, aliando técnica, musicalidade e versatilidade para colaborar com nomes incontornáveis no jazz americano e europeu, como Charlie Haden, Michel Portal, Paul Motian ou Daniel Humair. Drew Gress, contrabaixista, improvisador e compositor, actualmente dedicado à improvisação contemporânea e de vanguarda, colabora habitualmente com John Abercrombie, Tim Berne, Don Byron, Uri Caine, Bill Carrothers, Ravi Coltrane, Marc Copland e Mark Feldman, entre outros. Tom Rainey é um dos mais requisitados e flexíveis bateristas da actualidade, com colaborações regulares com Tim Berne e um historial interminável de gravações e concertos, onde se destaca a sua versatilidade na exploração da bateria como instrumento completo. E John Hollenbeck é, além dum baterista e percussionista completíssimo, um compositor e maestro requisitado, com uma expressão e universo musical muito próprio.
Para quem a singularidade da formação ou o perfil dos músicos é relativamente indiferente, a abertura do álbum com um tema inédito de Ornette Coleman, “Homogeneous Emotions”, é, de facto, um bom ponto de partida. Há, neste quarteto peculiar, e em parte da abordagem expressiva de Tony Malaby e na sua escrita, referências a Ornette, numa certa ambiguidade ou abertura harmónica e uma certa disponibilidade polirrítmica, que é, por isso, mais sensível à (con)sequência de frases e motivos melódicos expostos sobre bases rítmica e harmonicamente livres, onde o espaço dos músicos, independentemente do seu instrumento, é em grande parte definido pela capacidade de reacção/criação e pela interpretação subjectiva do significado do momento musical e do seu espaço.
Com 1 tema de Ornette Coleman, 3 improvisações em grupo e 7 temas de Tony Malaby, a sensação geral é a duma música que resulta coerente e que tem significado(s), multidireccional, que se eleva à condição de muitíssimo mais do que a soma das partes, sendo as partes, as contribuições de cada músico.
De facto, em cada momento de cada tema, o universo de possibilidades face à criatividade, flexibilidade e destreza técnica de cada um dos músicos parece inesgotável, mantendo-se, em cada configuração e independentemente da instrumentação disponível, uma enorme coesão, resultado da intencionalidade da escrita e liderança de Malaby, mas, sem dúvida, da atenção e da grande experiência musical dos seus parceiros, cada um deles, igualmente responsável pela construção de momentos verdadeiramente surpreendentes. Com as improvisações de grupo a pontuarem o disco com momentos de procura “pura”, a versatilidade e expressividade que aí ouvimos é generosamente utilizada nos momentos mais direccionados do disco.
O encontro entre John Hollenbeck e Tom Rainey é verdadeiramente extraordinário, sem redundâncias, nem sobreposições, com Hollenbeck a povoar todo o disco com timbres e sonoridades complementares à já diversificada paleta de Tom Rainey e, com a melódica, a dobrar a voz de Malaby com sucesso, por exemplo em “Lilas”. Com bases rítmicas e texturas excepcionalmente ricas, Drew Gress, consegue encontrar o seu justo papel, sem ficar preso a funções convencionais e usando todo o potencial do contrabaixo, de acordo com as exigências dos temas, entre um baixo mais convencional de “Homogeneous Emotions”, por exemplo, e os harmónicos e arcadas nervosas em “East Bay”. Tony Malaby, com um som profundo e cru, quer no tenor, quer no soprano, afirma uma voz urgente, mas determinada, capaz de grande beleza e fragilidade, mas também de vigor, excitação e mesmo violência.
Emoções geridas e equilibradas de forma consequente, num disco que corre seriamente o risco de se tornar imprescindível.

Voladores, Tony Malaby’s Apparitions

Clean Feed (2009)
Gravado em Nova Iorque (2009)

  • Tony Malaby saxofone tenor e soprano
  • Drew Gress contrabaixo
  • Tom Rainey bateria
  • John Hollenbeck bateria, percussão, marimba, vibrafone, glockenspiel, melódica, pequenos utensílios de cozinha
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Empty Cage Quartet, Gravity

Sexta-feira, 30 de Julho, 2010

Gravity, Empty Cage Quartet
Gravity, Empty Cage Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

Sobre o Empty Cage Quartet a prestigiada The Wire escreveu que é “uma das melhores coisas no jazz a emergir no novo milénio”. Aos cínicos bastaria dizer que o milénio ainda agora começou, mas depois de ouvir “Gravity” não podemos, com seriedade, ignorar a proposta deste grupo emergente da costa leste. Tanto pela música que apresentam como pelos processos sugeridos. “Gravity”, consiste na interpretação de duas obras, “Gravity” de Kris Tine e “Tzolkien”, de Jason Mears, que se apresentam como processos de fazer nova música, modulares, contendo um conjunto de possibilidades rítmicas e melódicas, incluindo palíndromos e complexos exercícios de simetrias melódicas e harmónicas, assim como explorações numéricas, que possibilitam interpretações lineares e recombinações da responsabilidade dos intérpretes e das suas escolhas em tempo real.
Sem privilégio aparente de nenhuma perspectiva idiomática, a música do Empty Cage Quartet lembra, a espaços, um híbrido de jazz e música conteporânea erudita, por exemplo quando Jason Mears opta pelo clarinete, em “Tzolkien 1+13″, reminiscente de Anthony Braxton, mas pode aproximar-se dum jazz livre, próximo das estratégias harmolódicas de Ornette Coleman, como em “Gravity: Section 8″, ou do M-Base de Steve Coleman, por exemplo, mas, na diversidade de abordagens e sonoridades, este quarteto, que parece desdobrar-se em múltiplas personalidades, mantém, misteriosamente, uma identidade bastante particular.
A complexidade conceptual não é audível (não de forma avassaladora, felizmente), mas fornece uma matriz estrutural que permite que as 4 vozes individuais atravessem os mesmos espaços, em ondas largas ou sinuosas e por vezes, de forma bastante angulosa ou em sentidos inversos, mas, nos seus cruzamentos, encontros e desencontros, a música produzida reflecte, de facto, a existência dum sistema intrigante que nos permite identificar os tais “pontos de gravidade”.
Uma música e um sistema que nos desafia, mas não aliena nem os intérpretes, músicos de grande qualidade técnica e criativa- com experiência de formação e colaboração com nomes como Milford Graves, Wadada Leo Smith, Vinny Golia, Nels Cline, Ken Filiano, Marilyn Crispell e Charlie Haden- nem os ouvintes.

Gravity, Empty Cage Quartet

Clean Feed (2009)
gravado em Nova Iorque (2008)

  • Jason Mears saxofone alto, clarinete
  • Kris Tiner trompete
  • Ivan Johnson contrabaixo
  • Paul Kikuchi bateria, percussão
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | João Paulo Esteves da Silva & Dennis González

Terça-feira, 1 de Junho, 2010

João Paulo Esteves da Silva & Dennis González

Casa da Música, Sala 2 | 16 de Janeiro

Depois da muito bem sucedida edição de “ScapeGrace” (CleanFeed, 2009)— considerado pela jazz.pt o melhor disco nacional do ano— João Paulo Esteves da Silva e Dennis González apresentaram-se na Sala 2 da Casa da Música para um concerto que, para ser fiel ao disco, teria que reflectir a situação/estratégia de improvisação usada que, como João Paulo referiu em jeito de apresentação, haverá gente que não acredite (porque é de fé que se trata) e outros considerarão despudorada.
Mas, acredite-se ou não, é através da improvisação, sem ensaios nem temas escritos, que se constrói o disco e os concertos desta dupla, que até à proposta da editora lisboeta nem sequer se conheciam ou ao trabalho respectivo.
Sem ensaios, nem temas escritos, mas não sem referências: a ampla bagagem musical de cada um dos músicos e a partilha que originou “ScapeGrace” permitem aos músicos e aos ouvintes ancorar esta experiência musical em motivos melódicos e rítmicos que cruzam, no território do jazz contemporâneo, as fortes referências às músicas populares tradicionais que dão corpo a uma parte significativa dos percursos individuais de João Paulo (o pianista que mantém um projecto de exploração da herança da música sefardita em Portugal e que colaborou com Fausto, Vitorino, José Mário Branco, Sérgio Godinho, entre tantos outros) e Dennis González, cuja procura constante de derrubar barreiras passa por integrar no seu discurso linguagens enraizadas nos locais que percorre.
Assim, apesar da estratégia de improvisação e da construção de música completamente nova, ouviram-se na Casa da Música vários dos motivos presentes em “ScapeGrace” e outros motivos familiares, introduzidos ora por João Paulo, ora por Dennis González, que se sucederam no lançamento de introduções a solo para a posterior exploração do duo.
Nesse contexto, a facilidade com que João Paulo acompanha, complementa, cita e desenvolve qualquer motivo, por mais simples que seja, associada a uma eventual retracção por parte de Dennis González, concedeu ao piano um protagonismo desproporcionado, com cadências a solo em cada um dos 7 temas. Era, de resto, aparente a dificuldade do trompetista em acompanhar as rápidas inflexões harmónicas do piano que, muitíssimo inspirado, rápido e eventualmente mais complexo (ou pelo menos mais denso) do que em encontros anteriores, limitava a margem de manobra em termos de fraseado e improvisação, impondo um discurso harmonicamente mais direccionado e fechado. Energia ou “inspiração” a mais de João Paulo que, por vezes, parecia desligar-se da situação de duo, com a anuência do trompetista texano, para regressar, depois de belíssimas (mas por vezes demasiado longas) explorações, onde as raízes populares da lírica de base do duo passava por metamorfoses sucessivas, com recurso a diversas referências e linguagens, desde os nacionalismos nas músicas clássicas eruditas nos séculos XIX e XX, ao jazz técnica e mentalmente exigente de Keith Jarrett ou aos mais próximos Laginha e Sassetti.
Dennis González, por seu turno, parecia dosear cuidadosamente as suas intervenções, estabelecendo motivos simples, pontuando momentos fundamentais e alimentando os processos de João Paulo. Em sentido contrário, apenas ocasionalmente se tornava possível ao trompetista identificar e explorar temas sugeridos pelo piano, mais fechados e enquadrados em contextos harmónicos menos previsíveis. Nesse sentido podemos falar dum duo e duma improvisação “dirigida”, com momentos verdadeiramente fulgurantes, mas com um certo desequilíbrio entre as personalidades musicais em presença.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Samuel Blaser, Pieces of Old Sky

Quinta-feira, 6 de Maio, 2010

Pieces of Old Sky, capa do disco
PIECES OF OLD SKY, de Samuel Blaser Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 4.5/5

Nostálgico e meditativo, como o nome do álbum sugere, este “Pieces of Old Sky”, é um álbum envolvente e resulta duma extraordinária combinação de instrumentistas e abordagens que servem os temas com detalhe e generosidade. Não existe, em nenhum momento no disco, como é habitual quando se conta com a  participação dum baterista como Tyshawn Sorey, uma secção rítmica tradicional: todos os instrumentos, bateria incluída, são vozes melódicas e, mesmo nos momentos mais singelos, existe uma liberdade total da ideia duma pulsação, fluindo as ideias musicais, exploradas amplamente por cada um dos instrumentistas.
A escrita de Samuel Blaser e o seu desenvolvimento pelo quarteto permite compreender o potencial de elementos melódicos simples na afirmação de estados de espírito complexos e a energia emocional e musical flutua de acordo com uma gestão muito criteriosa de cada participação e contando com elevado nível de atenção e capacidade de resposta constante do quarteto, que reage, repete e reinterpreta as intervenções mais significativas, definindo um enquadramento eficaz e encontrando caminhos de desenvolvimento musical aprofundado. O acerto e a coesão tímbrica é notável, especialmente na relação entre o trombone de Blaser e a guitarra de Neufeld que criam diálogos riquissímos. Thomas Morgan funciona frequentemente como ponto de apoio das inflexões estruturais, mas sem nunca ceder a um papel tradicional procurando fraseados relevantes e explorando os harmónicos, por exemplo.
Em temas ritmicamente mais definidos, como “Red Hook” ou “Speed Game”, o papel não convencional de Tyshawn Sorey, torna-se ainda mais evidente: o quarteto toca o riff em uníssono e a sua interpretação faz uso da totalidade da bateria, para tocar não só a componente rítmica do riff, mas também o seu envelope melódico e dinâmico, desenvolvendo posteriormente formas de apoiar e pontuar o desenvolvimento do tema e as intervenções solistas, sem nunca perder a noção da pulsação implícita, mas escapando a qualquer tentação de vulgaridade. A liberdade que esta forma de tocar de Tyshawn Sorey traz ao grupo é fundamental para permitir a escolha de novos caminhos e inflexões eventualmente inesperadas, assim como o seu rigor é surpreendentemente eficaz na afirmação dos riffs.
Assumidamente nostálgico, “Pieces of Old Sky” é também, fortemente evocativo, com um certo carácter cinemático, como acontece com os corais, em duo de Blaser com Neufeld.
Não se deixa, no entanto, encurralar num registo frágil, encontrando os caminhos, quando necessário, para momento mais intensos, como acontece no final de “Mystical Circle”, enriquecendo a experiência global.
A elevada cumplicidade e a extraordinária flexibilidade de todos os músicos presentes garante uma experiência de audição completa, onde o registo límpido e o lirismo inteligente do trombone de Samuel Blaser aponta uma direcção, sem limitar demasiado os caminhos.

PIECES OF OLD SKY, de Samuel Blaser Quartet

Clean Feed (2009)
gravado em Nova Iorque (2008)

  • Samuel Blaser trombone
  • Todd Neufeld guitarra
  • Thomas Morgan contrabaixo
  • Tyshawn Sorey bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Marty Ehrlich Rites Quartet: Things Have Got To Change

Segunda-feira, 3 de Maio, 2010

Thinhs Have Got To Change, capa do disco
THINGS HAVE GOT TO CHANGE
Marty Ehrlich Rites Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 4.5/5

“Rites Rhythms”, a primeira faixa do álbum e a que dá nome a este quarteto liderado por Marty Ehrlich apresenta-nos um disco singularmente luminoso e as faixas que se seguem, ora da autoria de Marty Ehrlich, ora de Julius Hemphill, confirmam uma construção rigorosa e extraordinariamente bem executada dum disco que não tem receio de ser quase “ligeiro” no carácter festivo e na efervescência dos riffs rítmicamente muito eficazes e melodicamente atractivos, mas que não é em momento algum superficial.
O funcionamento da dupla Erik Friedlander/Pheeroan Aklaff afirma-se como estruturante na construção de vários temas com um swing elegante e inteligente, mas a complementaridade das abordagens de Zollar e Ehrlich é igualmente decisiva para assegurar a eficácia do quarteto. E, em temas como “Some Kind of Prayer”, mais meditativo, podemos escutar o funcionamento dum trio com os 2 sopros e Friedlander, menos “rítmico”, no arco e em pizzicatto, com Pheeroan ritmicamente livre para pontuar e enriquecer algumas explorações mais nostálgicas num ambiente que vagueia entre reflexões líricas, encontros e desencontros num jogo que permite compreender melhor os papéis relativos dos 4 músicos na construção quer da diversidade, quer da coerência do quarteto.
A beleza do disco reside, de facto, na conjugação destes factores: se por um lado o álbum se apresenta como um todo muito consistente, coerente e lógico, a verdade é que os diferentes registos, como por exemplo, a introdução de Erik Friedlander em “On The One”, alternando entre o estudo clássico e a canção popular, e a forma como se sobrepõem e conjugam ao longo do disco, seguindo critérios de elevada musicalidade, garantem uma identidade forte em cada tema, mas criam ligações, pelo tratamento nos solos e pela própria sequência de apresentação em disco.
Os temas de Ehrlich e de Hemphill apresentam algumas semelhanças na lógica de construção, e garantem a afirmação bastante clara de cada tema, mas criam largos espaços para a improvisação, que é muitas vezes colectiva e que, apesar das características e léxicos individuais reconhecíveis de cada músico, se refere a espaços-ambientes relativamente nítidos em cada tema, apesar da sua amplitude.
A capacidade de Ehrlich e Zollar alternarem entre um registo mais límpido, na afirmação dos temas em uníssono, com ou sem Friedlander, e de recorrerem a outros timbres e  registos ao longo dos solos, complementa na perfeição a alternância de Friedlander entre o papel de “contrabaixo” e o papel de “solista” melódico e a flexibilidade de Pheeroan entre a afirmação de pulsações com swing e registos mais ilustrativos, em escolhas que procuram servir os temas e demonstram um elevado grau de cumplicidade entre todos os músicos.
“Dogon A.D.”, de Julius Hemphill, com a pulsação clara e a estrutura simples, ainda que curiosamente desequilibrada, encerra o disco num ambiente que recorda a luminosidade inicial, mas reafirma a diversidade e riqueza do disco.

THINGS HAVE GOT TO CHANGE, de Marty Ehrlich Rites Quartet

Clean Feed (ed. 2009)
Gravado em Lisboa, 2008

  • Marty Ehrlich sax alto
  • James Zollar trompete
  • Erik Friedlander violoncelo
  • Pheeroan Aklaff bateria e percussão
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Steve Swell: Planet Dream

Quarta-feira, 7 de Abril, 2010

Planet Dream, capa do disco
Planet Dream, de Steve Swell

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

5 improvisações, 4 temas compostos por Steve Swell. 3 músicos que se conhecem profundamente e partilham um universo sonoro que surge naturalmente da abundante e peculiar cena free jazz nova-iorquina. Um universo que está plasmado nas composições de Swell, mas que se constrói através das longas cumplicidades entre estes 3 músicos (Rob Brown e Daniel Levin tocam na big band de Steve Swell, The Nation of We, Steve Swell e Rob Brown integram a Little Huey Creative Music Orchestra, de William Parker e Rob Brown e Daniel Levin tocam em duo e trio com Satoshi Takeishi). Trombone, saxofone e violoncelo podem constituir uma combinação invulgar, mas o talento e versatilidade destes músicos permite-lhes explorar com intensidade e pertinência as diversas possibilidades e combinações, quer pelas similaridades, quer pelo constrastes, pintando este “Planet Dream” com uma vasta e luminosa paleta de cores. Se nos 4 momentos de improvisação total, temos oportunidade de ouvir de forma mais evidente momentos de encontro e partilha sonora mais abstracta, como na faixa que dá nome ao disco, em explorações técnicas e tímbricas que procuram desafiar as fronteiras dos instrumentos de formas enriquecedoras para o conjunto, e podemos acompanhar jogos de interacção riquíssimos, nos temas compostos por Steve Swell, ao fornecer-se um mote melódico-rítmico, como no multi-swing de “Juxtsuppose”, o trio consegue apresentar e desenvolver os temas com grande expressividade e liberdade, prosseguindo então para a sua desconstrução e exploração, alimentando o processo de improvisação com as ideias sugeridas nos próprios temas ou por cada um dos músicos.
E a riqueza deste universo engloba mesmo muitas realidades: por exemplo, em “Airtight”, o pizzicato de Daniel Levin mostra como um violoncelo pode segurar um groove, para quem, depois de Tom Cora e Erik Friedlander, ainda precisava de explicações sobre o papel dum violoncelo num ensemble de jazz, enquanto as intervenções de Rob Brown e Steve Swell, lembram desenhos de John Zorn com George Lewis— o genial trio de John Zorn, George Lewis e Bill Frisell em “News For Lulu” é, de facto, uma das formações mais próximas da sonoridade de “Planet Dream”. Já em “City Life”, a introdução virtuosa e vertiginosa de Levin, primeiro com o arco, depois em pizzicato, coloca-nos de imediato no plano agitado e anguloso, sobre o qual o tema se desenvolve, com as intervenções de Brown e Swell, mais marcadas e quase soluçantes, a polviharem um quadro sugestivo duma paisagem urbana quotidiana, sem caírem na tentação da ilustração. E, em “Texture #2″, padrões numéricos são tocados em uníssono, e desconstruídos até se atingirem interesantes clusters, que Daniel Levin explora em cordas dobradas, enquanto Swell e Brown retomam o carácter pontuado dos padrões.
Mas, acima de tudo, “Planet Dream” é o resultado singular da colaboração específica destes 3 músicos de excepção e do encontro destes 3 instrumentos tão carismáticos.
Como Steve Sweel, desejava, um universo completo, complexo e múltiplo onde há, aparentemente, espaço para tudo e, ainda assim, o que se ouve parece estar no sítio certo, na altura certa. Naturalmente.

Planet Dream, de Steve Swell

Edição Clean Feed, 2009
Gravação: Nova Iorque, 2008

  • Steve Swell, trombone
  • Rob Brown, saxofone alto
  • Daniel Levin, violoncelo
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Christian Lillinger’s Grund: First Reason

Terça-feira, 6 de Abril, 2010

First Reason, capa do disco
First Reason, de Christian Lillinger’s Grund

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

A definição e justificação do nome do grupo, “Grund”, que Christian Lillinger oferece nas notas do disco corresponde de forma clara ao que o estreante grupo apresenta neste disco. “Grund”, como chão ou o tipo de base que 2 contrabaixos são capazes de fornecer, para uma improvisação mais livre e espaçosa e “Grund”, como razão para fazer as coisas duma maneira e não doutra, razão pela qual certa combinação de instrumentos funciona de determinada maneira… os dois sentidos implícitos no nome do grupo ouvem-se ao longo do disco e percebem-se como forças orientadoras na escolha dos instrumentos e instrumentistas, no trabalho de composição e no desenvolvimento da interpretação do grupo e de cada músico.
A formação com 2 contrabaixos e o tipo de liberdade pretendida que justifica esta escolha é claramente evocativa de Ornette Coleman, e os momentos de contacto entre “First Reason” e o trabalho em duplo quarteto acústico de Ornette Coleman são bem conseguidos, como se vê imediatamente em “Pfranz”, o tema de abertura. E as semelhanças entre “Grund” e os duplos quartetos de Ornette Coleman, estendem-se positivamente a diversos aspectos do desenvolvimento do disco. “Grund” é uma formação muito horizontal constituída por músicos versáteis, criativos e produtivos em todos os instrumentos e onde se garante abundante espaço para que todos se exprimam, em duos e solos, ora em padrões, ora em linhas livres mas, genericamente, os diversos intervenientes podem afirmar-se, sem demasiada necessidade de competirem num frenesim permanente. O legado de Ornette Coleman é, de resto, usado com sensibilidade e mestria na própria anatomia melódico-rítmica de alguns temas, como “Pfranz” e “Shape”, na sua apresentação em uníssono pela banda com posteriores explorações melódico-rítmicas lideradas pelos solistas, na utilização consciente de uma pulsação nervosa, quase polirrítmica, no “swing” e mesmo em alguns dos aspectos do desenvolvimento dos solos, reminiscentes de Ornette, mas também de Don Cherry e outros dos grandes improvisadores que com eles colaboraram, nestes contextos.
Mas “First Reason” é estruturalmente comedido, evitando explorações demasiado prolongados do mesmo material, oferecendo aos ouvintes 11 temas de elevada qualidade e ancorados, apesar das referências, em universos diferenciados e vastos: as 3 faixas de nome Grund, estrategicamente espalhadas pelo disco, são aliás exercícios ricos de exploração sonora, recorrendo a efeitos, clusters, técnicas e vocabulários mais próximos da vanguarda erudita do que do Jazz mais tradicional, evocativos da complexidade e riqueza tímbrica de Anthony Braxton, por exemplo.
Racionalizando, podemos dizer que, em “First Reason”, Grund combina um conjunto vasto de referências e, dessa forma, não é capaz de afirmar uma identidade singular, esmagado pelo peso das brilhantes evocações que faz. Mas a audição dum disco é bem mais do que um exercício estritamente racional e qualquer músico de jazz poderá facilmente ser esmagado pelo peso dos fantasmas que evoca, se os evocar “travestidos”. Christian Lillinger com esta estreia “Grund” parece, pelo contrário, ter os pés bem assentes num terreno que conhece bem, que sabe ser fértil e onde há ainda muita música para crescer e florescer. Esta primeira colheita, “First Reason”, poderá ter ainda demasiado cheiro da terra em que cresceu, mas é de grande qualidade.

First Reason, de Christian Lillinger’s Grund

Edição: Clean Feed, 2009
Gravação: Ibiza, 2008

  • Tobias Delius: saxofone e clarinete
  • Wanja Slavin: saxofone, clarinete e melódica
  • Jonas Westergaard: contrabaixo
  • Robert Landfermann: contrabaixo
  • Christian Lillinger: bateria e percussão
  • convidado: Joachim Kühn: piano
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt.
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jazz.pt | Trespass Trio: … was there to illuminate the night sky…

Segunda-feira, 5 de Abril, 2010

Trespass Trio, capa do disco
“… was there to illuminate the night sky…”, Trespass Trio

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

«O que é que podemos conseguir com cordas, palhetas, peles e paus?
Além de sermos ignorantes fazedores de música, o que é que somos?
Estamos a tentar ver através do esventramento da nossa sociedade, mas com sons– uma tarefa impossível, poderão dizer. Uma audição cega. (…)
Como fazer música no ano 2009? Digam-me vocês!»

Esta angústia de Martin Küchen, expressa nas notas da edição, marca este “… was there to illuminate the night sky…” da primeira à última nota, concedendo à experiência de audição uma intensidade emocional verdadeiramente invulgar. A substância exacta ou a motivação da mensagem política de Martin Küchen, da sua ira e frustração, é verdadeiramente de angústia que se trata, não são sequer necessárias para que o disco nos arrepie e entre por baixo da pele, nos interrogue e nos preencha com essa angústia, uma tristeza profunda e paralisante, que tememos, mas aceitamos.
Através dos seus saxofones e da sua escrita musical, profunda, genuína e desesperada, Martin Küchen envolve os seus parceiros do Trespass Trio e os ouvintes numa experiência quase catártica e o disco parece transcender a superficialidade de registo sonoro e transforma-se em instrumento terapéutico ou arma de combate… E se a construção dum projecto musical à volta duma genuína mensagem política de revolta é, nos dias que correm, relativamente rara, raríssimo é que o resultado desse projecto seja capaz de sensibilizar fisicamente os seus ouvintes, mobilizando-nos emocionalmente exclusivamente através da música.
“… was there to illuminate the night sky…” corre seriamente esse risco, na alternância consequente entre um grande ira e revolta e uma simplicade e pungência avassaladoras, colocando os melhores recursos destes 3 instrumentistas escandinavos de referência ao serviço da construção de momentos emocionalmente densos, sem medo do belo trágico ou falsos pudores líricos. Essa pungência, assim como o carácter militante, recorda vagamente, “Alerte à l’eau / Water Alert” (Label Bleu, 2007), do sexteto de Henri Texier, Strada, com o som de François Corneloup no sax barítono. Mas na militância ambientalista do veterano francês Texier, há réstias de esperança e sinais de vida, enquanto que na obra do saxofonista sueco, parece não existir outra luz que não a de uma bomba de fósforo. Eventualmente uma vela tremeluzente.
Martin Küchen despeja a sua alma através das suas composições, primeiro, mas, de forma mais evidente, através dos saxofones, com especial eficácia visceral no barítono. E conta com a solidária companhia e o apoio empenhado de Per Zanussi e Raymond Strid, uma secção rítmica de sonho na música improvisada escandinava.
E um homem que despeja a sua alma na música que faz, tem em si a coragem de mudar o (seu) mundo. E oferece a quem ouve essa magnífica e rara oportunidade de, com ele, lavarmos um pouco da nossa própria alma. Intenso, eventualmente perigoso, mas precioso.

“… was there to illuminate the night sky…”, Trespass Trio

Edição: Clean Feed, 2009
Gravação: Oslo, 2007

  • Martin Küchen: saxofone alto e barítono
  • Per Zanussi: contrabaixo
  • Raymond Strid: percussão
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Lucky 7’s: Pluto Junkyard

Terça-feira, 12 de Janeiro, 2010
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt.
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Pluto Kunkyard, de Lucky 7's

Pluto Junkyard, de Lucky 7’s

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

Nas notas do disco, sobre as composições apresentadas, Jeff Albert, descreve “Pluto Junkyard”, o tema que dá nome ao disco, como uma tentativa de demonstrar as capacidades desta instrumentação e destes músicos para criar ambientes “assustadores, engraçados e pouco comuns”. A peça cumpre esse objectivo e esta descrição das possibilidades deste septeto é bastante eficaz. Através dos arranjos e da interpretação, este quase ensemble de metais, transforma-se em algo de completamente diferente, não só pelo espaço dado ao vibrafone de Jason Adasiewicz, que oferece um colorido muito especial e se integra de forma esplêndida com toda a secção rítimica, mas também pela forma como os 4 metais (sax, 2 trombones e corneta), se complementam, se desafiam e se dividem para garantir que não somos sujeitos a uma experiência entediante de sucessões intermináveis de solos, mas sim a uma evolução natural das ideias musicais, em combinações eficazes, por vezes estranhas e frequentemente bem humoradas. Também a estrutura dos temas procura caminhos menos evidentes para fazer evoluir a música e o álbum por paisagens novas.
A acompanhar a escrita inteligente dos temas, as intervenções de tipo solista aproveitam a sua “abertura” estrutural e harmónica e levam-nos a momentos menos previsíveis.
Músicos que parecem confiantes do caminho que trilham e satisfeitos com o ambiente instrumental em que se encontram produzem tendencialmente música cativante. E é este o caso.

Pluto Junkyard, de Lucky 7’s
Gravado 2007 Chicago (EUA)
Edição Clean Feed 2009

  • Jeb Bishop, trombone e guitarra
  • Jeff Albert, trombone e trombone baixo
  • Josh Berman, corneta
  • Keefe Jackson, saxofone tenor
  • Jason Adasiewicz, vibrafone
  • Mathew Golombisky, contrabaixo e baixo eléctrico
  • Quin Kirchner, bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
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jazz.pt | Transit: Quadrologues

Domingo, 2 de Agosto, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
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Quadrologues, Transit (Clean Feed)

Quadrologues, Transit

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

A primeira gravação deste grupo, de 2006, tinha o nome de “Transit”.
Transit é agora nome de grupo e Quadrologues o nome do álbum.
E Quadrologues é um óptimo nome para o que o grupo dirigido pelo percussionista Jeff Arnal realiza: não nos oferece uma estrutura convencional hierarquizada com secção rítmica e solistas, apesar da formação o permitir, apostando isso sim, numa lógica horizontal, em que os diferentes elementos do grupo encetam uma conversa, não limitando os seus instrumentos aos papéis convencionais e trabalhando muito mais na reacção e troca de material musical do que na afirmação de temas ou modelos.
A utilização de ruídos e técnicas expandidas, em quase todos os temas, a partir de “Walking of Fire”, permite a construção dum léxico vasto e são sistematicamente evitados clichés estilísticos, procurando-se uma forma não restringida, que procura nas características sónicas intrínsecas o seu modo de expressão válido.
Estruturalmente, apesar da liberdade presente, os temas são coesos e construídos à volta de algumas ideias simples e eficazes. O alinhamento do álbum faz das transições entre temas momentos quase indetectáveis, o que contribui para a fluidez da experiência de audição, e o álbum funciona como uma experiência de audição contínua, com as inflexões e o arco dramático que se esperaria duma obra única.
“Z Train”, a meio do álbum, ao retomar ambientes mais familiares, dá um segundo fôlego à experiência de audição e, globalmente, os vocabulários em uso pelos vários músicos são adequados aos ambientes criados, revelando-se flexibilidade técnica e sensibilidade auditiva.
Como ponto menos positivo, parece-me que alguns momentos introdutórios, com as técnicas estendidas, algo repetidas a partir de determinada altura no álbum, parecem demorar-se mais do que o necessário, dificultando a fruição contínua do disco.

Quadrologues, por Transit
Gravado em Dezembro de 2006 e Janeiro de 2007, em NY (EUA)
Edição: Clean Feed, 2009

  • Jeff Arnal, percussão
  • Seth Misterka, saxofone alto
  • Reuben Radding, contrabaixo
  • Nate Wooley, trompete
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
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