jazz.pt | Não foi bonita a festa, pá!

Casa da Música, Sala Suggia
28 de Junho, 22h00

Brad Mehldau e Chico Pinheiro convidam Fleurine e Luciana Alves
Ciclo Jazz e Brasil, País Tema 2009

Brad Mehldau: piano
Chico Pinheiro: voz e guitarra
Fleurine e Luciana Alves: voz
Doug Weiss: contrabaixo
Edu Ribeiro: bateria

Este concerto, primeiro duma curta digressão nacional, estava apresentado como “Brad Mehldau e Chico Pinheiro convidam Fleurine e Luciana Alves” e prometia aos amantes do jazz e da música brasileira uma noite plena de emoções, dada a importância e o talento dos nomes principais do cartaz. A colaboração entre Brad Mehldau, um dos mais prolíficos e requisitados pianistas de jazz da sua geração e de Chico Pinheiro, figura incontornável da música brasileira de hoje, compositor e virtuoso do emblemático “violão”, justificava uma elevada expectativa em torno do concerto e a sala cheia e entusiasta confirmava isso mesmo.
E esse entusiasmo teve o retorno esperado no início do concerto, primeiro com Brad Mehldau e Chico Pinheiro em duo, sozinhos no palco a explorar um tema do músico brasileiro, assim como o segundo tema, já com Doug Weiss e Edu Ribeiro, músicos de elevada craveira e parceiros habituais de Mehldau e Pinheiro, respectivamente, a completarem a secção rítmica. As ligações íntimas e o jogo de sedução constante entre o jazz e as músicas brasileiras, com especial destaque para a bossanova, cuidadosamente equilibradas, e com músicos de tão elevado nível técnico e criativo podem dar origem a concertos formidáveis, capazes de agradar às mais diversas audiências, mas, infelizmente, não foi o caso desta noite de encontro entre Mehldau e Pinheiro. Por um lado porque o desequilíbrio entre o Jazz e a Bossanova foi evidente do princípio ao fim, nas palavras de algum público à saída “bossanova a mais e jazz a menos“, o que, apesar dos esforços de Mehldau e Weiss, limita a sua capacidade expressiva e, no geral, torna o concerto menos interessante. Por outro lado, porque um encontro mais intenso entre os talentos musicais de Mehldau e Pinheiro ficou muitíssimo limitado, quer pela estrutura das canções que foram sendo apresentadas, com poucos espaços para mais explorações, quer pela estrutura do concerto que ofereceu apenas mais um momento de duo, com o virtuoso “Tema em 3“, novamente de elevado nível, mas ainda em territórios de Pinheiro.
Mas, acima de tudo porque, na realidade, na agenda de todos estes músicos está, acima de qualquer outra coisa, a apresentação do mais recente álbum da cantora holandesa Fleurine, “San Francisco” (Sunnyside 2008), onde se juntaram Mehldau e Pinheiro pela primeira vez, de facto, e onde a parceira de Brad Mehldau, cantora de jazz de reconhecidos méritos faz uma incursão pela música brasileira, gravando temas de 3 Franciscos notáveis: Francisco Buarque de Hollanda, Francis Hime, e o próprio Chico Pinheiro. Impunha-se, por isso, uma mais rigorosa apresentação do concerto, evitando o equívoco de se pensar que se estaria perante o fruto duma colaboração directa entre Pinheiro e Mehldau. Questões de comunicação e marketing, que em nada afectariam a fruição do concerto, não fosse dar-se o caso de Fleurine, figura central do concerto, de facto, se encontrar num momento particularmente infeliz, com muitíssimas dificuldades de afinação, numa prestação sofrível e atípica para performers com estes pergaminhos e que afectou de forma indelével a totalidade do concerto.
Principalmente no duo com Brad Mehldau, único tema do pianista norte-americano tocado, para o qual Fleurine escreveu uma letra em português, “Resignation / Resignação, não para nós“, não só a desafinação e dificuldades vocais nos momentos sinuosos da melodia de Mehldau, como as dificuldades de dicção do português, transformaram todo o tema num momento quase embaraçoso.
Fleurine teve momentos menos maus, especialmente quando cantou em inglês, mas nunca esteve à altura dos seus parceiros em palco, facto que a voz segura e acolhedora de Luciana Alves terá ajudado a realçar, e o concerto, entre essas fragilidades, a escolha pouco criteriosa e algo populista do reportório e os seus arranjos minimalistas e repetitivos ficou muitíssimo abaixo das expectativas. Tom Jobim, Moacir Santos, Milton Nascimento, Baden Powell e Francis Hime e Chico Buarque “encheram” o concerto, canção atrás de canção, até aos encores, em temas escolhidos de acordo com o gosto mais genérico e sem grandes preocupações de variação da fórmula. Os temas de Chico Pinheiro terão sido os únicos a ser alvo de maior atenção, mas nem isso, nem o talento dos músicos em palco bastam para um concerto à altura da proposta.
Pode ter sido só uma noite de azar, mas não “foi bonita a festa, pá!”.

+ info: www.casadamusica.com | www.fleurine.com

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Criaturas @ TA, um registo possível

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=UrdCRECDEMo[/youtube]

Nem o som, nem a imagem estão brilhantes, mas, para já, é o registo possível. Também no Vimeo, no Facebook e no MySpace.

Uma pequena experiência de “cross-posting” para ver qual das plataformas gera mais feedback.

(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos

Apresenta-se hoje, dia 5 de Novembro, quinta-feira, às 22h00, na Sala Estúdio do Teatro Aveirense, a minha mais recente criação, com o longo título

(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos

Esta obra resulta dum convite dirigido pelo Teatro Aveirense para que apresentasse uma nova criação no âmbito do CANT – Ciclo Arte e Novas Tecnologias e foi desenvolvida, na sua fase final, em residência, o que apresenta claras vantagens para um projecto desta natureza.
Este é um projecto muito mais “pessoal” do que qualquer outro que tenha realizado até agora, pelo que, por agora, falta-me um distanciamento mínimo para saber se resulta. Cabe ao público essa função, como sempre.

Imagem de divulgação das "criaturas"

Sinopse

Alguns dos sonhos mais extraordinários e marcantes são aqueles cuja verosimilhança nos deixa num estado confuso; sonhos que estão de tal forma contaminados de realidade e familiaridade que chegam a integrar as nossas memórias reais, até serem denunciados por um ou outro pormenor.

Nesses sonhos é frequente encontrar solução para problemas que nos afligem, ainda que ou a solução ou o problema pertençam, por vezes, apenas ao universo peculiar dos sonhos, faltando-lhes qualquer aplicação prática.

O poder sugestivo, quase hipnótico, da verosimilhança e da familiaridade cria também alguns dos mais intensos e assustadores pesadelos, mas nestes nota-se, com mais facilidade, que no universo dos sonhos estas sensações podem estar associadas não a elementos ou representações da realidade, mas apenas a sensações ou imagens que integram desde cedo um determinado vocabulário onírico. Elementos com os quais sonhamos frequentemente- sejam sensações, personagens ou imagens…- podem, paradoxalmente, deixar de denunciar a situação-sonho, já que se encontram no seu universo natural e, por isso, são verosímeis no contexto: verdadeiros porque completamente imaginados, como diria Boris Vian.

O que define a fronteira entre o sonho e a realidade e a forma como nos debatemos para a transgredir é o tema central da obra que se estreia no Teatro Aveirense: “(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos“, assim como uma pergunta recorrente: “tens mais medo do escuro ou do silêncio?“.

Som, imagem e palavras, situações e bandas sonoras e visuais recuperadas de fragmentos de sonho, pesadelo e realidade são apresentadas e propostas ao público num convite não à contemplação ou voyeurismo onírico, nem ao devaneio surrealista, mas como exercício colectivo de reconstrução das sensações individuais das viagens de e para o sonho.

Sobre o processo de criação:

A obra a apresentar intitula-se “(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos” e já teve duas apresentações como work-in-progress, em que explorei um trecho da obra que envolve processamento de saxofone baixo em tempo real associado a uma simples experiência de privação sensorial (a obra apresenta-se em escuro absoluto).

A experiência pretende explorar as sensações e os momentos em que o sonho se deixa contaminar pela realidade e nos faz acordar confusos pela aparente estranheza do que nos é(era) familiar. As motivações originais são os instrumentos que toco, uns familiares e outros muito estranhos e a forma como construo grande parte da minha música, por um lado e a relação que estabeleço entre isso e ilustrações que fazem parte do meu imaginário de criança.

O primeiro estudo-apresentação que mereceu esta designação e que iniciou o processo, apresentava-se assim:

Este estudo é a primeira apresentação (identificada como tal) dum work-in-progress, que conta já com alguns anos de existência / insistência: a procura e reprodução de sons sugeridos por criaturas nascidas em ilustrações familiares.
Essas criaturas, através dos novos instrumentos que “geraram” e das novas técnicas que me “ensinaram”, povoam a minha criação musical dos últimos 10 anos, sem exigir nada em troca. Ao preparar um momento de reconhecimento e retribuição, o plano de estudos prevê a apresentação pontual de algumas dessas criaturas, intercaladas com momentos de mais descoberta e diálogo.

Foi no Cinema Passos Manuel, no Porto, no contexto do Projecto Tell que propunha performances no escuro absoluto. Essa experiência foi bastante intensa, quer para mim quer para o público e decidi voltar a repetir esta forma de privação sensorial no AveiroSaxFest, em que fiz uma segunda apresentação, sem escuro absoluto, mas sem que a minha presença fosse visível, também.

Recrutei, entretanto, a colaboração da Cláudia Escaleira, para usar o desenho como instrumento narrativo.

Estes testes serviram para afinar algumas estratégias e, com o feedback de pessoas presentes (músicos e outros criadores, além de público), estou a desenvolver a estratégia global de cruzamento entre os instrumentos convencionais que toco e os que concebo e construo: a MeSA, o Contratear, o Munaciclo, etc.

Alguns destes instrumentos tiveram uma atenção particular em vários projectos e bandas sonoras, mas quero avançar particularmente no campo dos cruzamentos entre instrumentos e na construção duma experiência capaz de submergir completamente o público: som, vídeo, luz, etc.

Space Ensemble apresenta ALGORÍTMICO

Space Ensemble @ Casa da Música | Sala de Ensaio 1
27 a 30 de Outubro 2009 | 11h00 e 14h30
(sessões reservadas a escolas)
31 de Outubro 2009 | 11h00 e 16h00

ALGORÍTMICO – Música e Matemática
um novo programa do Space Ensemble

[...] Nenhum matemático devia alguma vez esquecer que a matemática, mais do que qualquer outra arte ou ciência, é um jogo juvenil.
G. H. Hardy (1877-1947)

O Space Ensemble encara o desafio de construir um programa de filmes-concerto relacionando Música e Matemática com naturalidade e entusiasmo. Frequentemente referidas como linguagens universais, a relação entre Música e Matemática parece ser uma fonte inesgotável de descoberta e inspiração e o Space Ensemble escolhe uma perspectiva bastante particular:

  • a Música, nosso território “nativo”, é uma linguagem universal por ser, com o movimento, condição prévia de comunicação, socialização e, assim, humanidade— une todos os seres humanos no que há de mais elementar e instintivo;
  • a Matemática, base do conhecimento, como ciência e aprendizagem, é também universal, por operar como uma poderosa ferramenta de modelação e manipulação da realidade (esta e todas as outras) e, assim, se constituir também como mecanismo de tradução e conversão entre virtualmente todos os domínios humanos— congrega e articula todas as formas de conhecimento e criação.

Assim, mais do que relacionar Música e Matemática, procuramos usar a universalidade da expressão musical como forma de ilustrar a extraordinária potência da ciência matemática na construção de relações: construímos música a partir de números, em jogos com o público ou com filmes, musicamos as composições geométricas animadas de Norman McClaren e René Jodoin e invertemos o processo, criando novas animações, que traduzem, em tempo real, a música produzida.

AlgoRítmico é um jogo juvenil, como a própria Matemática, segundo Hardy. Um jogo de sons e imagens, com regras matemáticas, como o mundo.

História de Palavras

Algoritmo e Algarismo têm a mesma origem etimológica: al-Khuwarizmi era um matemático árabe do séc. IX e não é comum que palavras tão importantes e de uso científico tenham origem no nome duma pessoa.

Na origem da palavra algoritmo também participa o grego para número: arithmós (donde vem a Aritmética).

Arithmós é número, em grego, e significa número e quantidade e Rhuthmós é ritmo, em grego, e significa medida, cadência e ritmo.
Portanto, o rhuthmós, a medida, pode ser representada por arithmós, quantidades. Giro, não é?

Daqui, temos a Aritmética, o Algarismo, o Algoritmo, o Ritmo e…

Matemática vem também do grego mathematikê ou mathêmatikós, que junta máthêma ou mathêmatos (estudo, ciência, conhecimento), que vem de manthánô (estudar, aprender), com -ica, um sufixo grego especialmente usado no domínio das artes, ciências, técnicas, doutrinas e afins, fazendo da Matemática a ciência fundamental, por se construir com base etimológica na própria ideia da aprendizagem e construção do conhecimento.

Se pensarmos que a Música (mosoikê) é, etimologicamente, também, a Arte das Musas, ou seja a Arte das Artes… temos uma espécie de “ciclo virtuoso“, em vez de “ciclo vicioso“.

Isto tudo dá o quê? Dá AlgoRítmico.

Space Ensemble: Sérgio Bastos (piano), Henrique Fernandes (contrabaixo), João Tiago Fernandes (percussão), Nuno Ferros (electrónicas), João Martins (saxofones), Eleonor Picas (harpa).

Programação Pure Data [pd~]: João Martins
Ilustrações: João Tiago Fernandes

Filmes de René Jodoin e Norman McClaren cedidos pelo National Film Board (Canadá).
Produção do Serviço Educativo da Casa da Música.

MLE com Rafael Toral no Balleteatro Auditório

Sábado, 3 de Outubro. 22h00

MENTAL LIBERATION ENSEMBLE & RAFAEL TORAL
Gustavo Costa, Henrique Fernandes, João Filipe, João Martins, Jonathan Saldanha e Filipe Silva, para além do convidado Rafael Toral

Local balleteatro auditório

MENTAL LIBERATION ENSEMBLE & RAFAEL TORAL
Agrupamento de geometria variável orientado em torno do eixo da editora portuense Soopa, o M.L.E. engloba um núcleo permanente de músicos (envolvidos em projectos da actual cena portuguesa, como F.R.I.C.S., Mécanosphère e Lost Gorbachevs), bem como diversos participantes ocasionais.
A estética do projecto é inclusiva, abarcando o uso de instrumentos acústicos, eléctricos e electrónicos; o seu “modus operandi” é a improvisação, resultando na criação de organismos sonoros abstractos e em constante fluxo.

Neste concerto, o M.L.E. será constituído por Gustavo Costa, Henrique Fernandes, João Filipe, João Martins, Jonathan Saldanha e Filipe Silva, para além do convidado Rafael Toral, músico e compositor que, em mais de duas décadas de carreira, tem colaborado com John Zorn, Sonic Youth e Keith Rowe, entre outros.

+ info www.soopa.org

jazz.pt | William Parker: The Inside Songs of Curtis Mayfield

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 25 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

26 de Abril de 2009, 22h00 | Casa da Música, Sala Suggia
Ciclo Música e Revolução

William Parker: The Inside Songs of Curtis Mayfield

  • Amiri Baraka, spoken word
  • Leena Conquest, voz e dança
  • Lewis Barnes, trompete
  • Darryl Foster, saxofones
  • Sabir Mateen, saxofones
  • Dave Burrell, piano
  • William Parker, contrabaixo
  • Hamid Drake, bateria

O Ciclo Música e Revolução, que a Casa da Música promove pelo 3º ano consecutivo, procura abordar de forma complementar a influência que as revoluções sociais, políticas e económicas tiveram na produção musical ao longo dos tempos, as práticas musicais associadas a esses momentos de ruptura histórica e as práticas musicas revolucionárias “per se”. As implicações programáticas são complexas e as escolhas necessariamente difíceis, sendo por isso necessário, como os próprios programadores reconhecem, acrescentar, a cada edição, alguns sub-temas ou vectores de entendimento destas relações. Em 2009, enquanto se focou parte da programação nas práticas musicais revolucionárias de Karlheinz Stockhausen, elegeram-se também as lutas do Movimento dos Direitos Civis, nos Estados Unidos da Améria, como forma paralela de enquadramento conceptual, o que resultou num conjunto de concertos, do qual faz parte esta proposta de William Parker, mas também as presenças de The Last Poets e a apresentação da “Sinfonia para Oito Vozes e Orquestra” de Luciano Berio ou de “Coming Together” de Frederic Anthony Rzewski. A contaminação do discurso musical pelo discurso político, ou a própria afirmação do discurso musical como discurso politico, apresenta-se assim em diversas formas durante o ciclo e cruza todo o espectro de músicas e formas estéticas que habitam a Casa da Música. Trata-se dum programa ambicioso e merecedor da máxima atenção. Continuar a ler

Carlos Zíngaro + Mental Liberation Ensemble

Na inauguração de A Mula Ruge no Espaço Campanhã, que acontece no dia 4 de Julho, próximo sábado, vamos ter um concerto do Mental Liberation Ensemble com Carlos Zíngaro. É às 18h00 e promete!

Cartaz de A Mula RugeA MULA RUGE
no Espaço Campanhã
de 4 a 25 de Julho de 2009

A Mula Ruge é uma espécie de infantário, onde podem vislumbrar essa maldita e mutante prole de tantos anos de rambóia. É também uma espécie de orgia, pois poderemos ver in actu as trampolinices da Mula com seus novos namorados (alguns deles com idade para ter juízo, mas que ainda revelam ter pêlo na venta). E ainda uma espécie de casamento de aldeia, já que convidaram todos os compadres e comadres para um pé de dança, comezaina e outras vilanias.
Pedro Moura

Exposição colectiva com Miguel Carneiro, Marco Mendes, Arlindo Silva, Filipe Abranches, João Maio Pinto, André Lemos, Berto Fojo, Likenico, Pelucas, Von Calhau, José Feitor, Júcifer, Lígia Paz, Raygal, Mauro Cerqueira, Mike Goes West, Nuno de Sousa, Carlos Pinheiro e Carlos Zíngaro.

(cartaz de Miguel Carneiro & João Marrucho)

Dia 4 de Julho:

  • 15h
    Inauguração da Exposição Colectiva e Feira Laica
    Lançamento da Qu’Inferno
  • 18h
    Concerto Mental Liberation Ensemble & Carlos Zíngaro

O Mental Liberation Ensemble é uma formação cujos membros provêm de áreas musicais que vão do death-metal ao free jazz, colaborando regularmente em vários projectos (F.R.I.C.S., Mécanosphère, Srosh, Lost Gorbachevs, entre outros), e que se juntam como Mental Liberation Ensemble quando surge a oportunidade de acolher um músico convidado.

Para o concerto a formação será constituída por:

João Martins – saxofones
Henrique Fernandes – contrabaixo eléctrico
Gustavo Costa – bateria e percussões várias
João Filipe – percussões
Filipe Silva – electrónica, guitarra
Jonathan Saldanha – electrónica e outros instrumentos

A estes músicos irá juntar-se o convidado Carlos Zíngaro (violino).

  • 20h
    Mega Churrasco Dançante com DJ GoldenShower

Dia 25 de Julho:

  • 18h
    Concerto João Peludo

Cartaz Feira laica

(Cartaz Von Calhau)

Mais informação:

  • Miguel Pinho (responsável pelo espaço) Tel: 912897580 / linha1@plataformacampanha.com
  • José Maia (responsável pelo programa de exposições) Tel: 933288141

Contactos:
Espaço Campanhã
Rua Pinto Bessa 122 – Armazém 4 e Armazém 21 (atrás do BANIF)
4300-472 Porto
Tel. 912897580 | linha1@plataformacampanha.com | www.plataformacampanha.com

jazz.pt | Wayne Shorter Quartet

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Wayne Shorter Quartet

Sala Suggia, Casa da Música, Porto | 11 de Março de 2009

Wayne Shorter (Sax Tenor e Soprano), Danilo Perez (Piano), John Patitucci (Contrabaixo), Brian Blade (Bateria)

A actual fase da carreira de Wayne Shorter, com o regresso à forma do quarteto acústico e com os cúmplices de elevadíssimo nível que escolheu para o acompanharem, é marcada, claramente pela afirmação do próprio Shorter que diz “com a idade que tenho, não tenho nada a perder“. Não é claramente por uma questão de idade, mas sim pela vastíssima experiência e pela quantidade de distinções e reconhecimento generalizado da sua importância na história do jazz que Shorter se encontra num patamar em que, não tendo nada a provar, pode assumir um caminho de risco que, nem sempre trilhou com o mesmo à vontade. Tendo ao seu lado músicos com tanta qualidade e mérito reconhecido nas várias áreas musicais em que se movem, o quarteto cumpre essa condição de se poder apresentar sem medos, sem sentimentos de cumprimento obrigatório destas ou daquelas expectativas. Apresentam-se com e pela música, conscientes de que o caminho que percorrerem, seja ele qual for, está de tal forma bem alicerçado na extraordinária capacidade técnica individual e na vastidão do repertório que se dedicam a desconstruir, que a viagem os levará sempre a bom porto, ainda que desconhecido.
De facto, a estratégia empregue pelo quarteto para o set contínuo de quase 1 hora com que brindou a vasta audiência que se dirigiu à Sala Suggia, consitiu na exploração sucessiva de frases e/ou temas, uns mais reconhecíveis do que outros, das várias fases da ecléctica carreira de Shorter. Num fluxo constante de ideias musicais partilhadas, apontamentos pontuais, ora de Shorter, ora de Danilo Perez, ora de Patitucci, realimentavam os ouvidos do público com material familiar e, quase sempre rapidamente, iniciava-se um processo de desmembramento ou escalpelização, passando pelas várias estratégias instrumentais disponíveis. A formação clássica erudita de Danilo Perez e John Patitucci, revelaram “cadenzas” escondidas, encaixadas nas formas mais ou menos jazzísticas ou mais pop(ulares); o virtuosismo técnico de Brian Blade, oferece ao quarteto, a bateria como instrumento solista, livre das hierarquias tradicionais e a veia de Wayne Shorter, que “aqueceu” com o decorrer do concerto, navegava sobre todo o material.
Mas mais do que a capacidade interpretativa ou técnica, o quarteto demonstrou uma imensa capacidade auditiva e colaborativa, trabalhando de forma notável as trocas de material, os processos de pergunta-resposta e mantendo, apesar da inexistência duma base rítmica ou harmónica convencional, uma coesão estrutural assinalável ao longo do (longo) set.
A execução do exercício proposto só aparece prejudicado pela fraca qualidade da amplificação utilizada neste formato acústico, onde a excessiva amplificação do piano de Danilo Perez, cria uma base dinâmica muito comprimida e retira ao quarteto algum do seu potencial expressivo.

O público menos adepto da estratégia inicial terá sido amplamente recompensado pelos 3 encores, onde o quarteto (a)cedeu à apresentação mais convencional de cada tema, com Brian Blade e John Patitucci a assumirem de forma mais clara a posição de secção rítmica e Wayne Shorter a ter mais espaço para “solar”, quer no soprano, quer no tenor.

Para um quarteto que subia ao palco sem nada a perder e se lançou convictamente numa exploração partilhada, podemos dizer que, com os encores, o concerto é uma aposta completamente ganha.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Tecer Devagar

No próximo dia 20 de Junho, sábado, vou participar no Tecer Devagar, uma mostra organizada pelas Aldeias do Xisto na LX Factory, mais concretamente, no espaço da Ler Devagar. A minha participação relaciona-se directamente com a exposição Tapetes Mágicos, que resulta da parceria entre o designer Bruno Carvalho e as tecedeiras da Flor do Linho, em Boga do Meio: vou fazer um concerto de Contratear, que será o primeiro passo visível dum processo que levará à construção dum novo instrumento híbrido, resultante da colaboração com as tecedeiras de Boga do Meio e de Janeiro de Cima, com quem estou a aprender muito sobre teares e que me estão a ajudar a ter ideias interessantes, nestes dois dias em que estou em residência, aqui, por terras do Fundão.

Quem não conhece o Contratear achará isto tudo muito estranho, por isso, republica-se aqui uma amostra deste instrumento que concebi em 2005:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=6BYvKH336_4[/youtube]

Com esta residência, que serve também para a recolha de sons e imagens que usarei neste concerto na LX Factory, inicia-se um processo de colaboração com A Moagem – Cidade do Engenho e das Artes, através do qual será criado um novo instrumento/dispositivo de maiores dimensões e complexidade e que explorará de forma mais aprofundada as potencialidades destes engenhos têxteis como dispositivos sonoros.

O concerto, às 22h00, no dia 20 de Junho, sábado, na Ler Devagar (LX Factory) é uma co-produção Miguel Rainha / Granular.

Apareçam!

jazz.pt | Insólito na Casa da Música

Texto escrito por João Martins, a 17/07/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 20 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Saxophone Summit

  • Dave Liebman sax tenor, soprano e flauta
  • Ravi Coltrane sax tenor
  • Joe Lovano sax tenor e clarinete alto
  • Phil Markowitz piano
  • Cecil McBee contrabaixo
  • Billy Hart bateria

Casa da Música, 10 de Julho 2008, 23h00, Sala Suggia

INSÓLITO

Pouco mais de um mês depois do lançamento de “Seraphic Light” (Telarc, 2008), o regresso de Saxophone Summit a Portugal, renascido após a morte trágica de Michael Brecker com a colaboração de Ravi Coltrane— não no lugar de Brecker, mas na manutenção da estrutura do sexteto com 3 saxofones—, alimentava consideráveis (e compreensíveis) expectativas. E a grande afluência de público entusiasta à Casa da Música foi reflexo disso mesmo.
O projecto liderado por Dave Liebman, assumidamente comprometido com a exploração da herança menos visível do mestre do sax tenor John Coltrane, procurando, mais do que tocar o repertório “tardio” de Coltrane, encontrar formas de o (re)aproximar do público, iluminando os diferentes aspectos que tornam esta música “transcendente” e, por isso mesmo, menos imediata, conquista de facto a crítica e o público especializado e, aparentemente, a particularidade de juntar em palco tantos nomes consagrados (3 dos mais importantes saxofonistas do Jazz de hoje, seja com Brecker, até 2007, seja com Ravi Coltrane, agora, unidos a uma secção rítmica de luxo) confere ao projecto um factor atractivo extra que, felizmente, mobiliza também um público menos especializado. A designação usada por vezes de “os 3 tenores do jazz” explora precisamente esse aspecto grandioso e mediático que é justificado não só pelo imenso currículo de cada um dos músicos, como pelo considerável esforço empregue na procura do equilíbrio entre as diversas personalidades musicais e a herança que pretendem partilhar.
Não era por isso de estranhar o entusiasmo e a invulgar afluência de público e, também por isso, a sucessão de acontecimentos neste dia 10, na Casa da Música, pode ser descrita como “insólita”, com um olhar benevolente, mas configura-se como uma das situações mais caricatas, graves e deprimentes a que tive oportunidade de assistir numa estrutura e evento desta natureza. O concerto, incluído no ciclo “Verão na Praça” estava previsto para ocorrer na Praça, com a possibilidade de acontecer na Sala Suggia, caso as condições meteorológicas a isso obrigassem (que foi o que aconteceu com “Blood On The Floor“, pelo Remix Ensemble, 5 dias antes). Esta variabilidade é normal e pressupõe apenas alguma capacidade de previsão e planeamento, pelo que, quando ao princípio da noite e de acordo com as previsões meteorológicas desse dia, começou a choviscar, o público já presente presumia que o concerto seria então mudado para a Sala Suggia, apesar do equipamento já montado na Praça. Com espanto crescente, proporcional ao número de pessoas que continuava a chegar e a engrossar a multidão, fomos sendo informados que o concerto decorreria na Praça, uma vez que o material já estava montado. O espanto foi temperado com humor, aqui e ali, quando, à hora marcada para o início do espectáculo (22h00) e com uma chuva persistente a varrer a Praça, se ouviam assistentes da Casa da Música dizer que a decisão acerca da realização do concerto na Praça ainda estava a ser tomada, que existia esperança de que o tempo melhorasse e que seria feito um anúncio em breve. Entre os típicos comentários desiludidos ora com o Estado da Nação (que se debateu na AR nesse mesmo dia) ora com o mais que provável cancelamento do concerto (estes em mais do que uma língua, já que o concerto de Saxophone Summit teve dimensão suficiente para atrair outros públicos, nomeadamente espanhóis), o anúncio prometido causou acima de tudo perplexidade: o concerto começaria 45 minutos depois da hora marcada, na Praça (onde chovia tanto na plateia como no palco, ainda), a não ser que as condições meteorológicas o não permitissem. Prometia-se a troca dos bilhetes ou a devolução no dia seguinte, mas reforçava-se a vontade de fazer o concerto com o referido atraso. Da multidão mobilizada não é claro quantos se retiraram, mas não terão sido muitos. Fosse pela perplexidade, fosse pela expectativa de seguir a novela até ao fim, o público foi-se espalhando pelos corredores, pelas escadas, pelo foyer e pelo café e às 22h40, a perplexidade é alimentada com um novo anúncio, verdadeiramente espantoso: dada a inexistência de condições meteorológicas (que o público podia comprovar há mais de 3 horas), mas face à “enorme vontade” de realizar o concerto, ele iria ter lugar às 23h00 (uma hora depois da hora marcada), na Sala Suggia, mas “ACÚSTICO”. A reacção generalizada misturava o alívio e satisfação pela realização do concerto, com a indignação face à desorganização e ao atraso, temperada, aqui e ali, pela incredulidade de quem (não) compreendia o verdadeiro significado da referência ACÚSTICO.
Propunha-se a Casa da Música a apresentar na Sala Suggia (com mais de mil lugares e deficiências acústicas bem conhecidas) um sexteto de Jazz sem qualquer amplificação? Com que objectivo? Porquê? Quem teria tomado a decisão, tendo preferido a apresentação nessas condições ao já previsível cancelamento? Saberiam os músicos a verdadeira dimensão do problema? Estaria o público preparado para uma experiência desta natureza?

Estas e outras perguntas acompanharam-me e mantiveram-me relativamente baralhado até ocupar o meu lugar na 3ª fila, procurando garantir alguma proximidade do palco, e a quantidade de gente que acedeu a assistir ao concerto nestas condições, enchendo a sala a perto de 2/3 da lotação (ou seja, com muito público a uma distância muito considerável do palco) deixou-me inquieto. Tendo assistido a vários concertos naquela sala, diversificados nas suas necessidades de amplificação, e tendo mesmo tido a oportunidade de tocar naquele palco, toda a situação me parecia surreal: os 3 saxofones sem amplificação teriam problemas de definição e amplitude, assim como a bateria, mas um piano acústico seria impossível de ouvir, a não ser que estivesse a solo e um contrabaixo com um simples combo no palco garantia condições catastróficas para a relação entre os diversos elementos da secção rítmica e tornaria absurda a exploração dos “solos simultâneos”— uma das características da herança de Coltrane que o Saxophone Summit procura realçar— já que, sem o apoio da amplificação, a Sala Suggia, quer no palco, quer para a plateia, pelas suas características acústicas, deixa tudo “empastelado”.
As perplexidades que sentia ao entrar na sala pareciam reflectir-se também no ar confuso de alguns membros da banda, com destaque para Phil Markowitz que compreendeu de imediato as dificuldades que teria em fazer chegar ao público, ou mesmo aos seus cúmplices em palco, o som do piano. E durante todo o concerto, o desconforto (e mesmo o desencontro) em palco entre os vários músicos reforçava apenas o enorme espírito de sacrifício ali investido. Um sacrifício inglório e desnecessário, já que ninguém tinha nada a provar. Ainda assim, de forma esforçada e manipulando a estrutura do concerto e até de cada tema, cada um dos 6 músicos teve o seu espaço de afirmação, necessariamente a solo, no caso do piano, contrabaixo e bateria, com um suporte mínimo no caso dos saxofones. O sexteto, como tal, nunca se ouviu, mas os ouvidos mais treinados terão imaginado e usufruído dessa ficção. E mesmo nas intervenções solistas, partes significativas das ideias musicais expressas só se consolidavam no complemento entre o que se ouvia na realidade e o que se esperava ouvir.
Uma experiência desgastante para os músicos e, certamente, para parte do público, resultado dum comportamento incompreensível e, esperamos, irrepetível, da Casa da Música.
Sem ter a certeza de ter sido o que realmente se ouviu (ou quanto disto é fruto da minha imaginação), é interessante notar que a lógica do disco, em que os temas mais densos e transcendentes do Coltrane dos anos 60 são reservados para o fim, não é seguida no concerto. A abertura, com “Seraphic Light“, o tema que dá nome ao álbum, e com os 3 saxofones a explorarem solos simultâneos, liberdade rítmica e harmónica, apoiados numa base densa e ondulante da secção rítmica, esclarece em palco a verdadeira natureza do projecto, mas, no caso concreto, demonstrou também imediatamente as situações impraticáveis. O tema mais “claro” terá sido “The 13th Floor“, de Ravi Coltrane, com introdução solo de Cecil McBee e a diversificação dos sopros (Dave Liebman no sax soprano e Joe Lovano no clarinete alto) que “abriu” ligeiramente o campo sonoro. Phil Markowitz teve oportunidade de desenhar também ele uma introdução a solo, assim como Billy Hart que pode, ainda assim, explorar algumas situações de partilha com os saxofones (um de cada vez) aproveitando a supremacia do volume.
Mas qualquer consideração pormenorizada sobre o concerto terá tanto de conjectura como de facto, pelo que será sempre duma enorme injustiça para com os músicos. Sempre menor do que a injustiça praticada pela Casa da Música, ainda assim.

Um último apontamento de perplexidade: apesar do cenário descrito, a reacção do público que permaneceu foi entusiástica, com palmas de toda a sala, inclusivamente a solos que duvido se ouvissem depois da 5ª fila.
Solidariedade para com o esforço dos músicos? Satisfação pela capacidade que demonstraram de se adaptarem e “desenrascarem”, à boa moda portuguesa? Alucinação auditiva colectiva, alimentada por um profundo conhecimento dos vocabulários em uso ao ponto de permitir uma reconstrução cerebral, mas inconsciente, do concerto ideal? Provincianismo extremo, ao ponto de ser irrelevante a situação musical, face ao significado simbólico de estar perante consagrados? Reacção instintiva e incontrolável?…

O insólito evento certamente deixou marcas em todos os presentes. Esperamos que tenha deixado também uma lição à Casa da Música.

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Texto escrito por João Martins, a 17/07/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 20 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.