A trama está montada

Estreia hoje, n’A Moagem, no Fundão, o projecto trama³. Já não há muito mais a dizer. Estamos à vossa espera.

trama³, trama ao cubo

trama³, trama ao cubo (vista do concerto)

trama³

um projecto de João Martins, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes

+ info: http://joaomartins.entropiadesign.org/2010/06/08/trama-3-trama-ao-cubo/
podcast: http://joaomartins.entropiadesign.org/2010/06/23/trama%c2%b3-uma-amostra/

trama³, trama ao cubo

trama³, trama ao cubo

trama³

um projecto de João Martins, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes

Neste projecto, um tear artesanal transforma-se num hiper-instrumento musical, com diversos registos tímbricos em configurações interligadas que permitem aos 3 músicos abordá-lo ora como um instrumento único, ora como um ensemble quase orquestral. Sobre a estrutura do tear, em intervenções que procuram compreender o seu funcionamento primário, enquanto exploram um vasto conjunto de possibilidades sónicas— sugeridas, na sua maior parte, pela observação de teares nos seus contextos originais—, fixam-se cordas, molas, caixas e vários objectos comuns, distribuindo pelas várias “faces visitáveis” da máquina, modos de produção de som interligados.

E, do mesmo modo que a concepção e construção do próprio instrumento procura compreender e valorizar os aspectos funcionais pré-existentes, a concepção global do projecto procura estabelecer pontes tangíveis entre os modos e os conteúdos da nova produção musical e as técnicas artesanais, as pessoas e os locais que compõem a memória do objecto. Gestos da tecelagem e das actividades relacionadas são recuperados como gestos de produção sonora no novo instrumento; recolhas de sons quer dos teares, quer das paisagens sonoras em que os descobrimos integram, como texturas e como motivos, o reportório concebido.
Estes teares— os seus “corpos”, o seu universo e identidade particular— são por isso, física e conceptualmente, o material de base para mais dois músicos— cúmplices de longa data—, artesãos, inventores e construtores de instrumentos que interpretam com as suas próprias ferramentas o desafio original.
Uma intrincada teia que cruza Música e Arte Sonora, aborda várias definições possíveis de instrumento musical e estende uma ponte audível, atenta e crítica entre práticas artísticas e práticas artesanais, enquanto reconhece o valor primordial das paisagens naturais e humanas genuínas.

Uma encomenda do Município do Fundão
Co-produção: Câmara Municipal do FundãoA Moagem - Cidade do Engenho e das Artes / Granular Associação
Produção executiva e acolhimento: A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes

História do Projecto

Em 2005, como parte do processo de concepção dum espectáculo de teatro, concebi e construí um instrumento musical reutilizando a estrutura dum tear manual de mesa, que tinha utilizado em trabalhos oficinais como aluno do ensino secundário. O instrumento, a que chamei Contratear- a partir do nome da peça, “O Contrabaixo” (Visões Úteis, 2005)-, foi usado posteriormente em vários concertos e performances e passou a integrar o meu instrumentário regular. Em 2009, A Moagem – Cidade do Engenho e das Artes, propõe à Granular o desenvolvimento dum projecto musical centrado nos esforços de dinamização da actividade artesanal de grupos de tecedeiras nas Aldeias do Xisto e a Granular contacta-me, por causa do Contratear. E, assim, em Maio de 2009, estive em residência artística nas Aldeias do Xisto (Janeiro de Cima e Bogas do Meio), tendo como objectivo de curto prazo a concepção duma performance a apresentar na LX Factory, em Junho de 2009 e, como objectivo final a concepção e construção dum novo instrumento musical construído a partir dum tear. Essa primeira fase, a solo, mudou consideravelmente a minha relação com o Contratear, não tanto pela performance que realizei na Arthobler / Ler Devagar (LX Factory), mas pela imersão no universo dos teares artesanais e pela descoberta de imensos pontos de contacto entre os objectos da tecelagem e diversos instrumentos musicais, mas também entre os processos de concepção e registo dos padrões em uso nas práticas artesanais e técnicas de composição e escrita musical. A compreensão, também nessa altura, do carácter primordial do tear, enquanto máquina-ferramenta universal e a reflexão sobre o seu desenvolvimento mecânico e técnico, especialmente a partir da Revolução Industrial, e sobre o significado que a manutenção das práticas artesanais tem, face a esse desenvolvimento, influenciaram de forma decisiva, ainda que menos visível, a orientação conceptual do projecto para o qual, desde o início, contava com a colaboração do Gustavo Costa e do Henrique Fernandes, parceiros em variadíssimos projectos e, eles próprios, inventores e construtores de instrumentos. A estratégia usada na performance a solo de 2009, recorrendo a uma base audiovisual construída pela selecção, edição e manipulação de recolhas áudio e vídeo feitas durante a residência provou a sua eficácia quer como mecanismo de referenciação, quer como partitura estrutural e com base nessa primeira experiência, a segunda fase do projecto avançou para a concepção e construção dum novo instrumento sobre a estrutura pré-existente dum daqueles teares. Nesta segunda fase, trabalhámos já em conjunto, no Fundão, procurando transferir todas estas preocupações para o próprio processo de construção, a que acrescia a vontade e necessidade de diversificar os modos de produção de som, por forma a aproveitar ao máximo a área disponível na estrutura e alcançar o objectivo de, em vez de sobrepôr vários pequenos instrumentos à estrutura, usá-la como base dum instrumento único, polivalente, com o máximo de módulos interligados. A interpretação do desafio original, concretizou-se e expandiu-se no encontro das 3 personalidades e experiências específicas e com o contributo crítico de quem acompanhou este processo e, especialmente, de Albrecht Loops. Além da concepção e construção deste novo instrumento, realizámos novas recolhas sonoras e testámos novas formas de utilização e manipulação e desenvolvemos estratégias composicionais baseadas em regras simples e padrões que referenciam, de alguma forma, o universo das práticas artesanais e estudámos e estruturámos vários modos performativos. Um processo desta natureza evolui constantemente e não tem um fim natural; apenas
pontos de paragem e reflexão que sugerem novos desenvolvimentos. O ponto onde nos encontramos é particularmente rico: não só possuímos um instrumento poderoso e flexível, como dominamos formas performativas coerentes e consequentes. A documentação e enquadramento da globalidade do projecto permitirão uma leitura mais completa e rica do objecto em si mesmo, mas as suas actuais possibilidades performativas são inegáveis.

jazz.pt | João Paulo Esteves da Silva & Dennis González

João Paulo Esteves da Silva & Dennis González

Casa da Música, Sala 2 | 16 de Janeiro

Depois da muito bem sucedida edição de “ScapeGrace” (CleanFeed, 2009)— considerado pela jazz.pt o melhor disco nacional do ano— João Paulo Esteves da Silva e Dennis González apresentaram-se na Sala 2 da Casa da Música para um concerto que, para ser fiel ao disco, teria que reflectir a situação/estratégia de improvisação usada que, como João Paulo referiu em jeito de apresentação, haverá gente que não acredite (porque é de fé que se trata) e outros considerarão despudorada.
Mas, acredite-se ou não, é através da improvisação, sem ensaios nem temas escritos, que se constrói o disco e os concertos desta dupla, que até à proposta da editora lisboeta nem sequer se conheciam ou ao trabalho respectivo.
Sem ensaios, nem temas escritos, mas não sem referências: a ampla bagagem musical de cada um dos músicos e a partilha que originou “ScapeGrace” permitem aos músicos e aos ouvintes ancorar esta experiência musical em motivos melódicos e rítmicos que cruzam, no território do jazz contemporâneo, as fortes referências às músicas populares tradicionais que dão corpo a uma parte significativa dos percursos individuais de João Paulo (o pianista que mantém um projecto de exploração da herança da música sefardita em Portugal e que colaborou com Fausto, Vitorino, José Mário Branco, Sérgio Godinho, entre tantos outros) e Dennis González, cuja procura constante de derrubar barreiras passa por integrar no seu discurso linguagens enraizadas nos locais que percorre.
Assim, apesar da estratégia de improvisação e da construção de música completamente nova, ouviram-se na Casa da Música vários dos motivos presentes em “ScapeGrace” e outros motivos familiares, introduzidos ora por João Paulo, ora por Dennis González, que se sucederam no lançamento de introduções a solo para a posterior exploração do duo.
Nesse contexto, a facilidade com que João Paulo acompanha, complementa, cita e desenvolve qualquer motivo, por mais simples que seja, associada a uma eventual retracção por parte de Dennis González, concedeu ao piano um protagonismo desproporcionado, com cadências a solo em cada um dos 7 temas. Era, de resto, aparente a dificuldade do trompetista em acompanhar as rápidas inflexões harmónicas do piano que, muitíssimo inspirado, rápido e eventualmente mais complexo (ou pelo menos mais denso) do que em encontros anteriores, limitava a margem de manobra em termos de fraseado e improvisação, impondo um discurso harmonicamente mais direccionado e fechado. Energia ou “inspiração” a mais de João Paulo que, por vezes, parecia desligar-se da situação de duo, com a anuência do trompetista texano, para regressar, depois de belíssimas (mas por vezes demasiado longas) explorações, onde as raízes populares da lírica de base do duo passava por metamorfoses sucessivas, com recurso a diversas referências e linguagens, desde os nacionalismos nas músicas clássicas eruditas nos séculos XIX e XX, ao jazz técnica e mentalmente exigente de Keith Jarrett ou aos mais próximos Laginha e Sassetti.
Dennis González, por seu turno, parecia dosear cuidadosamente as suas intervenções, estabelecendo motivos simples, pontuando momentos fundamentais e alimentando os processos de João Paulo. Em sentido contrário, apenas ocasionalmente se tornava possível ao trompetista identificar e explorar temas sugeridos pelo piano, mais fechados e enquadrados em contextos harmónicos menos previsíveis. Nesse sentido podemos falar dum duo e duma improvisação “dirigida”, com momentos verdadeiramente fulgurantes, mas com um certo desequilíbrio entre as personalidades musicais em presença.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Dave Burrell na Culturgest Porto

Dave Burrell

Culturgest Porto, 15 de Janeiro

Num contexto muito intimista, com o público disposto em cadeiras à volta do piano, o quase septuagenário e muito empático Dave Burrell, um histórico das vanguardas do jazz, apresentou um recital de piano solo excepcionalmente convencional, quer na forma, quer no conteúdo. Não tanto pela já anunciada revisitação de standards e do songbook norte-americano, processo que faz parte do seu percurso de intérprete, compositor e arranjador— com marcas recentes na colaboração com a cantora Leena Conquest (com quem o vimos no Porto, no grupo de William Parker, em 2009, no concerto dedicado a Curtis Mayfield) e já presente desde 1968, em “High Won, High Two” (Black Lion)—, mas por uma utilização, quer do reportório, quer do piano, muito estrutural e orquestral, e muito pouco “solista”.
As canções de Billy Strayhorn, Hoagy Carmichael, George Gershwin, Duke Ellington, Thelonious Monk, António Jobim e do próprio Dave Burrell foram-nos apresentadas “completas” e sólidas- com as linhas de baixo, os padrões rítmicos, as vozes principais e os riffs, em todas as voltas, coros e codas-, com a expressão ou intenção “solista” de Burrell a infiltrar-se na densidade destas “reduções ao piano”, mais pelas ocasionais derivas harmónicas ou nas suspensões e inversões dos arcos de tensão das canções, do que pela expressão melódica de frases solistas que, sendo de grande qualidade, vigor e virtuosismo, eram, sem grandes excepções, rigorosamente enquadradas numa perspectiva historiográfica da música apresentada.
Solidamente assente no rigor académico e na capacidade de execução que a sua longa formação académica como compositor, arranjador e intérprete parece ter gravado no seu código genético— primeiro na Universidade do Hawaii, depois na Berklee, de onde saiu em 1965 para a cena de vanguarda nova-iorquina, afirmando-se como um dos mais inovadores pianistas do panorama, tendo colaborado com Marion Brown, Pharoah Sanders, Archie Shepp e Albert Ayler, entre tantas outras referências do free e do avant-jazz— Dave Burrell, aparentemente empenhado na redescoberta da capacidade expressiva das grandes canções “clássicas”, nas suas versões “orquestrais” e “intactas”, prestou um tributo às canções, aos seus compositores e arranjadores, numa forma de concerto que, apesar da proximidade física entre o público e o criador, parece ter usado as próprias canções como barreira em substituição do palco, tornando-se o seu solo— normalmente um exercício de grande risco e exposição—, num fluxo organizado e denso, com a solidão e exposição do criador-intérprete a ser completamente “atropelada” pela quantidade de vozes e funções que a sua técnica convocou.
Mas este exercício de enquadramento estrutural das canções operou também, em alguns casos de forma surpreendente, a construção de novas-velhas “imagens” ou “espaços” deste reportório “clássico”: sugeriu imagens de cabaret quase brechtiano para “Embraceable You”, de Gershwin- cuja relação com Kurt Weill é objecto interessante de estudo na definição dum certo “jazz clássico”- e invocou o ambiente das salas de cinema mudo e das suas pianolas mecânicas nos ragtimes originais do próprio Burrell, como “Astoria Rag” ou “Margy Pargy”, mas também em “It don’t mean a thing if it ain’t got that swing”, de Duke Ellington, com uma certa ironia.
Com o (pouco) público que enchia a sala da Culturgest Porto a aderir com algum entusiasmo, mais claro no momento de apresentação dos temas do que nas ocasionais derivas expressivas, Dave Burrell despediu-se com dois temas originais, “The Edge” e “With a Little Time”, que confirmaram a sua capacidade composicional e orquestral na invocação rápida de imagens fortes e no estabelecimento duma narrativa.
De alguma forma, e em resumo, este concerto a solo assemelha-se mais à apresentação de “reduções ao piano” dum reportório que Dave Burrell domina e apresenta com inteligência e vigor, num formato mais comum no universo da música clássica erudita, que pode resultar “estranho” ou pelo menos excessivamente formalizado, académico ou até abstracto, dependendo da experiência pessoal dos ouvintes.

Uma última nota para o piano disponível na Culturgest Porto que, para sermos justos, só disfarçou as suas fragilidades até ao 4º tema, deixando depois no ar uma insinuação permanente de desafinação e fragilidade tímbrica, completamente desnecessária.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Serralves em Festa, uma participação em grande

Nos últimos anos tenho tido participações pontuais nessa grande iniciativa que é o Serralves em Festa, integrado em algum dos projectos colectivos em que milito, como a F.R.I.C.S. ou o Space Ensemble, mas este ano, os convites “choveram”, fruto provavelmente de alterações na própria forma de programar a festa, pelo que, durante as 40 horas non stop, estarei envolvido em 3 apresentações independentes, entre sexta, dia 4 e sábado, dia 5. A saber:

  • F.R.I.C.S. – Fanfarra Improvisada Colher de Sopa
    Sexta-feira, dia 4, às 21h30, na Praça Parada Leitão ao Café Piolho (Baixa)
  • Margareth Kammerer, Gustavo Costa, Henrique Fernandes e João Martins
    Sábado, dia 5, às 16h30, na Casa de Serralves
    O nosso trio mais constante junta-se à cantora alemã Margareth Kammerer, para uma sessão de improvisação seguramente inesperada.
  • Derek Shirley’s CARD BLANCHE ENSEMBLE
    Sábado, dia 5, às 18h00, na Casa de Serralves
    Uma das estratégias da Festa deste ano é convidar músicos do Porto a integrarem colectivos de improvisação, com a designação genérica de CARD BLANCHE ENSEMBLE, dirigidos por alguns dos músicos estrangeiros convidados a participar no evento e o contrabaixista canadiano Derek Shirley, manifestou interesse na minha colaboração.

jazz.pt | Jazz no Parque 2009, Regresso à História

Jazz no Parque

18ª edição
18 e 25 de Julho e 1 de Agosto de 2009
Ténis do Parque de Serralves

A edição que marca a maioridade do Jazz no Parque e que coincide com o duplo aniversário de Serralves (20 anos da Fundação e 10 anos do Museu de Arte Contemporânea) teve como principal novidade o facto de se apresentarem 2 projectos originais, resultantes de encomendas do seu programador, António Curvelo, facto que não sucedia desde 2002. As encomendas, dirigidas a Mário Barreiros e a Bennie Wallace, ilustram com rigor a orientação programática deste festival— em rigor, trata-se dum ciclo de 3 concertos— que aposta na divulgação e afirmação dum Jazz de pés bem assentes na história. Se em anos anteriores assistimos a alguns concertos mais “arriscados”, protagonizados por músicos que circulam com gosto por algumas fronteiras estilísticas e se aventuram, a espaços, por algum discurso mais vanguardista, esta edição, em grande parte, graças às encomendas dirigidas, afirma um regresso a um Jazz mais convencional, que celebra respeitosamente o passado e arrisca muito pouco na definição de futuros (im)possíveis.

18 Julho 2009, 18h00
Mário Barreiros
Kind Steps – O Legado de 1959

  • Mário Barreiros bateria
  • Abe Rábade piano e direcção musical
  • Carlos Barretto contrabaixo
  • Avishai Cohen trompete
  • Ben Van Gelder sax alto
  • Jesús Santandreu sax tenor

A Mário Barreiros, António Curvelo sugeriu a invocação do ano mítico de 1959 em que se editaram obras incontornáveis para o futuro do Jazz— como “Kind of Blue”, de Miles Davis, “Giant Steps”, de John Coltrane, “The Shape of Jazz to Come” e “Change of the Century”, de Ornette Coleman e “Mingus Ah Um” e “Blues and Roots”, de Charles Mingus—, ao mesmo tempo que se consolidavam alguns dos alicerces sobre os quais se construía esse futuro— com edições como “Portrait in Jazz”, de Bill Evans, Scott LaFaro e Paul Motian, “Sevem Pieces”, de Jimmy Giufre 3, “Modern Jazz Classics”, de Art Pepper com Eleven ou “Blowin’ the Blues Away”, de Horace Silver. Uma viagem de 50 anos no tempo para a qual Mário Barreiros chamou o pianista galego Abe Rábade, para dirigir um sexteto e se debruçar sobre os propostos “Kind of Blue”, “Giant Steps”, “Mingus Ah Um” e “The Shape of Jazz to Come”, acrescentando “Cannonball Takes Charge”, de Cannonball Adderley e “Anatomy of a Murder” de Duke Ellington.
“Kind Steps – O Legado de 1959″, pelo sexteto de Mário Barreiro e com direcção musical de Abe Rábade foi, assim, a primeira proposta a subir ao palco do Ténis do Parque de Serralves, no dia 18 de Agosto, com Avishai Cohen (trompete), Ben Van Gelder (sax alto), Jesús Santandreu (sax tenor), Carlos Barretto (contrabaixo) e os próprios Mário Barreiros (bateria) e Abe Rábade (piano).
Mário Barreiros e Abe Rábade, na escolha dos temas e nos arranjos, aprofundaram o carácter historiográfico da encomenda e todo o ensemble pareceu empenhado numa reconstituição relativamente fiel, ou pelo menos, académica, dos temas seleccionados. Uma de muitas opções possíveis, eventualmente a menos pertinente, dada a miríade de reconstituições a que este reportório é submetido diariamente em escolas e clubes de jazz. Uma selecção mais criteriosa dos temas a abordar ou um tratamento estilístico- quer nos arranjos, quer na interpretação, quer nos solos- menos “colado” aos originais teria eventualmente sido mais refrescante e poderia mesmo ter-se afirmado como uma estratégia mais confortável para os músicos que, com excepção de Abe Rábade, claramente alinhado com a proposta e Avishai Cohen, o único solista que parecia confortável nas mudanças de registo e se libertou um pouco mais nos seus solos, pareciam demasiado constrangidos.
De forma geral, o concerto em forma de revisitação desta música seminal, mas com mais de 50 anos, poderia ter sido uma oportunidade de perspectivar futuros, mas o ensemble conduziu o concerto de forma quase reverencial, acertando os registos, as sonoridades e os vocabulários de improvisação de acordo com os originais, eliminando quase por completo a afirmação de alguma singularidade. E ao debruçar-se mais sobre as edições menos controversas de 1959 (de Ornette Coleman só tocaram “Chronology”, por exemplo), seleccionando clássicos como “All Blues”, de Miles Davis, “Blue in Green” de Bill Evans/Miles Davis, “Almost Cried” de Duke Ellington, “Syeda’s Song Flute” de Coltrane e “Better Get it in your soul” e “Goodbye Porcupine” de Mingus, que só muito raramente foram tratados como material “novo”, o concerto tornou-se académico e até, em alguns casos, aborrecido, apesar da excelente qualidade técnica dos intérpretes.

25 de Julho de 2009, 18h00
Donny McCaslin Group

  • Donny McCaslin sax tenor
  • Ricky Rodriguez contrabaixo
  • Jonathan Blake bateria

A presença do trio dirigido pelo saxofonista norte-americano Donny McCaslin foi o único concerto que não resultou de encomenda directa do Jazz no Parque e consistiu na apresentação dos álbuns já editados pelo grupo, particularmente “Recommended Tools” (GreenLeaf Music 2008), gravado com Jonathan Blake e Hans Glawischnig. Donny McCaslin apresenta um jazz contemporâneo ancorado em referências históricas sólidas, articulado num vocabulário bem estruturado, dialogante com um universo musical externo, mas próximo— como a música brasileira (Hermeto Pascoal é uma das suas referências) ou a pop (um dos temas é dedicado a Madonna)—, mas um dos factores determinantes no impacto que a sua performance tem sobre o público é o seu virtuosismo e o extraordinário rigor técnico que todo o grupo assegura, sem sacrifício da musicalidade. A significativa capacidade técnica de Donny McCaslin, quer na fluidez e rapidez do fraseado, quer no rigor da afinação e no detalhe tímbrico expressivo, acompanhado a grande nível quer por Jonathan Blake, quer por Ricky Rodriguez, colocam a performance do trio num nível de execução difícil de atingir e permitem uma grande exploração dos temas, cuja construção demonstra à partida uma enorme confiança na capacidade técnica dos intérpretes. Ainda assim, a “força da técnica” não esmaga a musicalidade da performance, fazendo lembrar a máxima dedicada aos bailarinos clássicos e aos patinadores do gelo de que não devem em nenhuma altura deixar transparecer a dificuldade associada aos seus movimentos, já que isso se traduzirá em desconforto para o público. O Donny McCaslin Group cumpre esse requisito clássico, apresentando uma performance envolvente e, em alguns momentos estonteante, com o virtuosismo a servir propósitos musicais.
E se, globalmente, a música do Donny McCaslin Group se mantém fiel a formas clássicas do jazz, a disponibilidade do solista em assumir papéis tradicionalmente atribuídos à secção rítmica, liberta a estrutura do trio para outras explorações e para a afirmação completa de cada um dos intérpretes, que acontece quer em solos, quer em duos, quer na forma de pergunta-resposta.
O concerto evolui, passando revista e reconhecendo algumas das influências menos óbvias de Dony McCaslin, como Hermeto Pascoal e Bill Frisell. O seu registo, recorda, a espaços, e de acordo com os ambientes, a fluidez de fraseado de Michael Brecker ou o timbre luminoso de Jan Garbarek, mas a sua voz afirma-se de forma inequívoca, com o acompanhamento certeiro e cúmplice de Jonathan Blake (com 1 grande solo em “3 Signs” entre várias intervenções notáveis) e a grande qualidade de Ricky Rodriguez, quer em papéis mais tradicionais, quer no desenvolvimento de solos, ou na introdução de temas como “Late Night”, com a devida vénia a Bill Frisell.

1 de Agosto de 2009, 18h00
“Bennie Walace Plays Monk”

  • Bennie Wallace sax tenor
  • Donald Vega piano
  • John Hebert contrabaixo
  • Yoron Israel bateria

Ao saxofonista norte-americano Bennie Wallace, António Curvelo sugeriu uma nova incursão ao universo do génio Thelonious Monk, recuperando um projecto de 1981 do saxofonista do Tennessee. Bennie Wallace, já com uns respeitáveis 62 anos, aceitou o convite com generosidade e entusiasmo, dada a presença regular do reportório de Monk nos seus projectos, o seu enorme potencial e as possibilidades criativas ainda por realizar. Apresentou-se numa formação clássica de quarteto, com Donald Vega, John Hebert e Yoron Israel e entregou-se a um concerto que teve grandes momentos, mas no qual se puderam também notar as naturais fragilidades associadas à sua idade: quer nas dificuldades de articulação mais rápida de algum fraseado, quer na afinação e timing de algumas intervenções.
Mas esses momentos mais frágeis humanizam uma performance marcada pela generosidade e entrega e pelo inconformismo: Bennie Wallace, logo na primeira introdução a solo, em “Twinkle, Twinkle”, mostrou que pretendia explorar e reinventar o genial reportório de Monk, mais do que se limitar a interpretá-lo, e assim o fez, quer nos solos, quer na forma de apresentar os temas. Entre os músicos que o acompanhavam, destaque, pela positiva, para o contrabaixista John Hebert (grande solo em “Heavy Rotation”), muito atento e alinhado com Bennie Wallace e, pela negativa, para o baterista Yoron Israel, a quem parecia faltar convicção na interpretação mais livre e criativa deste reportório.
As flutuações na performance de Bennie Wallace, a quem, por vezes, parecia faltar em forma física o que sobrava em energia criativa marcaram o desenvolvimento do concerto, mas o génio de Monk foi assinalado de forma genuína e momentos como o solo (mesmo a solo) de Bennie Wallace, em “Round About Midnight”, elevaram o concerto a um outro nível, musical e emocional.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Louis Sclavis e Evan Parker, uma noite de contrastes

12 de Setembro de 2009, 22h00
Casa da Música, Sala Suggia

Duplo Concerto:
Evan Parker Quartet + Louis Sclavis Trio

O dia 12 de Setembro de 2009 fica marcado na Casa da Música, no Porto, com um duplo concerto de peso: no primeiro concerto apresentou-se Louis Sclavis— um dos nomes fundamentais da improvisação europeia e um dos responsáveis pela boa reputação que goza o clarinete, particularmente o baixo, na improvisação e no jazz contemporâneos— em trio com o pianista Craig Taborn e o baterista Tom Rainey, numa colaboração não muito habitual do clarinetista francês com músicos norte-americanos; no segundo concerto, ao trio do incontornável Evan Parker— o saxofonista britânico assegurou já um lugar no panteão dos grandes improvisadores e é uma referência respeitada em todos os quadrantes da música criativa—, com o contrabaixista Barry Guy e o baterista Paul Lytton, juntou-se, para completar um quarteto uma das mais promissoras estrelas da improvisação— com provas dadas recentemente no Jazz em Agosto—, o trompetista Peter Evans.

Uma noite de contrastes, de propostas arriscadas e intensas e improvisação ao mais alto nível.

Louis Sclavis Trio

  • Louis Sclavis sax soprano, clarinete baixo
  • Craig Taborn piano, teclados
  • Tom Rainey bateria

Louis Sclavis, no seu encontro com o pianista Craig Taborn— um improvisador completo, congregando uma sólida formação clássica com incursões em vários domínios da música não erudita, mas com uma intensa carreira de jazzman— e com o baterista Tom Rainey— colaborador regular de alguns dos mais importantes músicos da cena jazzística nova-iorquina— coloca-se, mais uma vez, num território diferente, com ampla margem de manobra pelos meandros do jazz e das músicas não-eruditas, sem a partilha de algumas das referências de raiz marcadamente europeia que explora em alguns dos seus projectos, mas com amplo espaço para caminhos diferentes, dada a competência técnica e criatividade dos seus novos parceiros norte-americanos. E o concerto desenvolveu-se, assim mesmo, resultando claramente do encontro das culturas musicais de Sclavis, Taborn e Rainey, navegando entre referências mais puramente jazzísticas até universos menos “idiomáticos”, passando até por momentos mais “ligeiros”.
Quer com o clarinete baixo, quer com o sax soprano, Sclavis deu conta da sua veia aparentemente inesgotável e a quantidade e diversidade dos temas apresentados permitiu a exploração aprofundada de diversos universos musicais, de forma relativamente estanque. Ouvimos temas de forma mais livre, com recurso a técnicas instrumentais expandidas, sem pulsação definida e com grande exploração de timbres e partilha de sonoridades, ouvimos cadências eruditas virtuosas, quer por Taborn, quer por Sclavis, ouvimos o que poderiam ser excertos duma banda sonora dum “film noir”, jazz europeu “embriagado”, ouvimos explosões massiças de energia, assumidas imitações de swing, beats quase electrónicos, melodias nostálgicas e espirituais… um concerto com 7 temas que se desdobrou em inúmeras possibilidades, envolvendo as personalidades musicais dos 3 intervenientes, claramente guiado por uma urgência de ser coerente a cada momento, mas garantindo a diversidade dos diferentes momentos, que parece ser um dos impulsos de Sclavis.
Craig Taborn empenhou-se na construção deste mosaico com afinco e gosto, explorando muitas das possibilidades instrumentais do piano e demonstrando enorme versatilidade na improvisação e grande rigor na interpretação dos temas, muitas vezes tecnicamente exigentes e estruturalmente complexos. Tom Rainey, igualmente à vontade e muitíssimo seguro, demonstrou o potencial expressivo da bateria, mesmo em universos de grande fragilidade.
E esta forma de expressão “estilhaçada” ofereceu ao público da Casa da Música uma curiosa amostra de diversas possibilidades de “construção musical” que, sendo criativas e dando grande espaço e ênfase à prática da improvisação e à experimentação, não receiam referências idiomáticas, que se conjugam quase em forma de narrativa. Esta que parece ser uma intenção recorrente de Sclavis- que além do virtuosismo técnico, tem a necessária criatividade e versatilidade-, realiza-se de forma notável quando os músicos que com ele partilham o palco se apresentam também a elevado nível técnico e criativo e munidos da versatilidade e da generosidade necessária para essa construção colectiva angulosa. Assim foi com Craig Taborn e Tom Rainey: o trio encontrou a sua narrativa e apresentou-a com clareza, pormenor e entusiasmo.

Evan Parker Quartet

  • Evan Parker sax tenor
  • Peter Evans trompete
  • Barry Guy contrabaixo
  • Paul Lytton bateria

O segundo concerto da noite apresentou a junção do trompetista “revelação” Peter Evans, ao trio de Evan Parker, uma das mais significativas formações do free jazz europeu. Um concerto que se repetiu em Lisboa e que antecedeu a gravação dum novo álbum pela portuguesa Clean Feed, álbum que, a fazer justiça ao concerto, se arriscará seriamente a conquistar todos os galardões possíveis.
Com explorações de forma muito livre e marcadas claramente pelo espírito de Evan Parker de procurar a disponibilidade para ouvir constantemente os motivos para tocar na “voz” dos seus companheiros, o trio recebe o jovem trompetista Peter Evans com enorme disponibilidade e generosidade, partilhando um entusiasmo genuíno pelas suas raras capacidades expressivas. A Peter Evans parece, a espaços, faltar a maturidade ou controlo e, recorre ao seu enorme léxico para “comentar” permanentemente a actividade do colectivo, não conseguindo a eficácia que a contenção de Evan Parker lhe permite, ao gerir as suas intervenções com mais clareza e espaço. Mas a verdade é que o virtuosismo de Peter Evans é quase hipnótico, pelo que não se poderá saber que efeito teria alguma contenção da sua parte.
Ao contrário do primeiro concerto, de Louis Sclavis, com Evan Parker não existe uma narrativa ou uma estrutura pré-determinada, sentindo-se mais um fluxo de energia musical que vai sendo gerado e gerido pelos 4 músicos, num jogo cuidadoso de partilha, afastado de referências idiomáticas e focado essencialmente nas capacidades expressivas dos instrumentos e da sua conjugação.

Mas, como forma de provar que não existe nenhuma barreira entre projectos musicais desta natureza, no final do concerto, Evan Parker, convidou Louis Sclavis, Craig Taborn e Tom Rainey para que, em septeto, pudessem oferecer mais alguma música ao público da Sala Suggia, tendo esse final de noite marcado um ponto muito alto na história da Casa da Música. Improvisação pura, inesperada até— Louis Sclavis entrou em palco já depois do início do tema, ainda a montar o clarinete e Tom Rainey foi colocando os pratos na bateria enquanto tocava—, onde todos geriram o seu espaço em função dum colectivo mais complexo, mais intrigante, com a partilha inesperada de materiais tímbricos, rítmicos e melódicos entre músicos dos 2 agrupamentos e uma alargada exploração do potencial hiper-instrumental, para usar a expressão de Denman Maroney, com Sclavis a responder aos aparentemente inatingíveis agudos de Peter Evans com subgraves do tubo do clarinete-baixo sem boquilha e Craig Taborn a percutir as cordas do piano, em resposta às cordas travadas com ferros no contrabaixo de Barry Guy, aparentemente, sempre de forma controlada e partilhada.

Uma festa bonita.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | OJM & 3 Tenores

OJM & 3 Tenores
4 de Outubro 2009, 22h00
Sala Suggia, Casa da Música

Direcção: Carlos Azevedo e Pedro Guedes
Solistas convidados: Chris Cheek, Mark Turner e Andy Sheppard

A Orquestra de Jazz de Matosinhos apresentou na Sala Suggia da Casa da Música o evento que, no final de 2008, marcou a reabertura do Cine-Teatro Constantino Nery, em Matosinhos: um concerto para o qual a OJM encomendou novas obras a Ohad Talmor e John Hollenbeck (ambos com presenças marcantes no percurso da Orquestra) e aos seus maestros e compositores de serviço, Pedro Guedes e Carlos Azevedo. 4 novas obras para a OJM explorar, convidando 3 saxofones tenor como solistas.
Em Matosinhos, em 2008, os solistas foram Chris Cheek, Ohad Talmor e Joshua Redman e nesta reapresentação do projecto OJM & 3 Tenores, na Casa da Música, apresentaram-se Chris Cheek, Mark Turner e Andy Sheppard (os dois primeiros já com colaborações com a OJM, Sheppard em estreia).

As 4 obras resultantes da encomenda, pela diversidade de abordagens, pelo enquadramento oferecido ao trio de solistas, pelo papel e exigências atribuídas à própria OJM, funcionam quase como uma vista panorâmica da evolução do projecto da Orquestra, com a particularidade de, neste evento, praticamente se abolirem expressões solísticas dos membros da OJM, explorando-se, isso sim, as capacidades expressivas do grupo, que demonstrou, neste contexto, uma enorme diversidade tímbrica, grande flexibilidade idiomática, rigor na execução e inteligência na interpretação. Com a eventual excepção da obra de Pedro Guedes, mais curta e convencional na forma, com espaço para uma apresentação clara do tema e uma abordagem clássica dos solos, as obras apresentadas desenvolvem-se em secções, enquadrando os solistas em contextos diversificados e explorando diferentes ambientes musicais, com opções na instrumentação que permitem que a OJM percorra um largo espectro, entre a big band clássica e a orquestra de câmara (especialmente quando os saxofonistas, pegam em flautas e clarinetes e os metais se equipam com surdinas), passando pelos pequenos grupos que ocorrem quando apenas a secção rítmica acompanha os solistas. A escrita de Ohad Talmor e John Hollenbeck, particularmente, com que a OJM já se tinha deparado em projectos específicos, parece desmultiplicar as possibilidades musicais da orquestra, que se apresenta com enorme maturidade e convicção, com verdadeira dimensão de Orquestra de Jazz.

E é interessante notar que o papel dos solistas, neste contexto, sendo desempenhado com elevado rigor pelo excelentes intérpretes e improvisadores que são Cheek, Turner e Sheppard, parece ser menos relevante do que o funcionamento global da orquestra face às encomendas feitas aos compositores. A música apresentada, sendo muitíssimo enriquecida pelos solistas, quer na interpretação dos temas escritos, quer no desenvolvimento dos solos improvisados, é construída como música de orquestra, pelo que a performance específica de cada um dos convidados parece ser um assunto secundário.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Concertos Promenade no Teatro Aveirense: uma óptima ideia

Os Concertos Promenade no Teatro Aveirense são da responsabilidade do Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian e ocorrem no primeiro domingo de cada mês, de manhã, tendo começado em Março. Hoje foi a segunda edição (o concerto de Abril coincidiria com o domingo de Páscoa) e eu lá estive, com a Maria e sua avó. Mesmo antes de ir, poderia dizer que esta é uma óptima ideia e é o tipo de iniciativas que contribui, de facto, para a afirmação dum Teatro Municipal. Trata-se de serviço público que enriquece todos os participantes:

  • os alunos do Conservatório têm uma experiência formativa fundamental, que é a apresentação em público do seu trabalho, num contexto diferente das audições de escola; e têm contacto com a estrutura profissional do teatro, aprendendo muito acerca de aspectos menos abordados na escola da sua (eventual) futura profissão
  • o Conservatório ganha um merecido espaço de visibilidade na cidade e exercita as suas capacidades de inserção e relação com o tecido cultural da cidade
  • o Teatro Aveirense ganha público, que poderá vir pela primeira vez para um evento desta natureza e, neste contacto, (re)construir uma relação com este equipamento e com a sua programação; todas as actividades de natureza cíclica / rotineira, têm também a vantagem de criar hábitos de consumo cultural e, na minha opinião, são os alicerces de qualquer coisa a que se possa chamar uma “corrente de público”
  • o Teatro Aveirense ocupa um novo lugar na rede de estruturas locais de produção e formação ao acolher uma iniciativa desta natureza e assumir as suas responsabilidades como parceiro público e institucional, representante da cidade, nesta rede local
  • o Teatro Aveirense assegura uma maior abrangência da sua própria lógica de programação ao delegar no Conservatório a programação destes eventos
  • o público assiste a concertos de música erudita em horários confortáveis para a família e a preços simbólicos

Em suma, a cidade ganha um espaço privilegiado de partilha, através da música, daquilo que é e daquilo que pode ser. Ao ouvirmos os estudantes do Conservatório, estamos não só a usufruir de boa música, mas também (espero) a lembramo-nos, enquanto comunidade, do extraordinário poder que a Educação e a Escola têm. E, se voltamos a acreditar na Escola e, também por isso, a investir nela o que é preciso, que não são só recursos financeiros, talvez encontremos um caminho para fora da crise.

Como vêm, um Concerto Promenade é tão bom que até deixam um tipo como eu a fazer discursos optimistas. ;)

Obrigado ao Conservatório de Música de Aveiro e ao Teatro Aveirense, mesmo que saibamos que não estão a fazer mais do que cumprir a sua missão de serviço público. ;)